"Perdi por 138 692 votos": as razões da derrota de Freitas do Amaral em 1986 /premium

O Observador publica um excerto do terceiro volume das Memórias Políticas de Diogo Freitas do Amaral, uma análise aos resultados das presidenciais de 1986. O fundador do CDS morreu aos 78 anos.

Em 1986, Diogo Freitas do Amaral disputou as eleições presidenciais com Mário Soares. O socialista acabou por vencer na segunda volta (a primeira foi ganha por Freitas do Amaral), mas numa luta em que a diferença foi curta e a campanha agressiva. No terceiro volume das Memórias Políticas (com o título “Mais 35 anos de democracia, um percurso singular; 1982-2017), o ex-líder e fundador do CDS fez uma análise aos resultados e as causas, aparentes e reais, da derrota eleitoral. É esse excerto (gentilmente cedido pela Bertrand) que o Observador publica. Diogo Freitas do Amaral morreu esta quinta-feira, dia 3 de outubro. Tinha 78 anos.

“Mais 35 anos de democracia: um percurso singular”, o terceiro volume das memórias políticas de Diogo Freitas do Amaral (Bertrand)

Desde 1986 até hoje passaram mais de 30 anos. E as perguntas que todas as pessoas me fazem, quando falam comigo sobre o assunto, são sempre as mesmas: porque é que acha que perdeu? Ou então: como é que, sendo você o único candidato do centro e da direita, e defrontando três candidatos de uma esquerda dividida, deixou escapar a vitória? E por fim: terá havido fraude eleitoral?

Começo já por dizer que sempre considerei que não houve fraude eleitoral: primeiro, porque já vivíamos em democracia; segundo, porque uma diferença de 138 692 votos é demasiado grande para poder ter sido forjada por outras tantas fraudes individuais; e terceiro, porque, a ter havido fraudes, teria forçosamente de ter havido reclamações e recursos para os tribunais. Ora, não houve nenhum.

Que um candidato único do centro e da direita seja batido por um da esquerda representada por vários, não foi caso único: já tinha sucedido anteriormente, em 1980, com Soares Carneiro e, depois de mim, aconteceu com Cavaco Silva em 1996, único candidato do centro e da direita e, mesmo assim, derrotado por Jorge Sampaio, este em competição com vários outros candidatos de esquerda.

Que razões explicam, então, a minha derrota? Ou seja: porque terá havido mais cidadãos eleitores que votaram em Mário Soares do que em mim? Num universo de 5 937 100 votantes, escolheram o meu nome 2 872 064 (48,82%) e o de Mário Soares 3 010 756 (51,18%). Perdi por 138 692 votos. Por que motivo aconteceu isso? Temos de fazer uma análise substancial das realidades políticas. Ao longo dos anos li ou ouvi várias opiniões sobre o assunto. Em minha opinião, há que distinguir as causas aparentes das causas reais.

"As causas reais [da derrota] foram diferentes e mais profundas. Quanto a mim, houve três: o percurso e o currículo de Mário Soares; o contexto político-social do país; e um certo receio da dupla Cavaco-Freitas."

Começo por enumerar – sem as desenvolver – as causas aparentes que foram mais invocadas:

a) Erros estratégicos cometidos por mim ou pela minha campanha;

b) O facto de eu ser um candidato muito à direita, vindo do CDS;

c) Uma alegada agressão a militantes da JS por parte de alguns membros da JC, que terá ocorrido na última semana da segunda volta;

d) A minha “derrota” no último debate televisivo com Mário Soares;

e) A circunstância de eu protagonizar uma “candidatura de projecto” e Soares uma candidatura “meramente presidencial”;

f) A manifesta hostilidade de alguns meios de comunicação social de referência à minha candidatura, como foi o caso do Expresso;

g) A indefinição, silenciosa, do PRD a respeito dos candidatos presidenciais, quer na primeira, quer na segunda volta;

h) O facto de eu não ter tido o apoio expresso de nenhum prelado membro da hierarquia eclesiástica, quando alguns bispos elogiaram outros candidatos. (Isto não é uma crítica aos prelados que se mantiveram calados, como era seu dever, mas aos que elogiaram Maria de Lourdes Pintasilgo “por ser católica e excelente pessoa”, ignorando que ela se havia declarado “marxista”);

i) O apoio de alguns conhecidos empresários a Mário Soares (José Manuel de Mello, Salvador Caetano, Belmiro de Azevedo), perante o silêncio dos muitos mais que me apoiaram;

j) O facto de ter havido pré-candidatos de direita que, irritados com o apoio que o PSD me deu, fizeram declarações públicas contra mim (por exemplo, os generais Altino de Magalhães, Galvão de Melo e Lemos Ferreira, este último a exercer então funções militares de chefia no activo, que por lei o impediam de fazer qualquer declaração política);

l) O facto de algumas figuras da direita mais radical terem votado em Mário Soares e de certa imprensa da mesma área ter feito campanha contra mim.

LUSA

A este propósito, recordo uma história que foi contada mais tarde, na minha frente, pelo meu antigo professor e depois colega de faculdade, Doutor Pedro Soares Martínez. Afirmou ele, perante várias pessoas, que – apesar do seu respeito e consideração por mim – tinha votado em Mário Soares, por ser monárquico e de direita. Perante o espanto geral dos presentes, ele esclareceu: “Todos os presidentes da República são eleitos por uma facção, mas, querendo ser como os reis, pretendem afirmar-se como “presidentes de todos os portugueses”; para isso ser credível, precisam de agradar aos que não votaram neles; se Soares fosse eleito, teria de procurar agradar à direita; se fosse o meu ilustre colega, tinha de agradar à esquerda. Ora, eu antes quero ter um presidente de esquerda que se esforce por agradar à direita, do que um presidente de direita que tenha de esforçar-se por agradar à esquerda.” Todos os presentes ficaram calados. Por mim, não fiz nenhum comentário.

As causas aparentes do resultado eleitoral de 1986 são as que ficam referidas, e muitas outras haverá – tantas quantas as cabeças que pensem no assunto. Mas creio sinceramente que nenhuma delas foi importante ou significativa. As causas reais foram diferentes e mais profundas. Quanto a mim, houve três: o percurso e o currículo de Mário Soares; o contexto político-social do país; e um certo receio da dupla Cavaco-Freitas. O percurso e o currículo de Mário Soares eram nitidamente superiores aos meus. Eu só entrei na vida política nacional com o 25 de Abril de 1974; tinha, portanto, na altura das presidenciais, menos de 12 anos de actuação pública. Mário Soares, nascido em 1924, começou a fazer política aos 18 anos (1942), e tornou-se mais conhecido em Portugal, como lutador antifascista, a partir do livro Portugal Amordaçado, publicado em francês em Maio de 1972 pela Calmann-Lévy (Paris) e, em tradução portuguesa em Outubro de 1974 pela Arcádia, Lisboa. No pós -25 de Abril ganhou as eleições para a Assembleia Constituinte em 1975 e as legislativas de 1976 e de 1983; foi três vezes primeiro-ministro; eu só tinha sido vice-primeiro-ministro e ministro duas vezes, em cerca de três anos. Candidatei-me com 43 anos e ele com 61. Em suma, Soares fazia política há mais de 40 anos, e eu apenas há 12… Tinha sido primeiro-ministro, eu não. Havia, pois, uma enorme diferença de percurso e de currículo a favor dele.

Na verdade, Mário Soares fez política toda a vida: bem no centro do furacão, lutou contra a ditadura de direita até 1974, e contra a tentativa de revolução comunista em 1975. Eu não fiz política antes do 25 de Abril, embora me tenha preparado para ela; e só pude lutar contra o “gonçalvismo” em 1975 numa posição de segunda linha, dada a pequena expressão eleitoral do CDS de então e, sobretudo, por causa dos boicotes sistemáticos vindos do PCP e da extrema -esquerda, civil e militar. Assim, eu aparecia como um candidato de direita, enquanto Mário Soares – curiosamente – surgia como grande aposta “ao centro”, porque tanto lutara contra uma ditadura de direita como contra uma tentativa de ditadura de esquerda.

"O que é menos natural – reconheça-se – é que eu próprio tenha conseguido, contra Mário Soares, 48,8% dos votos, 'obrigando-o' a ficar com apenas 51,2%. Face à realidade sociopolítica do país nos primeiros anos pós -25 de Abril, o que era mais provável acontecer era que eu ganhasse por pouco ou perdesse por muito (talvez, 35% a 40%)."

Por outro lado, havia a considerar, além desse primeiro factor, o segundo, isto é, o contexto social e político em que o país se encontrava em 1986. Na verdade, após 48 anos de um regime de direita conservadora e autoritária, Portugal virou a página e, como era natural, passou a votar maioritariamente à esquerda. De 1975 (eleições para a Constituinte) até 1986 (eleições presidenciais), a soma dos votos do PS com o PCP e a extrema-esquerda foi sempre maior do que a soma do PSD com o CDS, mesmo quando estes, em coligação pré-eleitoral com o PPM (e do PSD com os Reformadores), obtiveram maiorias parlamentares: nas legislativas de Outubro de 1980, com o melhor resultado de todos até aí, a AD não ultrapassou os 47,5% de votos validamente expressos, enquanto a esquerda somou 52,5%. De resto, e em termos de eleições presidenciais, se compararmos o resultado do candidato da AD em 1980, Soares Carneiro (40%), com o resultado de toda a esquerda nas mesmas eleições (60%), poderemos concluir – de forma objectiva – que eu dificilmente poderia ganhar a Mário Soares se este obtivesse o apoio do PCP, como veio a verificar-se, apesar de Álvaro Cunhal ter assegurado, por várias vezes, que o PCP jamais votaria em Soares numas eleições presidenciais…

[“Viajei por toda e qualquer estrada”. Memórias e frases de Freitas do Amaral]

Mesmo assim, os meus resultados na segunda volta foram os melhores de sempre do centro e da direita até 1986 – tive mais 1,3% do que a AD nas legislativas de 1980, e mais 8,8% do que o general Soares Carneiro nas presidenciais –; enquanto os números de Mário Soares foram, por causa dos meus bons resultados, os piores do conjunto da esquerda até 1986 – obteve apenas 51,2%, enquanto a esquerda no seu todo atingira 58,5% em 1975, 54% em 1976, e 57% em 1985. Repare -se bem: das legislativas de Outubro de 1985 para as presidenciais de Fevereiro de 1986, em apenas cinco meses, a esquerda desceu de 57% para 51,2%. Aparentemente, eu fui lá buscar cerca de 5,8% dos votos.

Vale a pena, creio, fazer outro teste: examinar os resultados da segunda volta das presidenciais de 1986, distrito a distrito, bem como nas duas regiões autónomas. Não o faço aqui em pormenor, mas, em síntese, o que se passou foi o seguinte:

  •  ganhei em todos os distritos em que a AD venceu em 1980 (Viana do Castelo, Braga, Vila Real, Bragança, Guarda, Viseu, Aveiro, Leiria e Castelo Branco), bem como nos Açores e na Madeira (onde não houve AD);
  • em todos os distritos do continente (quer eu tenha ganho a Mário Soares, quer tenha perdido) obtive sempre, tanto na primeira como na segunda volta, um número de votos superior ao da AD em 1980, salvo no Porto, onde fiquei com menos 0,1%;
  • ganhei a Mário Soares nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, com vitórias expressivas (respectivamente 59,5% e 62,7%);
  • Mário Soares ganhou apenas nos distritos onde habitualmente havia, e tem havido frequentemente, maioria de esquerda: Porto, Aveiro, Coimbra, Santarém, Portalegre, Évora, Beja, Faro e, sobretudo, Lisboa e Setúbal; –
  • contudo, nos dois distritos mais populosos do país, Mário Soares teve uma significativa diferença de votos para mais: a) Lisboa: M. S., 736 144; F. A., 561 189. Diferença de 174 955; b) Setúbal: M. S., 289 191; F. A., 118 790. Diferença de 170 401.

LUSA

Ora, o que é que isto significa? Significa, muito simplesmente, que os dois distritos mais populosos do país – distritos urbanos, industriais e com elevada percentagem de trabalhadores fabris –, onde sempre tinha havido maioria de esquerda de 1975 a 1985 (em seis eleições para deputados), voltaram a tê-la nas presidenciais de 1986. Portugal era, à época, maioritariamente de esquerda: é lógico e natural, portanto, que o candidato de toda a esquerda tenha ganho ao candidato apoiado pelo centro e pela direita.

O que é menos natural – reconheça-se – é que eu próprio tenha conseguido, contra Mário Soares, 48,8% dos votos, “obrigando-o” a ficar com apenas 51,2%. Face à realidade sociopolítica do país nos primeiros anos pós -25 de Abril, o que era mais provável acontecer era que eu ganhasse por pouco ou perdesse por muito (talvez, 35% a 40%). O facto de eu ter obtido, contra um gigante político como Mário Soares, 48,8% dos votos comprova que não foi temerária a minha candidatura, nem insuficiente ou mal executada a minha campanha eleitoral.

Não têm razão, portanto, aqueles que – antes e depois de 1986 – afirmaram que Freitas do Amaral, por ser oriundo do CDS e não do PSD, não podia ganhar qualquer eleição presidencial. Essa interpretação não me parece correcta. Por um lado, eu não era mais à direita do que a generalidade do eleitorado do PSD, já que consegui ultrapassar, em quase todo o país, os melhores resultados da AD liderada por Sá Carneiro em Outubro de 1980. Se, como ficou dito, os meus resultados foram em geral melhores do que os da AD em 1980 – tanto nos distritos onde eu ganhei a Mário Soares como nos que perdi para ele –, parece evidente que a derrota eleitoral não se ficou a dever ao facto de eu ser “demasiado à direita” ou de “vir do CDS”, mas sim à circunstância de a esquerda ter, desde há 13 anos seguidos, mais votos do que o centro e a direita juntos. Naquela altura, qualquer candidato do PSD, mesmo que fosse do centro -esquerda, seria fatalmente derrotado por Mário Soares. Talvez por isso é que nenhum se atreveu a avançar…

No decurso da elaboração destas Memórias observei algo em que nunca tinha reparado: quer antes de 1986, quer depois desse ano, nunca qualquer candidato presidencial apoiado pelo PSD e pelo CDS recebeu mais votos do que eu, quer tenha sido derrotado, quer tenha sido eleito presidente da República (ver quadro 3). Daqui parece poder concluir -se que, perante adversários politicamente menos fortes ou menos carismáticos do que Mário Soares, teria sido eventualmente possível uma vitória minha.

"Não me estava destinado o sonho, para o qual me tinha conscienciosamente preparado, de chegar ao cargo de mais alto magistrado da Nação. Mas a vida continuou. E, sob o aspecto político, estavam-me reservadas novas e agradáveis surpresas, para mim totalmente inesperadas e surpreendentes."

Alguns comentários da grande imprensa:

“A candidatura de Freitas do Amaral teve ainda a virtude de separar as águas da direita e da esquerda, permitindo à primeira contar com rigor todos os votos de que dispõe. Freitas foi, neste aspecto, o melhor candidato que a direita poderia ter arranjado” (José António Saraiva, “1986: o balanço”, Expresso, 27 de Dezembro de 1986, p. 3).

“Não foi decerto impunemente que, sob o “lema “Prá Frente Portugal”, se assistiu a uma autêntica sublevação [pacífica] do País em nome da mudança e de um corte com o passado recente. […] Freitas do Amaral [deu] uma lição de dignidade na declaração de vencido” (Diário de Notícias, 18 de Fevereiro de 1986, p. 8).

E Dinis de Abreu (director adjunto do Diário de Notícias) comentou: “Inicia-se hoje um novo ciclo da vida política portuguesa. Empossado pelo Governo, Cavaco Silva fica responsável perante a História de protagonizar um desafio que não tem paralelo no pós-25 de Abril. Sá Carneiro não teria sonhado, talvez, que o PSD pudesse chegar sozinho tão longe e tão cedo. Freitas do Amaral tê-lo-á pressentido quando esteve à beira de conseguir ser eleito no sprint final para a presidência.” (Diário de Notícias, 11 de Agosto de 1987, “Um capital a prazo”, p. 1.)

O terceiro factor que contribuiu para a minha derrota (mas de que só me fui dando conta mais tarde) foi o receio, que se verificou à esquerda e ao centro – quer na ala moderada do PSD, quer sobretudo na do PS –, de que a dupla Freitas-Cavaco pudesse puxar o país demais para a direita, ou adoptasse um estilo demasiado autoritário. É claro que esse risco não existia, mas sei que alguns o recearam. E os medos têm um inegável peso eleitoral.

***

Houve, pois, três razões principais pelas quais se explica adequadamente a minha derrota: não foi apenas a personalidade e o currículo excepcional de Mário Soares, ou o contexto social e político do país, que virou à esquerda após a Revolução de Abril, ou o receio da dupla Cavaco-Freitas: foram esses três factores conjugados que ditaram o resultado final.

Não me estava destinado o sonho, para o qual me tinha conscienciosamente preparado, de chegar ao cargo de mais alto magistrado da Nação. Mas a vida continuou. E, sob o aspecto político, estavam-me reservadas novas e agradáveis surpresas, para mim totalmente inesperadas e surpreendentes.

Recomendamos

Populares

Últimas

A página está a demorar muito tempo.