Faltam só cinco dias para convencer o eleitorado. Com as sondagens a confirmarem um número muito elevado de indecisos, os últimos dias são de nervos à flor da pele. Onde está a onda da maioria?, perguntam do lado de António Costa. As sondagens são para confiar?, perguntam do lado de Pedro Passos Coelho. Mas, afinal, o que devemos ainda esperar até dia 4? Como é que Passos (e Portas) e Costa vão aproveitar os últimos cartuchos?

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Promessas e combate à abstenção. Só esta semana é que arrancou, a medo, a fase das promessas eleitorais. Antes, nem vê-las. Ainda que a base do discurso da coligação seja a de que “não é preciso fazer demagogia” para ganhar eleições, ou seja, prometer só por prometer, aumentar só por aumentar, é capaz de ser difícil galvanizar a população se não houver concretização das propostas e promessas em cima da mesa. Por isso, Passos já começou a entrar nesse terreno. Este fim de semana, reforçou a ideia da eliminação da sobretaxa de IRS, prometendo mesmo um valor maior do que o previsto inicialmente já para 2016, caso as receitas fiscais do IVA e do IRS continuem a crescer. E este domingo, em Vila Nova de Famalicão, ousou fazer o que nunca tinha feito até aqui, e arriscou uma promessa mais localizada: prometeu reconhecer o estatuto especial de autonomia reforçada à Universidade do Minho logo no primeiro Conselho de Ministros que dirigir quando voltar (e se voltar) ao Governo. De resto, o combate à abstenção e a missão de convencer os indecisos continua a ser o desafio máximo até ao último minuto. Já há vídeos a circular nas redes sociais com cidadãos anónimos a apelar ao voto na coligação, e a estratégia passa por direcionar o foco para o medo da viragem à esquerda. Passos e Portas já começaram até por falar diretamente para os seus eleitorados (do PSD e do CDS, individualmente), mas assumem que têm de convencer Portugal.

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Mobilizar indecisos. O candidato a primeiro-ministro tem insistido desde o final da primeira semana de campanha no apelo ao voto útil e na mobilização dos indecisos. Diz Costa que cada voto que não seja no PS “é um desperdício” porque não será um voto que sirva para eleger um governo estável. Há pelo menos três tipos de indecisos: os que não sabem sequer se vão votar; os que estão indecisos entre votar coligação ou PS e por fim os que não sabem se votam à esquerda do PS ou nos socialistas. Isto faz com que Costa tenha de fazer passar três mensagens diferentes e por ventura carregar no discurso do medo: fala no medo usado pela coligação, mas já tratou de falar do susto e do “risco” que é a reeleição dos “radicais ultra-liberais de direita”. Terá tempo?

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A chegada dos pesos pesados do partido. Segundo avançou o Expresso e confirmou o Observador junto de fonte da campanha, Durão Barroso e Fernando Nogueira vão deixar mensagens de apoio gravadas em vídeo, que serão transmitidas durante jantares-comício da coligação. Marcelo Rebelo de Sousa, assim como Santana Lopes, vai estar mesmo presente, ao lado de Passos e Portas, no último dia de campanha na descida do Chiado em Lisboa. Também Rui Rio, que não foi presidente do partido, mas é apontado como candidato presidencial, vai estar na quarta-feira numa arruada em Viseu, ao lado dos dois candidatos.

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Mário Soares já fez uma declaração de apoio ao Ação Socialista, mas ainda faltam outros grandes nomes aparecerem. Falta-lhe o outro Presidente da República do PS, Jorge Sampaio, e outras personalidades como Manuel Alegre, que será o convidado do comício de quinta-feira em Coimbra. Costa apostou para a última semana nos distritos que decidem: já esteve em Braga e no Porto, vai agora investir em Lisboa, Setúbal e Aveiro.

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Clarificar as suas próprias propostas e falar mais do seu próprio programa. Na primeira semana de campanha, a coligação PSD/CDS conseguiu o que queria: concentrar as atenções no PS. Ora nos ‘buracos’ que encontrava no detalhado documento dos socialistas (que anda sempre numa pasta junto da comitiva), ora nos pés em falso que António Costa ou algum nome forte do PS ia metendo à margem da sua própria campanha. Paulo Portas é, habitualmente, quem se encarrega dessa tarefa, permitindo apenas a Passos cavalgar a onda. Ao mesmo tempo, Passos e Portas fazem todo o seu discurso girar à volta do facto de Costa ter dito, numa entrevista à Antena 1, que não viabilizaria um orçamento da direita caso ganhasse por maioria relativa.

No entanto, não respondem à questão simétrica sobre o que fariam se fosse ao contrário, ou seja, se o PS ganhasse as eleições mas sem maioria parlamentar. A justificação oficial é a de que “não fazem cenários pós-eleitorais”, muito menos cenários que apontem para uma derrota, avançando apenas com a pista de que, no passado, quando eram oposição ao governo de Sócrates, “nunca foram do bota-abaixo”. Também no que diz respeito às medidas propostas pela coligação, não fogem ao guião linear do programa e evitam explicar a sua concretização. É o caso do buraco de 600 milhões na Segurança Social, que apenas dizem ter de ser tapado em sede de concertação social; mas também de outras medidas menos mediáticas, como a majoração das pensões das mães como incentivo à natalidade, que falta explicar como fazer. “Ninguém está à espera do detalhe das medidas em plena campanha, as pessoas precisam apenas de saber a direção a seguir, o propósito e o custo”, diz fonte da campanha.

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Mobilização. A primeira semana de campanha foi mais branda do que é costume para uma campanha de quem quer ser primeiro-ministro. Costa teve pouca rua e as arruadas que teve foram pouco concorridas – no início andou sobretudo no interior e foi a locais que mais não foi do que para satisfazer as estruturas locais. O cenário só mudou de figura no fim de semana com uma maior mobilização do partido no distrito de Braga (Fafe, Guimarães e Barcelos fizeram-nos sorrir). Acresce ainda que Costa na rua é mais contido, ouve mais do que fala e resume muitas das suas falas a quem o interpela a um “muito bem” ou “obrigada”.

Em vez de contactos com população, Costa prefere comícios e debates temáticos – que muitas vezes o fizeram perder mediatismo ou aparecer na televisão sempre do cimo de um palanque – ou visitas a locais onde a mensagem nem sempre é clara ou onde a imprensa nem pôde entrar. Num dia visitou uma fábrica de conservas e um centro de inovação onde a imprensa não entrou e noutro dia visitou uma fábrica em Carregal do Sal, da mulher do autarca da terra, que era um bom exemplo de relação entre fábricas e universidades. Se já existe, o que pode afinal fazer diferente? Acresce ainda que no início desta semana, a agenda vai ser leve: esta segunda-feira só tem um almoço em Lisboa e um jantar em Ponta Delgada e no dia seguinte só começa à hora de almoço. Para esta segunda semana, Costa precisava de mais demonstração de força que lhe pode também dar outro alento. Guardou Lisboa para esta semana, com a descida da Morais Soares, o almoço na Trindade e também os distritos de Aveiro e Setúbal.

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As sondagens podem ser uma rasteira perigosa, já que nem os próprios especialistas são unânimes sobre o efeito que elas têm no eleitorado na hora de ir votar. Passos e Portas dizem que olham para elas “com muita atenção” e admitem que esse fator também lhes dá maior embalo nas ruas, no contacto com a população e na mobilização das massas. Mas sabem, acima de tudo, que “as sondagens não votam”, e por isso têm de chegar a cada uma das pessoas para as convencer a ir votar no domingo.

Uma coisa é certa, o facto de as sondagens estarem a ser favoráveis para a coligação tem levado Passos Coelho a explorar um argumento importante: o de que as pessoas estão mais “desinibidas” e já conseguem admitir para fora aquilo que apenas pensavam para dentro (“que mal tem continuar a apostar naquilo que deu resultado?”). “Agora olham à volta e veem que não eram as únicas a pensar assim e deixam de ter vergonha de o admitir”, diz Passos.

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Apesar de os socialistas estarem apreensivos, na caravana a intenção é não transparecer nervosismo e desvalorizar as sondagens, sobretudo as diárias. Costa foi o próprio a falar das”tracking polls” que dão a “ilusão” ao primeiro-ministro que pode ser reeleito. Contudo, o facto de não ter descolado e de se aproximar o dia decisivo, fez com que o secretário-geral do PS radicalizasse  discurso de apelo ao voto, bipolarizasse as eleições entre o PS e coligação e começasse no apelo ao voto útil. Costa sabe que se perder abre uma ferida sem precedentes no partido e que se ganhar por poucos pode não conseguir condições de governabilidade à esquerda.

Há socialistas que acreditam que o facto de as sondagens darem a vitória à coligação e outras até darem PSD e CDS perto da maioria absoluta pode servir de jogo psicológico ao eleitor, que, na hora de pôr a cruz no boletim vota contra o atual Governo.

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O ataque cerrado a António Costa. PSD/CDS passam a pente fino todas as declarações de Portas e dos seus candidatos. Desde o que Costa disse na Quadratura do Círculo em 2011 sobre viabilização de Orçamentos a entrevistas de Mário Centeno ao jornal de distribuição gratuita Oje.

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Novo Banco e défice – Primeiro foi o “lapso” de Passos Coelho a dizer que ia devolver dinheiro antecipado ao FMI que era afinal o pagamento de uma dívida, depois o aumento do défice de 2014 com o adiamento da venda do Novo Banco. Foram dois dias em que a mensagem de Costa ganhou um novo fôlego e que foram usados pelo secretário-geral do PS para dizer que a coligação “não merece confiança”  e que por outro lado, o PS é um partido que foi “ultra-prudente” nas contas do seu programa eleitoral tanto que “não precisa de alterar uma vírgula” apesar dos dados mais graves do défice.

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As manifestações dos lesados do BES. Foram até agora o momento mais tenso da campanha da coligação. Aconteceu em Braga, no Cadaval, Marco de Canaveses e Paços de Ferreira e, se no início, Passos aceitou dialogar com os manifestantes, o caso mudou de figura. Em Paços de Ferreira, Passos Coelho era esperado numa das praças centrais para se dirigir à população que o queria ver e apoiar, mas a chegada da comitiva teve de ser adiada durante mais de uma hora porque, no local, um grupo de cerca de 40 lesados do BES se manifestava. De um lado, os lesados com apitos, buzinas e bombos; do outro, a estrutura de apoiantes da coligação com o hino de campanha a ser transmitido ininterruptamente e bastante alto no meio da praça, num autêntico braço de ferro de decibéis. A situação não foi fácil de contornar e obrigou a máquina de campanha a funcionar rapidamente: um dos assessores de Passos acabaria por ir falar com os manifestantes, numa espécie de manobra de distração enquanto os apoiantes eram encaminhados para outro local oposto da praça, onde Passos e Portas acabariam por chegar, discursar, e sair. Isso, mais um cordão de GNR, foi  suficiente para impedir a passagem dos desordeiros.

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O líder socialista já recorreu ao chavão deixado por Cavaco Silva para pedir mais espaço para falar com as pessoas: “Deixem-nos trabalhar!” disse aos jornalistas quando numa visita a um mercado queria falar com populares e nem sempre conseguia. Mas não foi só apenas com os jornalistas, também já pediu à máquina do partido que o acompanha para lhe darem mais espaço para falar com as pessoas. Mas mesmo tendo espaço, falta-lhe tempo. Para não chegar atrasado ao evento seguinte, Costa já fez arruadas lusco-fusco, que é como quem diz, não são arruadas, mas deslocações de um ponto ao outro bastante rápidas e curtas, e já deixou pessoas penduradas, como uma senhora que na Praia de Mira o esperava para ler umas quadras. Levou as quadras consigo para evitar “a desfeita”, mas não as ouviu.

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Foi um “lapso” de Passos Coelho, como o próprio admitiu, mas foi a mensagem em que mais se atrapalhou. Estava em Beja, num almoço-comício, quando anunciou que, “no próximo dia 15 de Outubro”, Portugal ia “pagar mais 5.400 milhões dos 78 mil milhões de euros” da ajuda externa concedida pelo Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e Banco Central Europeu em 2011. Sem se aperceber do erro, viria a ter de, ao jantar, assumir publicamente que se tinha equivocado, e que o montante a que se referia era uma amortização de obrigações do Tesouro, há muito prevista. O episódio viria depois a ser explorado pela esquerda, nomeadamente pelo PS, que, pela voz de Augusto Santos Silva, acusou o primeiro-ministro de ser “lapsista” e de “cheirar a aldrabice”.

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O problema já vinha de trás, do debate com Passos Coelho: Costa não consegue explicar, ou explicando não deixa de ser confuso, como vai poupar 250 milhões por ano em prestações sociais (1020 milhões em quatro aos). Foi dando várias explicações e do outro lado o fogo cruzado não o poupou a cada dia tentando desconstruir a mensagem. Pode ler aqui o resumo do problema mais difícil de justificar.

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Para já, ainda não houve convidados especiais nos comícios, figuras de relevo da direita nem ex-líderes do partido na campanha da coligação. Além de Passos e Portas, acompanham sempre a comitiva os cabeças de lista dos distritos por onde a caravana passa, assim como os primeiros nomes do CDS nas listas. Nos desdobramentos de Portas, que às vezes (raras vezes) sai da caravana para fazer campanha isolada noutro distrito, é o eurodeputado centrista Nuno Melo quem lhe cobre a vez. Ou o ministro Luís Pedro Mota Soares. A coordenar as operações da estrutura estão nomes pesados da máquina, como Marco António Costa, José Matos Rosa, José Matos Correia, Cecília Meireles. Mas nesta última semana vão surgir os primeiros nomes de peso: Rui Rio vai estar ao lado de Passos e Portas numa arruada em Viseu, Marcelo e Santana, na arruada de Lisboa do último dia de campanha. Durão Barroso, ausente do país, e Fernando Nogueira (o presidente do PSD que sucedeu a Cavaco no partido) vão também mostrar o seu apoio aos candidatos através de declarações que serão transmitidas em vídeo.

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Na primeira semana de campanha, Costa andou com uma comitiva mais pequena, acompanhada apenas pelo núcleo mais restrito e pelos candidatos dos distritos que visitava. Ao longo da semana foi tendo alguns convidados como Augusto Santos Silva, António Vitorino e Francisco Assis. Rodeou-se também de seguristas sem Seguro, como Álvaro Beleza e Manuel Machado, que falaram por convite então por serem ou presidentes de federação ou cabeça-de-lista. Para a segunda semana conta pelo menos com Manuel Alegre.