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© Igor Martins / Global Imagens

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Poças. 100 anos de vinho do Porto produzido em nome da família /premium

É a empresa mais portuguesa do vinho do Porto e celebra, em 2018, 100 anos de história. Viagem ao império familiar que o bisavô fundou em plena guerra mundial e da qual os bisnetos ainda cuidam.

20 de setembro, Porto. O momento mais aguardado da noite não está na ementa. Quer-se o efeito surpresa ao máximo e evita-se falar no assunto. Só depois da sobremesa e dos queijos — já os estômagos descansam e os corpos caem descontraidamente nas costas das cadeiras — é servido o vinho do Porto muito velho que pretende celebrar os 100 anos da Poças, a empresa mais portuguesa do vinho do Porto.

O jantar de gala acontece na antiga residência dos avós da poetiza Sophia de Mello Breyner, sede do Jardim Botânico do Porto. Por cima das nossas cabeças está a réplica suspensa de um esqueleto de dinossauro, abaixo um cálice à espera do fortificado que tanto tempo levou para aqui chegar. O silêncio congela a sala em expetativa quando o vinho — embargado numa garrafa da Vista Alegre criada de propósito para o efeito — começa a ser servido. Os primeiros tragos são de contemplação: apenas 100 unidades vão ser vendidas e, dessas, somente 5 ficarão em solo português (e isto é só uma estimativa).

A história — que já tem barbas — começa com a compra e venda de aguardente. O vinho do Porto só chegou depois, em 1932, quando o comerciante Manoel Domingues Poças Júnior herdou a Quinta das Quartas, no Douro, como pagamento de uma dívida. Entre o espólio aí encontrado estava um lote de vinhos do Porto que atualmente se encontra na terceira idade, entre os 90 e os 100 anos, um pulmão interessante para o nicho dos vinhos antigos. Dos cascos envelhecidos pelo tempo chega agora um rótulo único — o tal Poças 1918, um tawny que fica à venda em dezembro por 3,500 euros.

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O vinho do Porto está na origem da família Poças, é viga estruturante numa casa com cada vez mais assoalhadas. 1918, poucos meses antes do armistício da Primeira Grande Guerra, marca o ano zero. Manoel Domingues Poças Júnior, já de si nascido na plenitude do vinho do Porto, cria uma empresa dedicada ao comércio da aguardente vínica, bebida essencial para a produção do fortificado que já então punha Portugal na boca de tantos. A sede é inaugurada em Vila Nova de Gaia, onde ainda hoje permanece. “Primeiro o tio do fundador, depois o irmão, a esposa e os netos, toda a família Poças foi sendo implicada no projeto, até aos dias de hoje, seis membros da família na administração da empresa, quatro da quarta geração”, lê-se na página D’Uva, um projeto que junta 12 mulheres no mundo do vinho — Maria Manuel Maia, da Poças, incluída.

15 de novembro, Lisboa. Pedro Pintão está sentado num dos sofás da Casa da Comida. O almoço de apresentação das novas colheitas, o Poças 1918 incluído, ainda pesa no estômago. Já todos os convidados se foram embora, os empregados de mesa limpam pratos, ajustam toalhas e arrastam cadeiras. O diretor de marketing é indiferente ao ruído e prontifica-se a explicar o ADN do negócio de família.

Cem anos volvidos, a quarta geração toma conta da herança vínica: Pedro Pintão é o diretor de marketing e comunicação, Jorge Manuel Pintão é o enólogo, Maria Manuel Maia está encarregue da viticultura e Paulo Pintão da parte administrativa e financeira.

Pedro Pintão não chegou a conhecer o bisavô e fundador da empresa que, tantos anos depois, continua em mãos exclusivamente portuguesas — é feito raro, raríssimo. Do que lhe contam, reconhece-lhe a austeridade e, ao mesmo tempo, a honestidade. Quando o pai de Pedro entrou para a empresa com apenas 15 anos, o bisavô Manoel ter-lhe-á dito “Tu não sabes fazer nada, portanto quem te vai pagar o salário sou eu e não a empresa”. De Manoel Domingues Poças Júnior sabe-lhe ainda o grande sonho, que só foi cumprido após a sua morte: o fundador queria ver concluída a estrada de acesso à Quinta das Quartas. A terra batida seria eventualmente transformada em alcatrão, mas o chão de cimento ficou por percorrer.

A Poças está longe de ser a empresa de vinho do Porto mais conhecida, mas leva um slogan que lhe fica bem, sobretudo num sector tradicionalmente dominado pela ascendência britânica e pelas fusões e aquisições que marcaram a transição para o século XXI: “o lado português na história do Douro vinhateiro”. São três as quintas que detém nas três sub-regiões do Douro: Quinta das Quartas, que nunca saiu da família, Santa Bárbara e Vale de Cavalos (juntas, somam 100 hectares, 75 dos quais com vinha em produção). “O facto de termos quintas espalhadas em diferentes regiões permite-nos beneficiar da diversidade que a região oferece”, esclarece Pedro Pintão ao Observador.

Jorge e Pedro Pintão, enólogo e diretor de comunicação da Poças

É ele quem argumenta que o Douro é um microcosmos de diferentes terroirs — à altitude são capazes de ir buscar a frescura e a acidez e aos solos de xisto que transitam para granito a mineralidade (falando sobretudo dos vinhos de mesa). Os colheitas são um clássico da casa, que no final da década de 1980 — muito por influência de Jorge Manuel Pintão, o enólogo — juntou-se à maré de pioneirismo impulsionada por poucos e rumou ao encontro dos vinhos DOC Douro. O fenómeno é particularmente recente — leva cerca de 30 anos — e teve de crescer “sempre num ambiente de alguma suspeita”. Se hoje é comummente aceite a qualidade dos vinhos DOC Douro, tanto brancos como tintos, durante muito tempo acreditou-se que o savoire-faire da região destinava-se apenas aos licorosos que a impulsionaram muitos anos antes.

“Na região, ainda hoje as uvas que não têm benefício, que se destinam aos vinhos do Douro, são referidas como uvas de pasto, o que claramente tem uma conotação negativa. Isso talvez tenha feito com que o desenvolvimento dos vinhos maduros se tenha atrasado. As pessoas tinham receio de investir, de começar… de ouvir e combater críticas”, continua Pedro Pintão. O Coroa D’Ouro foi o primeiro vinho de mesa da Poças, nasceu em 1990. Outros se seguiram. De lá para cá, a empresa aumentou o espólio e atualmente tem 7 referências de vinho do Douro e 30 de vinho do Porto. O caminho não tem sido fácil e o topo de gama Símbolo — que começou uma nova vida em 2014 com o contributo do enólogo francês Hubert de Boüard — é um esforço nesse sentido (a colheita de 2015 recebeu 94 pontos na revista do crítico Robert Parker e na Wine Enthusiast e ainda 92 pontos na Wine Spectator).

Manuel Poças Pintão nunca pressionou o filho único a entrar na empresa, mas o caminho acabaria por ser inevitável para Pedro e para os primos, que desde cedo cresceram ao redor do vinho. Idas às caves, férias no Douro e perguntas inocentes sobre a eventual sucessão fizeram parte da infância de todos.

Cem anos volvidos, a quarta geração toma conta da herança vínica: Pedro Pintão é o diretor de marketing e comunicação, Jorge Manuel Pintão é o enólogo, Maria Manuel Maia está encarregue da viticultura e Paulo Pintão da parte administrativa e financeira; dois membros da terceira geração (Acácio Maia, pai de Maria Manuel Maia, e Jorge Pintão, pai de Jorge Manuel Pintão e Paulo Pintão) estão ao leme da empresa — todos fazem parte da administração. Ao todo, a Poças emprega 56 pessoas a tempo inteiro, sem contar com os colaboradores que são contratados em momentos específicos, como acontece em época de vindima, apesar dessa mão-de-obra ser cada vez mais escassa e menos especializada — a crítica não é exclusiva deste produtor.

O pai de Pedro, o já reformado Manuel Poças Pintão, que trabalhou na empresa durante mais de 50 anos, foi um grande percursor do vinho do Porto. No seu tempo — e que ricos tempos terão sido — foi presidente da Associação de Exportadores de Vinho do Porto e coautor do livro Dicionário ilustrado do Vinho do Porto, que chegou a ser recomendado pelo atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, quando este tinha um espaço de comentário na TVI e terminava as intervenções com sugestões literárias.

Manuel Poças Pintão nunca pressionou o filho único a entrar na empresa, mas o caminho acabaria por ser inevitável para Pedro e para os primos, que desde cedo cresceram ao redor do vinho. Idas às caves, férias no Douro e perguntas inocentes sobre a eventual sucessão fizeram parte da infância de todos. O cheiro a vinho entranhou-se desde cedo, Pedro aprendeu a conviver com ele. “Acho que sempre tive a ideia de que ia trabalhar aqui. Optei por não vir logo para a empresa do pai…”, conta, referindo-se a eventuais estigmas derivados de ligações familiares que se cruzam com ligações profissionais. Também ele é pai de três filhos, entre os 5 e os 9 anos, de nomes Teresa, Manuel e Francisco. O trio pode ou não seguir as pisadas do pai, que admite ficar “todo contente” de cada vez que um deles fala em trabalhar na Poças. Por agora, quer ajudá-los a criar memórias, motivo pelo qual à última hora cedeu e levou os três filhos à gala do centenário, no passado dia 20 de setembro. “Pode ser que nenhum deles se interesse pelo vinho, isso não me tira o sono. Mas acho giro um dia, mais tarde, olharem para as fotografias e pensarem que estiveram lá.”

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O vinho centenário, provado pela primeira vez na gala, não é a única forma de celebrar um século de vida. Ao longo do ano, a Poças tem promovido um programa cultural envolvendo artistas como os Capitão Fausto, Afonso Reis Cabral, Companhia do Teatro do Bolhão ou Bordalo II. Nos planos comemorativos está também a edição do livro 100 anos, 100 objetos, que resultou da vontade de catalogar e preservar documentos e objetos que dizem respeito à história da empresa, encontrados durante os trabalhos de recuperação dos armazéns da Poças, os quais viram recentemente a luz do dia na forma de um novo centro de visitas, em Vila Nova de Gaia. Afinal, são 100 anos, Poças!

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