212kWh poupados com o Asset 1
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica. Saiba mais

Logótipo da MEO Energia

O MEO ajuda-o a poupar, simule aqui.

i

Alessandro Sabattini/Getty Images

Alessandro Sabattini/Getty Images

Pelé, o rei da bola, chega à Netflix: as maravilhas do craque e uma “last dance” a contragosto /premium

Na sua "last dance", Pelé começou contrariado e acabou mito. Um novo filme na Netflix conta e mostra a sua história nos relvados: é por isto, por tudo isto, que Edson Arantes do Nascimento foi único.

    Índice

    Índice

Comecemos pelo espanto, pelo feito incrível que contribui para que hoje existam filmes sobre ele, para que um país cante com alegria e saudade e dance com samba os seus golos, seus dribles, as suas fintas de corpo, a espantosa velocidade com que contornava e se esquivava aos adversários, a técnica prodigiosa de quem cresceu com o futebol de rua e a bola colada ao pé.

O feito é este: Pelé despiu a camisola da Seleção Brasileira com apenas 30 anos, cedo para os padrões antigos e espantosamente cedo para estes tempos em que Ronaldo continua a marcar golos aos 36, mas foi a tempo de ganhar três “Copas do Mundo”, três Mundiais de Futebol. Nos seus pouco mais de dez anos a brilhar na Seleção, disputaram-se quatros Mundiais. Pelé, num Brasil que até aí nunca se sagrara campeão, ajudou o país em que nasceu a vencer três.

Nenhum jogador conseguiu tal coisa. E é verdade que, quando é momento de desvalorizar os seus feitos — porque Diego era o pecador que nos apaixonava a nós, humanos falhos, porque Messi parece fazer o mundo congelar quando a bola lhe chega aos pés, porque Ronaldo marca golos de todas as formas e feitios, porque foi arrumado pela dureza do português Morais naquele Mundial de 66 na Inglaterra… –, há quem lembre: pois é verdade, mas num dos Mundiais vencidos o seu contributo foi escasso, fruto de uma lesão que já durante a competição o atirou para o estaleiro. “E nunca jogou na Europa…”. Mas quando se chega ao Brasil, não há dúvidas: o rei é Pelé, o país é Pelé.

Para muita gente, amante de futebol ou não, Pelé é só nome: o nome de craque com que Edson Arantes do Nascimento se apresentava nos relvados, e jogava e marcava golos quando grande parte de nós ou ainda não era nascida ou não tinha idade para perceber o quão brilhante era o brasileiro nos relvados.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

PA Images via Getty Images

Um dos motivos de interesse no novo filme feito para a Netflix, chamado simplesmente “Pelé”, é fazer-nos recuar no tempo, vermos como era o mito no gramado, percebermos porque é que tantos brasileiros torcem o nariz aos novos craques que vão aparecendo lembrando sempre “pois, mas o Pelé…”. O outro mérito é a capacidade de situar Pelé no Brasil do seu tempo, na história política que caminha de braço dado com a história do futebol, nas aproximações e distanciamentos entre os golos e os sonhos democráticos e de progresso social.

Não é que o novo documentário da Netflix, realizado por Ben Nicholas e Davyd Tryhorn (que já tinham trabalhado nos filmes Tudo ou Nada: Seleção Brasileira, Kenny — sobre Kenny Dalglish — e Crossing the Line, sobre o antigo atleta olímpico Danny Harris), sirva para nos mostrar muito claramente quem foi Edson Arantes do Nascimento, o homem. Pouco ficamos a saber dos seus interesses além do futebol, do que tem feito desde que pendurou as chuteiras (ainda recentemente revelou… uma canção), do que fazia quando não tinha a bola colada ao pé direito, na cabeça, na coxa, no peito ou no calcanhar. É o fenómeno incrível na história dos desportistas-mitos: a vida, quando tem de ser resumida num filme, numa conversa rápida, numa descrição humana), resume-se a década e meia, de 80 anos só 15 ou 20 são definidores.

“Pelé”, o documentário, também não serve para ajudar a desconstruir o mito, para o colocar num plano humano: os seus colegas nas Seleções brasileiras que tornaram o Brasil num país afirmativo, sexy aos olhos do mundo, servem para testemunhar quem foi Pelé, como vivia Pelé os jogos, como era na relação humana. Quem nada souber fica com vislumbres brevíssimos dos homens que, em campo e no balneário, ajudaram Edson a tornar-se “o Rei” — é gente tratada não como protagonista mas como atores secundários na cruzada de um homem que se confundia com um país.

Mas os mitos existem, o tempo para os contar e explicar é curto num filme — numa série, talvez toda a história pudesse ser contada com maior profundidade — e “Pelé” conseguirá pelo menos ajudar a mundo a perceber como é que este se criou: com aqueles bolas passadas por cima dos defesas, com aqueles remates embalados e culminados com um salto perfeito no ar, com aqueles espaços miraculosamente encontrados na área e no meio dos defesas para saltar bem alto e cabecear para as redes, com aqueles livres que só acabavam na baliza, com a capacidade de tornar pé direito e bola de futebol uma só coisa, unida e indivisível, enquanto o mito de olhos postos no guarda-redes corria imparável e contornava defesas como se contornasse pinos.

Aos 17 anos, depois de engraxar sapatos, ei-lo como estrela do futebol

O filme olha para a história de Pelé e para a história do Brasil tentando relacioná-las, explicando como se misturam e explodem em conjunto, recorrendo a entrevistas com o próprio — foram feitas oito, a primeira em outubro de 2018 e a última em janeiro do ano passado –, a material de arquivo que obrigou a uma extensa pesquisa (procurar vídeos, jogos e reportagens dos anos 50 e 60 não é o mesmo do que procurar vídeos e fotografias dos anos 80 ou 90) e a testemunhos de amigos, antigos colegas de Seleção e antigos colegas do Santos.

Por tentar captar os feitos futebolísticos do jogador desde que se estreou até ter pendurado as botas, não sobra muito tempo para olhar para Edson Arantes do Nascimento, o homem. Mas há algumas fotos de arquivo e um testemunho inicial de Pelé sobre a sua infância, onde o ouvimos dizer “a gente veio do nada”, onde conta que aos 10 anos subia para cima dos cavalos que transportavam as carroças que via passar em Bauru, no estado de São Paulo e onde lembra: “A gente era pobre mas sempre pudemos trabalhar”.

O pai de Pelé era futebolista e trabalhava e o miúdo, além de jogar futebol na rua — depois viria a praticar futebol de salão, o que ajuda a explicar a rapidez das suas ações em campo, o quão lesto era a perceber o que deveria fazer à bola e depois a executar o que queria fazer –, teve a dada altura de ir trabalhar: “Ficava engraxando sapato, limpando sapato, para ajudar minha família”.

Talvez também por o filme procurar a atenção de um público internacional e não apenas brasileiro, a carreira e os títulos ao serviço do Santos são relegados para segundo plano em detrimento das conquistas internacionais, muito mais relevantes globalmente e muito mais importantes para o país que Pelé levava na camisola. Mas a chegada ao Santos Futebol Clube é recordada: Pepe, “a primeira pessoa do SFC que conheceu o Pelé”, conta para as câmaras sentado num sofá que “a gente estava acostumado a ver tanta gente passar em teste e não mostrar quase nada” mas Pelé “já no primeiro treino mostrou que era fera”.

O filme alia sobretudo duas coisas: vídeos de arquivo (de golos, de declarações, de momentos mais íntimos) e testemunhos de Pelé, de antigos colegas do craque brasileiro e de jornalistas, cronistas e figuras da cultura e política brasileira

Não demora muito a que o foco passe para a primeira “Copa” de Pelé, o primeiro Mundial de futebol que disputou (e venceu), então com apenas 17 anos. Edson era profissional apenas há dois anos e é caricato o momento em que Pelé, hoje, recorda que em menino achava que o Brasil “era conhecidíssimo na Europa”, quando não era.

Pode parecer impossível, mas nessa altura o desconhecimento sobre o Brasil era tremendo: para já não existia uma coisa chamada internet, depois no futebol — uma das grandes redes sociais internacionais da altura — nunca a canarinha tinha vencido um Mundial. Já se tinham disputado cinco, mas só oito anos antes, em 1950, o Brasil (então com Ademir de Menezes no ataque) tinha estado próximo de vencer, terminando em segundo lugar mas não se superiorizando ao Uruguai de Óscar Míguez e Alcides Ghiggia.

Em 1950 o Mundial de futebol era visto, como lembra o jornalista brasileiro entrevistado no documentário Roberto Muylaert, como a grande oportunidade do Brasil afirmar-se internacionalmente, “virar um país conhecido e sair daquela coisa muito primária onde ele estava”, mas foi uma oportunidade gorada: porque a “Copa” se disputava no Brasil, pelo que só foi vista ao vivo na larga maioria por brasileiros, porque a televisão não era — nem de perto nem de longe — uma realidade popular e global e porque Alcides Ghiggia despejou um balde de água fria em cima dos brasileiros, com um golo no Maracanã.

O país gelou e silenciou-se com a derrota, o pai de Pelé chorou, o filho de 10 anos disse-lhe: “Não se preocupe, não fica triste, depois eu vou ganhar uma Copa do Mundo”. Vamos assistindo a Pelé, agora um idoso incapaz daqueles dribles mágicos que comoviam o Brasil, olhar para a televisão no seu cadeirão, revendo imagens de glória e juventude.

Na iconografia histórica, o Mundial de 1970 foi “O” momento de Pelé, a sua última dança mágica, o mito que já todos davam como de barro a voltar a provar a todos os que duvidavam dele que ainda era o melhor do mundo, o momento em que o Brasil se esqueceu e libertou por uns segundos dos grilhões da ditadura militar para gritar a plenos pulmões nas ruas. Mas o Mundial de 1958 foi o início de toda a história, a primeira grande conquista internacional do futebol brasileiro, a primeira “Copa” vencida com um garoto de 17 anos a maravilhar o mundo.

O Mundial de 1958 disputou-se na Suécia e o Brasil, como lembra Zagallo, o atacante colega de Pelé, Garrincha, Moacir e Vavá naquela Seleção memorável, não era favorito a nada. Ouvimos Pelé, no documentário: “Um jornalista chegou a escrever que eu era muito jovem, que não tinha experiência”. E vemo-lo em campo a provar o contrário, em jogadas que merecem descrição detalhada.

AFP/Getty Images

Vamos ao Brasil 1-0 País de Gales, quartos-de-final do Mundial. Vemos Pelé a dominar a bola com o peito, com um defesa atrás de si. Vendo a jogada hoje, descontraidamente no sofá e com a Netflix ligada, toda a gente consegue antecipar o que vai começar por acontecer: como Pelé domina de peito e pode demorar a controlar a bola com o pé, é provável que o defesa se aproxime dele para, lambão, lhe tentar tirar o esférico. Mas Pelé com um toque coloca a bola atrás do defesa, nas suas costas, vira-se muito rapidamente e dirige-se para onde o defesa estava e deixou de estar por se ter abeirado dele. O “10” contorna-o como se o defesa estivesse zonzo, sem perceber o que lhe está à acontecer, e à frente do guarda-redes e mesmo antes de outro defesa que se aproximava lhe tirar a bola, dá um pequeno salto e chuta com o peito do pé.

Na bancada, todos são brancos e todos celebram, alegres, todos se maravilham com este futebol criolo e negro de quem cresceu na rua a driblar — com os pés e com o corpo — pessoas e obstáculos. Há um homem de bigode que põe as mãos na cabeça e agita a mão direita aberta para cima e para baixo, como quem diz: puxa!

Este foi o Mundial em que o garoto Pelé, de 17 anos, fez 6 golos em 4 jogos, destruiu defesas bem mais conceituadas do que a brasileira. Foi também a Copa mítica dos 5-2 à França na meia-final, com um jogo de sonho (e um hat-trick) do camisola 10. Quem faz isto aos 17 anos tem de ser, só pode ser um predestinado.

Há um golo magistral à França: Pelé desmarca-se e recebe a bola à entrada da área, domina-a com a coxa direita e é assim que levanta o esférico no ar. Isso dá-lhe tempo para dar mais dois ou três passos, levantar a perna direita, ganhar balanço para chutar e saltar no ar depois de rematar a bola, que bate no chão à frente do do guarda-redes e entra junto ao poste direito de Claude Abbes.

[O magnífico golo à Seleção Francesa aos 04:58:]

Antes da final com a anfitirã Suécia, o Brasil tremia de medo, ainda recordado dos sonhos desfeitos pelo Uruguai em 1950. Mas a meia-final transpôs-se no resultado a papel químico: 5-2, desta vez com dois em vez de três de Pelé. Vavá também bisou, Zagallo fez o importante 4-1. Mas repare-se: na meia-final e na final daquele Mundial, com 17 anos, Pelé somou 5 golos.

São dois grandes golos na final, sintoma de uma espectacularidade futebolística que hoje não é exatamente a mesma. Veja-se o primeiro: na área, com um adversário pela frente, Pelé pica-lhe a bola por cima e tira-o do lance. O defesa já se preparava para o corte quando Pelé toca a bola, é no momento certo — nem um segundo antes nem um segundo depois — que lhe passa com a bola por cima e o contorna, segue para trás dele e, já sem obstáculos à frente que não o guarda-redes na baliza, chuta de pé direito para a direita do guardião.

Pelé, aos 17 anos, fazia nesse momento o 3-1 na final. Mas seria ele a fechar o jogo à beira do fim com outro golaço: o camisa 10 toca a bola com o calcanhar, passando-a para trás de si, para a esquerda do ataque do Brasil. Depois do passe, corre em direção à área, procurando um espaço morto entre dois defesas. A bola é cruzada do lado esquerdo com a canhota, vai com conta, peso e medida — com força suficiente para sobrevoar o primeiro defesa, com a força certa para chegar a Pelé e não ao segundo defesa — e o “10”, de cabeça, remata para o fundo das redes, colocando a bola junto ao poste direito do guarda-redes.

[Primeiro golo de Pelé aos 02:00, o segundo aos 02:55:]

Acabara de nascer um homem adulto, por um lado — o homem que ficou muito impressionado por “as meninas suecas” gostarem da sua pele, como conta no documentário, que se apercebeu de que o Brasil não era “famosíssimo” na Europa antes da Copa de 58 –, e um dos grandes futebolistas da história do futebol, o melhor dos melhores para tantos amantes da bola.

No documentário, com imagens de arquivo que não se encontram na internet, vemos Pelé consagrado aos 17: a chorar empoleirado, levantado pelos colegas, a levar palmadas amigáveis na cabeça. E Pelé chora: com as mãos afundadas na cara, não diz nada, só chora. Já se passaram mais de 60 anos (62, quase 63) mas a emoção mantém-se: vemo-lo no documentário outra vez em lágrimas, a mão direita a limpar o líquido lacrimal a cair impertinente pela face. Vemo-lo em 1958, no avião, de camisa branca e gravata, sorriso estampado na cara, ouvimo-lo recordar que não dormiu naquela noite, “queria saber se o pessoal no Brasil, a minha família, se estava sabendo, se viram que eu fiz esses golos”, vemos as ruas do Brasil em festa.

Pelé tornara-se o símbolo da emancipação de um país, “majestade para os negros, para os brancos, para os mestiços, para todo o mundo”. Era o sonho do garoto pobre da favela que se tornava astro nacional, a confirmação de que o elevador social era possível com umas meias, umas chuteiras e a ginga de futebol de rua.

Pelé a jogar pelo Brasil, em 1958

Pictorial Parade

Há um lance exibido no documentário e ao serviço do Santos, clube que Pelé tornou famoso no mundo, que no basquetebol se chamaria crossover: o camisola 10 à entrada da área, puxa a bola para a esquerdo, o mundo e os defesas especados a pensar que vai sair remate, o pobre adversário estica a perna direita toda em esforço para o desarmar e Pelé já de pé esquerdo levantado trava e dá um pequeno toque na bola em vez de rematar.

O que ali acontece, que podemos ver hoje em streaming, é o que aconteceu incontáveis vezes na carreira de Edson Arantes do Nascimento: um defesa a esforçar-se no limite para o apanhar, para não o deixar escapar, sabendo que se falhasse o corte desesperado ficaria fora da jogada; Pelé a travar e mudar de direção mais rápido do que o oponente, a deixá-lo para trás e aqui até a deixá-lo cair pela rapidez com que o levou a travar e inverter a marcha. Um defesa já em queda, desafortunado, a ver Pelé já com a bola puxada para o pé direito, a levantar a perna e a rematar a um ângulo perfeito, indefensável, “na gaveta” e “onde a coruja põe o ninho” como se diz na gíria, um guarda-redes estupefacto e imóvel, resignado com nada pode fazer se não assistir ao golo. Não digam que não há poesia no futebol.

Pode um Mundial ganho com Pelé não o ter como protagonista? Pode

Depois houve o segundo Mundial: mas antes disso vemos Pelé no documentário a enfrentar o Benfica, jogo do Santos contra o clube português na “Copa Intercontinental de 1962” — e em que o conjunto do Brasil vergou a equipa de Coluna, Simões, José Augusto e Eusébio por 5-2. A Pantera Negra portuguesa ainda marcou um golo, mas Pelé fez três, o amigo Pepe fez um outro e Coutinho juntou-se à contagem.

A curta aparição do jogo no documentário serve dois propósitos. Um é vermos Pelé a correr como um desalmado, escapando-se e esquivando-se a defesas, correndo em direção à baliza até rematar de pé esquerdo para o fundo das redes. O outro é vermos Pelé tantas décadas depois com “os amigos do Santos”, a ser transportado de cadeira de rodas e em amena cavaqueira à mesa, a lembrar “uma batucada que eu fiz lá”, ele que sempre gostou de música e de cantar, a recordar memórias e histórias antigas. Eis uma imagem que não se tem muito do Rei do futebol: já velho e debilitado, na palhota com os velhos amigos da bola que ainda cá andam.

Mas é preciso rever toda a história do Mundial de Futebol de 1962, o momento em que Pelé, quatro anos volvidos desde 1958 e já “maduro e a grande estrela do futebol mundial”, se poderia mostrar no seu auge ao mundo inteiro. Azar dos azares: num jogo contra a Checoslováquia, segunda jornada da fase de grupos, o astro brasileiro lesiona-se e fica fisicamente impossibilitado de jogar o resto do Mundial.

A lesão de Pelé pareceu uma ferida profunda nas aspirações do Brasil em 62: existia Zito, existia Garrincha, existia Vavá, existia Zagallo, mas Pelé era Pelé. Entrou na equipa Amarildo, que contribui para o documentário testemunhando que o camisola 10 “jogou mentalmente para o Brasil ter aquele sucesso que teve”, continuou junto da equipa a apoiá-la e festejou fora das quatro linhas as vitórias contra a Inglaterra nos quartos-de-final (3-1), contra o Chile nas meias-finais (4-2) e contra a Checoslováquia na final (1-0).

A desilusão de 66 e a vontade de não jogar mais nenhuma “Copa”

De repente a euforia esvai-se: chega 1964 e um golpe militar torna o país uma ditadura, sob pretexto de evitar a tomada do Brasil pelo comunismo. É aqui que entra no documentário o Pelé controverso, o Pelé criticado, o Pelé discutido à luz da convivência harmoniosa com o regime. Se os feitos futebolísticos não são colocados em causa, o facto do astro do futebol brasileiro não ter tomado nenhuma posição crítica face ao regime ainda hoje levanta a questão em discussões: deveria Pelé ter-se posicionado mais claramente quanto ao rumo que o Brasil estava a tomar?

No documentário, Pelé reconhece quando questionado sobre se a ditadura “mudou alguma coisa” para si: “Não, o futebol continuou igual. Para nós não teve muita diferença, para mim não teve diferença nenhuma”. É também nos anos de ditadura, mais precisamente em 1966, que Pelé se casa — e os realizadores aproveitam para perguntar ao futebolista sobre essa relação amorosa, num dos momentos mais pessoais do filme.

Pelé casou-se com Rosemeri dos Reis Cholby em 1966

Pictorial Parade/Archive Photos/Getty Images

Pelé conta que casou “porque gostava”, mas “paixão, de loucura, isso realmente não teve”. Assume que ser sua esposa deve ter sido “difícil”, porque “começaram a aparecer mais compromissos profissionais fora de futebol, como contratos de publicidade, e comecei a viajar mais”. E assume que “honestamente era” difícil ser fiel, assume que “tive alguns relacionamentos, alguns que teve filho, depois fiquei sabendo” mas garante que “não mentia para ninguém”, que a mulher “sabia de tudo”.

O Mundial de 1966, com um Brasil bicampeão a rumar a Inglaterra à procura do “tri”, foi um fiasco: a canarinha foi eliminada ainda na fase de grupos, vergada por Portugal, que por sua vez acabou derrotado pela Inglaterra de Bobby Moore, Bobby Charlton (dois golos a Eusébio, Hilário, Simões, Jaime Graça, Torres, José Augusto e companhia), Martin Peters e Geoff Hurst, este último o grande herói da final contra a Alemanha. E Pelé foi arrumado do torneio ainda no jogo contra Portugal, mais uma lesão depois da que tivera na “Copa” de 62.

Pelé em 1966: numa das fotos num autocarro, à chegada a Inglaterra (para disputar o Mundial)

Getty Images

Esta foi a altura em que começou a acontecer o que se confirmaria de forma mais consistente e prolongada anos mais tarde, com um pequeno interregno pela conquista do Mundial de 1970 e pelo período entre 1994 e 2002, em que o Brasil chegou à final em três “Copas” consecutivas, vencendo duas (nos anos de Taffarel, Dunga, Bebeto e Romario, primeiro; depois Roberto Carlos, Ronaldo e Rivaldo; por último já com Cafú e Ronaldinho a brilhar ao lado do trio anterior). O que aconteceu nesses anos foi o início de uma mudança profunda no futebol, com a ginga e os dribles do futebol brasileiro a terem dificuldades para superar a organização coletiva, a capacidade atlética, a impetuosidade, dureza e intensidade competitiva dos futebolistas europeus.

No documentário vemos imagens do jogo contra Portugal, vemos Morais — nº 17 português, defesa-direito que alinhava então no Sporting, clube ao serviço do qual marcou um famoso canto direto conhecido como “o cantinho do Morais” — a castigar e lesionar Pelé com entradas duras. Vemos o 10 brasileiro a cumprimentar os jogadores portugueses e vemos imagens de arquivo, com o craque a dizer que “hoje” (em 68) as equipas preocupam-se mais “em não tomar [sofrer] golo”, o futebol “ficou mais feio” e andava tudo a “jogar mais duro”.

Pelé e os portugueses depois da vitória de Portugal ao Brasil (3-1) no Mundial de 66, em Inglaterra

Gamma-Keystone via Getty Images

Foi nos arquivos da RTP — ficamos a saber pelas notas de produção cedidas à imprensa — que a equipa que trabalhou no filme encontrou a declaração que procurava, depois de procurar “em todo o lado”: um momento em que Pelé diz que depois do Mundial de 66 não quer jogar mais nenhuma “Copa”. Foi, diz um dos realizadores (Tryhorn), “um daqueles momentos de eureka — graças a Deus, temos alguma coisa que o mostra a realmente confirmar isso”, essa intenção.

No documentário, ouvimos Pelé agastado: “Tenho a intenção de não jogar mais os Mundiais, não tenho sorte nos Mundiais, é o segundo a que vou e em que jogo duas partidas e não consigo jogar mais”. Percebemos que a eliminação foi um golpe duro para Pelé, diz hoje que “foi a maior tristeza que eu tive”, a irmã Maria Lúcia corrobora e diz que Edson Arantes do Nascimento “abateu muito nessa época, ficou muito triste”.

Não deixa de ser uma daquelas ironias trágicas que os brasileiros e os amantes de futebol devam a um ditador sanguinário, Emílio Médici, presidente da “pior fase de torturas e assassinatos” da ditadura militar do Brasil, a presença de Pelé no Mundial de 1970. O futebolista não queria, mas foi convencido a jogar — e é no filme novamente interpelado sobre a sua relação com a ditadura militar, dizendo que “se dissesse que não sabia [dos atos de tortura] estaria mentindo” mas dando a entender que nunca quis envolver-se politicamente e tinha direito a isso, só queria jogar futebol e além do mais “muitas coisas não tínhamos certeza se era verdade ou mentira”.

Talvez o futebol de rua tenha ajudado, talvez a passagem pelo futebol de salão tenha contribuído, talvez o ritmo de um país que dança samba tenha influenciado: em campo, Pelé aliava uma técnica espantosa a uma rapidez enorme a contornar adversários, esquivar-se de defesas, mudar de velocidade e direção, fintar com o próprio corpo 

Embora não seja conotado como um símbolo ativo e interessado no regime, como aliás se nota no documentário,  mas antes como uma figura apreciada e instrumentalizada pelo mesmo — como aconteceu, por exemplo, com Eusébio em Portugal –, a falta de envolvimento político origina ainda assim críticas, há quem não concorde com a ideia de que Pelé podia jogar muito bem futebol sem ser opositor da ditadura: por exemplo Paulo Cézar Lima, antigo futebolista que esteve com Pelé no Mundial 1970 mas que foi seu suplente e que diz hoje: “Achava que tinha comportamento do negro ‘sim senhor’, submisso, que aceita tudo, que não contesta, não critica, não julga. É uma das críticas que mantenho até hoje. Uma opinião do Pelé mexeria muito [com as coisas], principalmente no Brasil”.

Pelé defende-se, diz ter a certeza que ajudou muito mais o Brasil com os golos e os dribles do que “muitos políticos”, e Juca Kfouri, cronista brasileiro, ainda acrescenta que “ditaduras são ditaduras, só quem viveu sabe onde arde”, e que a comparação com o intervencionismo político de Muhammad Ali é injusta: o pugilista, nota, sabia que “não corria o menor risco de ser torturado, mal tratado” e Pelé “não tinha essa garantia”.

Antes de ir jogar o Mundial de futebol persuadido pelo regime, porém, ainda veio o golo mil do craque, uma grande penalidade ao serviço do Santos Futebol Clube que ele bateu a 19 de novembro de 1969 no Maracanã, após uma falta que ele próprio sofreu dentro da área.

Pelé a comemorar o 1000º golo, apontado no final de 1969, num jogo do Santos contra o Vasco da Gama

Pictorial Parade/Archive Photos/Getty Images

O México 70 que o transformou definitivamente em mito: “Não morri não!”

Se há erro a apontar ao documentário talvez seja a forma como conta a história do papel de João Saldanha na caminhada do Brasil para a conquista do Mundial de 1970, no México. Quem vir o documentário ficará com uma impressão de Saldanha que talvez seja exageradamente má, exageradamente incompleta até para perceber o porquê do afastamento do treinador que teve incompatibilidade com Pelé e acabou despedido antes de Zagallo assumir o comando técnico da canarinha na “Copa”.

Primeiro, porém, é contextualizada a chegada do Brasil ao Mundial de 1970 — com grande influência da ditadura militar na composição da equipa e na composição da comissão técnica que orientava e geria o grupo. Ouvimos um antigo ministro reconhecer que o sucesso do Brasil no Mundial de 1970 tornou-se um objetivo politicamente importante — “se o povo está contente, o Governo fica contente” –, vemos Pelé assumir hoje que teve “sempre” pressão do Governo para continuar na Seleção, é-nos apresentado o astro brasileiro a olhar para o mar nestes anos e a assumir: “Fiquei numa angústia. Não queria jogar a Copa de 70, não queria passar o que passei na Inglaterra. Só queria ser lembrado. Mas essa não tem jeito, essa é a última Copa”.

Aquele seria a última dança, como a de Michael Jordan e Phil Jackson nos Chicago Bulls retratada recentemente em série, mas uma última dança começada em contragosto, em contraciclo com a batida da vontade. E seria uma última dança que começou com tensões entre Selecionador e Pelé.

Quem vir a história contada no filme, perceberá que Saldanha quis impor um estilo de futebol diferente — mais defensivo, mais europeu? — na Seleção Brasileira. E compreenderá que Pelé e colegas estavam contra mudanças tácticas de última hora: o Brasil era o Brasil, tinha a sua forma de encarar o jogo e tentar transformar-se em Seleção europeia comportava o risco de ter jogadores talhados para um futebol, mesmo que de eficácia duvidosa depois do fiasco de 1966, a jogarem um tipo de jogo para o qual não estavam capacitados e treinados.

Também é discutida a tese de que Pelé era míope e por isso não podia jogar, alimentada pelo Selecionador: uma tese rapidamente chutada como ridícula, mas que talvez tivesse a sua base porque afinal, como escrevia em 2004 a rede Globo, Pelé acabou por ser operado à vista por problemas de visão de longa data (recusou sempre usar óculos ou lentes de contacto). Não fica muito claro o que levou Saldanha a entrar em guerra aberta com o futebolista, que o Selecionador entendia já ter passado o seu auge de carreira, mas em entrevistas posteriores o próprio negou que não quisesse Pelé no conjunto.

No Mundial de 70, uma final mítica contra Itália: marcou o primeiro e assistiu para o 3-1 e o 4-1. Tornou-se aí o único futebolista com três Mundiais conquistados (e só disputou quatro). No balneário gritou, ainda acossado pelas críticas e dúvidas sobre o que tinha para dar aos 30 anos: "Não morri, não!"

Há duas insuficiências: uma passa pela importância de Saldanha na regeneração da Seleção Brasileira na caminhada para o Mundial de 1970 (em particular durante o ano de 1969), que acaba esquecida pelos conflitos posteriores entre Selecionador e Pelé; a outra passa pelo afastamento do Selecionador do comando técnico.

O motivo político para o afastamento é aflorado mas pouco: e é preciso não esquecer que João Saldanha era um comunista convicto, claramente em dissonância com o regime da ditadura militar, ficando por perceber se parte da guerra aberta entre o técnico e o jogador não terá sido alimentada na sombra pelo regime. Até porque Saldanha não era de modo algum fã de ingerências políticas no seu trabalho de treinador e qualquer sugestão com vista à utilização de Pelé poderia ter até o efeito contrário.

O Governo “mexeu os pauzinhos” e “interviu no futebol”, reconhece hoje um antigo ministro — e no lugar de Saldanha, demitido, passou a estar Zagallo, antigo futebolista e antigo colega de Pelé na canarinha. Por esta altura, camisola 10 e Seleção estavam desacreditados: o fiasco de 66, as mudanças no banco e a impressão de que Pele já não estava no topo de forma, reticente até em jogar pela Seleção, davam tudo menos confiança.

Na fase de grupos, o Brasil surpreende e faz o pleno de vitórias, vencendo a grande Inglaterra (campeã mundial em título) de Bobby Charlton e Bobby Moore. E Pelé cresce: no filme vemos a imagem do craque acossado, do homem que até desejara não estar no México com a Seleção mas que depois da sua qualidade ser colocada em causa e de a sua capacidade física para jogar ter sido questionada estava endiabrado, doido para provar que ainda era Pelé.

Pelé contra a Checoslováquia, no Mundial de futebol de 1970

Getty Images

Vemo-lo contra a Inglaterra: Pelé na área, quase na marca da grande penalidade (ligeiramente descaído para a direita, mas alinhado com o poste esquerdo do guarda-redes, ainda em zona frontal) a receber o esférico depois de um cruzamento do avançado Tostão. Perto dele, três defesas ingleses — e um quarto não muito longe. À entrada da área e descaído para o lado esquerdo, Paulo César Caju. Mas Pelé percebeu: a correr atrás de si, ligeiramente pela sua direita, aproximava-se o número 7 Jairzinho.

Edson Arantes do Nascimento faz um compasso de espera, deixa os defesas abeirarem-se dele e no momento perfeito solta para o colega à direita, que fica sozinho. Os ingleses não estavam preocupados com Jairzinho, só o viam a ele — e Pelé, talvez atleticamente já não tão rápido mas mais astuto e experiente do que antes, festeja depois do número 7 brasileiro colocar na bola na baliza da Inglaterra.

Vemos depois a comitiva brasileira junto à piscina, descontraída, e há elogios ao ambiente que se vivia no grupo. Vemos Pelé e Jairzinho novamente em destaque frente à Roménia na fase de grupos (3-2), com dois golos para o camisa 10 e um para o camisola 7. Não vemos Pelé nos quartos-de-final contra o Peru, porque essa noite (4-2) foi de Jairzinho, Tostão e Rivellino — e não dele, que se limitou a uma assistência para golo. Mas de repente chega a meia-final contra o Uruguai, o Uruguai da má sorte de 1950, a equipa que 20 anos antes ganhara um Mundial no Brasil. E vemos, ouvimos relatos, percebemos que o jogo começou mal para o Brasil: a perder, com a equipa desconcentrada, incapaz de se superiorizar.

De repente Pelé agiganta-se. Diz hoje o que sentiu: “Vou ter que fazer… e aí você começa a puxar”. E torna-se imparável, um homem como o Jordan impossível de travar nas grandes noites dos Bulls, o desportista que como Lance Armstrong nas Voltas à França (aqui alimentado a “a little bit of something”, para usar palavras de Kanye West) parecia profeticamente destinado ao sucesso. Já não a marcar, mas a fazer jogar a equipa, a atrair adversários e a deixar os colegas colher os louros.

Sentado num confortável cadeirão, com o rosto já marcado pela idade, Pelé chora ao viajar pelas memórias. Tenta retomar e controlar-se, “desculpa, eu…” diz de voz embargada, mas não consegue prosseguir e volta a chorar. Aquele foi o momento em que o homem se tornou mito: em que se tornou o único futebolista a vencer três Mundiais de futebol, em que fez de um Brasil a ferro e fogo, mesmo que por breves instantes, um país outra vez de samba e alegria, de sonhos e de festa.

Na final contra a Itália, Estádio Azteca do México, não houve hipóteses para os transalpinos: 4-1. O primeiro a inaugurar o marcador, a fazer o Brasil gritar “golo!” expurgando as raivas e angústias da ditadura, foi Pelé: um incrível desfecho para uma história única no futebol, o desenlace necessário a que o homem se tornasse mitológico. Um golo simples mas que ninguém esquece: Edson Arantes do Nascimento a saltar bem alto ao segundo poste, colocando-se atrás de um defesa, e a cabecear sem espinhas pondo a bola junto ao poste esquerdo do guarda-redes Enrico Albertosi. Mas o recital estava longe do fim: com o jogo em 2-1, Pelé assiste Jairzinho para o terceiro e Carlos Alberto para o quarto.

Pelé a cabecear para o primeiro golo do Brasil à Itália, na final do Mundial de 1970

Mario De Biasi/Mondadori via Getty Images

As imagens de arquivo e os testemunhos recolhidos hoje para o filme são arrepiantes: Pelé em cima dos colegas, em tronco nu, a festejar abraçado por um Brasil personificado em todos aqueles colegas; no balneário, três gritos seus recordados por uma testemunha: “Não morri, não!”; Fernando Henrique Cardoso, histórico Presidente do Brasil, a colocar as coisas nestes termos: “O mito dele é o nosso mito”; e Pelé a vestir a pele da nação, dizendo: “Foi o maior momento da minha vida, mas acho que foi importante para o país. Se perdesse em 70 podia piorar tudo, ser pior tudo. O país deu uma respirada. Acho que 70 foi mais para o país do que para o futebol”.

Em 1971, três meses antes de fazer os 31 anos, Pelé disputou o jogo de despedida da Seleção. Três anos depois, disse adeus ao Santos e foi para os Estados Unidos da América impulsionar o “soccer” — algo que se foi reforçando com o tempo e que chegou ao ponto atual, em que tantos astros e estrelas do futebol internacional passam pela América em fim de carreira. E os números, sempre disputados pelos analistas mas que servem como indício de quem foi Pelé, são clarificadores: 1367 partidas disputadas, 1283 golos marcados. O Rei, o único, o inigualável Pelé, que os realizadores tentaram evitar a todo o custo comparar a qualquer outro, fosse Maradona, Messi ou Ronaldo. Edson foi e é Edson — e siga o drible.

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.