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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Pedro Boucherie Mendes. "Se tivesse 450 mil euros por episódio, faria melhor do que muita porcaria que há na Netflix" /premium

O gosto e a ingratidão dos portugueses. O serviço público, o streaming e o mau feitio nos Ídolos. Em entrevista, Boucherie Mendes vai a todas, de "Breaking Bad" a Cristina Ferreira.

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Pedro Boucherie Mendes é um homem ocupado, mas ao primeiro desafio para uma entrevista diz “sim”. Disponibilizou-se imediatamente, mostrou o seu horário nos dias seguintes e disse quais seriam as melhores hipóteses. A menos de 24 horas do combinado avisa que não vai dar, mas Boucherie Mendes não adia, não chuta para a frente, pergunta se dá para ser antes da hora combinada, noutro bloco. Há uma disposição, à-vontade, que é estranha para quem espera o Pedro Boucherie Mendes do “Ídolos” ou do “Irritações”. Ou então é profissionalismo.

Já foi editor e diretor de revistas, durante muitos anos coordenador dos canais temáticos da SIC, diretor da SIC Radical e da SIC Mulher e responsável por trazer programas e séries como “Masterchef”, “The Great British Bake Off”, “Kitchen Nightmares”, “Shark Tank”, “Boss”, ou “Breaking Bad” para a televisão portuguesa. Atualmente, é diretor de Planeamento Estratégico da SIC e parte do sucesso de “Casados à Primeira Vista” tem mão sua.

Há menos de um mês publicou o livro Ainda Bem Que Ficou Desse Lado (Escritório Editora), uma leitura sobre a televisão portuguesa e o seu espectador (neste caso o português), como consumir televisão – e porquê – numa altura em que há tanta oferta, a “escolha infinita”, como diz o subtítulo. É um manual de sobrevivência, um guia disponibilizado por alguém que sabe estar dos dois lados: do de lá, da televisão, dos bastidores, das decisões; e no de cá, enquanto espectador. Pedro Boucherie Mendes não teria chegado onde chegou se não fosse um bom espectador. Longe dos ecrãs, à beira-Tejo, falou-se de televisão, televisão e televisão. Mas também sobre o público português, YouTube e Cristina Ferreira.

“Ainda bem que ficou desse lado”, de Pedro Boucherie Mendes (Escritório)

Numa entrevista recente no programa “Inferno”, no Canal Q, deixou a sensação de que vê o público televisivo português como ingrato.
Sinto, sinto, sinto.

Ao ler o seu livro [Ainda Bem Que Ficou Desse Lado, Escritório Editora, 2018], essa sensação ainda ficou mais firmada. De onde acha que vem essa ingratidão?
Acho que a ingratidão é uma das características que os portugueses têm, têm imensas características, muito fortes, negativas, que não são melhoradas, porque não são debatidas. E não são debatidas porque em Portugal temos uma grande opinião a nosso respeito. Provavelmente isso esconde uma profunda insegurança, não sei. Grande parte da nossa identidade como povo é baseada num enorme complexo de superioridade sobre os outros…

A melhor comida, somos os mais hospitaleiros…
E não só. Tenho um pouco a sensação de que quando as pessoas dizem isso em Portugal, na verdade estão a dizer “eu não quero estar a dizer que somos melhores do que os outros, por isso vou só dizer que temos a melhor comida.” Não há nada de errado quando as pessoas têm uma boa opinião a respeito delas próprias. A televisão portuguesa é, se fizermos uma média das coisas, altamente competitiva. Os profissionais que lá trabalham, trabalhariam em qualquer televisão do mundo. Nós somos obrigados a fazer mais coisas porque temos menos dinheiro e, por isso, acabamos por saber muito mais coisas do que os nossos congéneres de outros países. Claro que eles são muito mais e têm sociedades mais organizadas, logo a produtividade é maior. Mas um tipo na direção de programas da SIC ou da TVI, tem de manhã uma reunião sobre a Cristina Ferreira, à tarde discute uma novela e depois vai escolher os filmes para domingo à tarde. Ou seja, tem de perceber de programas da manhã, de novelas e de cinema, enquanto numa televisão norte-americana, alemã ou inglesa, há um tipo que só trata dos filmes e, provavelmente, nem sequer sabe quem será a Cristina Ferreira lá do sítio. Se as televisões portuguesas fizessem greve durante um ou dois dias, gostaria de saber como é que seria a vida das pessoas: iriam todas ver Netflix, refilar nas redes sociais? A televisão tem um papel muito importante na vida das pessoas, é um pouco como a polícia: nós queremos que exista, mas não queremos que nos chateie; mas quando há um assalto, queremos o polícia à porta da escola, por causa dos nossos filhos.

Temos receio que a televisão não exista?
Há um episódio interessante na televisão portuguesa que não pus neste livro, pode ser que meta num próximo. Os portugueses nunca se importaram com o râguebi, mas houve um ano em que a seleção portuguesa foi ao Campeonato do Mundo de Râguebi. Na altura, isto foi ao Parlamento, porque a RTP não tinha comprado o mundial, o que foi uma opção racional, porque ninguém ligava ao râguebi. Há transcrições disso, de deputados escandalizados, porque a televisão não ia transmitir e tal… É um pouco isso, quando queremos vibrar com o râguebi, fazer parte de algo que se gera, porque toda a gente adorava o râguebi português nessa altura, a televisão tem de fazer parte da festa. Eu não vejo esses mesmos deputados a refilarem pela ausência de transmissão do Campeonato do Mundo de Râguebi quando não está lá a seleção…

"Eu acho é que não há público português. Nós fazemos parte do ocidente e somos colonizados por uma forma norte-americana de ver o mundo. Nós pagamos bastante pelo serviço público e os programas mais importantes do serviço público têm nomes em inglês e nenhum deputado nota isso. Se calhar, em defesa do serviço público dever-se-ia começar por traduzir 'The Voice' para 'A Voz', não sei."

No Mundial de Futebol de Sub-20 em 2011 foi um pouco a mesma coisa, os jogos só chegaram à RTP quando a seleção nacional passou a fase de grupos…
Mas a nossa televisão é indiscutivelmente boa. Se alguém partir uma perna, esperemos que não, mas se acontecer e tiver que ficar a ver a RTP, SIC ou TVI, vou só falar nesses três, verá boa televisão. Agora vamos entrar numa guerra pelos programas da manhã, entre a SIC e a TVI. Há muitos profissionais a esforçarem-se imenso para que os programas sejam bons. O espectador habitual desses programas vai beneficiar disso, há dinheiro a ser investido e gasto nesses programas. E vemos alguma televisão noutros países e é apenas um tabique, duas cadeiras e uma pessoa a entrevistar o João, criador de caracóis. E é isso, só uma entrevista. Não tem música, ação, reportagens, não tem a vibração que a televisão portuguesa em muitos casos tem. Se compararmos o “The Voice” da RTP com o “The Voice” de um país mais rico, como qualquer um na Escandinávia, percebemos que o nosso é muito mais emotivo, bem filmado e bem feito.

E é por isso que não compreende porque falam mal da televisão portuguesa?
Irrita-me um pouco. A nossa ficção é absolutamente heroica, ainda há três semanas fui a Londres, a um encontro onde alguns produtores vão fazer o pitch das suas séries, à procura de financiamento de outras televisões. Lembro-me de uma série belga, de seis episódios. Estamos a falar de um potencial público de 3 milhões de falantes, se juntarmos os holandeses, serão mais. Mas era uma daquelas séries normais, uma mulher aparece com amnésia, o que fez, quem será, um policial. O preço médio por episódio era 450 mil euros. Por episódio. Se as pessoas soubessem quanto custa fazer a televisão portuguesa… se eu tivesse 450 mil euros para fazer um episódio de ficção, garanto que faria melhor do que muita porcaria que há na Netflix. A verdade é que em Portugal nem 1/10 temos. Por isso, mais respeito pela televisão portuguesa.

“Não há uma forma portuguesa de fazer televisão”

Trouxe programas como “Naked Attraction” ou “Married At First Sight” [“Casados à primeira vista”] para a SIC Radical e SIC Mulher. Nunca achou que formatos como estes, e incluo também o “First Dates” [cujos direitos foram comprados pela TVI mas é um projeto que continua na gaveta], seriam estranhos para o público português?
Eu acho é que não há público português. Nós fazemos parte do ocidente e somos colonizados por uma forma norte-americana de ver o mundo. Nós pagamos bastante pelo serviço público e os programas mais importantes do serviço público têm nomes em inglês e nenhum deputado nota isso. Se calhar, em defesa do serviço público dever-se-ia começar por traduzir “The Voice” para “A Voz”, não sei. Estou apenas a dar a ideia. Ou o “Got Talent Portugal” porque é que não é “Portugal Tem Talento”? Eu nem sou especial defensor da língua, mas quem escreve isso não repara que a televisão pública tem nomes em inglês? Se eu acho mal ou bem? Não tenho sequer opinião. Estou a fazer notar que o nosso mundo, e o nosso modo de ver o mundo, é um mundo americano, numa visão norte-americana. Até as séries inglesas, como “The Bodyguard” [Netflix], é muito norte-americana na sua forma, na sua linguagem. Se o público gosta de reality shows como o “Naked Attraction”? Gosta, gosta. Adora. Gosta mesmo muito. E não há uma forma portuguesa de fazer televisão, a nossa forma tenta emular a lógica internacional, de uma edição rápida, com os efeitos sonoros, os “coming up”. Eu até acho que usamos pouco o “coming up”. No “Casados à Primeira Vista” usamos um dispositivo narrativo, que eu tenho defendido muito, que é a voz-off. Temos a Diana Chaves a fazer a voz-off. A televisão portuguesa não usa muito isso, mas devia usar mais. Porque isso ajuda o espectador. Se houver uma voz a narrar, isso ajuda o espectador a lembrar-se do programa.

"A televisão tem um papel importante na vida das pessoas, é como a polícia: nós queremos que exista, mas não queremos que nos chateie; mas quando há um assalto, queremos o polícia à porta."

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O “Married At First Sight” inglês não tem uma cara no programa.
Porque era mais documental.

Algo que noto muito é que as pessoas que participam nas versões inglesas destes programas são muito normais: é o carteiro, o tipo que trabalha nos comboios, a contabilista. E em Portugal não é assim…
Mas tem visto o nosso?

Sim.
A televisão portuguesa é um híbrido de televisão norte-americana/ocidental, com televisão sul-americana no mau sentido da expressão sul-americana. Na América do Sul há uma maior antinomia entre ricos e pobres, e a riqueza, digamos assim, costuma ser conspícua: grandes carros, as mulheres maquilham-se muito, na Venezuela maquilham-se muito. E a televisão é muito lantejoulas e purpurinas, um pouco como na Itália. Os apresentadores vestem-se de forma extravagante, as mulheres são muito bonitas e os homens apessoados. O público português está habituado a apresentadores. O “Casados à Primeira Vista” precisava de um apresentador? Não. Mas se acho que melhorou com a presença da Diana Chaves? Tenho a certeza. Também porque a nossa imprensa mais tradicional precisa de um rosto para onde canalizar a sua atenção sobre o programa, o programa da Diana Chaves. Isso ajuda à comunicação e à construção da marca do próprio programa. Em alguns casos, e neste foi uma evidência, o apresentador contribui para que o espectador siga o programa: “É o novo programa da Diana Chaves, então vou ver”, “não sei o que é, mas como gosto da Diana Chaves, vou ver”. É evidente que apresentadores como o Manuel Luís Goucha ou a Cristina Ferreira aportam audiência a um programa. O programa poderia ter X audiência, mas com eles tem X+Y.

E sobre os concorrentes?
Existe já mundialmente a profissão de concorrente a reality show. É uma profissão, é um job, ou career. O que queres ser quando fores grande? Concorrente de reality show. Há pessoas que entendem os códigos dos programas, porque viram na televisão e no YouTube e intuem que vão ao programa e depois fazem umas presenças: umas marcas oferecem umas roupas e pronto. Eu acho isso bem. Na medida em que é uma demonstração de alguma argúcia e inteligência, sem esquecer que a maior parte dos que falam mal dessas pessoas, nas quais se incluem os iluminados como nós, ou como eu, eu sou, em princípio tiveram infâncias com as mínimas condições, se calhar não tivemos de dormir na sala, num sofá-cama. Se calhar tivemos um quarto, um quarto próprio, os nossos pais puderam-nos dar o mínimo de conforto e até algum conforto material. Algumas dessas pessoas cresceram na pobreza e veem nos reality shows uma forma de escapar a esse destino. Eu não estou com isto a defender os reality shows, estou apenas a lembrar que há pessoas que partem um bocadinho mais atrás do que nós nestas coisas da vida. E essas pessoas tendem a candidatar-se mais. Alguém que neste momento esteja a ver um “inscreve-te já” e que mora nos arredores de Lisboa ou do Porto, cujos pais recebam o rendimento mínimo e que tenham um telemóvel com quatro ou cinco anos, pode ver no reality show a hipótese de escapar a esse destino. Nós podemos sempre dizer: se fosse estudar e tal… mas é fácil falar e por vezes é mais difícil viver do que falar. Essas pessoas candidatam-se mais. As pessoas que têm vidas estruturadas, digamos assim, candidatam-se menos. Pronto, é essa a explicação. Inglaterra tem 50 ou 60 milhões de pessoas, há maior probabilidade de haver carteiros. Um dos méritos do “Casados à Primeira Vista” tem a ver com o facto de termos conseguido um lote de concorrentes normais, quando digo normais, quero dizer que podiam ser das nossas relações, podia ser o nosso tio, a nossa professora de física, nesse sentido. Nós não temos o arquétipo do concorrente em Portugal, os rapazes mais musculados, as raparigas mais latino-americanas. Não há muitos palavrões, para não dizer nenhum, no “Casados à Primeira Vista”, não há bonés… o Dave acho que usa boné de vez em quando, mas não andam de boné dentro de casa. Essa normalidade, convivialidade, não sei bem qual é a palavra, acreditamos nós na SIC que foi uma das chaves do sucesso do programa. E não foi casual, uma das nossas intenções era ter pessoas minimamente normais.

"Impõe-se muitas vezes à televisão uma espécie de papel na sociedade que a televisão não tem de ter. Quando fazemos o 'Casados à Primeira Vista' temos três objetivos: o primeiro é ter audiências, o segundo é ter audiências e o terceiro é ter audiências."

Porquê?
Porque queríamos assim. O que criou uma grande dificuldade às revistas de televisão porque estão habituadas a capas do género: “tem seis filhos, fez vinte abortos, deve dinheiro a toda a gente”. Pronto, mesmo a nossa imprensa de televisão, parte do princípio que o mundo dos reality shows é uma espécie de selva, onde toda a gente deve dinheiro a toda a gente, toda a gente fez abortos e toda a gente se enrolou e andou aos beijos na discoteca às 4 da manhã não sei com quem. No “Casados à Primeira Vista” conseguimos demonstrar que é possível ter um programa que as pessoas normais veem quando chegam a casa, ou puxam para trás e veem a seguir ao jantar. É o que tem acontecido, o programa tem tido audiências fenomenais nos públicos mais informados. O único publico onde não entramos bem é o público com mais de 75 anos, que é muito fiel ao Fernando Mendes. De resto, os resultados são avassaladores. E temos ido buscar público ao Netflix e ao cabo. Quem achava que a televisão generalista estava morta tem aqui a resposta: quando o programa é o adequado e está bem feito, é possível contrariar a tendência de descida dos canais generalistas. Se vamos conseguir para sempre, não sei, a televisão vive da relação tentativa e erro. Os portugueses têm pavor do ridículo. Certo?

Sim, concordo.
Não temos concorrentes, muitas pessoas a concorrer de peito aberto, ou seja, de coração aberto, a participar em programas de televisão. Pronto, se for para cantar, aí toda a gente quer ir, digamos assim, porque cantar é uma prova artística, ou cozinhar…

Sim, até se inscreve o filho de cinco anos, se for preciso.
Porque cantar é bom. Mas haverá certamente outros programas que a televisão irá ter aos quais as pessoas ditas normais poder-se-ão candidatar.

O que gostava no “First Dates” era a ausência de julgamento dos participantes, não interessa o género, idade, orientação sexual. E nesse em concreto são pessoas que estão mais vulneráveis do que nos outros programas, como o “Naked Attraction”, ou o “Married At First Sight”.
No “Naked Attraction” estão um bocadinho vulneráveis, mas sim.

Sim, mas pela normalização do “First Dates”: uma refeição, duas pessoas, o imediatismo, os participantes estão mais expostos, vulneráveis e confiantes do futuro. No “Naked Attraction” nunca vi um episódio, e já vi muitos, em que uma relação resultasse.
É uma questão que eu tento abordar no meu livro, embora não muito, porque como não sou académico. Impõe-se muitas vezes à televisão uma espécie de papel na sociedade que a televisão não tem de ter. Quando fazemos o “Casados à Primeira Vista” temos três objetivos: o primeiro é ter audiências, o segundo é ter audiências e o terceiro é ter audiências. Da mesma forma que quando a BMW lança um novo modelo quer vender carros, vender carros e vender carros. Depois pode dizer que quer melhorar o ambiente, aumentar a “driveability experience”, mas no fundo quer vender carros. No fim do dia nós queremos ter audiências. Deve-se pensar no propósito dos programas, o ponto de partida dos programas, como a música nas discotecas: vamos a uma discoteca com os amigos e aquilo tem de ter música. Mas na verdade, não vamos à discoteca por causa da música. Os programas têm de ter um propósito diferente, se repararmos no “Casados à Primeira Vista”, há muitas semanas que estamos a seguir a vida daquelas pessoas, só pelo facto de estarmos a seguir a vida daquelas pessoas. Não estamos constantemente a pensar “será que vão ficar casados, será que se separam, será que vão ficar casados?”. Isso é ulterior na experiência. Quando um “Big Brother” é bem feito, não estamos sempre a pensar quem será o vencedor. Não, achamos piada às conversas, àquele que vai dar comida às galinhas. Submergimos naquela realidade, diegese, naquele mundo. O mundo dos formatos de televisão internacionais é extremamente competitivo e funciona na base da cópia ou do modelo. Se as pessoas querem formatos de dating, se fizermos um dating numa nave espacial, num zeppelin, num primeiro date a fazer o pino, só temos de fazer com que funcione e vender a uma televisão. O meu objetivo era fazer um programa vender e não mudar o mundo dos datings. Tentando uma resposta menos cínica, eu tenho a certeza absoluta que programas como estes ajudam as pessoas, de várias idades, a compreender melhor o que está em causa na dinâmica homem-mulher, homem-homem, mulher-mulher.

“As pessoas veem menos séries do que pensam, eu conheço zero pessoas, exceto eu, que viram todo o ‘Os Sopranos’, ‘Mad Men’ e ‘Breaking Bad’. Eu só conheço uma pessoa que tenha feito isso, sou eu.”

Como?
Tenho a certeza absoluta que as pessoas podem ver na televisão que também há pessoas como o marido delas, ou a mulher deles, que não sabem passar a ferro ou cozinhar, percebem que não estão sozinhos nisto. Ou que só cozinham quando aparecem visitas, mas quando não aparecem, não fazem nenhum. A televisão aporta à sociedade, porque é uma janela aberta ao mundo — passo aqui a imagem fraquita –, aporta à sociedade dinâmicas que não tínhamos outras hipóteses de ver. No fundo és um voyeur, não sei o que se passa na tua casa, mas se tu levares a tua vida para a televisão, eu sei como te comportas, se quando te deitas arrumas a roupa aos pés da cama ou não arrumas. E posso pensar “este faz como eu, atira a roupa para um canto, ou arruma”. É importante para as pessoas não se sentirem sozinhas. As pessoas têm a mania que querem ser únicas e especiais, mas a verdade não é essa: as pessoas querem pertencer a um grupo qualquer, uma dinâmica qualquer.

É por isso que os festivais de músicas estão cheios, as pessoas veem todas o mesmo.
Por isso é que de repente em Portugal toda a gente tem tatuagens, se os outros têm, eu também posso fazer. Tem a ver com a coesão nas sociedades. As pessoas têm de partilhar os mesmos valores. Ou até pode ter sido coincidência todas as pessoas terem achado piada àquela t-shirt da Levi’s e compraram todos na mesma altura. Pode ter sido coincidência, admito que sim.

Não foi de certeza.
Mas a televisão tem a ver com isso, no momento certo, na altura certa, haver programas que unem as pessoas. Até pode ser no “unir ao ódio”, eu até sei bem do que estou a falar. Durante alguns meses fiz um programa em que muitas pessoas estavam unidas na irritação que tinham comigo.

Está a falar do “Ídolos”?
Sim, exatamente. Acho importante as pessoas partilharem ódios comuns, irritações comuns, afetos comuns.

“No ‘Ídolos’ fui a pessoa que corta o sonho logo”

Gostou de ser júri no “Ídolos”?
Gostei.

E gostava que as pessoas não gostassem de si?
Gostei de fazer esse trabalho, não refleti muito sobre isso antes de aceitar. Quando fazemos a coisa certa e as pessoas não gostam, a resposta típica é “estou de consciência tranquila”. E a minha resposta é “estou de consciência tranquila mas também estou perplexo”. Fiquei perplexo, agora já não, agora já me estou nas tintas. Imaginemos que uma pessoa queria muito ser médica, não é, e os jurados de medicina dizem: “Queres muito ser médica, então ‘bora”. Essa pessoa, que não tinha nenhum jeito para ser médica, ia operar o filho de alguém e matava-o.

— “Então, senhor doutor, o meu filho morreu.”
— “Pois, mas a minha grande paixão é ser médico, não sou muito bom, mas é a minha grande paixão.”
— “Mas deixaram-no chegar até aqui?”
— “Pois, é que houve uns jurados que me incentivaram a chegar até aqui.”

Eu tentei fazer aquele papel, o da pessoa que corta o sonho logo, quando é inequívoco: meu caro, não tens jeito para cantar, isto não é para ti. Mas o povo português tem uma relação difícil com a verdade, era uma opinião que eu tinha na altura, só a reforcei. Temos uma relação muito difícil com a verdade, porque preferimos sempre a quimera.

Com a verdade ou também com o facto de contrariar o sonho…
Com a verdade, vê-se na situação política. É evidente que não há dinheiro para tudo, mas as pessoas preferem acreditar que há, que os políticos é que são uns bandidos, que o Costa é mau ou bom. Há um pouco a ideia em Portugal, nota-se isso no trabalho, que se alguém acreditar muito, as coisas vão acontecer. Se eu acreditar muito… costumo dar este exemplo para irritar: estamos aqui em frente ao Tejo, se acreditarmos muito, damos a mão e uma nova ponte sobre o Tejo nasce aqui. As coisas não são bem assim. Algumas vez dá e outras vezes não dá. A própria televisão perpetua esse mundo, nós vemos que as séries são sobre pessoas que acreditam em coisas difíceis ou impossíveis e acabam por conseguir. É importante manter a esperança e se não houvesse ingénuos e pessoas fantasiosas no mundo, o mundo não teria avançado. Se o mundo fosse feito de tipos como eu, ainda estávamos na era da pedra lascada. Se eu visse um tipo a fazer uma roda, diria que isso nunca iria resultar.

"As pessoas gostam menos de séries do que julgam, por isso é que adoram quando surge uma 'A Casa de Papel'. Se toda a gente está a ver séries e a falar de séries, eu até tenho de entrar na conversa, e até gosto. Mas na verdade o que eu quero é algodão doce, que é o que é 'A Casa de Papel'."

Mas voltando ao “Ídolos”, tem a consciência tranquila?
Sim, porque não houve nenhum cantor ou miúdo sobre o qual eu me tivesse enganado. Pelo contrário. Agora é evidente que devo ter irritado muita gente, mas é verdade que foi a edição mais popular de sempre de um talent show em Portugal. Se calhar foi coincidência, se calhar não foi.

Está a dizer que por si a roda nunca teria sido inventada.
Não disse bem isso, mas pus essa hipótese.

Sim, sim. Mas tem um papel nos canais da SIC em que aposta em coisas que não são muito óbvias à partida e depois revelam-se um sucesso. A visão que tem do seu trabalho é de arriscar e acho que não acredita que acerta por sorte, mas porque sabe o que está a fazer. Trouxe séries como “Breaking Bad” para Portugal quando estava longe de ser um fenómeno.
Vou responder desta forma: o meu trabalho é um trabalho privilegiado, não há muitos empregos como este, e é um emprego que muita gente conseguiria fazer bem, inclusive pessoas bem mais novas do que eu, e se calhar até melhores do que eu, digamos assim, não é falta de modéstia, não tem a ver com isso. É preciso ter uma enorme curiosidade, ver bastante televisão, ou muita, por gosto, que felizmente é o meu caso, sou curioso e vejo muita televisão por gosto. Perceber minimamente do assunto, e perceber minimamente do assunto é olhar para um episódio do “Breaking Bad” e perceber que é melhor do que a média. Ou olhar para o Gordon Ramsay, que fui eu que trouxe para Portugal também, e perceber que há ali qualquer coisa. Mas houve muitas pessoas em todo o mundo que também perceberam isso do Gordon Ramsay, senão não seria uma estrela hoje. Ou do “Breaking Bad”. Há outros programas e, que apostei e achei que iam funcionar e não funcionaram tão bem. Agora tive uma série chamada “O Negócio” na SIC Radical.

Uma série brasileira, sim.
É uma boa série, mas tenho a perfeita noção que se não tivesse garotas bonitas que de vez em quando se despiam não tinha tido as audiências que teve. Eu ponho o “Naked Attraction” na SIC Radical e sei bem que vai ter audiências, porque vai ter nudez. Mas no “Naked Attraction” a minha intenção até era, e consegui de certa forma, ou acho que consegui, criar uma espécie de discussão sobre se as pessoas avaliam os outros sobre as aparências ou não, nós temos a mania que não avaliamos.

Adoro as desculpas que as pessoas arranjam.
Exatamente, quem vê o programa com essa atenção, que é a minha, estou-me nas tintas para os genitais, mas o discurso é muito interessante, não é, então o que acha? Gosto dos joelhos…

Os ruivos são sempre descartados, os negros também… e é uma coisa fascinante, porque há sempre uma desculpa, nunca é pela cor da pele, por ser baixinho.
Concordo em absoluto. Trouxe para Portugal programas muito importantes, concordo, e reclamo esse património, mas se outra pessoa estivesse no meu cargo, teria trazido bastantes desses. Eu trouxe recentemente um, o “The Carbonaro Effect”, e não teve a adesão que eu esperava. E é um grande programa de televisão.

"Irrita-me que as pessoas achem que tudo o que passa no Netflix é bom e tudo o que passa na televisão é mau." JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

E como é que chega a esses programas?
Inventaram uma coisa, chamada internet…

Sim, claro…
Mas é isso, uso o Twitter, sigo todas as newsletters e mais algumas, vou a feiras internacionais de televisão, claro, mas o meu radar está sempre ligado. Se o Netflix me envia uma mensagem a dizer que esta semana estreia qualquer coisa, eu vou ver o que é. E à partida já sei que vai estrear no Netflix em breve. Eu sei o que se passa na televisão porque é o meu trabalho.

Mas há pessoas que desempenham funções como a sua e talvez não vejam tantas coisas.
Não sei, talvez não vejam, mas eu vejo. A televisão portuguesa demorou bastante tempo a comprar o “CSI”, se eu estivesse naquela altura a trabalhar em televisão, teria logo comprado. É evidente que teria comprado o “Lost”, como compraram, teria comprado o “Prison Break”, como compraram. Acho que só houve uma que não chegou cá, que é o “St. Elsewhere”, que acho que nunca passou na televisão portuguesa, que teria trazido. Mas é evidente, qualquer pessoa que tivesse visto o “E.R.”, teria trazido o “E.R.”.

Vi os primeiros cinco minutos de “Breaking Bad”, fiquei logo apaixonado por aquilo. Uma série que começa com aquela cena, só pode continuar bem.
Mas não teve muito sucesso logo.

Pois não.
Teve sucesso quando chegou ao Netflix. As pessoas veem muito menos séries do que acham. As pessoas dizem que adoram séries, mas se fizerem o diário do nutricionista, verificarão que veem menos do que julgam. E gostam menos de séries do que julgam, por isso é que adoram quando surge uma “A Casa de Papel”. Se toda a gente está a ver séries e a falar de séries, eu até tenho de entrar na conversa, e até gosto. Mas na verdade o que eu quero é algodão doce, que é o que é “A Casa de Papel”. E há muito poucas séries como “A Casa de Papel”, porque quem produz ficção acha que tem de ser mais sofisticado, porque toda a gente está a ser sofisticada. No fundo, é como as hamburguerias de toldo preto, não vou fazer uma de toldo encarnado, se está toda a gente a fazer hamburguerias de toldo preto. Tem tudo a ver com A Sabedoria das Multidões, que é um livro fabuloso [de James Surowiecki]. No nosso inconsciente, achamos que aquelas pessoas sabem um pouco mais do que nós: se está toda a gente a abrir hamburguerias de toldo preto, devem saber de algo que a gente não sabe. E as pessoas veem menos séries do que pensam, eu conheço zero pessoas, exceto eu, que viram todo o “Os Sopranos”, “Mad Men” e “Breaking Bad”. Eu só conheço uma pessoa que tenha feito isso, sou eu.

Haverá mais algumas.
Claro. Mas na maioria dos casos, é isto: “Os Sopranos? Fiquei a meio…” Não estou a dizer que sou melhor, porque ver uma série exige compromisso, é como ir ao ginásio, às aulas de alemão. É preciso ver os episódios. E o ser humano, o nosso cérebro está wired, como dizem os ingleses, para poupar energia, a nossa luta contra a preguiça, procrastinação, é o cérebro a querer poupar energia. Quando deixamos uma série, somos bons a viver com o desapontamento: há muito tempo que não vejo “Os Sopranos”, que se lixe. E estamos numa fase em Portugal em que, com o Netflix, cada um vê as suas coisas, não falamos muito nisso. E se assistirmos à programação dos canais FOX, que são os mais competitivos, reparamos que eles metem as estreias das novas séries lá para as 23 e não às 21h30 como punham. Salvo as marcas fortes como “The Walking Dead” ou “Anatomia de Grey”.

"Acham que quem vem direto de uma revista masculina, como era o meu caso, é um tipo que anda sempre em festa, com as modelos debaixo do braço ou no porta-luvas do carro. E esse preconceito irritava-me, porque achava que merecia mais."

Não são os únicos. O TV Séries também faz isso. Puxaram tudo para cima.
Porque não têm audiência. Isto vai tudo dar às audiências. E os canais FOX e AXN não se podem dar ao luxo de não ter audiência. Não vale de nada eu chegar a uma agência de publicidade dizer que tenho as melhores séries se não tiver audiência. Neste momento não há uma… há o “This is Us”, mais ou menos…

Que também demorou tempo a chegar cá.
Nem por isso.

Mas demorou uns meses.
É o tipo de série feminina em que os homens não entram tanto.

Eu gosto imenso.
Eu também.

“Os YouTubers não funcionam em televisão”

Como chegou à televisão?
Fui convidado para trabalhar em televisão.

E como surgiu o convite?
Lancei a “FHM” no grupo Impresa e fiz um bom trabalho, fiz por isso, isso foi detetado internamente e fui convidado. Aceitei.

E era algo que queria fazer?
Eu queria muito largar as revistas masculinas. Porque há um enorme preconceito.

E na altura era pior.
Sim, porque acham que quem vem direto de uma revista masculina, como era o meu caso, é um tipo que anda sempre em festa, com as modelos debaixo do braço ou no porta-luvas do carro. E esse preconceito irritava-me, porque achava que merecia mais. Não digo que teria aceitado qualquer coisa, como é evidente, mas era importante para mim sair do mundo das revistas masculinas. E o convite foi excelente, para dirigir os canais temáticos da SIC. Foi ouro sobre azul. Tive sorte quando o convite apareceu… sei lá, acho que fiz por isso. Fiquei lá onze anos, alguma coisa devo ter feito bem, ou então a SIC não arranjou outra pessoa melhor.

Trata do Planeamento Estratégico da SIC. Qual o seu papel agora?
Estamos numa nova direção da SIC e estamos a construir os nossos cargos de acordo com a dinâmica de grupo. Funcionamos muitíssimo bem, tivemos a bênção de ver correr bem o “Casados à Primeira Vista” e outros acertos que temos feito na programação. Eu tenho o papel de detetar quais são as tendências, os pequenos tweeks, os manómetros que são precisos apertar mais para a esquerda ou direita, para afinar a máquina. É difícil de descrever exatamente o que eu faço, embora seja bastante simples fazê-lo.

“A Cristina corre por gosto, é o que eu acho, do que conheço dela, ela corre por gosto. E há uma característica nas pessoas que fazem televisão: as pessoas adoram aquilo.” JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Há pouco mencionou a Cristina Ferreira e também a ingratidão do público português. Na TVI, a Cristimna Ferreira fazia programas de manhã, programas ao final da tarde, havia um evento qualquer, ela tinha de ir dar a cara. E quando ela se muda para a SIC, parece que não há um reconhecimento disso. Só se fala no que ela ganha.
Estava a falar há pouco dos portugueses e estava a dizer que temos características estranhas, não necessariamente positivas, até disse negativas. Na verdade, não sabemos até que ponto as pessoas veem com bons olhos a transferência entre televisões. Como no futebol, não é. Eu adoro o Chalana, mas se vai para o Sporting, não vale nada. Mas sabemos que as pessoas não mudam de clube. Mas na televisão, vão atrás da Cristina para a SIC ou ficam na TVI achando que a Cristina é uma traidora? Só vamos descobrir daqui a umas semanas. Agora, acho que a transferência da Cristina para a SIC é uma daquelas oportunidades que se proporcionaram no mercado, que qualquer diretor de programas ajuizado teria aproveitado. Tem o duplo efeito, de poder enfraquecer o concorrente direto e poder beneficiar a minha antena. Mas é sempre um risco. Agora sobre a gratidão dos portugueses, eu também acho que são ingratos com os políticos, OK? E talvez com outras categorias profissionais. Nós somos muito exigentes. Acho que somos muito infantis e muito exigentes, também queremos que o pai e a mãe façam tudo por nós, que nos deem de comer, mimo e não sei quê, que estejam sempre dispostos e animados e nos levem ao futebol. Eu acho que a Cristina corre por gosto, é o que eu acho, do que conheço dela, ela corre por gosto. E há uma característica nas pessoas que fazem televisão: as pessoas adoram aquilo. Para ti, para mim, seria impensável estar 8 horas a apresentar o Natal dos Hospitais, mas aquelas pessoas que o fazem nunca refilam, nunca dizem “isto já acabava”, adoram mesmo aquilo. Depois, podemos dizer que pretendem o reconhecimento do público ou o que for, mas adoram mesmo aquilo.

E a Cristina é uma estrela. E digo isto no sentido muito positivo, ela gosta de encarnar aquilo e fá-lo bem. E é normalíssimo que tenha a ambição de ser algo mais ou de mudar.
Apresentámos o programa da Cristina no Páteo Alfacinha. Se ela não foi a primeira a chegar, foi das primeiras a chegar. Isto é uma qualidade, eu acho.

Conseguiu sempre encontrar alguns talentos para o seu canal. Já encontrou alguns desses talentos no YouTube. Imagino que agora já não consiga convencer os YouTubers a ir para a televisão, certo?
A conclusão a que eu cheguei é que os YouTubers não funcionam em televisão. Nós tentámos vários YouTubers. Eu tenho essa imagem no meu livro, o YouTube é como o adro da igreja, toda a gente fala alto, que a outra anda metida com o vizinho, mas depois quando se entra na igreja, quando se entra para a televisão, toda a gente fala baixinho. Até as pessoas que odeiam a religião, mesmo um ateu ou agnóstico que entra numa igreja, tira o chapéu e fala baixo. Os YouTubers quando vão para a televisão, veem a luz encarnada da câmara e transformam-se em pessoas normais: “Olá, bem-vindos ao Curto-Circuito, hoje temos connosco o André do Observador, André, sempre quiseste ser jornalista?” Não são capazes de dizer “temos aqui o my man, my bro André”, percebes? Há excelentes YouTubers mas há uma excitação em relação aos YouTubers que eu acho que é isso, uma excitação. Não se traduz em televisão eficaz. Também porque a televisão é regulada, por lei, não podemos usar imagens sobre as quais não temos os direitos de autor, não podemos dizer palavrões, e no YouTube, no limite, o tipo pode dizer “a puta da não sei quê”. Se um YouTuber chama nomes à Ana Malhoa, a Ana Malhoa não o vai processar, se eu chamar nomes à Ana Malhoa na televisão, ela processa-me. Há menos liberdade, a televisão é regulada, o YouTube não é. Há excelentes comunicadores que teriam, talvez venham a ter, hipótese na televisão.

"A RTP não desistiu, a RTP fez uma excelente série que é a 'Sara', talvez a melhor série portuguesa de sempre, mas teve menos audiência do que o Masterchef Austrália na SIC Mulher. Porque depois não basta ser uma série, é preciso transformá-la num produto."

E no futuro vê possibilidade dos canais privados investirem em ficção que não seja telenovela?
O dinheiro segue sempre a medição, é uma frase que eu acho que merecia mais reflexão por parte das pessoas que falam nisto. O que é que isso quer dizer? O que é que é medido? A televisão é o sistema mais medido, mais caro e mais accurate. Significa que é à prova de bala, não? Os anunciantes precisam de um perfil, querem impactar as pessoas de 25 a 40 anos, não vou vender o novo perfume de Cacharel a senhoras de 75 anos ou miúdos de 4 anos, por isso preciso de perfil. E até agora, em todo o mundo, a televisão é o mais bem medido. Enquanto isso acontecer, acho que a televisão vai continuar a subsistir mais ou menos como tem subsistido até agora. Acredito que o maior investimento em ficção vai acontecer, mas acredito que vai ser preciso acontecer um movimento disruptivo qualquer para isso acontecer. Não sei bem qual vai ser. A RTP tentou sem grande sucesso. A RTP deveria ter feito muito menos séries, com mais dinheiro, do que tantas séries, com pouco dinheiro cada uma, mas também é fácil pagar agora.

Mas também não acha que desistiram muito facilmente?
A RTP não desistiu, a RTP fez uma excelente série que é a “Sara”, talvez a melhor série portuguesa de sempre, mas teve menos audiência do que o Masterchef Austrália na SIC Mulher. Porque depois não basta ser uma série, é preciso transformá-la num produto.

Mas colocaram-na na RTP2…
Mas isso não quer dizer nada. As pessoas que têm RTP1, têm RTP2. Acho que a maior parte das séries — vou dizer isto, e espero que seja bem compreendido — a maior parte das séries que foram emitidas no tempo do Nuno Artur Silva deveriam ter sido emitidas na RTP2. É preciso começar a construir um público. E para isso temos de ter uma RTP1 forte, mais popular. Mas isso é uma conjetura minha. A série “Sara” não é só pagar àquela malta para fazer, depois é preciso construir um plano de marketing, fazer entrevistas, promover. Não estou a dizer que a RTP não o fez ou deixou de fazer, não é bem isso. O “Breaking Bad” também só funcionou quando depois foi comprado no Netflix da América e isso tornou-se num fenómeno de culto, de boca a boca. Talvez isso venha a acontecer com “Sara”, a nossa Netflix compra, daqui a um ano ou dois, o pessoal começa a ver, começa a gostar, começa a haver mais entusiasmo, e se calhar há um rico qualquer português, um investidor, que telefona a esta malta, ao Bruno Nogueira e aos outros e dá-lhes massa para fazerem uma série. Pode ser esse um caminho para a ficção. Não tem de ser necessariamente as televisões.

Qual a sua aversão em relação à forma como o público vê a Netflix?
Só me irrita que as pessoas achem que tudo o que passa no Netflix é bom e tudo o que passa na televisão é mau. Uma das teses do meu livro tem a ver com essa ingratidão, as pessoas parece que estão contentes com a ideia de que a televisão vai acabar. E eu não entendo muito bem. O Netflix não tem culpa nenhuma, de nada, sou assinante desde a primeira hora, tenho Netflix, Amazon, e conto ter HBO quando vier para cá, como é óbvio. Desde que trabalho em televisão, as pessoas dizem “Trabalhas em televisão? Não vejo televisão, não dá nada de jeito”. “Fizeste o Ídolos, não foi? “, “Aquele Filipe cantava bem”, depois sabem o nome deles todos, de onde é que eram, mas não veem. Essa conversa torna-se aborrecida… ou as pessoas estão a gozar com a minha cara…

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