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A megaoperação da PSP contou com a colaboração do Grupo de Intervenção Especial

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A megaoperação da PSP contou com a colaboração do Grupo de Intervenção Especial

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Polícias e suspeitos de máscara, moradores indiferentes ao aparato. Estivemos dentro de uma megaoperação da PSP na Cova da Moura /premium

Nem os gritos para abrir as portas das casas dos suspeitos parecem acordar o bairro da indiferença perante a operação da PSP. Quatro alvos, quatro detidos. E a Covid pouco mudou buscas e detenções.

A rua do Moinho está entupida de carros da polícia e de elementos do grupo de operações especiais da PSP. Ainda assim, não se ouve praticamente um único barulho — quase como se tivessem tirado o som a uma cena de um filme de ação. É cedo e ainda não há gente na rua, é certo: passam poucos minutos das 7h00 da manhã. Mas dificilmente se imaginaria aquele silêncio quando, àquela hora, já estava em curso uma megaoperação policial, naquela que é uma das zonas urbanas mais sensíveis do distrito de Lisboa: a Cova da Moura.

Ouvem-se, aqui e ali, as comunicações via rádio ou o som das botas pesadas da polícia no alcatrão e pouco mais. Nesse mais cabe, porém, o choro de uma criança, abafado por uma música infantil, junto à casa do número 26, quando a polícia a começa a revistar.

— Há uma criança num dos quartos — avisa um dos elementos do corpo de intervenção.
— Está uma criança, está a mãe e está o alvo. É isso? — quer saber o comandante da Divisão Policial da Amadora, o Intendente Paulo Ornelas Flor.
— Não. A criança está noutro quarto com a mãe.

A informação pareceu não apanhar ninguém de surpresa. Não que soubessem previamente que a criança ia ali estar — não faziam ideia. Mas conhecem bem o bairro e sabem que a maior parte das casas é assim: têm várias pessoas, de famílias diferentes, a viver em quartos separados e subalugados. Aliás, “é um dos grandes problemas deste tipo de processos”, explica o Intendente Paulo Ornelas Flor. Descobrir de quem é a casa e quem vive onde é uma dificuldade acrescida para a investigação criminal.

A megaoperação da PSP tinha quatro alvos de quatro investigações diferentes

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Daí que, na madrugada desta segunda-feira, quando a polícia entrou na casa onde vivia um dos seus “alvos”, encontrou também, no quarto em frente, uma criança a viver com a mãe. Ao perceber a entrada de mais de dez homens — com armas, escudos e capacetes —, a mulher ainda veio à porta do seu quarto ver o que se passava, mas de imediato foi-lhe pedido que se recolhesse. “Identificámos o quarto, identificámos o alvo, tranquilizámos a outra família“, relata ao Observador o Intendente Paulo Ornelas Flor, adiantando que, nestes casos, o que se procura é “arranjar maneira de ninguém sair dos quartos e pôr em causa a operação”.

Porque, de facto, havia muito que podia ser posto em causa. Aquele “alvo” era apenas um dos quatro que a PSP da Amadora queria — e viria a conseguir — encontrar no bairro da Cova da Moura, no âmbito de uma megaoperação relacionada com roubo, ameaça agravada e violência doméstica. Portanto, tal como ali, outras equipas da polícia estavam ao mesmo tempo a entrar em mais quatro casas espalhadas em vários pontos do bairro.

A polícia avançou para a Cova da Moura quando o relógio marcava exatamente 6h55

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Cá fora, porém, é como se nada daquilo estivesse acontecer. Ali mesmo, na rua do Moinho, um morador, jovem, passava na rua no momento em que o grupo de operações especiais saiu das carrinhas em direção à casa. Fixado no telemóvel, ia-se desviando dos polícias, sem tirar os olhos do ecrã, enquanto bebericava o café que trazia na mão.

Junto à casa, outros dois moradores aproximaram-se da polícia apenas para perguntar: “Posso passar para ir despejar o lixo?”. Outra ainda pediu mesmo para entrar na habitação que estava a ser revistada naquele exato momento para ir buscar “umas roupas” — de tão normal que as buscas parecem ser para todos. Apenas um ou outro curioso vem à janela espreitar, mas é logo aconselhado pela polícia a recolher-se. A verdade é que já lá viram intervenções mais complexas, com agressões e tiroteios.

Nove carrinhas de intervenção partiram todas às 6h55. Detenções aconteceram em quatro pontos diferentes ao mesmo tempo

Dentro dos carros da polícia de intervenção, a contagem decrescente era feita para que todos os elementos das várias equipas saíssem exatamente ao mesmo tempo da esquadra — nem mais um minuto, nem menos um minuto. Às 6h55 da manhã, o silêncio da cidade da Amadora que ainda estava a acordar foi tomado pelas nove carrinhas do corpo de intervenção que arrancaram e seguiram, em velocidade, umas atrás das outras até à Cova da Moura. Depois delas, os restantes carros com os restantes elementos. Ao contrário da indiferença dos habitantes do bairro, na cidade da Amadora não havia um transeunte que não parasse e seguisse com os olhos, espantado, o aparato policial.

As buscas foram realizadas em cinco moradas diferentes

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À entrada do bairro, o grupo dividiu-se em quatro. Afinal, havia quatro “alvos” para capturar: um na Rua de Santa Filomena, outro na Rua da Ladeira, outro na Rua do Vale e o último na Rua do Moinho. Chegados a cada uma das moradas, o silêncio foi reposto novamente. Os elementos do grupo de operações especiais saíram das carrinhas numa corrida silenciosa, comunicando entre si a sussurrar. Só o arrombar da porta e os gritos que se seguiram interromperam o silêncio:

— POLÍCIA! NINGUÉM MEXE! POLÍCIA! NINGUÉM MEXE! 

Depois, silêncio novamente. Este, com um significado: o “alvo” tinha sido capturado. Foram detidos os quatro. Às 7h00 em ponto, já alguém anunciava a detenção de um deles via rádio: “Um alvo intercetado”. “Às vezes oferecem resistência, hoje não foi o caso. Tentamos garantir que a forma como entramos e como marcamos posição não dá muito azo a que aconteça”, explica ao Observador o Intendente Paulo Ornelas Flor, adiantando: “Conseguimos deter os quatro. Às vezes acontece chegarmos e não os encontrarmos, mas tentamos, em termos de investigação criminal garantir que estão em casa”. São exatamente os elementos da investigação criminal que, assim que os suspeitos estão algemados, entram nos locais para fazer as buscas.

A casa na Rua do Moinho onde foi detido um dos suspeitos

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Um gorro com emojis que um detido usou em assalto foi apreendido. Armas não foram encontradas e um detido foi libertado

Os quatro detidos apenas têm em comum o facto de viverem no mesmo bairro — e também de serem, na sua maioria, reincidentes. São quatro processos diferentes, cujos crimes em causa são violência doméstica, roubo e ameaça agravada — que começaram a ser investigados no início do ano. “Para não estarmos a ir lá mais do que uma vez, em dias diferentes, o que fazemos é: se temos numa determinada área geográfica vários processos a decorrer, tentamos encontrar um meio termo, para garantirmos que conseguimos avançar todos ao mesmo tempo, para o mesmo lado, para não estarmos a gastar recursos“, detalha o Intendente Paulo Ornelas Flor. Mas, antes de se avançar para o terreno, há um trabalho de investigação prévio que permite descobrir a morada dos suspeitos, nomeadamente através das câmaras de vigilância e da recolha dos depoimentos das testemunhas e vítimas.

Um dos “alvos”, um homem de 54 anos, está indiciado por violência doméstica, detenção de arma proibida e ameaça agravada. “Era um casal que se separou. Ele não conseguiu gerir a situação, foi a casa da ex-mulher e tentou ameaçar a família com uma arma“, explica o comandante ao Observador. Apesar de a polícia não ter encontrado a caçadeira com que ameaçou a família, o suspeito foi, ainda esta segunda-feira, apresentado a um juiz de instrução criminal no Tribunal Judicial da Amadora.

Ao todo, foram detidas quatro pessoas, mas uma acabou por ser libertada ao fim da tarde

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Os restantes três detidos estavam indiciados por crimes de roubo. “Uma das vítimas é um senhor de 80 anos a quem roubaram a chave de casa. O suspeito roubou a chave, mudou a fechadura e disse-lhe que não entrava mais. Ou seja, assalta a pessoa para lhe tomar uma casa que não é dele”, explica ao Observador o Comissário Tiago Garcia.

Também nos casos relacionados com roubos não foram encontradas as armas usadas. Mas, numa casa por onde se acede através do Beco dos Mouros, uma prova mais importante que essa foi encontrada: um gorro preto com emojis amarelos — exatamente o gorro que os investigadores viram nas imagens de videovigilância no momento do crime. “É um gorro muito característico. Não é normal as pessoas roubarem com gorros com emojis portanto tem um valor probatório muito grande, mais do que encontrarmos o que foi roubado”, adianta o Comissário Tiago Garcia.

Esse homem, de 31 anos, vivia com a mulher e o filho, numa casa dividida com outra família. O acesso é feito por uma porta que dá para um quintal onde existem duas portas: uma para cada casa. Ali, no Beco dos Mouros, a rua é estreita e as construções ilegais encavalitam-se umas nas outras — ao contrário das outras ruas em que as habitações têm pequenos jardins e estão mais afastadas entre si. Ao fundo, a mulher do suspeito — detido há cerca de 15 minutos — conversa com as vizinhas sobre tarefas domésticas, com o filho, ensonado, ao colo. Estão os dois ainda de pijama — afinal, também eles foram acordados pelo corpo de intervenção. O marido e pai vai para os calabouços da PSP, em Moscavide: só está previsto que seja presente esta terça-feira no Tribunal da Amadora. Responde por roubo, mas decorrem contra ele várias outras investigações por roubo, tráfico de droga e posse de arma proibida.

No Beco dos Mouros, a mulher e filho de um dos detidos aguardam na rua junto à polícia de intervenção

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A este junta-se um homem de 28 anos, também preso nos calabouços da PSP em Moscavide e também presente a um juiz só esta terça-feira. Está indiciado por roubo, mas o seu nome já consta noutras investigações por roubo e tráfico de droga. Por último, o “alvo” da Rua dos Moinhos foi libertado já que a pistola que terá sido usada no roubo não foi localizada. Foi constituído arguido, foi interrogado e até acompanhou a PSP noutra busca a outra morada, mas acabou por voltar para o quarto que aluga, no fim do dia.

Os crimes que motivaram a megaoperação da PSP desta segunda-feira foram alegadamente cometidos por pessoas do bairro contra pessoas do bairro. “Cerca de 99% destas buscas acontecem por processos que aconteceram lá dentro. Nada disto aconteceu fora e nós vamos ao interior do bairro: são situações que se passam lá dentro. É uma prova de que a grande maioria das pessoas que vivem na Cova da Moura são de bem e não têm nada a ver com alguns bandidos que vão aparecendo: temos de saber distinguir as duas coisas”, aponta o Intendente Paulo Ornelas Flor.

A casa onde um dos detidos vivia com a mulher e o filho

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A saída do bairro também é feita de forma tática por causa do risco de a polícia ser atingida por pedras e garrafas é grande

Não foram mais de 40 minutos. O relógio marcava 7h39 quando todos os elementos regressaram aos carros, exceto alguns do corpo de intervenção que continuaram a acompanhar os carros a pé. “É um princípio tático da saída do bairro. Vamos saindo de forma faseada com alguns elementos a pé porque facilmente. Se não fizermos isso dessa forma, começam atirar garrafas ou pedras“, adianta o Intendente Paulo Ornelas Flor, acrescentando: “Há, por vezes, uma hostilidade muito grande. Hoje está calmo porque há muitos carros de intervenção”.

Foi exatamente para esses perigos que o comandante da Divisão da Amadora alertou no briefing realizado por volta das 6h30, meia-hora antes da intervenção policial. “Tudo aquilo que vai ser feito tem de ser feito com segurança. Não existem heróis no sentido de entrarem de peito feito sozinhos dentro de determinadas circunstâncias”, começa por apelar, para depois explicar: “Não é pelo facto de estarmos na Cova da Moura que aumentamos os níveis de segurança: eles são exatamente os mesmos, independentemente da área onde estamos. Por isso, só avançamos se tivermos segurança“.

O Comandante da Divisão da Amadora, o Intendente Paulo Ornelas Flor, no briefing antes das buscas

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A segurança, agora, vai mais além. Agora, há outro perigo: a Covid-19. Daí que o comandante faça questão de lembrar que o país continua “numa situação complexa do ponto de vista da saúde pública”. “Hoje é o novo normal estarmos de máscara e de viseiras, mas é a única forma de nos protegermos a nós e acima de tudo proteger aqueles que connosco trabalham, que connosco vivem, e com quem nos relacionamos. Nunca se esqueçam disso, ainda por cima num concelho que tem subido um bocadinho acima daquilo que é a media e padrão natural”, lembra o comandante no briefing.

O novo normal trouxe algumas mudanças na forma como são feitas estas buscas — mas não muitas. A mudança evidente é o facto de todos andarem de máscaras. Reconhecem que é incómodo, mas também que não lhes dificulta as diligências. Aos suspeitos é lhes entregue também equipamentos de proteção individual. E, para os que recusarem colocar máscara e resistirem à detenção, há uma alternativa: um carro da polícia que está parado e que serve apenas para transportar estes suspeitos, evitando assim o risco de contaminação — o que, neste caso, não foi necessário.

Pouco depois das 8h00 já todos os elementos estavam, em segurança, de regresso às esquadra. Não passou muito tempo até começarem a chegar os primeiros familiares. Uma delas, a que vive no Beco dos Mouros, quer “saber do marido”. Ainda está de pijama, ainda tem o filho ao colo, ainda ensonado e ainda de pijama. Acaba por deixar o número de telemóvel e voltar para trás. “Vemos miúdos que a perspetiva de vida que têm é ver que o que vinga na vida foi o que começou a roubar ou  a vender droga”, desabafa o Intendente Paulo Ornelas Flor.

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