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AFP/Getty Images

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Pancadaria, cuspidelas e muito pouca calma num comício do Ciudadanos

AVISO

Este artigo contém linguagem e descrições que podem ferir a sensibilidade dos leitores

Quando Inés Arrimadas começou a discursar perto da sua casa, Thomas foi à janela bater numa frigideira. Um gesto que descambou em violência. "Tenho andado nervoso", confessou o agressor.

Reportagem em Barcelona, Espanha

A voz rouca de Inés Arrimadas começou a ecoar entre os prédios do Nou Barris, um bairro de classe média-baixa de Barcelona, ao mesmo tempo que Thomas Hassebrauck se preparava para fazer hambúrgueres para o jantar. Abriu o armário, tirou uma frigideira e, nessa altura, ouviu o som de panelas a bater a juntar-se ao discurso da líder do Ciudadanos. “Tenho de ir dar apoio”, pensou este alemão de 40 anos e técnico industrial que vive na Catalunha desde bebé. Então, com a frigideira numa mão e uma colher na outra, abriu a sua janela no rés-do-chão e juntou-se ao pim! pim! pim! com que parte do Nou Barris deu as boas-vindas a Inés Arrimadas.

“Nós, os democratas, fazemos o barulho que temos a fazer nas urnas”, disse Inés Arrimadas pouco depois de começar a discursar, repetindo uma deixa que utiliza frequentemente, já que é também recebida frequentemente com panelaços ou por gritos de “fascista!”.

Inés Arrimadas está habituada e não parece fazer caso disso. Já Fernando González, não. Embrulhado numa bandeira espanhola e com o cão pela trela, este técnico de recursos humanos com 38 anos achou que era demais o que alguns dos vizinhos do Nou Barris estavam a fazer. “Estes filhos da puta são sempre a mesma coisa!”, disse, antes de avançar para um dos prédios.

Foi assim que Thomas Hassebrauck e Fernando González se viram frente a frente. Quando ainda estavam longe, começaram a trocar insultos — o alemão lançava-os em catalão e o catalão respondia-lhe em castelhano. Depois, Fernando González subiu para cima do pequeno muro que vai ter até ao pé da janela de Thomas Hassebrauck e, a gritos de “fascista!” e “filho da puta!”, cuspiu-lhe para cima e tentou esmurrá-lo através da grades. Enquanto isso, o alemão conseguiu bater-lhe com a frigideira na cabeça, antes de por fim fechar a janela cujo vidro Fernando González esmurrou, sem que este se partisse. “Sai de casa se tens colhões!”, desafiou outro catalão espanholista ao alemão catalanista, que achou por bem ficar em casa e chamar a polícia.

[Vídeo gravado pouco depois de Thomas Hassebrauck e Fernando González se terem agredido. Aviso para linguagem agressiva]

“Tenho andado nervoso, com ansiedade, não consigo dormir”

Momentos depois, não é difícil encontrar Fernando González à margem da plateia de cerca de duas mil pessoas foram assistir à última ação de campanha do Ciudadanos antes das eleições desta quinta-feira. Ainda com o cão preso pela trela e com a bandeira espanhola atada ao pescoço e cair-lhe pelas costas, como uma capa de super herói, Fernando González parece estar mais calmo. “Infelizmente, temos de usar as mesmas armas deles”, diz ao Observador. “Não é a melhor maneira, admito que não. A falta de respeito nunca é positiva. Mas isto já é assim há muitos anos, já há demasiados anos que esta gente não nos deixa falar, não nos deixa dizer o que pensamos à vontade”, queixa-se.

Fernando González diz ser alvo de uma “perseguição” constante por defender a continuação da Catalunha em Espanha. Dá dois exemplos para se explicar. O primeiro, foi no seu bairro, não muito distante deste, onde já lhe furaram os pneus do carro duas vezes. “Eu não sei quem foi que fez aquilo, mas sei porquê. É que eu tenho um autocolante com a bandeira espanhola na parte de trás”, conta. O segundo exemplo, remete para o trabalho, onde vários dos seus colegas têm aderido às chamadas para saírem momentaneamente do trabalho às 11h00, em protesto contra a prisão preventiva de ex-conselheiros e líderes de ONG independentistas. “Eu fui um dos poucos que não saiu e continuou a fazer o seu trabalho, como se não passasse nada, porque não concordo com eles”, explica. “E agora já nenhum deles fala comigo, sequer.”

Fernando González queixa-se de ser perseguido por independentistas. Garante que já lhe furaram os pneus do carro duas vezes, por ter um autocolante de uma bandeira espanhola na traseira. E diz que no trabalho foi isolado por não cumprir as greves de apoio aos "presos políticos".

Embora esteja agora mais calmo do que quando cuspiu sobre Thomas Hassebrauck, Fernando González admite que tem vivido os últimos meses em tensão constante. “Tenho andado nervoso, com ansiedade, não consigo dormir, passo muito mal”, conta. No dia 1 de outubro, quando a Generalitat pôs em marcha o referendo de toda a discórdia, Fernando González esteve lado a lado com a Guardia Civil à porta de uma escola, para impedir que entrassem pessoas para votar. Desde essa altura, tem cortado praticamente todas as relações com amigos independentistas. “Deixei de falar com eles, simplesmente”, refere. “Porque eles querem dar cabo do meu país. Gostavas de um dia acordar num país diferente? Pois é assim que eu me sinto. E por isso não lhes falo”, explica o homem que sabe que vai votar num partido unionista, só não sabe qual — está indeciso entre o Ciudadanos, o Partido Socialista da Catalunha (PSC) e o Partido Popular da Cataluna (PPC).

Fernando González não se orgulha da cena de pancadaria que protagonizara momentos antes, mas ainda assim justifica-se. “Não me posso orgulhar daquilo, mas também estão à espera do quê? Querem que eu continue a levar, a levar, a levar, e a nunca responder? Ninguém aguenta isto, esta gente…”, diz, para depois ser interrompido por uma mulher alta e magra, vestida de cores escuras, que lhe mostra um crachá. “Sou da polícia, importa-se de me acompanhar?”, pediu-lhe a agente, que ficou com a sua identificação.

Quando encontramos Thomas Hassebrauck, o alemão está curioso para saber o que o homem enrolado na bandeira de Espanha nos disse para defender o seu gesto. Depois de ouvir a explicação, ri uma gargalhada irónica e diz: “Ah, então quer dizer que eles têm o direito de vir para aqui fazer este comício com este aparato todo, mas eu não tenho direito de expressar a minha opinião? Nem sequer dentro da minha casa?”.

"Ah, então quer dizer que eles têm o direito de vir para aqui fazer este comício com este aparato todo, mas eu não tenho direito de expressar a minha opinião? Nem sequer dentro da minha casa?"
Thomas Hassebrauck, técnico industrial de 40 anos e independentista

O alemão de 37 anos, que já tem pelo lado a mulher, Conchi Candel, pelo lado, faz agora um discurso pacifista. “A sério que não sou a favor da violência, mas não estou a favor com o que se passa em Espanha”, diz. O tema, apressa-se a dizer, é a corrupção. “O Partido Popular e os Governo de Espanha está enterrado até ao pescoço em casos de corrupção e quantos é que foram presos? Lamento, mas isto é tudo uma brincadeira”, diz, exasperado. E agora, não com o bater de uma frigideira mas com a própria voz, aponta o dedo ao Ciudadanos. “Quando eles apareceram, faziam um discurso contra a corrupção, era a grande bandeira deles. Diziam que nunca se iam meter com corruptos. Mas agora dão a mão ao Rajoy para ele poder governar”, acusa os “naranjas”.

Foi tudo isso, aliado ao “apoio” que quis dar aos vizinhos que começaram o panelaço antes dele, que o fez ir para a janela de frigideira e colher na mão, em tom de desafio. Na altura em que viu Fernando González a avançar até ele, pensou o pior: “Passou-me pela cabeça que ele tinha uma faca e disse logo para mim: ‘Pronto, já estás'”. Mas felizmente não se passou nada e ainda lhe consegui acertar”.

Conchi Candel e o marido Thomas Hassebrauck, na janela onde ele trocou agressões com Fernando González

O alemão e a sua mulher têm vindo a mudar de opinião em relação ao independentismo nos últimos tempos, como ela explica. Nascida da Estremadura, veio para a Catalunha também quando era apenas uma bebé — mas ainda assim hesita em dizer que é catalã. Porém, admite que hoje se considera independentista. “Se a independência é a única maneira de me livrar de um Governo destes, que nos rouba todos os dias, então que seja a independência, pronto”, diz. “Só há uns meses é que penso assim, mas agora cheguei a este ponto”. Conchi Candel vai votar na Esquerda Republicana da Catalunha, partido de Oriol Junqueras, o ex-vice-presidente da Generalitat que continua em prisão preventiva nos arredores de Madrid. Já o seu marido não pode votar. “Como sou cidadão alemão e não tenho dupla cidadania, não me deixam votar, mesmo que tenha vivido aqui a minha vida toda”, diz, num sorriso conformado. “É assim, eles roubam-me todos os dias e nem me deixam escolher por quem quero ser roubado.”

Da mesma forma como interrompeu Fernando González, a agente da polícia catalã aproxima-se para pedir discretamente a atenção. Quer confirmar os nomes dos pais dele, para também ficar com a sua identificação. Assim que Thomas Hassebrauck se assegura de que os nomes estão bem soletrados, a agente despede-se e segue caminho. Quando esta vira costas, o alemão assegura que vai apresentar queixa contra o seu agressor. “Ele não pode fazer o que fez”, resume. Quando lhe contamos que ele se queixou de andar nervoso, de ter tido os pneus do carro furados por causa de um autocolante com a bandeira espanhola e que se sente renegado no trabalho pelas suas ideias políticas, o alemão desvaloriza. “Tenho dúvidas de que as coisas sejam assim tão más”, refere. “O clima não é tão mau quanto ele o pinta.”

Uma bandeira espanhola à varanda — mas virada para as traseiras

Maria Victoria, mulher de 67 anos que também veio ao comício do Ciudadanos, tende a concordar com Fernando González. “Não se pode falar em paz, não podemos nem piar em paz se calhamos em ser contra a independência da Catalunha”, diz esta reformada que, por ter uma pensão de 637 euros, continua a fazer limpezas em casas um pouco por toda a cidade para pagar as contas. “Se dizemos qualquer coisa que não lhes agrade, os independentistas ainda nos dão um estalo”, diz. “Sempre que vejo uma pessoa na rua que me pareça independentista, passo logo para o outro lado do passeio.”

É difícil passar por uma zona residencial de Barcelona nos dias que correm e não avistar, em cada momento, uma bandeira independentista, seja a bandeira catalã com a estrela branca em fundo azul, ou o “sí” que remete para o referendo de 1 de outubro. Além disso, são algumas as bandeiras que exigem “liberdade para os presos políticos!”. “Um dia disse à minha filha que ia meter uma bandeira de Espanha lá na varanda de casa, mas ela disse-me logo que ‘nem pensar!'”, recorda Maria Victoria. Mas, depois, sem o conhecimento da filha, foi comprar uma bandeira e pendurou-a — algo que conta como se se tratasse de um verdadeiro ato de rebeldia, cuja carga se apressa a cortar pela metade. “É que não o pendurei na parte da frente do prédio, para a rua. Está nas traseiras, quase ninguém a vê”, admite. “É melhor assim.”

"Um dia disse à minha filha que ia meter uma bandeira de Espanha lá na varanda de casa, mas ela disse-me logo que 'nem pensar!'"
Maria Victoria, reformada de 67 anos e unionista

Maria Victoria não nasceu na Catalunha — mudou-se para aqui com os pais, ainda criança, depois de ter fugido de Tânger, cidade marroquina que à altura do seu nascimento ainda era um domínio colonial espanhol. Nunca aprendeu a falar catalão nem tem uma única amizade com independentistas, dos quais só quer distância. Em tempos, garante que gostava da Catalunha. Agora, só lhe dá vontade de se ir embora. “Nós antes vivíamos bem, sem problemas na cabeça, cada um aproveitava tudo o que havia de bom na Catalunha. Agora como é que isso é possível se andamos com estes problemas na cabeça?”, lança. “Eu, se pudesse, ia-me embora e era já. Se não fosse pela minha filha, vendia os meus móveis todos e ia-me embora.” Para onde? “Provavelmente para a Andaluzia. Aquilo lá é que é bonito. Aqui, agora já é tudo feio.”

O tom é negativo e a própria Maria Victoria procura aligeirá-lo. “Nem sempre foi assim”, acrescenta, para depois se lembrar de uma grande amiga, com manteve proximidade ainda nos últimos anos do franquismo.

“Ela era franquista, mas franquista a sério, mesmo. De vez em quando punha-se a cantar o ‘Cara ao sol’ [hino falangista e associado ao franquismo] espontaneamente”, conta. Enquanto isso, Maria Victoria tornava bem claro à sua amiga que ela era à altura socialista — pese embora Francisco Franco ainda estar vivo e a ditadura de pé. “A verdade é que nós falávamos uma com a outra sem problemas. Agora parece que já ninguém tem essa capacidade, mas nós não nos chateávamos nem gritávamos uma com a outra sobre política”, recorda, com saudade. E é também com esse tom que refere outra memória, de uma viagem que fez com essa amiga, em 1972, a Portugal. “Fomos a Vila Real de Santo António comprar toalhas. São umas toalhas excelentes”, garante, para depois explicar porquê. “Mais de 40 anos depois, continuam impecáveis, são muito fortes, nunca se rasgaram”, refere, numa apreciação que muitos hesitariam fazer em relação à democracia espanhola.

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