Dark Mode 96,7 kWh poupados com o MEO
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Hoje é um bom dia para mudar os seus hábitos. Saiba mais

i

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Pneumónica. O tabu que rodeou a instalação do hospital de campanha no Liceu Camões /premium

Em 1918, no 1.º período, não houve aulas nem notas, o secretário adoeceu e morreu a filha de um professor. Mas a causa "é tabu" nos livros da escola. "Há um vulto de secretismo nisto tudo".

    Índice

    Índice

As pautas do 1.º período ficaram por preencher no ano letivo 1918/1919. Não foram atribuídas notas a um único aluno que fosse — um deles, Marcelo Caetano. Da 1.ª à 7.ª classe, em todas as disciplinas, ficou tudo completamente em branco — é notório que aquele 1.º período não existiu no Liceu Camões, em Lisboa. O que não quer exatamente dizer que esse facto esteja explícito em qualquer um dos três livros de registo de avaliações desse ano. Não está ali nem em qualquer outro lado. É como se tivessem querido apagar este período da história.

Há um vulto de secretismo nisto tudo. Não se fala. É tabu”. Francisco Pereira, professor de História no Liceu Camões (agora Escola Secundária de Camões) e responsável pelo arquivo escolar, vai-se questionando, em jeito de indignação, à medida que folheia um dos livros que “um dia” havia de “servir” para “se lançar as notas de frequência e procedimentos” — naquele caso e pelo que ainda se consegue ler na primeira página, “dos alunos da 6.ª e 7.ª classe de Ciências e Letras”. “Não há aulas e não se diz porquê. O Conselho Escolar reúne-se, não se atribui notas e também não se diz porquê. Morreu a filha do professor de Ginástica e também não se diz porquê. Morreram alunos e não se diz porquê. Era tudo um véu”, explica ao Observador.

Agora como na altura, toda a gente sabia o porquê para todos esses acontecimentos. Naquele outubro, Portugal enfrentava o segundo surto e o mais mortífero da epidemia da gripe pneumónica e o ginásio do Liceu Camões tinha sido transformado num hospital de campanha. O mesmo ginásio que agora, mais de 100 anos depois, foi adaptado para uma sala de aula para que os alunos que regressaram esta semana  à escola possam cumprir os distanciamentos sociais de forma a evitar a propagação de uma nova doença: a pandemia do coronavírus.

As balizas, colchões de ginástica e os cestos de basquetebol estão arrumados a um canto. Em pleno centro do campo de jogos, à semelhança do que em 1918 foi feito com 300 camas, 20 estiradores foram distribuídos de forma a garantir que os alunos que assistem às aulas de Desenho e Geometria Descritiva estão à distância adequada. É que a pandemia apanhou a Escola Secundária de Camões em obras e, com mais de metade da área a ser alvo de intervenção, o espaço para pôr os alunos é escasso.

Segundo estima o diretor da escola, João Jaime Pires, apenas um terço da lotação está disponível. Todas as restantes salas estão em obras e os contentores onde os alunos estavam a ter aulas temporariamente, antes de a escola ter fechado, são muito pequenos para o contexto atual de pandemia. Assim, tal como a biblioteca, também o ginásio foi adaptado e serve agora, não para curar doentes como em 1918, mas para evitar contaminações.

O secretário doente e as atas da reunião do Conselho Escolar que não mencionam a epidemia

Na reunião do Conselho Escolar (o que hoje corresponde ao Conselho Pedagógico) de 28 de outubro 1918, “todos os membros” estiveram presentes “exceto o secretário”. Porquê? “Por se achar doente”, lê-se numa das páginas de um caderno onde se escreviam, à mão, as atas das reuniões. “Era o secretário que fazia e assinava a ata”, detalha ao Observador o professor Francisco Pereira, numa pausa para explicar o que acabara de ler, deixando no ar a hipótese de que o tal secretário, Augusto Pereira, teria sido contaminado com a gripe pneumónica. E continua a leitura: “Verificou-se as contas e a escrita, assim como o saldo existente”. Nada mais.

"Todos os membros" estiveram presentes "exceto o secretário". Porquê? "Por se achar doente", lê-se nesta página de um caderno onde se escreviam, à mão, as atas das reuniões.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Pouco mais de 10 dias haviam passado desde que o Liceu Camões fora transformado num hospital de campanha, e naquela que foi uma das primeiras reuniões do Conselho Escolar desde então, o assunto não foi mencionado — ou pelo menos, se foi, não ficou registado em ata, contrariando o que seria de esperar. Segundo Francisco Pereira, seria expectável que as reuniões desse mês servissem também para serem dadas explicações aos professores de como o 1.º período iria decorrer — ou não decorrer, neste caso.

A 29 de novembro, quando acontece uma nova reunião, o secretário continua ausente “por se achar doente”. Só em janeiro do ano seguinte é que há registo de uma ata em que “todos os membros” estão presentes e é o tal secretário a assiná-la novamente. Francisco Pereira tem uma certeza: o secretário não morreu da doença, mas acredita que essa doença possa ter sido a pneumónica.

"O professor de Ginástica disse e avisou prudente e sensatamente, que ia haver uma segunda fase da doença — como houve, que foi a mais mortífera, depois ainda houve uma terceira e há quem diga até que houve uma quarta, mas se houve foi muito levezinha. Ele alertou para que se tomassem medidas para prevenir um segundo surto. Também parece que não ligaram muito, ficou o registo em ata, mas pronto"
Francisco Pereira, professor de História no Liceu Camões

O professor de História afasta a ideia de que se vivesse algum género de censura no Liceu Camões ou mesmo que os docentes tivessem recebido instruções para não mencionar a epidemia, nos registos escolares. Simplesmente “ninguém queria falar” sobre o assunto. Até porque não foi segredo.

Prova disso são dois ofícios — um de 11 de outubro e outro de 14 de outubro de 1918 — que têm o assunto destacado e escrito a vermelho: “Liceu Camões convertido em Hospital”. Os anos já levaram algumas letras, mas é possível ler que “grande parte” da escola foi transformada para prestar “todo o auxílio possível ao justo combate à epidemia”. O reitor garante ainda: “Continua a desempenhar-se todo o serviço normal do expediente do liceu”. Até porque o seu “gabinete” e “secretariado” estão “inteiramente isolados do hospital”. “O meu gabinete está transformado em sala de Conselho e de professores”, indica.

Francisco Pereira, professor de História no Liceu Camões (agora Escola Secundária de Camões) e responsável pelo arquivo escolar

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

São ainda deixadas algumas instruções: “Alunos não entram no edifício e as suas necessidades de serviço são-me transmitidas por empregados de liceu ou associações de estudantes. Na higiene geral e na parte que me respeita, procede em harmonia completa com o diretor-geral do hospital”.

Depois de tomada a decisão, em apenas três dias, a escola foi desinfetada, os alunos foram mandados para casa e instalou-se uma enfermaria com 300 camas. Segundo detalha o historiador Fernando Rosas, no documentário da RTP História a História – “Gripe pneumónica, a pandemia de 1918-1919”, os doentes do sexo masculino foram separados dos doentes do sexo feminino: no ginásio e nas salas do primeiro andar funcionava a enfermaria dos homens; no rés-do-chão e nas salas do primeiro andar da ala sul, as enfermarias de mulheres.

O professor de Ginástica alerta para um segundo surto, mas “parece que não ligaram muito”

A letra antiquada é difícil de perceber, a tinta já está enfraquecida e alguns cantos das folhas estão queimados devido a um incêndio no arquivo do Liceu Camões em 2005. De máscara e de óculos embaciados por ela, o professor de História que, admite, vê muito mal, vai fazendo um esforço que o deixa quase sem fôlego para conseguir decifrar o que está escrito nas atas. Mas o treino é muito e o responsável do arquivo consegue ler praticamente todas as palavras.

De todas as atas escritas entre 1919 e 1920, divididas por quatro cadernos, uma escrita entre o primeiro e o segundo surto é, para Francisco Pereira, a mais importante. Foi escrita antes do arranque do ano letivo — que, viria, na verdade a nunca arrancar. “O professor de Ginástica disse e avisou prudente e sensatamente, que ia haver uma segunda fase da doença — como houve, que foi a mais mortífera, depois ainda houve uma terceira e há quem diga até que houve uma quarta, mas se houve foi muito levezinha. Ele alertou para que se tomassem medidas para prevenir um segundo surto. Também parece que não ligaram muito, ficou o registo em ata, mas pronto“, conta ao Observador.

Ambulância de assistência aos epidemiados - O novo auto-macas adquirido pela Associação dos Bombeiros Voluntários Lisbonenses. 11 de outubro de 1918

Arquivo DN

E o professor de Ginástica tinha, de facto, toda a razão. Não só veio um segundo surto como este foi o mais mortífero. E, por isso, houve a necessidade de criar dois hospitais civis: além do Liceu Camões, também o extinto Convento das Trinas do Mocambo, na Estrela, foi transformado em hospital. Ainda assim, estima-se que a epidemia que matou milhões de pessoas em todo o mundo fez entre 50 mil a 70 mil vítimas mortais em Portugal.

Muitos alunos em ensino doméstico. Ou expulsos por não pagarem as propinas

Com a segunda vaga da pneumónica a atingir em força o país em outubro de 1918, as aulas não chegaram sequer a começar, nem no Liceu Camões nem em qualquer outra escola. Por isso, não é de espantar que as pautas das notas do 1.º período estejam completamente vazias — um dos alunos que ficou sem aulas foi Marcelo Caetano que andava na 3.ª classe, o equivalente ao 7.º ano atualmente, (e 50 anos mais tarde, em 1968, viria a ser o sucessor de Salazar na Presidência do Conselho). É de espantar sim que não haja nenhuma referência ao porquê — mesmo embora houvesse, em cada uma das folhas, um espaço para explicar esta ausência: a caixa das observações.

Um dos alunos que ficou sem aulas foi Marcelo Caetano que andava na 3.ª classe, o equivalente ao 7.º ano atualmente

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Além da linha em branco, outros detalhes parecem revelar o que se passou naquele ano letivo. Por exemplo, nessas mesmas pautas estão sinalizados os muitos alunos que passaram para ensino doméstico em fevereiro e março. Ou seja, passaram a ter aulas em casa, estudando por si só ou, para quem podia, contratando um professor. Francisco Pereira consegue fazer uma comparação com os tempos atuais: “Esta semana praticamente não temos alunos porque os pais não os deixam vir por receio”. Pode, de facto, ter sido por receio que muitos alunos passaram a estudar em casa ou também porque “alguns morreram”.

Há também alguns alunos que perderam o ano “por faltas”. A razão pela qual faltaram é que é desconhecida. “Como é que alguma vez vamos saber?”, questiona o professor de História. Outros ainda foram “eliminados” por falta de pagamento das propinas — o que, explica Francisco Pereira, era normal: “As pessoas não tinham dinheiro”.

Aproveitaram a reunião do Conselho Escolar para manifestar sentimentos a um colega "pelo falecimento de sua filha". "Morre nova, não é normal. E não dizem porquê", aponta o professor de História, acrescentando: "No Estado Novo, há um miúdo que morre: mete a cabeça de fora do autocarro e passa outro. Não se falou de outra coisa, está escrito nas atas. Há também um professor que morre atropelado pelo carro do ministro da Educação. Falou-se também. Houve outro que morreu de coração. Também se falou". A explicação será novamente o tabu. "Se alguém tinha a doença era estigmatizado e, por isso, não se falava.

O ano letivo “anormal” por “casos de força maior” e a única referência à epidemia

Era preciso que o 2.º período arrancasse em janeiro. E por isso, nesse mês, o Conselho Escolar reuniu várias vezes. Na ata da reunião do dia 8, é possível até verificar que os professores concordaram que o período anterior não tinha sido “normal em virtude dos casos de força maior sucedidos” — sem especificar ao certo o quê. “Resolveu o Conselho Escolar que se não realizará a sessão correspondente ao primeiro período do ano letivo, mas que os professores de cada turma trocassem entre si informações sobre as matérias dadas”, lê-se ainda. Noutra reunião, dois dias depois, é reforçada a necessidade de os docentes trocarem impressões entre si para “atenuar quanto possível as circunstâncias anormais em que decorre o presente ano letivo” — mais uma vez, sem referir a pneumónica.

Sala onde se reunia o Conselho Escolar

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Outra ata dá conta de que o Conselho Escolar deliberou sobre a “possível redução do programa do atual ano letivo” uma vez que não tinha havido 1.º período e que agora o tempo era mais curto para dar a matéria toda. No entanto, todos os professores consideraram que “era possível dar tudo”. E assim foi.

Há apenas uma única vez em que a palavra epidemia é escrita numa ata. Também em janeiro, numa reunião, fala-se de uma “verba extraordinária que foi concedida para reparação dos estragos provenientes da hospitalização a que o Liceu foi adaptado durante o período da epidemia“.

A morte da filha do professor e o aluno doente que perdeu o ano

Apesar de em 1919 a doença ainda não estar extinta, foi menos letal. Ainda assim, há detalhes nas atas desse ano que parecem demonstrar a presença clara da gripe. Em junho, por exemplo, numa reunião “o professor de Desenho Joaquim Silva disse também que a doença do dito aluno terminou em 31 de maio, como prova o atestado médico, e depois disso veio às aulas, cometendo as faltas em junho com as quais perdeu o ano e não havendo mais nada a fazer”. Para Francisco Pereira é bem possível que esta doença tivesse sido a pneumónica.

Depois, a 12 de novembro de 1919, lê-se também numa ata que aproveitaram a reunião do Conselho Escolar para manifestar sentimentos a um colega “pelo falecimento de sua filha”. “Morre nova, não é normal. E não dizem porquê“, aponta o professor de História, acrescentando: “No Estado Novo, há um miúdo que morre: mete a cabeça de fora do autocarro e passa outro. Não se falou de outra coisa, está escrito nas atas. Há também um professor que morre atropelado pelo carro do ministro da Educação. Falou-se também. Houve outro que morreu de coração. Também se falou”.

Fotografias de outubro e novembro de 1918 da pneumónica em Portugal.

Arquivo DN

A explicação será novamente o tabu. “Se alguém tinha a doença era estigmatizado e, por isso, não se falava. E eu sei isso pela minha família”, diz, para depois contar uma história: “O meu avô esteve na Primeira Guerra. Antes de voltar, a primeira mulher dele pediu ao pai dela uma pistola. Ele acabou por lhe dar uma pistola, mas descarregou. Quando o meu avô chega da Guerra — foi daqueles que mandaram para todo o lado, foi para África, depois foi para a França, depois para a Flandres —, depois de ter sobrevivido à morte em todo o sítio, chega a casa e a mulher diz-lhe: ‘Eu estou doente. Vou morrer e tu vais comigo’. E aponta-lhe a pistola. Mas estava descarregada. Morreu pouco depois, o meu avô casou com a minha avó e cá estou eu”.

Francisco Pereira não conta esta história por acaso. “Quando foi o centenário aqui [no Liceu Camões], eu falei nisto e a minha mãe ficou verde. São histórias de família que ela não queria que se falasse porque as pessoas não querem recordar-se [da pneumónica]”, conta, acrescentando: “Noutro dia, a minha mãe disse-me uma coisa que eu fiquei espantado: que o meu pai ainda se lembrava que os corpos se empilhavam nas ruas — isto no Rio de Janeiro, que ele estava lá —, mas que cá também era assim porque não havia caixões para enterrar as pessoas. Só passado este tempo todo é que ela me contou isto”.

O ginásio “moderno” que foi palco para a política, cinema e teatro

Com o passar dos anos, o ginásio — “moderno, para a época”, descreve o atual diretor — teve diversas funções além daquela para o qual foi desenhado pelo arquiteto Ventura Terra. É um “local simbólico” e um “auditório para a cidade”, descreve João Jaime Pires, enumerando: “Salazar fez discursos aqui. O comício de Humberto Delgado também foi aqui. Secções de voto, os serões para trabalhadores da FNAT (Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho), atividades da [Organização Nacional] Mocidade Portuguesa”.

O ginásio "moderno" que foi palco para a política, cinema e teatro

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Mas o ginásio foi também transformado em cinema e teatro. Na varanda interior que dá a volta a todo o ginásio, no lado oposto ao do palco, ainda está o projetor de filmes. “O realizador António da Cunha Telles e o ator Rui Mendes iam buscar os filmes perto do Marquês de Pombal, traziam para aqui e cobravam bilhetes. Junto ao palco, há um alçapão que dava para a cave onde guardavam as cadeiras”, conta o diretor da Escola Secundária de Camões, lembrando que “grandes atores” passaram também por ali em espetáculos de teatro. Luís Miguel Cintra, Jorge Silva Melo, Canto e Castro e, mais recentemente, Beatriz Batarda e Ricardo Pereira são alguns exemplos.

O ginásio, que foi “um espaço de grandes representações” políticas e culturais, já acusa a idade que tem. As paredes estão bolorentas e a tinta já escama. A madeira do teto também está velha e as ripas vão-se separando umas das outras. Mas este ano, em plena pandemia, mais de 100 anos depois de ter sido hospital para outra, vai finalmente ser restaurado.

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.