Pode um intelectual ouvir Adele sem remorsos?

21 Maio 2016320

Dez Grammy, um Óscar, um milhão de cópias de "25" em 10 dias. Vai encher a Meo Arena sábado e domingo mas será uma diva pop igual às outras? Ou será que um intelectual pode chorar no ombro dela?

Conta-se que, certa vez, uma amiga de Vasco Graça Moura ia despistando o carro na auto-estrada quando este perguntou quem eram os Beatles. Pode ser mito, mas dá um bom princípio de conversa. Muito intelectual, frequentemente, faz gala de não conhecer o mainstream, mas mulher ou homem inteligente que se preze tenta compreender o mundo em que vive – que se sinta ou não bem nele, é toda uma outra questão. Podíamos, portanto, tentar ignorar Adele, mas a verdade é que boa parte do mundo em que vivemos vive ao som dela.

O alinhamento dos concertos de Adele esta semana em Zurique

Hello
Hometown Glory
One and Only
Rumour Has It
Water Under the Bridge
I Miss You
Skyfall
Million Years Ago
Don’t You Remember
Send My Love (to Your New Lover)
Make You Feel My Love (Bob Dylan)
Sweetest Devotion
Chasing Pavements
Someone Like You
Set Fire to the Rain
All I Ask
When We Were Young
Rolling in the Deep

E quem é ela? Uma londrina de 28 anos que detém o recorde para o álbum de uma mulher que mais tempo liderou as tabelas de vendas no Reino Unido – e nos E.U.A.. Uma moça cujo segundo disco – 21 – é o quarto álbum mais vendido da história britânica, só batido por dois “Greatest Hits” (Queen e Abba) e pelo mítico Sgt. Pepper’s dos – como bem deve ter tentado explicar a mítica amiga de Graça Moura – Beatles. E cujo terceiro longa duração (alerta: expressão “vintage”), 25, se tornou o álbum mais bem sucedido de sempre na primeira semana de vendas no Reino Unido, E.U.A. e Canadá, destronando, respetivamente, Be Here Now, dos Oasis, No Strings Attached, dos NSYNC, e Let’s Talk About Love, de Céline Dion.

Sim, só por estes dois últimos feitos, Adele já mereceria o respeito contido do coro do São Carlos, mas há mais. Alguns pormenores tornam-na diferente de outras divas do FM. Eis algumas razões pelas quais uma pessoa que lê suplementos culturais pode abanar suavemente a cabeça e os óculos da massa ao som de uma canção de Adele sem corar de vergonha.

Adele não escreve acerca das próprias ancas

Adele, que é famosa também por ter uns quilinhos mais, não compõe, desde logo, canções sobre o corpinho que os pais, o PT e o cirurgião (não) lhe deram. Num mundo em que nove em cada dez divas pop têm mais decotes memoráveis do que canções e metade canta acerca das próprias ancas, este facto adquire um valor considerável, uma vez que liberta um artista para escrever sobre assuntos que possam, realmente, importar.

Adele é daquelas pessoas de quem se diz que “tem uma cara bonita”

Da circunstância anterior decorre ser comum ouvirem-se elogios ao rosto de Adele: “Ela é muito bonita”, “tem uma cara linda”, “bom, uns olhos…” Um intelectual simpatiza com isto porque: a) há boas probabilidades de ele próprio ser um badocha e b) porque, em todo o caso, isto é o equivalente ao “és muito bonito por dentro” que ele ouviu durante tantos anos. Outras zonas são passíveis de loa: as mãos, por exemplo. Quando a primeira coisa que se lembram de elogiar numa pessoa é uma mão, imagine-se a cara que não terá. Enfim, todo e qualquer elogio à beleza de uma pessoa que não a trate como um todo é de desconfiar – e quem quer que já tenha sido vítima deles, como os intelectuais e os badochas, deve compadecer-se do próximo e estender-lhe o seu apoio solidário.

Adele fez a última boa canção de um James Bond

Bond não devia ser para intelectuais, mas num mundo que já se desviou tanto para o lado dos jogos de computador e das selfies, o eixo já não pode ser percecionado como estando, exatamente, no mesmo sítio. Os anos deram patine a 007 e Daniel Craig ofereceu-lhe uma feição mais adulta – mas a única boa canção dos últimos filmes foi de Adele. “Skyfall”, composta para o filme homónimo, limpou um Grammy, um Globo de Ouro e um Óscar (o que, se não é feito único, anda lá perto) e tem tudo o que se quer de uma bond song: sensualidade, mistério, odor a sangue, um travo antigo, aquela mistura entre seriedade e coisa de se usar e deitar fora que é, desde sempre, a fórmula do sucesso do franchise. Na dúvida, é comparar com a xaropada com que Sam Smith empastou o último “Spectre”.

Adele é difícil de cantar num karaoke

Já lá diz o nosso amigo e humorista Hélio Arcanjo que os cantores de karaoke são como os fumadores: estão-se nas tintas para o mal que fazem aos outros. Há poucas verdades tão eternas – e as divas da pop têm sido, através das décadas e ainda que de modo inadvertido, as maiores aliadas dessa trágica armadilha. Whitney Houston, Mariah Carey, Céline Dion, Toni Braxton – gente que tinha, reconhecidamente, grandes vozeirões, mas, porventura, não os suficientes, ou não com suficiente técnica, para dissuadir os rouxinóis desse lindo Portugal de tentarem a sorte. O resto é história: o material que nas intérpretes originais já não era Beethoven imagine-se no que não se tornou nas vozes das Jéssicas e das Carinas. Adele não é que seja inexpugnável, mas deve bastar mostrar aquele vídeo com Jimmy Fallon e os Roots em que canta “Hello” a capella para as guinchadoras decidirem que só lá vão experimentar depois de correrem todo o repertório da Alicia Keys e da Beyoncé.

Adele é editada por uma independente

Ao longo dos anos, Adele tem recusado todos os convites das grandes multinacionais para se manter fiel à sua XL Recordings original – quão respeitável é isso, hã? A XL é uma pequena editora inglesa, detida por um senhor chamado Richard Russell, que não lança mais do que literalmente meia dúzia de álbuns por ano. No catálogo, porém, contam-se nomes como Beck, White Stripes, Peaches, Sigur Rós, xx ou os Radio-ahpoisébebé-head. A título pessoal, o senhor Russel colaborou nalguns dos discos preferidos de todo o jovem melómano como o Everyday Robots, de Damon Albarn, ou The Bravest Man in the Universe, de Bobby Womack.

Adele fez uma versão dos The Cure

Foi em 2011, quase a fechar o alinhamento do milionário 21. Adele gravou uma versão do histórico “Lovesong”, originalmente incluído no oitavo álbum dos Cure, Disintegration, de 1989. Mas aqui, o que pode atrair o sensível feitio do intelectual não é apenas o bom gosto da escolha – a rapariga poderia ter chacinado a canção – mas o bom gosto da versão propriamente dita. O “Lovesong” de Adele é mais indie, mais simples, mais despido, mais cru, do que o de Robert Smith. Naquela leitura levemente bossa nova que aportou ao tema, fê-lo ironicamente mais trágico e depressivo. E toda a gente sabe como um intelectual gosta de uma boa depressão.

Adele é deprê

Ora, justamente, do ponto de vista temático, é difícil encontrar por aí cançõezinhas mais depressivas do que as de Adele. Perto de Adele, aliás, há fados que parecem uma festa em Ibiza. 19 falava de relações desfeitas e corações partidos, 21 de corações partidos e relações desfeitas e 25… Bom, na verdade, Adele assume que 21, composto na ressaca do fim de um namoro, era um disco de break-up (separação), mas que 25, agora que é casada, feliz e mãe, é um de make-up (compensação): compensar o tempo perdido, compensar-se pelo que não teve, pelo que não fez. Sim, porque esta é a noção de felicidade de Adele: achar que está velha aos 28 anos (conferir “When We Were Young”). Ainda assim, há que reconhecer: era preciso ver sobre que título recairia uma descrição mais específica, mas “You look like a movie” sempre é uma das declarações de amor mais bonitinhas que têm saído da pop nos últimos anos (fica o aviso: se a alegria é condição para que alguém não queira ouvir Adele, melhor não procurar por ela fora de palco, muito menos passar os olhos por este vídeo de karaoke no programa de James Corden, isso é que não).

Adele tem medo de palco e isso é consideravelmente intelectual

E finalmente, ao contrário das restantes divas, que pisam com mais confiança o chão do palco do que o da rua (ou, pelo menos, assim esperamos), Adele tem medo da exposição. Recusa atuar em festivais e, durante anos, não aceitava, sequer, cantar perante os 20 mil lugares da O2 Arena: “Antes 12 anos de bares do que uma noite na O2 Arena”, chegou a confessar. Os pequenos gigs completam, portanto, o perfil da cantora de editora indie: o dinheiro não é, claramente, a prioridade de Adele. Até por isso, estas duas noites na Meo Arena – que tem capacidade para acolher até, precisamente, 20 mil pessoas – serão uma ocasião rara. Ainda hoje perseguida por ataques de ansiedade, vómitos e pelo medo de não estar à altura das expectativas, Adele é uma geek a quem vestem de estrela.

Alexandre Borges é escritor e guionista. Assinou os documentários “A Arte no Tempo da Sida” e “O Capitão Desconhecido”. É autor do romance “Todas as Viúvas de Lisboa” (Quetzal)

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