Os vencedores

Quem dormiu bem esta noite

António Costa

António Costa começou o seu discurso como se fosse um general romano a regressar à capital do império depois de uma estrondosa vitória militar: “O PS teve hoje a maior vitória eleitoral de toda a sua história”. Mas percebeu-se rapidamente que, afinal, o líder do PS (e, detalhe importante, primeiro-ministro) estava a olhar por trás do ombro. A sua grande preocupação era explicar a todas as pessoas que o ouviam que os comunistas não tinham — repita-se, em maiúsculas: NÃO TINHAM — sido derrotados nas eleições. Na noite de domingo, o PS ganhou (e, por isso, Costa está na coluna dos vencedores), mas o Governo perdeu. Com um PCP derrotado e humilhado (muito humilhado), a “geringonça” sobrevive?

Assunção Cristas

Em Lisboa, Assunção Cristas teve um quinto dos votos e reduziu o PSD ao mínimo dos mínimos; no resto do país, passou de cinco câmaras para seis, sendo que a última foi retirada aos sociais-democratas. Logo depois das últimas legislativas, Paulo Portas explicou que a “geringonça” da esquerda ia matar o voto útil à direita: como a partir dali PSD e CDS só poderiam ir juntos para o Governo, passava a ser indiferente o voto num ou no outro e os eleitores tradicionais dos laranjinhas sentiam-se livres para experimentar o CDS. Este domingo, em Lisboa, foi isso que aconteceu. Mas não vai ser fácil Assunção Cristas repetir o mesmo método e o mesmo resultado em todo o país.

Rui Moreira

Com maioria absoluta, Rui Moreira não tem que prestar contas nos próximos quatro anos. Não precisa do PS, não precisa do PSD, não precisa de nada nem de ninguém. Arriscou muito com a ruptura com os socialistas, sofreu com as sondagens que o davam ombro a ombro com Pizarro, mas foi deitar-se domingo a sentir-se vingado.

Fernando Medina

À esquerda, tinha o PCP a tentar mostrar dentes e músculos e o BE a tentar furar o seu espaço próprio; à direita, tinha uma líder partidária a precisar de um escalpe. À partida, a sua grande margem de manobra era apenas um PSD perto do precipício. Mesmo sem maioria absoluta, conseguiu uma vitória que o faz sair da longa sombra de António Costa.

Isaltino Morais

Depois de uma passagem pela cadeia, Isaltino Morais teve 41,65% dos votos contra os 14,18% do segundo classificado. Teve seis mandatos em onze possíveis. E ganhou em todas as freguesias de Oeiras. Pequena paragem para suspirar.

Os vencidos

Quem vai ter que tomar decisões

Pedro Passos Coelho

Para Pedro Passos Coelho, o caminho ficou muito estreito. O próprio assumiu: “Tudo indica que teremos os piores resultados de sempre do PSD”. Não quis esclarecer se se recandidata ou não, mas os resultados dificilmente lhe darão espaço ou oxigénio para mais.

Jerónimo de Sousa

Almada: perdida. Barreiro: perdida. Beja: perdida. Alandroal: perdida. Barrancos: perdida. Moura: perdida. Castro Verde: perdida. Constância: perdida. Peniche: perdida. Alcochete: perdida. Os resultados foram tão maus, mas tão maus, que Jerónimo de Sousa admitiu, numa demonstração rara de realismo político em noite de eleições, que esta era uma enorme derrota do PCP e que “as populações não demorarão a perceber o quão errada” foi essa sua “opção”. Os comunistas têm agora que tomar uma decisão grave: ou se mantêm na “geringonça”, que os reduziu a isto, ou regressam à oposição, onde poderão sobreviver.

Os assim-assim

Quem fica no meio termo

Catarina Martins

O Bloco de Esquerda teve duas vitórias: conseguiu aumentar os seus mandatos autárquicos e viu o PCP a afundar-se. E teve duas derrotas: não conseguiu ganhar nenhuma câmara e o seu plano para espalhar pequenas “geringoncinhas” pelo país não saiu do papel. Como a própria Catarina Martins admitiu, com comovente sinceridade, a presença do BE nas autarquias é “modesta”.

Manuel Pizarro

António Costa usou a palavra “notável” para descrever o resultado de Manuel Pizarro no Porto, que passou de 22% para 30%. Mas o próprio Pizarro foi mais modesto, e mais realista: “Partimos sem nenhuma possibilidade”. O PS não foi humilhado no Porto, mas, com uma maioria absoluta de Rui Moreira, também não foi eficaz.