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Em "Novas Cronologias do Som", Laura Romero foi buscar sons de arquivo, de manifestações sociais e de convívio, para depois as trabalhar
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Em "Novas Cronologias do Som", Laura Romero foi buscar sons de arquivo, de manifestações sociais e de convívio, para depois as trabalhar

Em "Novas Cronologias do Som", Laura Romero foi buscar sons de arquivo, de manifestações sociais e de convívio, para depois as trabalhar

"Ouvimos coisas que não se ouviam há muito tempo": qual é o som de uma pandemia e o que é que podemos fazer com ele?

Um disco, um banco de sons e uma exposição. "Novas Cronologias do Som" é um projeto nascido em Aveiro que nos quer fazer refletir sobre a forma como a pandemia alterou o nosso modo de ouvir o mundo.

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A conversa desenrolou-se exatamente como se deveria desenrolar: num formato acusmático. Expliquemos melhor: Hugo Branco e Jorge Barco estavam do outro lado do ecrã, mas numa negritude total, apenas amparados pelas suas vozes. Este inadvertido erro técnico do Zoom calou a dominância da imagem e colocou a nossa entrevista num plano sonoro totalmente autónomo e independente – que outro cenário poderíamos desejar para abordar um tema que tem como mote central o som?

Há, contudo, que ser rigoroso: José Pina, diretor do Teatro Aveirense, espreitava de uma terceira janela, sem rosto oculto. Ele e Hugo Branco, diretor artístico da recém-fundada editora VIC NIC, são os mentores do Novas Cronologias do Som, iniciativa que conta com o apoio da Câmara Municipal de Aveiro no âmbito do programa municipal “Cultura em Tempos de (In)Certeza. Jorge Barco, Responsável de New Media do Museu de Arte Moderna de Medellín (MAMM), é um dos braços internacionais deste projeto que nasceu com ambições globais.

“A capacidade que o território tem de atrair criadores, artistas e investigadores para, através da sua paisagem sonora, trabalhar este território é algo que queremos continuar a explorar. Há aqui potencial de crescimento e de afirmar Aveiro como região marcadamente líder nesta área”, afirma José Pina, para nos fazer um raio X da génese deste projeto.

“Os sons das cidades sem estarem mascarados”

Novas Cronologias do Som é fruto da pandemia e é sobre a pandemia. “O projeto surge nesse contexto com o sentido de pensar estes novos tempos e as formas que as pessoas encontraram de fruir e de criar arte, neste caso arte sonora”, explica José. Daqui surgiu a ponte com a associação Navalha de Hugo Branco e com a VIC NIC, editora que está sob o seu guarda-chuva, e que desdobrou a ideia primeira numa série de colaborações: “A proposta seria perceber, através de uma coleção de peças, como é que os artistas sonoros de uma grande amplitude geográfica estavam a dar resposta às novas limitações, desafios e oportunidades gerados por esta situação que estamos a viver”, refere Hugo.

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Hugo Branco e Budhaditya Chattopadhyay, dois dos intervenientes nas "Novas Cronologias do Som"

O que inicialmente seria apenas uma reflexão em formato sonoro, materializou-se num álbum de 12 faixas que regista a forma como artistas locais, nacionais e internacionais percecionaram a pandemia (€7 digital, €10 CD, €14 vinil). “Fomos buscar desde artistas como o Lawrence English, que é da Austrália, e que geralmente trabalha com gravações de campo puras e duras, a artistas como a japonesa Kyoka que, pelo facto de querer controlar todos os aspetos da produção do som dela, gosta de gravar os próprios sons, passando por nomes como a Laura Romero, que foi buscar sons de arquivo, neste caso de manifestações sociais e de convívio. Houve bastantes abordagens, quer a nível conceptual, quer a nível de linguagens”.

Esta teia sonora, simultaneamente próxima e distante – quem nos diz que o som do passadiço metálico que a alemã AGF captou durante a sua residência na Finlândia e que está registado no tema número 8 não poderia ser o som de um cais semidevoluto à porta de nossa casa? – tem o condão de despertar a consciência para a nossa relação com o som e para o modo como a pandemia nos fez reaprender a ouvir: “Ouvimos coisas que não se ouviam há muito tempo, como por exemplo os sons das cidades sem estarem mascarados”, aponta Hugo.

O som está em todo o lado

BJ Nilsen, artista sueco a residir em Amesterdão e com quem o Observador teve oportunidade de conversar, mostra-se absolutamente em concordância com Hugo. “Para mim, a mudança na vida diária das cidades foi verdadeiramente impressionante”.

Nilsen, que colaborou no projeto com a faixa final “Three Locations” – gravada no átrio do Stedelijk, o Museu de Arte Moderna de Amesterdão, na praça Leidseplein e junto à sala de concertos Club Paradiso – já tinha iniciado uma reflexão pessoal durante o primeiro confinamento, sobre a forma como a pandemia veio deformar (ou enformar) o rosto da cidade onde reside: “Durante quase dois meses saí todos os dias e gravei em diferentes localizações. Tirei uma fotografia de cada sítio e fiz o upload para o meu SoundCloud. Foi espetacular perceber que não havia trânsito nem turistas – aqui em Amesterdão temos 20 milhões de turistas por ano – e como isso gerou um impacto grande na forma como vimos e ouvimos a cidade”.

"Para muitas pessoas este momento de pandemia foi um momento de libertação sonora e para outras foi exatamente o contrário, porque ficaram fechadas em casa com um agregado familiar muitas vezes demasiado grande para o seu espaço”

De um momento para outro, a zona exterior do Stedelijk transformou-se numa praça para os teenagers fazerem malabarismos de skate; apareceu um tocador de saxofone à porta da loja da MacIntosh em Leidseplein – “nunca o tinha visto ali e nunca mais o vi”; e um tipo de bicicleta passou junto ao Paradiso, a ouvir techno alto e bom som, aparecendo e desaparecendo num abrir e fechar de olhos, como se tivesse sido apenas uma alucinação provocada pela carência coletiva da falta de espetáculos ao vivo, como aqueles que a Paradiso promove há mais de 50 anos. Tudo isso está registado na faixa de BJ Nilsen. “Se te sentares numa cidade e deixares que a cidade te guie, tornas-te como que um recetor deste tipo de acontecimentos”.

As várias dimensões do som durante a pandemia

Há algo de poético neste tipo de evocações – e o que dizer de Budhaditya Chattopadhyay que, durante a quarentena obrigatória na sua Índia natal, começou a ouvir atentamente os diálogos entre os aparelhos elétricos de casa dele, plasmados na faixa “Indecent Whispers”?; ou de Gustavo Costa, diretor da Associação Cultural Sonoscopia, que registou a cidade do Porto no seu silêncio virgem de carros e de atividade humana, cadenciada apenas pelo alerta dos semáforos ou pelo motor hipnótico dos ar condicionados em “Luminous Flux”? E mesmo de Natalia Valencia, artista colombiana que ficou retida em Nova Iorque e que criou a sua “Journey Through the Glass”, onde retrata a escuta da cidade através de uma janela, fazendo uma travessia entre a esfera íntima e comunitária, entre o interior e o exterior?

“Há várias dimensões a nível sonoro que são contemporâneas a este momento que vivemos e todas elas têm, de algum modo, algo a dizer. É preciso ter em conta que, por um lado, para muitas pessoas este momento de pandemia foi um momento de libertação sonora e para outras foi exatamente o contrário, porque ficaram fechadas em casa com um agregado familiar muitas vezes demasiado grande para o seu espaço”, constata Hugo, acrescentando que tanto as nossas ruas estiveram mais em paz, como as nossas casas estiveram mais em guerra durante este tempo.

BJ Nielsen, AGF e a capa da edição que junta estes "caçadores" e manipuladores sonoros

Talvez isso não seja suficiente para, enquanto coletivo, o ser humano seja capaz de imprimir uma série de mudanças nos seus hábitos que se consubstanciem numa relação mais harmoniosa com o som, mesmo tendo-nos apercebido com esta suspensão abrupta, como aponta BJ Nilsen, que o ruído é muito intrusivo para a nossa saúde mental: “Levamos com todo o tipo de ruído, anúncios e informação a toda a hora.” Seja uma cadência de aviões a passar de três em três minutos ou vizinhos a celebrar um jogo do campeonato europeu de futebol até às 4h da manhã. “É um tipo de poluição sonora que existe e que causa imenso stress”.

Um registo do nosso tempo

Por outro lado, como defende Jorge Barcos, há um novo paradigma do som a emergir, “como se na escuta do mundo, na escuta do outro, pudéssemos encontrar as chaves para termos uma relação mais saudável e harmoniosa com a natureza e com as pessoas.”

Para o responsável de New Media do MAMM, o que os artistas estão a fazer é sensibilizar e chamar a atenção para a urgência do universo da escuta, misturando muitas vezes arte e ciência nos seus trabalhos. O espanhol Francisco López personifica bem essa abordagem. Exemplo disso são os seus registos na selva da Amazónia, recortes sonoros que têm como objetivo alertar para o risco de desaparecimento de um ecossistema riquíssimo. “Estes arquivos têm uma importância fulcral no tempo, porque podemos escutar uma série de espécies e forças da natureza que, lamentavelmente, estão condenados a desaparecer”, aponta Jorge, fazendo entrar na conversa o tema da ecologia acústica.

"Esta escuta atenta é uma atividade que nos permite tirar uma série de ilações acerca de fenómenos sociais e ambientais. De outra forma não nos aperceberíamos deles."

Hugo Branco aproveita o embalo para lembrar o trabalho feito numa praia do México, em que através da escuta atenta detetou uma infindável quantidade de geradores que sustentavam vários eco-resorts. “De certa maneira, o trabalho do artista sonoro – especialmente do artista sonoro que trabalha com gravações de campo – é um trabalho solitário, de contemplação, que leva inevitavelmente a situações de consciencialização. Logo à partida, isso levanta uma série de questões relacionadas com a ecologia acústica. Por outro lado, esta escuta atenta é uma atividade que nos permite tirar uma série de ilações acerca de fenómenos sociais e ambientais. De outra forma não nos aperceberíamos deles.”

Na compilação Novas Cronologias do Som, a faixa de Lawrence English é um bom exemplo de um trabalho que capta a intersecção do mundo natural com o habitat do homem, ao recolher sons na província de Shizumi, no Japão, no limite entre uma cidade e um campo de arroz, com sapos e rãs a coaxar e água a correr sob uma sinfonia de grilos.

Esta e outras subtilezas fazem com que o projeto seja, simultaneamente, uma peça artística e um registo histórico e antropológico. “É um projeto lindíssimo e muito importante no sentido em que é quase uma declaração para que as futuras gerações percebam como era percecionado o som durante a pandemia”, refere BJ Nilsen salientando que o som nos diz muita coisa sobre como vivemos e onde vivemos.

“Vamos pensar na continuidade da ação no futuro, sempre numa lógica do local para o global.”

Deste modo, era quase inevitável que esta iniciativa não se ficasse apenas pela gravação de um registo físico. No site da VIC NIC há uma página especialmente dedicada às Novas Cronologias do Som, que em breve terá um banco sonoro composto pelas gravações puras e pelos samples cedidos gratuitamente pelos artistas: “Qualquer pessoa poderá aceder a este banco para escutá-lo ou para criar as suas próprias peças”, refere Hugo. Paralelamente, serão desenvolvidos um conjunto de ensaios teóricos, coordenados por Ana Flávia Miguel, do Instituto de Etnomusicologia da Universidade de Aveiro, sob o desígnio A Collection of Whispers, onde se reflete, a partir de uma perspetiva sonora, sobre os impactos que a pandemia teve na perceção coletiva do tempo.

A atuação colaborativa no Teatro Aveirense, que aconteceu a 12 de junho e que marcou o lançamento de "Novas Cronologias do Som"

Por fim, no primeiro trimestre de 2022, inaugurará no Museu de Arte Moderna de Medellín uma exposição com base nas faixas sonoras recolhidas pelos artistas. “Vai ser uma exposição acusmática que se vai realizar em condições excecionais, numa sala de experimentação sonora com cinco anos e pela qual circularam importantes artistas da cena internacional”, revela Jorge Barcos. Se a normalidade for reposta até lá, esperam-se pelo menos 40 mil pessoas a circular na exposição e a participar nos debates, oficinas e na restante agenda académica paralela à mostra principal.

Por cá, José Pina garante que este projeto não será “uma ação de one shot”: “Vamos pensar na continuidade da ação no futuro, sempre numa lógica do local para o global.” Abertura e ambição não faltam em Aveiro para que tal se concretize, com outros protagonistas ou até com os mesmos – afinal, BJ Nilsen madrugou na sua recente temporada aveirense, aquando do lançamento do projeto a 12 de junho, para captar o som dos pássaros ou das pessoas a trabalhar nas salinas. “A possibilidade de no futuro vir a fazer alguma coisa com a Universidade de Aveiro é muito promissora”.

 
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