“Podemos ser pobres, mas peru no Natal não nos falta”

20 Dezembro 2015

Desempregados e a viver num contentor, Maria Emília e David vivem da pequena agricultura. Entre vendas e consumo próprio, tapam alguns buracos. No Natal, o peru é tradição — e a 5 euros o quilo.

Por pouco o cão não ferra os dentes nas asas do peru. Atrevido, o galináceo (ou galliforme, a designação é debatível), passa a correr na área do cão, um rafeiro preso pelo pescoço por uma corrente de ferro, que por sua vez está ligada a uma estaca enterrada na terra. O canídeo (aqui parece haver consenso entre os mais diversos pares científicos) barafusta perante a afronta e começa a correr em direção ao peru, que foge assustado. Quando abre a boca para morder a presa, e já numa altura em que a balança deste confronto faz adivinhar um desfecho amargo para a ave, a marcha furiosa do cão é travada por uma guinada firme da corrente. O peru escapa-se para terreno seguro, enquanto berra a algaraviada própria da sua espécie.

A acompanhar tudo isto com os olhos estão David Nunes e Maria Emília, os donos daqueles dois animais — aos quais se devem juntar outros dez perus, duas mãos cheias de galinhas, meia dúzia de patos bravos e dois porcos. Os animais espalham-se ao longo do terreno, onde também despontam couves, tomates, cebolas e batatas. Tudo isto em Samora Correia, uma freguesia do concelho ribatejano de Benavente.

Desengane-se quem os toma por latifundiários — esta família não se encaixa no perfil, e para isso deverá bastar uma breve descrição dos habitantes daquela casa. Maria Emília, 63 anos, já leva quase uma década de desemprego depois de ter trabalhado na apanha de tudo o que há para apanhar, começando pela cebola e acabando no tomate. David, 56 anos, teve de abandonar o seu trabalho na construção civil e pedir uma reforma quando sofreu um AVC aos 49. Sobra Sónia, filha do primeiro casamento de David, que aos 32 anos é a única adulta que trabalha na casa — está empregada numa fábrica de radiadores, onde trabalha no turno da 01h00 às 08h00. Depois, Tatiana, a sobrinha de 23 anos de David, que está à procura de trabalho. Por fim, dois menores: uma outra sobrinha, de 14 anos, e um rapaz de nove, filho de Sónia.

A vida debaixo de um telhado de zinco

Porém, o que os torna ainda mais distantes do perfil de grandes proprietários é o sítio onde vivem: um contentor de zinco à beira de uma estrada nacional. “Isto não é uma casa e nem sequer chega para ser uma barraca. Isto é um palheiro”, David resume para descrever a solução de habitação social que a Câmara Municipal de Benavente lhe deu, ao mesmo tempo que lhe terão prometido uma melhoria célere. “Eles disseram que depois disto que me arranjavam casa, diziam que isto era para ser temporário.” Entretanto, passaram-se mais de 20 anos. “Temporário.” David ri-se, irónico.

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David vive com a mulher, Maria Emília, com uma filha, dois sobrinhos e uma neta numa casa de zinco. A princípio, era uma solução “temporária” de habitação dada pela Câmara Municipal de Benavente. Mas já passaram duas décadas.

São 11h30 de 17 de dezembro, um dia que, por terras ribatejanas, foi de céu limpo e sol, apesar do frio próprio da estação. Mesmo assim, dentro da casa desta família, está calor. Não são os aquecedores, tão pouco a lareira, que está sem lenha. É o telhado de zinco, lentamente aquecido pelo sol. No inverno, uma dádiva. No verão, um inferno. “Chegando aí ao mês de maio ou de junho tenho de meter um chuveiro a mandar água para o telhado o dia todo. Ou faço isso ou então morremos todos assados cá dentro”, explica David. A casa tem três quartos, que consistem em estruturas de madeira contraplacada feitas dentro do contentor. No inverno, a humidade alastra-se a todos os cantos. E, quando chove, a queda livre da água no telhado provoca um som estrondoso enquanto o dilúvio perdura. Nessas alturas, só se consegue falar por meio de gritos.

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Maria Emília trabalhou durante vários anos na apanha do tomate e da cebola, entre outros. Outros tempos: agora, já conta com mais de dez anos de desemprego.

Quando teve o AVC que lhe determinou o fim da vida profissional — “o médico disse-me que se continuasse a trabalhar podia morrer a qualquer altura” –, David ficou a receber uma reforma de 400 euros. “Vi logo que não chegava”, disse. Então, virou-se para o terreno que tinha atrás da casa. Juntou uma série de tábuas, chapas de zinco e placas de plástico. A partir destes materiais, fez capoeiras, um chiqueiro e barracas para armazenar ferramentas e ração. Aos poucos, ficou montado um modesto campo de cultivo e um número generoso de animais, que se distribuem pelo terreno pouco maior do que um campo de basquetebol. Maria Emília e David acordam cedo e deitam-se tarde, entre todos os afazeres que a quinta lhes dá. Ela, fraca dos joelhos; ele, com o braço direito amiúde entorpecido pelo AVC, que ainda hoje o ameaça com algumas pontadas de dor na cabeça e no corpo.

Custa-lhes, mas há que continuar. Tão simplesmente porque não têm escolha: “Se não fosse isto não sei como seria”, diz David. “Isto também é bom para me entreter, porque não sou como aqueles reformados que passam a vida a ver os outros velhos a jogar às cartas. Pronto, sempre me vou mexendo. Mas também preciso disto porque é da maneira que consigo comer. Se não fosse isto…”

Além do consumo próprio, os produtos da seu terreno também são para venda a clientes — podem ser pessoas que passam ali por curiosidade, mas a maior parte são conhecidos que conhecem a qualidade daqueles produtos. No Natal, a tradição de comer peru — há quem o faça na ceia de 24 de dezembro, mas também há aqueles que adiam para 25, também aqui não há consenso — leva a que esta seja a altura de maior procura na quinta deste casal de desempregados.

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Para juntar algum dinheiro, David e Maria Emília vendem animais da sua criação a clientes. No Natal, há sempre quem procure por perus que cresçam fora dos holofotes dos aviários.

Para este Natal, David já tem dois perus encomendados. Avaliados a 5 euros por quilo, a conta poderá chegar até aos 60 euros nos perus mais portentosos — que é o que costumam faturar em média a cada mês no resto do ano. “É um bocado caro”, queixa-se um cliente que está de visita. “Mas ao menos aqui a gente sabe o que está a comer, não é cá bichos do aviário todos farinhentos.”

A liberdade dos perus

Este ano, David viu nascer cerca de 40 perus na sua quinta, mas destes já só restam onze. Os outros, morreram pelo caminho. “Eu não tenho condições para os aguentar, isto já se sabe, há sempre uns que ficam pelo caminho. Apanham doenças, sei lá… Lá nos aviários eles arranjam maneira de isso não acontecer, mas nós aqui estamos entregues à nossa sorte.” Mas, além da sorte, há dois fatores essenciais para garantir um bom peru para a ceia de natal.

O primeiro fator, mais prático, é a alimentação. Todas as semanas, Maria Emília prepara a mesma receita, cuja base consiste numa mistura de farinha molhada e “milho com fartura”. A estes, junta-se gema de ovo cozido, que deverá ser cortada aos bocados. De igual forma, “migadinha”, deve estar a alface e também urtigas previamente cozidas. No final de tudo, ainda se junto um condimento: pimenta preta. “É para meter os bichos mais quentes, eles assim resistem melhor às doenças.”

O segundo fator, mais poético, é a liberdade. “Os bichos têm de andar à solta, têm de ter um pouco de liberdade. A gente se comer um peru percebe logo que tipo de criação é que ele teve, como é que foi a vida dele. É claro que se ele tiver sido criado com liberdade que é melhor”, diz David. Mesmo que daí possa vir o risco de serem apanhados um qualquer rafeiro de dentes afiados.

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David, 56 anos, teve um AVC aos 49. Teve ordem médica para deixar de trabalhar. Desde essa altura que sobrevive graças à sua pequena quinta.

Morte certa é a do peru que esta família levará para a mesa de Natal — aqui, escolhe-se o almoço de 25 de dezembro para essa ocasião. A ave em questão ainda não está escolhida, mas já se sabe que será a mais pesada entre as que ficarem por vender. Depois, o ritual do costume. Primeiro, faz-se um corte na garganta do animal, que sangrará até à morte. De seguida, o peru é banhado em água a ferver, para que a tarefa de lhe tirar as penas seja facilitada. “Para mim chega meia hora para lhe tirar o casaquinho todo”, diz Maria Emília. Para os mais leigos, bastaria o indisfarçável orgulho desta mulher de 63 anos ao dizer estas palavras para perceber que 30 minutos é um bom tempo.

Depois, aplica-se uma nova receita, desta vez para ser apreciada por humanos. “Primeiro faço uma canjinha com o peru”, a matriarca começa por explicar. “Depois tempero com vinho, louro, alho e vinho.” De seguida, vai para o forno e fica a alourar. Acompanhado de batatas fritas, arroz e salada: aqui está o fim do ciclo de um dos onze perus.

“Podemos ser pobres, mas peru no Natal não nos falta”, garante David, também ele com algum orgulho. De resto, impera a contenção. O bacalhau — que será comido na noite de 24 de dezembro — já foi comprado em altura de promoções num supermercado. Quanto a prendas, só os mais novos é que serão contemplados. E também o cão, que terá direitos a roer os ossos do galináceo — ou galifforme, conforme o canídeo preferir.

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