Peixe é fish. Muy bien, está concluída a primeira lição de português-inglês. Errrr, calma lá, isto está tudo mal. Peixe é fixe, assim é que é. Peixe é fixe? Sim, Peixe é fixe. Porreiro, tranquilo, boa onda. E agora sim, está concluída a primeira aula de sinónimos. Peixe é fixe. Repetimo-nos para o caso de alguém ter chegado tarde a esta introdução.

Dentro do campo, Peixe é um leão. Por defeito (de formação). Fora dele, é um senhor. Simpático e acessível. Desprendido e bem-humorado. É só rir. A entrevista será sempre assim. Ou quase. E nem é porque Peixe guarda alguma mágoa. Ou se lamente. Nada disso. É só pela simples razão de que há coisas mais importantes e sérias na vida. Como a própria vida. A morte de Fehér é o exemplo. Quando o húngaro cai desamparado no relvado D. Afonso Henriques, a 25 janeiro 2004 e nunca mais se levanta, Peixe sente-se atingido e resolve também ele desligar-se do futebol. “Foi o clique”, justifica para o pendurar das chuteiras. Faz-se treinador e ei-lo em grande forma, como selecionador nacional para o Mundial júnior 2017, em maio/junho, na Coreia do Sul.

O ponto de encontro é o edifício Monumental, em Lisboa, ao meio-dia. O que se segue é pura paródia. Peixe é fixe.

Tudo bem, Peixe?
[dá ares de quem acaba de aterrar ali] Rui, tudo bem? Desculpa lá, troquei-me todo e estacionei ali no Residence.

Quer ir ali ao restaurante do cinema? É mais tranquilo.
Só vou com uma condição: se nos tratarmos por tu. Não faz sentido o você.
[há quem peça uma água e há quem arrisque uma Erdinger]

Que tal os anos 70 na Nazaré [Peixe é de 1973], muito futebol?
Essa é boa, vais ficar espantado.

Então?
Jogava andebol.

Andebol?
Isso mesmo. Muito andebol. Como era alto em relação aos outros, jogava a pivot.

Isso é o quê?
Aquele que leva pancada de todos os lados [e parte-se a rir]. Agora a sério, é aquele que recebe, gira e atira. Tinha essa capacidade de rematar à baliza por cima das mãos dos outros. Lá está, a altura fazia diferença.

E o futebol?
Jogava-o na rua, até às tantas, com amigos. O andebol era mesmo paixão e dedicação.

Ainda hoje?
Se puder ver os grandes jogos, não os perco.

Tipo quê?
Cá em Portugal, os jogos entre Sporting, Benfica, Porto e ABC. Lá fora, Europeus, Mundiais e Jogos Olímpicos.

Futebol ou andebol, a indecisão arrastou-se até quando?
Às tantas, a minha mãe fez-me essa pergunta. [Peixe muda ligeiramente a voz]. ‘Filho, vais ter de escolher entre o andebol e o futebol.’

Futebol, está visto. Como é que um rapaz da Nazaré chega ao Sporting?
Antes disso, há uma outra história. Eu jogava no Grupo Desportivo Os Nazarenos e fui treinar ao Benfica com um amigo. Nessa altura, o treinador era o senhor Mário Coluna e ele quis que eu ficasse. Tenho uma imagem nítida desse dia.

Qual?
A do Diamantino a sair da Luz com a caixa dos cosméticos debaixo do braço e de óculos escuros. Bloqueei. Era o Diamantino, um craque de todo o tamanho.

O que aconteceu ao convite do Coluna?
O centro de estágio do Benfica estava cheio. A solução passava por ir viver para uma pensão em Lisboa, ali na Baixa. E eu, um miúdo da província, não achei benéfico ficar sozinho em Lisboa, num meio tão movimentado, aos 12/13 anos.

Era muita a diferença entre Nazaré e Lisboa?
Repara bem: nunca tinha visto um avião tão perto. Quanto muito, um helicóptero na praia da Nazaré.

Xiiiii.
Nunca tinha entrado num centro comercial.

Xiiiii a dobrar.
Nunca tinha visto sequer um semáforo.

Xiiiii a triplicar.
Tudo aquilo era novo e seria uma mudança radical e violenta. Só passados uns tempos é que fui novamente a Lisboa, dessa vez ao Sporting, então treinado por Carlos Pereira.

O irmão do Aurélio Pereira?
Esse mesmo. Lá, o centro de estágio também estava cheio como o do Benfica, mas puseram um colchão no meio de um quarto e dormi nessas condições por três meses.

Ainda te lembras de quem estava no quarto?
O Hélio Justo, um algarvio de Lagos, e o Paulo Torres.

Quem jogava nesse Sporting?
Um tal Figo [risos], entre muitos outros.

Quando fizeste o primeiro jogo?
Foi logo o dérbi com o Benfica, num torneio em Rio Maior.

E o resultado?
Ui, não me lembro.

E a equipa?
A desse ano era boa, muito boa.

Tens o onze na ponta da língua?
Vamos lá. Na baliza, o Paulo Santos. Aquele que foi ao Mundial-2006. Grande maluco, divertido até dizer chega. Na direita, o Marco obras.

Marco obras?
Sim, ele trabalhava nas obras e chegava todo sujo aos treinos.

Adiante.
[Peixe ainda se está a rir da nossa cara de espanto] No meio, o Hélder Clara e o Loló. Na esquerda, um Virgílio que depois jogou nos juniores do Benfica. Eu.

A seis?
Nããããão [e ajeita o casaco como quem diz ‘silêncio que se vai cantar o fado’]. Era extremo-direito. Ao meu lado, como interior, o Figo. Depois, o Peres, um angolano que também foi para os juniores do Benfica.

Já só faltam três.
É o Beto, o Canana e o Ribas.

Pois, o Canana é conhecido.
[Peixe arregala os olhos] O Canana marcava sei lá quantos golos. Foi júnior do Porto. E o Ribas era um miúdo enorme, com o dobro do nosso tamanho. Já com barba e tudo. [Peixe volta a arregalar os olhos durante um sorriso largo]

E como é que correram as coisas?
Foi tudo fantástico. No primeiro ano, fomos campeões nacionais só com vitórias.

Só vitórias?
Muitas delas por números impressionantes.

Então?
Tenho a ideia de um 27 ou 28 a zero ao Almada.

Com quantos golos do Peixe?
Nem sei. Nessa altura, até marcava alguma coisa. Acabei a época com 24, vê bem.

E o jogo mais renhido?
[a resposta é pronta] Um-zero ao mesmo Almada. Esse jogo foi no campo número 3 do Estádio Nacional.

Como era então o campeonato?
Primeiro, regional. Depois, nacional.

O Sporting é campeão regional e depois?
Vamos à final com o FC Porto, em Viseu, no Fontelo [1986-87].

O Porto de quem?
Assim de repente, Bino, Tulipa e Álvaro Gregório.

Ganham quanto?
Três-um.

E depois disso?
Nunca mais ganhei nada e fui duas vezes vice-campeão, uma delas numa final resolvida nos penáltis, frente ao Vitória de Guimarães.

Naquele onze, há dois jogadores desviados para o Benfica e um para o Porto. O Peixe continuou firme no Sporting?
Devo tudo ao Sporting. O meu primeiro passaporte foi tirado quando jogava no Sporting. A minha primeira viagem de avião também. A minha primeira noite num quarto de hotel idem. Enfim, descobri o mundo pelo Sporting, porque os clubes têm um papel fulcral na formação como jogador e como indivíduo.

Então como explicas o cachecol do Benfica à porta do seu quarto no centro de estágio do Sporting?
Estás bem informado. Explico isso em segundos. Eu adorava futebol e devorava futebol. Estava em Lisboa. Sporting e Benfica jogavam em fins-de-semana alternadamente, portanto ia sempre ver esses jogos.

Tens memórias desse tempo?
Muitas e boas. Como era jogador do Sporting, podia ver os jogos em Alvalade na boa. Aliás, na Luz, também era assim. Bastava colar-nos a uma pessoa e entrávamos como acompanhante.

Um jogo assim de repente?
Sporting 2 Barcelona 1. Que ambiente. O Sporting tinha perdido 1-0 em Camp Nou e chegou a estar a ganhar 2-0, golos de Negrete e Meade. Depois, perto do fim [83 minutos], o Roberto faz o 2-1 num pontapé formidável. Foi um golo lindo, nada a dizer. O estádio silenciou-se, foi uma sensação estranha: grande jogo, ótimos golos e aquela desilusão no fim.

E mais, e mais?
Ainda nessa época, a de 1986-87, vi o 7-1 do Sporting ao Benfica. Umas semanas mais tarde, fui à Luz para ver o 3-1 do Benfica ao Porto, com três golos do Rui Águas [e um de Gomes]. À saída do estádio, comprei um cachecol do Benfica. Levei-o para o centro de estágio e esqueci-me de o guardar. No dia seguinte, lá tive de me explicar. Mas ainda há outro motivo: a minha família é toda benfiquista e eu cresci com aquele golo do Carlos Manuel em Estugarda [num fabuloso remate a 30 metros a garantir a vitória de Portugal sobre a RFA, no apuramento para o Mundial-86, no México]. Eu era o Carlos Manuel nos jogos que fazia na rua. Ora, o Carlos Manuel era do Benfica.

E chegaste a jogar com Carlos Manuel?
Não, mas ele pertencia ao Sporting quando me estreei na equipa principal [2 dezembro 1990]. Nesse dia, jogámos no Barreiro, com o Farense, e ganhámos 1-0 [golo do suplente João Luís II, aos 79’]. Fui titular [como central, ao lado de Miguel], só que o Carlos Manuel não foi convocado.

Melhor ainda, chegaste a marcar algum golo como aquele do Carlos Manuel?
Ahhh, não tinha potência para aquilo [e parte-se a rir pela enésima vez].

Há um golo do Peixe quase do meio-campo.
É verdade, no FC Porto. Foi um misto de engano e sorte. Tentei afastar a bola o mais possível da minha zona e como estava algum vento… [é o 3-1 final sobre a União Leiria, em Março 1999].

Por falar nisso, como foste parar ao FC Porto?
A resposta é longa. À partida para a época 1996-97, no Sporting, pedi um aumento de salário aquando da renovação do contrato. Era titular no Sporting e jogava na seleção. Impunha-se o querer ganhar mais, mas esse facto não foi tomado em consideração pelo presidente Sousa Cintra. Ainda recusei o Benfica e depois apareceu o Sevilha, onde acabei por encontrar uma realidade desajustada, num clube com ordenados em atraso e que desceu à 2.ª divisão porque estava endividado. Estive lá uns seis meses, onde conheci um senhor jogador chamado Davor Suker, já aí pretendido por Real Madrid, Barcelona e outros grandes de Inglaterra, além de me ter cruzado com três treinadores – um deles foi o Toni – e três presidentes. Aquilo estava mau quando…

Quando?
O José Veiga fala-me do interesse do Santana Lopes. Bem, nunca pensei. Claro que queria voltar ao Sporting.

Sporting, onde viveste tantas alegrias.
Sim, claro. É como te digo, é o clube de formação por excelência.

Foste Bola de Ouro do Mundial 1991.
Tenho-a lá em casa [mexe os lábios]. E já me estou a preparar [alarga os lábios] para a de treinador [sorriso de orelha a orelha]. Já tenho um espaço lá em casa guardado para o efeito.

Esse Mundial muda a tua vida?
A minha e a de todos os outros. Houve maior pressão e começaram a falar mais em nós, o que foi bom. Foi ótimo. Serviu para crescermos e melhorarmos.

Daí até à selecção AA é quase um passo.
Beeeem, lembro-me da estreia, com o Luxemburgo. Nada de especial. Sim senhor, estreia e pouco mais. O Queiroz lançou-me a mim, ao Figo, ao JVP e ao Nogueira. No jogo seguinte, uns dias depois, joguei com a Holanda, para o apuramento do Euro-92. Ali em Roterdão, na banheira, como é conhecido o estádio. Quando subo ao relvado e vejo aqueles calmeirões do Milan, até me assusto: Rijkaard, Gullit e Van Basten. O Rijkaard tinha uma coxa mais grossa que os meus braços juntos. Curiosidade: lesionei-os aos três.

De uma vez?
Estás a brincar, mas há uma jogada em que varri o Gullit e o Van Basten de uma assentada.

Falava-se do Sporting. Ganhaste lá uma Taça de Portugal.
Grande tarde desportiva, 2-0 ao Marítimo, e grande noite de festa. No ano anterior, perdemos a final, com o Porto, no Jamor.

Dois-um, não é?
Primeiro, 0-0. Na finalíssima, comigo a capitão, 2-1. Fiz uma defesa do caraças, armei-me em Lemajic e fui expulso [sorri outra vez].

É a época do 6-3. Sem o Peixe. Como seria com o Peixe em campo?
As pessoas fazem essa comparação há muito tempo e exprimem algumas interrogações sobre isso. A minha posição coincidia com a do João. Talvez ele tivesse mais algumas dificuldades ou talvez eu tivesse mais dificuldades. Mas a história desse jogo [14 maio 1994] começa antes, num jogo nas Antas, uma semana e meia antes do dérbi [3 maio]. O Sporting defrontou o FC Porto e perdeu 2-0 num jogo marcado pelas três expulsões de Carlos Valente. Primeiro foi o Juskowiak, ainda na primeira parte [35’, vermelho direto, por protestos], depois o Vujacic [60’, duplo amarelo] e, finalmente, eu [62’, também vermelho direto por entrada sobre Jaime Magalhães]. A minha expulsão foi a única que considero justa – atropelei, sem querer, pois queria jogar a bola, um jogador do FC Porto no meio-campo –, mas foi um jogo esquisito, com uma arbitragem a condizer. Como vi o vermelho direto, fiquei suspenso por dois jogos. Falhei Beira-Mar [4-0 para o Sporting, em Aveiro] e Benfica. Portanto, tive de ver esse encontro atrás da baliza em que o João Vieira Pinto marcou os três golos ao Lemajic. Até ao intervalo, senti que podíamos dar a volta, mas foi a noite do João e do Benfica.

Felicitaste o João depois do jogo?
Qual quê. Não estava com cabeça para o ver, nem para ouvir falar do João. Mas depois é claro que lhe dei os parabéns.

No jogo seguinte [1-0 para o Sporting], já lá estavas e isso notou-se.
Na primeira bola dividida entre mim e o João, embrulhámo-nos e ele deu-me um pontapé na boca. Fiquei sem dois dentes e ainda estou à espera de que ele mos pague. Estou a brincar. Foi um lance normal, em que caímos e fizemos tudo para nos levantar o mais depressa possível à procura da bola.

Isto é tudo a primeira fase do Sporting. Falemos agora da segunda.
Estreei-me num Sporting-FC Porto, resolvido com dois golos do Domingos. Antes desse jogo, dois helicópteros sobrevoaram o estádio para ver se lhe tiravam a imensa água [gargalhadas sonoras]. Fiz uns jogos e depois o Octávio Machado pôs-me a treinar à parte, numa fase em que entraram na direção do Sporting muitas pessoas novas que não estavam nada identificadas nem com o clube, nem com a sua mística, nem com o seu potencial humano. E pronto, apareceu o FC Porto. Fim da resposta a esta pergunta [gargalhadas mais sonoras ainda].

Impuseste-te com facilidade no FC Porto?
No ano do tetra, só fiz um jogo, com António Oliveira. No ano do penta, com Fernando Santos, é que joguei mais [13 vezes]. Mas há uma história pelo meio.

Há sempre.
A concorrência era pesada, com Paulinho Santos, Doriva e Chainho. De Agosto a Dezembro, só tinha jogado uma vez para o campeonato. O Fernando Santos preferia o Paulinho quase lesionado a mim. Estávamos na reabertura do mercado e quis sair para adquirir ritmo competitivo. O único clube que se chegou à frente foi o Fluminense e até um diretor-geral brasileiro se deslocou ao Porto para falar comigo. Reunimo-nos e disse-lhe que ia pensar. No dia seguinte, fui à SAD do Porto para dizer que queria sair e encontrei o presidente Pinto da Costa à porta. Subimos juntos de elevador, ele soube da situação e pediu-me para ficar no Porto, que ainda ia jogar muito. Quando cheguei lá acima, já estava convencido a ficar. A verdade é que fiquei e marquei o tal golo à União de Leiria no jogo em que recuperei a titularidade. Até ao final da época, voltei a jogar com regularidade e tudo estava bem.

Até os problemas voltarem.
Pois, é verdade. Infelizmente. Eu treinava-me bem, mas não jogava por razões que me ultrapassavam e extra-futebol [as relações entre Pinto da Costa e o empresário José Veiga azeda na sequência da transferência de Sérgio Conceição para a Lazio e Peixe era jogador de Veiga]. Por isso, fui parar à equipa B do FC Porto. Compreendi os motivos, mas não os aceitei.

Por isso é que foste jogar para o Alverca?
Mais ou menos. Eu queria cumprir o meu contrato com o FC Porto até ao fim, mas estava a treinar com a equipa B e isso era um problema. Até que um elemento da SAD do FC Porto me falou de ir para o Alverca. Disse-lhe que não, porque queria outro campeonato – não o português. Foi então que esse senhor me aconselhou a ir para o Alverca ou então ficava a treinar com a equipa B mais seis meses. Aí, aceitei.

Tinhas alguma na manga com essa de jogar noutros campeonatos?
Era um desejo, sim, porque sentia que podia mostrar mais.

À exceção da oferta do Fluminense, há mais convites?
Só a Juventus, no início da década 90.

A Juventus, como?
Através do Rui Barros.

Como, repito-me?
Telefonou-me para casa.

Assim, sem mais nem menos.
Estava em casa com a minha mãe, o telefone tocou, eu atendi e era o Rui Barros.

E então?
Estava bem no Sporting, queria acabar a carreira no clube que me formou como homem e jogador. Vê lá como são as coisas [grande sorriso]. Disse-lhe que não e a conversa ficou por aí. A minha mãe perguntou-me quem era. Depois, perguntou-me o que esse alguém queria. Depois, de onde é a Juventus? Quando lhe respondi Itália, ainda tenho a resposta gravada na cabeça: ‘ó filho, isso é tão longe’.

Do Alverca saltas para o Benfica e completas o ciclo dos três grandes.
O interesse do Benfica era antigo. Na época do penta do Porto, em 1998-99, houve uma reunião tipo G3 entre Pinto da Costa, Manuel Vilarinho e Dias da Cunha, para uma troca de jogadores, mas eu não quis, para honrar o compromisso com o FC Porto. Só após a experiência no Alverca é que me senti animado para aceitar o repto do Benfica, através do convite de Jesualdo Ferreira. Queria mostrar tanta coisa, mas as sucessivas operações ao joelho baralharam o esquema. As dores constantes desmotivaram-me. Só fiz dois jogos [1-0 ao Belenenses na Luz e 0-0 no Bessa, com o Boavista], mas treinava com infiltrações, cheio de dores e limitado fisicamente. Ora, isso não era vida para ninguém.

E ainda fizeste meia época na União Leiria, em 2003-04?
Sim, os joelhos ajudaram, mas houve outro fator, aquilo que aconteceu ao Miklos Fehér. Para quê continuar? Já não valia a pena. A morte dele fez-me pensar, pensar e pensar. Fez-se clique na minha cabeça, entrei em luto e abandonei o futebol.

Vocês jogaram no Porto e no Benfica.
Éramos grandes amigos. Almoçávamos e jantávamos muitas vezes juntos, sobretudo no FC Porto, porque a nossa situação era idêntica, no que toca a treinar à parte, na equipa B. Aliás, éramos nós os dois mais o Romeu, o Panduru e o Carlos Manuel. Certa vez, no último ano, jogámos squash às escondidas. Como não competíamos no futebol e queríamos ter o complemento físico de volta, entrámos num torneio. Quando o reencontrei no Benfica, foi uma alegria.

O Peixe também convive com o acidente do Cherbakov.
É verdade, outro momento triste, amargo. Essa noite, tenho-a bem presente. Foi o dia do jogo com o Beira-Mar, ganhámos 1-0 e fomos todos jantar com o Bobby Robson, em jeito de despedida.

Substituído pelo Carlos Queiroz, na ressaca do 3-0 em Salsburgo.
Isso mesmo. Fomos jantar e, claro, bebi. Estou a olhar para ti e para essa Erdinger. Se bebesse metade disso, ficava entornado. Nunca fui de aguentar por aí além. Por isso, sempre água [e exibe a garrafa meia cheia, com indisfarçável orgulho]. Ora bem, esse jantar foi engraçado e havia mais depois. Cada um foi à sua vida e eu era para beber mais um copo com o Cherbakov. Era muito amigo do Cherba.

Desde o Mundial-91?
Não, aí não nos cruzámos, embora ele tenha sido o melhor marcador. Lembro-me dele numa final do Euro sub-18, perdida para a URSS, nos penáltis. Era um jogador com uma capacidade enorme e quem não se lembra daquele golo ao Beira-Mar, num outro jogo, à tarde: canto da esquerda para fora da área e remate de primeira, sem deixar cair a bola? G’anda golo. Todos se lembram disso. Foi eleito o golo do ano, claro [Peixe fala com mais gosto ainda, como se estivesse a viver o momento].

Dizias, grande amigo do Cherba e…
Dizia, cada um foi à sua vida e eu era para beber mais um copo com o Cherbakov. Só que já não estava em condições e foi o Valckx quem me levou à casa dele.

Dele, Valckx?
Sim. Foi lá que encontrei novamente o coach.

Coach?
Era como eu chamava ao Bobby Robson. Coach para aqui, coach para ali. Ele era um homem sensacional, muito amigo. Às vezes levava cada rebocada nos treinos… Atenção, sempre sempre sempre pedagógico, num tom cool. Chamava-me à parte e dizia-me que não podia fazer isto nem aquilo.

Dizias…
[Peixe ri-se] Dizia, Valckx e Robson na casa do Valckx. Quando cheguei lá, abracei mil vezes o Robson a chamar-lhe coach, coach, coach. Adorava-o. De repente, apaguei. Adormeci. Acordei no dia seguinte com a notícia do acidente do Cherba. No início, era um só acidente, digamos assim. Nas primeiras horas, ninguém arriscou um prognóstico de invalidez para o futebol. E todos puxámos pelo Cherba. Fomos ao hospital e demos-lhe muita força, porque pensávamos realmente que ele ia recuperar, melhorar e voltar a jogar. Só que depressa percebemos que isso não era assim. Apertávamos-lhe o dedo grande do pé e ele não sentia nada nem se mexia. Estranho, algo se passa. Quando ele saiu finalmente da cama e vimos o estado do Cherba da cintura para baixo, foi… Não dá para explicar. A desilusão e a tristeza apoderaram-se de mim, de nós todos. Foi uma pancada na cabeça, no estômago, em todo o lado. Nunca pensámos.