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António Costa e Rui Rio escolheram a mesma marca de automóvel para darem a volta ao país — um Lexus

António Costa e Rui Rio escolheram a mesma marca de automóvel para darem a volta ao país — um Lexus

Por dentro da máquina eleitoral das legislativas. Como se fez esta campanha? /premium

  • Texto de Rita Tavares, Rita Dinis, Rui Pedro Antunes, José Pedro Mozos, Rita Penela e João Francisco Gomes, fotografia de João Porfírio e André Dias Nobre

O Observador teve acesso privilegiado aos bastidores das 6 principais campanhas. As rotinas, as estratégias, os momentos de tensão e os desabafos dos líderes e do seu staff mais próximo

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Duarte Cordeiro está encostado ao carro à espera de António Costa junto à fábrica têxtil que o líder socialista se prepara para visitar. É um dos diretores da campanha e está visivelmente desgastado. É o penúltimo dia de uma caravana com muitos baixos para resolver e que obrigou a ajustes permanentes. De um discurso de vitória, os socialistas passaram para a admissão de algum crédito a Rui Rio nestes 15 dias de estrada. “Houve um fenómeno a não desconsiderar que foi um certo realinhamento do PSD. A capacidade que está a ter de polarizar nele os votos na direita. Parece evidente que isso está a acontecer”, comenta um dirigente socialista ao Observador.

E esta alteração foi decisiva. A acusação de Tancos deu alento ao outro lado deste combate e obrigou o PS a responder. Houve o anúncio de última hora da conferência de imprensa de Rui Rio, a 26, e, a partir daí, não mais parou o ataque centrado no líder do PSD por quem quer que fosse até à campanha.

Rui Rio não está surpreendido. “Só se surpreende quem não me conhece”, diz ao Observador. O líder do PSD está sentado no bar de um hotel em Viseu. De camisa branca, parka impermeável e uma pasta castanha debaixo dos braços, onde leva os papéis A5 onde escreve as notas do discurso dessa noite. Não bebe nada, mas pica uns amendoins. “A corte” não o conhece. E “a corte” — que pode ser de Lisboa ou de outro sítio qualquer — é o conjunto de “jornalistas, comentadores e políticos” da bolha, que acham que a política é como o futebol. “Acham que porque eu sou do Benfica, tenho necessariamente de ser contra o Sporting ou contra o Porto”, diz, enquanto insiste que a trajetória do PSD nas sondagens durante a campanha tem mais a ver com o facto de as pessoas estarem agora mais despertas para as eleições e começarem a conhecê-lo melhor do que com uma alteração de rumo ou do que com o caso Tancos.

Os Lexus do bloco central

“Vamos lá que a casa já está cheia, está tudo à espera”, diz Salvador Malheiro, o vice de Rio que foi um dos protagonistas na vitória do portuense contra Santana Lopes, mas que agora, na corrida contra António Costa, tem estado menos presente. Já passam alguns minutos das 20h.

No bar do hotel estão também Joaquim Sarmento, o porta-voz de Rio para as Finanças, Florbela Guedes, a diretora de comunicação, e os deputados António Leitão Amaro e Ricardo Batista Leite, que acompanharam a comitiva naquele dia. Também lá estão o presidente da câmara de Viseu, Almeida Henriques, e, na zona de fumadores, José Silvano, secretário-geral e diretor da campanha, e Maló de Abreu, homem forte de Rio e diretor operacional da campanha, que até carrinhas da comitiva tem guiado por estes dias. Tinham estado ali boa parte do fim de tarde enquanto o candidato tinha subido ao quarto para descansar.

Esta noite há um “mega jantar-comício” no Pavilhão Multiusos de Viseu, o único evento marcadamente à antiga destas duas semanas de estrada. O pavilhão fica a apenas cinco minutos de carro. “Ainda tenho de ver se arranjo uma caneta de cor para sublinhar as partes mais importantes.” É importante sublinhar para não se perder quando estiver com os olhos levantados do papel. São três ou quatro folhas A5, escritas à mão, a tinta preta e caligrafia cursiva. Quase nada rasuradas.

Rui Rio no bar de um hotel em Viseu prepara o seu discurso da noite. São três ou quatro folhas A5, escritas à mão, a tinta preta e caligrafia cursiva. Quase nada rasuradas.

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

São só “tópicos”, na verdade, não é texto corrido. Rui Rio não escreve os discursos quando prepara comícios. “É impensável, senão não sai bem”. “Preparo só uma ou duas coisas que quero mesmo dizer. Por exemplo, ontem [na quinta da Malafaia] já tinha pensado que queria brincar com o facto de o Famalicão estar em primeiro lugar no campeonato — e, como estávamos no distrito de Braga, fazia sentido dizê-lo ali”. Para esta noite de terça-feira, em Viseu, também leva mais duas metáforas na ponta da língua, a dos lusitanos. E a do rio abaixo. O líder do PSD está confiante de que vão resultar. Só não as escreveu ipsis verbis, para sair bem. Abandona o hotel, mete-se no Lexus e segue para o pavilhão.

O carro usado pela comitiva do PSD é da mesma marca escolhida pelo PS. A bordo do Lexus, híbrido — como manda o novo politicamente correto –, a companhia de António Costa vai variando. Mariana Vieira da Silva, que o acompanha e está presente na preparação política; às vezes segue a mulher, Fernanda Tadeu, ou o filho, Pedro; outras vezes junta-se Duarte Cordeiro, o assessor de imprensa David Damião ou a diretora de campanha Ana Catarina Mendes. Por exemplo, depois de um encontro com a direção da AHRESP, António Costa dá boleia ao ministro da Economia Pedro Siza Vieira até ao gabinete de primeiro-ministro, em São Bento. É uma troca frequente que fez ao longo desta campanha, do fato de líder partidário para o de chefe do Governo.

É a bordo do carro que vai acertando o passo da caravana com os seus colaboradores. Leva normalmente uma garrafa de água, jornais, computador na bolsa do banco do carro e carregadores para o telemóvel. Está sempre on. É através do telemóvel que mais se vão fazendo os ajustes de rota — e foram muitos e à última hora — por SMS ou grupos de WhatsApp. Há vários, mas a respeitar hierarquias. Costa está num com os seus mais próximos, mas já não está noutro encarregue da coordenação logística ou o que a caravana mantém com os jotas. E muito menos no grupo “Baboseiras”, onde quem anda a colaborar na caravana socialista troca insólitos de campanha.

Tortilhas de arroz, ‘walkie talkies’ e um (outro) grupo de WhatsApp

Assunção Cristas faz a maior parte das viagens no lugar do pendura e quase sempre apenas acompanhada pelo motorista. No carro tem frutos secos, água e tortilhas de arroz. Pelo caminho, ouve pouca música, embora vá fazendo zapping entre as rádios para ouvir os noticiários. Muitas vezes é assim que ouve as declarações de políticos de outras campanhas e que ouviu, por exemplo, Augusto Santos Silva a dizer que estava a afundar o debate político. Além disso, o inner circle de colaboradores da presidente do CDS tem um grupo de WhatsApp, onde os conselheiros e assessores da líder vão partilhando notícias que possam ter relevo para as intervenções.

Rui Rio não escreve os discursos quando prepara comícios. "É impensável, senão não sai bem". "Preparo só uma ou duas coisas que quero mesmo dizer".

Não larga o telefone. Seja no carro, seja mais discretamente durante as ações de campanha. Na terça-feira à noite, minutos antes de entrar em direto para a RTP a partir da festa de desfolhada no Tone dos Leitões, estava ao telefone a ser “briefada” sobre o facto de o Ministério Público ter equacionado ouvir o Presidente da República e o primeiro-ministro no âmbito da investigação judicial a Tancos. Minutos depois, a CMTV tentava uma declaração sobre o assunto e o assessor Pedro Salgueiro teve de intervir para ajudar à “fuga” da frente da câmara. Já esta quarta-feira, depois da conferência de líderes no Parlamento sobre Tancos, esteve ao telefone com Nuno Magalhães — com quem conversa várias vezes — para ficar a par do que se passou na Assembleia e de qual a postura de Ferro Rodrigues. Só depois avançou para as câmaras. O tema? Tancos, claro.

O “carro da líder”, como é chamado na comitiva, é o único com motorista, já que todos os outros são conduzidos por militantes ou até por candidatos a deputados. A caravana é composta por cinco veículos principais, mesmo que num ou noutro distrito possa engrossar com as estruturas locais: o carro da líder, um carro com pessoal técnico (som e imagem), o “carro-escritório” do diretor da volta, João Gonçalves Pereira, e duas monovolumes de sete lugares Mercedes Vito. Numa delas vão os “jotas”, liderados pelo vice-presidente da Juventude Popular, Francisco Laplaine Guimarães. Noutra vai a equipa que gere as redes sociais, o assessor de imprensa Pedro Salgueiro, e a fotógrafa e militante de base do partido Isabel Santiago Henriques.

Estes carros da caravana comunicam todos entre si através de walkie talkies, mais eficaz que chamadas telefónicas e também do que o WhatsApp. O diretor da volta nacional, João Gonçalves Pereira, conta ao Observador uma situação em que este tipo de comunicação foi útil: “Ainda há pouco [1 de outubro] vínhamos na auto-estrada e estava um pneu no meio da estrada. Eu era o primeiro carro e consegui avisar. Isto evita acidentes“.

Tópicos num cartão rijo “para não voar”, e um Halls para recuperar a voz

Nas campanhas do Bloco de Esquerda, a carrinha Seat Alhambra do partido é substituída por uma Mercedes Vito alugada. “São muitos quilómetros e esta é mais confortável”, justifica um membro da comitiva — e é um autêntico gabinete de trabalho, sendo lá que se tomam as principais decisões sobre o rumo da campanha bloquista. Catarina Martins senta-se sempre no mesmo lugar: atrás do pendura. O banco ao seu lado vai dobrado para fazer de mesa. “Eu ocupo dois lugares”, explica a líder do BE, que recebe o Observador naquele escritório ambulante, já sentada.

Depois de uma reunião na AHRESP o Observador acompanhou António Costa e Pedro Siza Vieira na deslocação até ao Palácio de São Bento.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Vai tomando um Halls para começar a recuperar a voz que lhe falhou mais do que devia no comício que terminara instantes antes, em Braga. O frio que se fazia sentir na cidade entrava pela tenda que estava montada na Praça Central e foi percetível na sua intervenção que começava a fazer mossa. Catarina Martins ainda segura nas mãos os cartões com os tópicos que guiaram o discurso. Entre rabiscos que denunciam que houve várias revisões do que seria dito, é possível observar as anotações escritas à mão. A líder do Bloco raramente recorre a um discurso escrito. “Acho que é melhor falar com as pessoas do que estar a ler um texto”, explica quando o carro já está em andamento rumo ao Porto, onde a caravana bloquista vai pernoitar. Mas os cartões estão lá para ajudar a garantir que a mensagem não falha. “Preciso de cartões rijos que não voem com o vento. E que não dobrem”, acrescenta enquanto mostra os pequenos cartões.

Muitos políticos têm superstições, mas Catarina Martins garante que não há nenhum ritual a que tenha de recorrer nos momentos mais decisivos. Costuma mostrar-se firme no discurso e segura em palco. “A formação de atriz ajudou-me a ter algum desprendimento sobre a minha imagem e sobre o meu corpo. E a não ter de me preocupar com o que não tenho de me preocupar. Isso ajuda, sobretudo se se for uma mulher. Temos de ouvir comentários sobre o corpo todos os dias. Portanto, vir com algum desprendimento ajuda”, reconhece.

Não é raro ver a líder do BE a reescrever tópicos nos cartões durante os discursos dos oradores que a antecedem. Mas cada intervenção já chega ali bem estudada. Analisa-se tudo: desde o momento da campanha até à cidade onde se vai discursar. Catarina Martins dá um exemplo: “Em Viseu tinha de falar da coesão territorial, mas também tinha de fazer um discurso que incidisse muito sobre a relação de forças, porque estamos a disputar pela primeira vez a possibilidade de eleger naquele círculo”.

As pessoas com quem mais se aconselha na estrada nem sempre estão na carrinha-escritório. O deputado Jorge Costa é o diretor de campanha e é aquele com quem mais dialoga e com quem tem o contacto mais direto. Mas as decisões são sempre “tomadas em coletivo”. Por SMS, WhatsApp ou chamadas telefónicas é frequente recorrer aos contributos de Mariana Mortágua e de Pedro Filipe Soares. Os assessores de imprensa João Curvelo e Catarina Oliveira também fazem parte do pequeno núcleo de conselheiros da líder bloquista.

É a bordo do carro que António Costa vai acertando o passo da caravana com os seus colaboradores. Leva normalmente uma garrafa de água, jornais, computador na bolsa do banco do carro e carregadores para o telemóvel. Está sempre on.

É na carrinha Mercedes Vito preta que normalmente se fazem as avaliações de como está a correr a campanha e se fazem os devidos ajustamentos. Às vezes, à mesa do pequeno-almoço do hotel também se limam arestas. Para isso, recorrem a peças jornalísticas, que ajudam a fazer esse balanço e a perceber de que modo está a ser interpretada a narrativa. “Seria tonto dizer que não queríamos saber como é que a mensagem está a passar”, admite Catarina Martins. É sobretudo essa a base de trabalho dos bloquistas para tentarem perceber como é que se pode dar mais gás a uma mensagem que passou mais despercebida ou para colocar água na fervura quando uma determinada parte do discurso ganhou um inusitado relevo.

O “homem-sombra” que segue com Jerónimo

Este ano, pela primeira vez, Jerónimo de Sousa viaja numa carrinha onde tem espaço para ter “o computador de trabalho e estar mais confortável”. Lá dentro veem-se umas camisas penduradas, nos breves segundos em que a porta abre para deixar o secretário-geral do PCP sair para mais uma intervenção.

A acompanhar Jerónimo de Sousa há sempre um ‘homem-sombra’, que pouco se vê e que habitualmente muda a cada campanha. É escolhido em articulação com a direção coletiva e é com quem Jerónimo se aconselha ao longo dos muitos dias na estrada. Além de Jerónimo, “sempre atento a toda a informação”, Jaime Rocha, o ‘homem-sombra’ desta campanha (que faz parte do executivo da Organização Regional de Lisboa do PCP), centraliza toda a informação que é possível para “não perder nada”. 

Mas é Jerónimo quem faz questão de estar sempre atualizado, ao computador ou no telefone, atento às notícias que vão saindo. Tem sempre o apoio da direção coletiva, composta por elementos com “valências em diversas áreas” — educação, economia, saúde ou defesa, por exemplo — a quem pode recorrer a qualquer momento. Foi o que  aconteceu com o caso de Tancos e a declaração que Jerónimo de Sousa fez, à margem da campanha, saindo temporariamente da pele de cabeça de lista pela CDU e entrando na qualidade de secretário-geral do PCP.

Tancos foi um tema sempre incómodo para a esquerda mas recebido como uma bênção à direita. Em termos de mensagem política, Assunção Cristas chegou à campanha com um objetivo claro: falar de impostos. Repetir até à exaustão que a carga fiscal bateu recordes com o atual governo e que o programa do CDS baixa o IRS para as pessoas. Em cada visita às empresas, recordar que o CDS propõe a redução do IRC para níveis da Irlanda até 2026. Nas ruas, a frase que mais diz é “dê-me força”.

Assunção Cristas quis fazer uma declaração aos jornalistas em plena campanha eleitoral, à margem do que o PSD tinha feito no dia anterior. Claro, sobre Tancos.

LUSA

E a força chegaria com Tancos. Sobre esse tema, os grandes conselheiros da líder dos centristas foram o líder parlamentar, Nuno Magalhães, e os dois deputados presentes na Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso de Tancos: Telmo Correia e António Carlos Monteiro. A líder também fala com frequência com Adolfo Mesquita Nunes, que embora tenha deixado de ser vice-presidente continua a ser conselheiro. Já com Paulo Portas tem “conversado pouco”.

Portas apareceu em Aveiro ao lado de João Almeida e a partir de Cabo Verde fez um vídeo para o comício de Albergaria e outro a dar força a Telmo Correia em Braga. Só apareceria ao lado de Cristas no último almoço do último dia. Com a campanha a terminar às 15h desta sexta-feira (em sinal de luto pela morte de Freitas do Amaral), Paulo Portas foi encontrar-se à mesa com Cristas em Setúbal. Os dois tinham-se cruzado antes, mas por acaso. Quando a líder do partido foi gravar o “Gente que não sabe estar”, na TVI encontrou Paulo Portas, que é comentador do canal de televisão, na zona da maquilhagem.

PS e PSD preferem Toy (que é apoiante a CDU)

“Sol-ta-te, li-ber-ta-te”. DJ Lex lá consegue arrancar umas mãos no ar e uns tímidos saltinhos de dança no aquecimento do comício socialista. Normalmente, o hit de Toy antecede a chegada aos comícios de outro António, o candidato a líder do PS que, no entanto, só entra quando começam os acordes do tema que Vangelis compôs para o filme “Momentos de Glória”. Um toque guterrista à campanha do resultado eleitoral incerto e de geometria difícil, variável. E variou muito ao longo destas duas semanas: do desejo contido de uma maioria absoluta diretamente para a calculadora do costume. Tão radical e abrupto como passar de Toy para Vangelis.

Fiquemos então, para já, com Toy. Uma escolha óbvia, se o objetivo é animar as plateias mais ou menos compostas em cada noite, com uma canção facilmente reconhecível. Já do ponto de vista político, esta coincidência na seleção musical dos partidos do centrão é mais difícil de explicar. Toy não é militante do PCP, mas é um conhecido apoiante da CDU, tendo já escrito hinos de campanha para algumas candidaturas.

Anima-te
Motiva-te
Não ligues às sondagens
Tens uma vitória para conquistar

Anima-te
Motiva-te
Não há nada melhor
Que correr o país para te apoiar

Vais ganhar, é real
Governar o nosso Portugal
Vai Rui Rio, vai Rui Rio

A líder do Bloco raramente recorre a um discurso escrito. “Acho que é melhor falar com as pessoas do que estar a ler um texto”.

Rui Oliveira/Observador

A canção que as duas dezenas de jovens sociais-democratas que acompanham a comitiva tocam e cantam desde o primeiro dia pede “motivação”. É uma adaptação, e nota-se que a letra já vinha escrita desde a pré-campanha. A verdade é que as sondagens têm estado sempre presentes na caravana social-democrata, e a comitiva liga-lhes, e muito — de uma maneira ou de outra. José Silvano e Florbela Guedes constituem a dupla que, sempre com o telemóvel na mão, vai acompanhando a cadência diária dos barómetros. Salvador Malheiro, quando está presente, também. Quando as notícias a meio da tarde começam a ser boas (as sondagens são divulgadas às 20h, mas umas horas antes já começam a circular em núcleos restritos), os dois não escondem o entusiasmo. Não raras vezes até comentam o assunto com os jornalistas. Foi o que aconteceu em Viana do Castelo, onde a arruada que pintou uma rua de laranja e fez subir Rio à varanda condizia com o estado de espírito da comitiva que dançava e sorria: o PSD estava a subir, “dizem os rumores”.

As contas às sondagens. Socialistas apostam num intervalo

É o dia imediatamente a seguir à conversa do Observador com Rui Rio, em Viseu. Hoje é o PS que está por aqui. A noite já vai alta, nesta quarta-feira, e António Costa ainda está na sala de fumadores do Hotel Montebello. Não que fume, já se deixou disso há anos. Mas para tomar um chá, na sala mais reservada, depois do comício da praça do Rossio. Reúne-se com os colaboradores mais próximos, mas já não está a trabalhar. Precisa de descontrair. Por estes dias vai estando atento às sondagens, mas só quer saber da média entre elas: 38% para o PS; 26% para o PSD. Entre os seus mais próximos circula um intervalo de votação possível no partido este domingo: “Entre os 36% e os 39%”.

Vai longe a maioria absoluta, que na sua entourage se garante agora que “internamente nunca foi um cenário colocado em cima da mesa — no partido, zero”. Certo, mas isso torna mais difícil de explicar que Carlos César, um dos mais próximos de Costa, tenha vindo sábado até Guimarães, para falar na necessidade de uma “maioria de valor reforçado”. Embora também seja certo que, no dia seguinte, em Matosinhos, Augusto Santos Silva tenha vindo detalhar que o que o PS não quer mesmo é que o Bloco de Esquerda saia reforçado este domingo.

A acompanhar Jerónimo de Sousa há sempre um ‘homem-sombra’, que pouco se vê e que habitualmente muda a cada campanha. É escolhido em articulação com a direção coletiva e é com quem Jerónimo se aconselha ao longo dos muitos dias na estrada.

Na verdade, do ponto de vista político, a campanha vai-se fazendo entre esses dois receios: que a margem para o PSD encolha demasiado e que o BE ganhe relevância “desmesurada”, como lhe chamou Santos Silva. “O PS tem de ter mais força negocial e ter mais alternativas das formações possíveis para governar”, explica um socialista ao Observador.

António Costa sabe que não pode ter nada perto dos 32,3% de há quatro anos. Faz esta sexta-feira precisamente quatro anos da noite eleitoral de toda a matemática política, aquela que encerrou sem ninguém ter a certeza sobre quem teria capacidade para formar um Governo mais estável. Mas nem por isso o líder socialista abre o jogo sobre o seu plano. Levou à exaustão a resposta do “governamos com as condições que os portugueses nos derem”, para evitar dar resposta direta à pergunta.

Fez agora o que fez em 2015, colocou terceiros a desferir os golpes mais diretos aos adversários. Exemplos? Santos Silva num almoço em Matosinhos, Carlos César em Guimarães, Mário Centeno em Lisboa logo no primeiro dia, Manuel Alegre em Coimbra, Miguel Alves em Viana do Castelo, Pedro Nuno Santos e Vieira da Silva em Aveiro. Sai desta campanha com a folha limpa para levar a quem quer que sejam os seus parceiros negociais.

Catarina Martins com via aberta para os fundadores do BE

Mesmo com todas as reservas, as sondagens permitem tirar algumas conclusões e o Bloco tem uma convicção: “O PS vai ganhar folgadamente as eleições. O que se está a discutir não é quem vai ganhar mas sim como é que vai ser o equilíbrio de forças e se vai permitir mais avanços ou não”. Algo que no seu entender só se faz com uma solução marcada pela tensão e pela exigência, como a “geringonça”, ou “com partidos mais pequenos que BE e PCP, com agendas mais localizadas e portanto menos exigentes”. Simplifiquemos: o PAN.

Sobre a eventualidade de o PS enveredar por uma solução de governo minoritário com apoios pontuais, à semelhança do que fez António Guterres, Catarina Martins avisa que o BE não será uma opção. “O Bloco de Esquerda não faz queijos limianos. Até porque o queijo limiano já passou a ser produzido em Tondela [risos]. Foi um acordo de muito curto prazo e nós preferimos acordos de longo prazo”.

Para isso é preciso reforçar o partido. E, para reforçar o partido, é preciso controlar a mensagem. Mas a campanha nem sempre tem esta precisão fria e há temas que entram na agenda de forma inesperada e incontrolável. No Bloco, é nesses momentos que o grupo de conselheiros de Catarina Martins se alarga aos fundadores. A coordenadora do partido tem via aberta para conversar com Francisco Louçã, Luís Fazenda e Fernando Rosas sempre que necessitar. São eles que muitas vezes ajudam a afinar posições ou declarações sobre os temas que marcam a agenda da campanha, mas que não estavam previamente programados.

Na maioria das vezes, a equipa que acompanhou André Silva era surpreendida com o que os apoiantes locais preparavam. Em Santa Maria da Feira, os militantes do PAN decidiram levar a equipa a pé, encosta acima, até à estação. Quem sofreu mais foram os repórteres de imagem das televisões, que subiram de tripé aos ombros — e de quem os organizadores da ação não se tinham lembrado.

Foi o que aconteceu logo no início da campanha, quando António Costa acusou o BE de ter ido atrás do PCP na formação da “geringonça”. “Tivemos a perceção de que podia existir a ideia de fazer a campanha com base numa coisa que não corresponde ao que aconteceu e achámos que era melhor matar logo esse assunto”. Foi uma decisão ponderada, assim como aquela que foi tomada para reagir ao caso Tancos, que entrou cedo na campanha e que ainda hoje não saiu da agenda mediática. “Acho que conseguimos responder ao que apareceu [no caso Tancos] sem deixarmos de falar dos temas da campanha”, avalia.

Mais recentemente, a única coisa que levou o partido a reagir foi o ataque vindo de vários socialistas sobre a possibilidade de o Bloco de Esquerda crescer. Nas hostes bloquistas já se esperava um acentuar de acusações vindas do PS fruto do período eleitoral. Mas nem tudo caiu bem. António Costa, Carlos César, Augusto Santos Silva e Manuel Alegre, cada um à sua maneira, apelaram ao voto no PS sob pena de o BE vir a  ficar com uma “influência desmesurada” na próxima legislatura. Algo que a líder reconhece que a deixou irritada. “Reagi porque estavam a falar da estabilidade. O PS vem agora dizer que o país fica ingovernável se tivermos uma influência desmesurada?”, indigna-se. “É inacreditável o que ouvi. Tive de reagir.” Para responder aos socialistas escolheu um argumento que nunca tinha utilizado: “O PS governou mesmo sem ganhar eleições”. Um reminder que voltaria a ser repescado por Louçã, no Porto, e que quis ser um murro na mesa sobre a discussão em torno da estabilidade da “geringonça”.

Mas neste processo de seleção de temas a que se deve ou não reagir, e depois de ouvidas todas as partes, Catarina Martins admite que há assuntos que nunca serão passíveis de ser comentados. As sondagens à cabeça. No BE não se ignora que existam mas raramente se alteram planos ou programas em função delas. “Não acreditamos muito nas sondagens. Temos muito respeito por quem as faz, mas têm falhado muito e em todo o lado”.

Ao Observador, Catarina Martins diz que as sondagens permitem fazer algumas leituras, mas não são infalíveis: “ Acho que a ideia de subida do PSD vem do facto de o PSD ter estado muito sub-avaliado a determinada altura. É um partido com autarquias, com grande implementação. Portanto, por muito que haja conflitos internos não é um partido que desapareça de um dia para o outro. Nunca acreditei nas sondagens que o davam a desaparecer, como também não quer dizer que esteja realmente com uma subida fulgurante”, analisa a líder bloquista.

A acompanhar Jerónimo de Sousa há sempre um ‘homem-sombra’, que pouco se vê e que habitualmente muda a cada campanha. É o homem que na imagem aparece ao telemóvel.

LUSA

Os sinais de Rio para evitar os pedidos da “jota”

As manhãs raramente começam antes das 11h. Rui Rio dorme em casa, no Porto, sempre que pode — quando a caravana anda mais a norte. Viaja num Lexus híbrido e com ele, além do motorista, vai apenas Florbela Guedes, a diretora de comunicação. Logo atrás segue outro Lexus, com o secretário-geral, José Silvano. Continuando a fila, vem depois Maló de Abreu, acompanhado de Emília Galego, ex-diretora de Recursos Humanos da Câmara Municipal do Porto que este ano foi contratada pelo PSD para exercer funções de assessoria da direção operacional da campanha; e há ainda mais duas ou três carrinhas caracterizadas com o rosto e o slogan de Rio, “Portugal precisa de si”, e um autocarro cor-de-laranja que transporta os “jotas”.

O líder do PSD bebe não mais do que dois cafés por dia e, já se sabe, funciona melhor “à tarde e à noite”. Entre os seus mais próximos, diz-se que Rui Rio “é o homem que melhor noção de timing político tem, apesar de toda a gente achar que não”. Noção de timing e, aparentemente, de boneco televisivo. Rui Rio tem feito uma campanha que passa por “diferente”, mas sabe que toda a campanha eleitoral tem de ter uma “parte lúdica” — que não esconde que é a parte de que gosta menos.

Em Évora, nos primeiros dias de estrada, os “jotas” ainda caíam no erro de dizer “e salta Rio, e salta Rio, olé, olé”, mas Rui Rio fazia-lhes sinal. Estávamos em pleno Templo de Diana, a caravana a reunir gente para iniciar um passeio a pé pela cidade. Os jovens tentavam animar a comitiva, mas Rio fazia-lhes sinal. Apontando para os fotojornalistas e repórteres de imagem que ali se encontravam, dava a entender que não iria saltar para não ser apanhado no ridículo.

Mesmo assim, a campanha de Rui Rio está organizada de forma a não passar uma imagem cinzenta. A espaços, Rio acaba sempre por colorir o boneco de forma mais ou menos controlada. Foi o que fez mais tarde em Évora, quando pôs a capa da tuna aos ombros, ou em Benavente, quando aceitou dançar “o cavalinho” a pedido da ensaiadora do rancho folclórico. É também o que acontece em todas as “talks” da campanha, que são sempre antecedidas por um sketch. Ao Observador, a assessora de imprensa e diretora de comunicação de Rio confirma que os dois atores foram contratados pelo partido, através de uma agência, para “criar um momento diferente, mais cultural e humorístico” na campanha.

Rui Rio conversa com a sua diretora de comunicação Florbela Guedes.

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

O farnel vegan do PAN para os jornalistas

O PAN fez o que pôde para ter uma campanha eleitoral com elevada exposição mediática. Sendo a primeira grande campanha do partido, a inexperiência ainda é evidente. No carro híbrido azul que andou a percorrer o país nestas duas semanas seguiam André Silva e as quatro pessoas que coordenaram a campanha no terreno — uns responsáveis pelo contacto com a imprensa, outros pela coordenação com as ainda muito incipientes estruturas locais que organizaram as paragens da volta.

Aliás, a consolidação dessas estruturas locais foi uma das prioridades da própria campanha. Muitas delas, compostas ainda apenas por um punhado de apoiantes, encaravam as iniciativas nos seus concelhos como uma visita de André Silva e insistiam para que o candidato e líder do partido passasse mais tempo com eles, visitasse mais locais do que o previsto e até que almoçasse ou jantasse por ali. Em Viana do Castelo, por exemplo, a visita de André Silva foi aproveitada para uma reunião com as pessoas que estão a formar a distrital.

Na maioria das vezes, a equipa que acompanhou André Silva era surpreendida com o que os apoiantes locais preparavam. Em Santa Maria da Feira, os militantes do PAN que ficaram responsáveis por organizar a ação de campanha — uma arruada pelo centro da cidade e uma viagem de comboio até Espinho — decidiram levar André Silva e a equipa a pé, encosta acima, até à estação. Quem sofreu mais foram os repórteres de imagem das televisões, que subiram de tripé aos ombros — e de quem os organizadores da ação não se tinham lembrado.

António Costa no fim de uma reunião de trabalho a meio da campanha.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Valeu o farnel ao cimo do monte, um “mimo” do partido para a comitiva e os jornalistas — almoço vegan para comer durante a viagem de comboio. E valeram também os carros dos militantes locais para transportar os jornalistas de volta a Santa Maria da Feira, para conseguirem chegar a tempo de fazer o percurso até Viana do Castelo.

Apesar da maior visibilidade, os recursos não cresceram propriamente. “Os recursos financeiros que nós temos quatro anos depois são quase os mesmos, porque o PAN teve uma visibilidade maior, mas a subvenção mantém-se a mesma”, diz o porta-voz do partido, sublinhando que o diferencial entre os recursos do PAN e os dos outros partidos é imenso. “Basta ver o orçamento do PAN para estas eleições, que é de 130 mil euros, e o dos outros partidos a seguir, incomensuravelmente maior” (a seguir na lista vem o CDS com cerca de 700 mil euros).

Vale ao PAN a “política de poupança” a que o partido, acabado de sair do campeonato dos pequenos, ainda está habituado. “Previmos, de alguma forma, para este último ano, uma almofada para investir essencialmente em recursos humanos de apoio a esta campanha”, explica André Silva, revelando que a comitiva do PAN é apenas de cinco pessoas na estrada (ele incluído) e de uma dezena de pessoas a trabalhar a partir da sede.

Tudo o que houve a mais em 2019 relativamente a 2015 foi investido em recursos humanos — e não em materiais de campanha. “Por exemplo, é a primeira vez que numa campanha temos uma pessoa só dedicada ao vídeo. Há uma outra pessoa que está muito dedicada também às redes sociais”, revela André Silva.

Na carrinha, Catarina Martins senta-se sempre no mesmo lugar: atrás do pendura. O banco ao seu lado vai dobrado para fazer de mesa. “Eu ocupo dois lugares”, explica a líder do BE, que recebe o Observador naquele escritório ambulante, já sentada.

A prática de preparar agendas de campanha pensadas ao detalhe para maximizar o impacto mediático — sobretudo televisivo — nunca chegou a estar afinada ao detalhe. Enquanto os outros partidos sabem bem para que dias e para que momentos do dia agendar determinadas ações de campanha para que elas entrem nos noticiários ou para que os discursos sejam transmitidos em direto sem coincidirem com outros partidos, o PAN foi organizando os momentos de campanha, em larga medida, sem o ter em conta. À medida que a campanha avançava, ia pedindo conselhos aos jornalistas que acompanharam a caravana e foi adaptando a agenda, no que toca a horários e a locais.

Os trabalhos do Departamento de Propaganda da CDU

São 19h30, o comício está agendado para daí a duas horas, mas há muito tempo que o cenário está montado e a música toca a animar o jardim Manuel Bívar, em Faro. É assim em todas as ações de campanha da CDU. A máquina está tão bem oleada que está tudo a postos muito antes e, no final de cada comício ou ação de rua, o cenário é desmontado em menos de nada. Em menos de nada é o equivalente a passar de um jantar montado na Praça da República, em Serpa, para cerca de 300 pessoas, com um palco para discursos e uma logística exigente para, em apenas uma hora e meia depois, tudo ter desaparecido e não haver nem sinal da passagem da CDU.

Aqui há homens de negro, mas não são os tradicionais seguranças. A equipa que se veste assim, “sem que qualquer indicação para isso” tivesse sido dada, faz parte do DEP: Departamento de Propaganda. Subdivide-se entre manhãs e noites para garantir que quando os primeiros apoiantes chegam já está tudo pronto e a música a correr. Sem exceção, há música em todas as ações e os comícios da noite têm mini-concertos e até bandas criadas especificamente para o evento.

RUI OLIVEIRA/OBSERVADOR

Rui Oliveira/Observador

António Rodrigues, um dos responsáveis pela organização da campanha da CDU,  justifica a “infalibilidade” com a experiência. “São muitos anos na estrada, muita aprendizagem, já há quase uma guião”. Aliás, na caravana ainda há motoristas que fizeram parte da comitiva que transportava Álvaro Cunhal e depois Carlos Carvalhas. Dos seguranças pouco se sabe, ou se nota. Vestem roupa discreta, que lhes permite estar no meio da comitiva de apoiantes ou jornalistas sem que se vá notando que por ali estão, atentos. Na arruada da Baixa da Banheira, as medidas de prevenção elevaram-se, com cerca de uma dezena de seguranças a vigiar os passos dos secretário-geral do partido. Ainda assim, a máquina continua a funcionar quase sob o manto da invisibilidade. 

Há uma direção central que articula com as organizações regionais as ações em cada ponto onde a caravana comunista passa. Desde o final da Festa do Avante!, no início de setembro, até ao final do tempo de campanha eleitoral oficial — dia 4 — a caravana vai passar em quase todo o país.

Ao nível de material e conteúdos gráficos, a produção da CDU é “quase totalmente autónoma”. Falta apenas uma gráfica para que o partido consiga produzir 100% dos materiais que utiliza, explica António Rodrigues. Integrada na comitiva está também uma equipa multimédia que coloca online toda a informação. “Poucos se devem lembrar, mas o PCP foi o primeiro partido a ter um site”, explica António Rodrigues, que em tempos também já foi responsável pelo gabinete de imprensa do partido. Corria o ano de 1996 e agora as redes sociais ocupam também uma grande fatia do trabalho do DEP. “Tudo é gravado, sempre, para depois podermos divulgar a todos, para todos saberem o que estamos a fazer”, diz.

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

A rádio sempre ligada e um tablet a fazer de TV

Além da imagem da sua própria campanha, o núcleo duro da coordenadora do BE também avalia o estado de saúde dos outros partidos. Há pouco tempo livre e todos os recursos são poucos. Por isso, no interior da carrinha, viajam sempre os assessores de imprensa e Jorge Costa e, circunstancialmente, figuras de peso que se juntam à campanha, como Mariana Mortágua, José Manuel Pureza ou Marisa Matias. Para agilizar esta avaliação, a equipa do Bloco de Esquerda recorre a vários utensílios: além dos telemóveis pessoais, que servem para que cada um vá acompanhando a atualidade ao seu ritmo, a rádio vai sempre ligada em estações noticiosas. Na parte de trás do banco do condutor está colado um suporte que serve para colocar o tablet do partido a fazer de televisão. Há ainda uma coluna de som que permite que se vão ouvindo outras coisas além da rádio.

Tudo isto vai suscitando comentários ao minuto e gerando debates sobre o que deve ou não entrar na campanha. Discute-se se o partido deve reagir a certos temas ou não e decide-se que parte da mensagem precisa de ser reforçada. Tudo isto tem de ser conciliado com as visitas programadas e os temas pré-definidos, de modo a não estragar o planeamento.

Sobre as campanhas dos outros partidos, Catarina Martins diz que as da direita são “vazias de ideias”. Isso também ajuda a que o balanço que faz da sua própria campanha seja positivo. “Por comparação, acho que temos feito uma boa campanha”.

RODRIGO ANTUNES/LUSA

LUSA

Mas também há momentos de auto-crítica, que vêm da avaliação que os bloquistas fazem da sua própria campanha, independentemente das interpretações que apareçam nas páginas de jornais. É comum ver Catarina Martins a abandonar em passo muito acelerado as iniciativas de campanha do partido. Das arruadas aos comícios, a líder do Bloco de Esquerda desaparece muitas vezes sem aviso, seguida apenas pelos assessores de imprensa, por Luís Costa, que é o motorista da líder, e por Jorge Costa. Muitas vezes um dos membros da comitiva é visto a correr para não a perder de vista o resto da equipa. Assim que se fecha a porta da carrinha começa a avaliação da ação de campanha que acabaram de abandonar.

Apesar de ser uma pessoa teimosa, como a própria reconhece, há sugestões que são bem acolhidas e que contribuem para redefinir mensagens ou afinar discursos. Frases que disse e não devia ter dito daquela forma ou um soundbite que estava preparado mas não saiu tão bem quanto era suposto: a análise é feita ao pormenor.

Os três mosqueteiros políticos de Cristas (que não tem seguranças)

A equipa de Cristas na campanha tem três peças-chave: o diretor da volta, João Gonçalves Pereira, o assessor da líder, Daniel Pessoa e Costa, e o assessor de imprensa do partido e da bancada parlamentar, Pedro Salgueiro. Parte deste núcleo duro tinha já trabalhado na campanha das autárquicas em 2017. Apesar das diferentes características, a ideia é ter a mesma eficácia, já que essa campanha acabou por ser um “sucesso no resultado”, como classifica o diretor da volta.

João Gonçalves Pereira já tinha coordenado a campanha de Lisboa e agora voltou a fazê-lo. O deputado do CDS e candidato a deputado fez “várias voltas nacionais”, mas é a primeira que lidera — e faz um “balanço positivo”. “Há uma falha aqui e ali. Há coisas que achamos que podemos melhorar já na próxima campanha”, revela.

O também vereador da câmara de Lisboa participou nas três fases da campanha, como relata ao Observador: “Houve uma primeira parte em que fizemos uma volta nacional com a nossa líder, onde não esteve a comunicação social, mas existiram contactos com as estruturas distritais e foram feitas algumas visitas, que não repetimos na campanha eleitoral; depois, tive um segundo período onde fiz uma mini-volta pelo país, de preparação da própria campanha; e esta última fase da volta nacional em si”. Entre todas estas voltas, o conta-quilómetros de Gonçalves Pereira já vai em 12 mil quilómetros.

LUSA

É o líder da volta quem controla previamente os locais, já que, como explica ao Observador, “tem de ser tudo organizado, desde questões de horas, climatéricas, o que nos obriga a ter planos B, caso haja um problema qualquer”. E exemplifica: “Não faz sentido, por exemplo, ir a um mercado que já está fechado quando lá chegamos”. É esse tipo de episódio que Gonçalves Pereira tenta evitar, estando várias vezes ao telefone, como denunciam os airpods que tem aos ouvidos.

Apesar disso, o CDS não faz avançadas como acontecia há quatro anos na coligação Portugal à Frente (PàF), em que uma equipa ia desbravar terreno antes de uma arruada. Por essa altura metia os seguranças do primeiro-ministro à mistura, dada a função que Passos Coelho ocupava. Assunção Cristas não tem segurança na campanha e na quarta-feira quase ia sendo agredida por uma mulher — que lhe chegou a tocar — na Baixa do Porto.

Gonçalves Pereira é também o ponto de contacto com as estruturas locais e tem sempre uma troika de interlocutores em qualquer distrito onde vá: o cabeça de lista do distrito, o presidente da distrital e o diretor de campanha distrital. Esta ligação permite “preparar e organizar um programa tendo em conta a agenda e as propostas que se querem passar num determinado dia”. Nas várias funções que Gonçalves Pereira tem desempenhado também estão alguns episódios como polícia sinaleiro: muitas vezes sai do carro e tenta descongestionar o trânsito junto às ações — por exemplo, no parque de estacionamento de fábricas ou em feiras movimentadas — para que a comitiva e os jornalistas que a acompanham evitem engarrafamentos desnecessários e possam partir mais depressa para a ação seguinte.

Depois há Pedro Salgueiro, assessor do CDS e da bancada há vários anos e responsável pelo contacto com os jornalistas: quer os que estão na volta, quer os que estão nas redações. É, dos membros da comitiva, aquele que tem mais experiência a lidar com jornalistas em voltas nacionais. Tem uma paixão quase tão grande pelo CDS como pelo Benfica. Quando há jogo, sempre que pode tenta ver alguns minutos. Mesmo nos dias mais intensos de campanha eleitoral. Há também um grupo de WhatsApp através do qual Pedro Salgueiro comunica com todos os jornalistas que estão a acompanhar a volta e alguns editores de política que estão nas redações. É através desse grupo que comunica alterações de agenda e os “pins” com os locais onde se vão realizar as ações.

Em todos os comícios os palanques têm um estrado para Catarina Martins conseguir ficar mais alta

Rui Oliveira/Observador

PAN sem danças nem beijinhos

Se PS, PSD, CDS, Bloco e CDU tiveram quase sempre as noites ocupadas com comícios e discursos pujantes em que abundaram os ataques aos adversários, o PAN dava o dia por encerrado por volta das 17h ou 18h. A esmagadora maioria das ações de campanha consistiu em visitas a instituições de cariz ambiental ou social e a locais onde o partido chamava a atenção para determinados problemas ecológico. Muitas vezes não havia  distribuição de panfletos, nem bandeiras ou tambores, música, ou gritos de ordem. Aliás, muitas vezes não havia sequer potenciais eleitores a convencer.

O PAN também não fez as típicas arruadas, manifestações de força em que os líderes partidários descem ruas ladeados de dezenas ou centenas de apoiantes e ao som de gritos e tambores. Houve alguns momentos de contacto com a população que serviram para esclarecer dúvidas e distribuir panfletos. “Posso deixar-lhe um folheto do PAN?”, ia repetindo André Silva, antes de muitas vezes, perante alguns rostos confusos, perguntar: “Sabe o que é o PAN?”

Não há distribuição de beijinhos em série, o candidato não dança nem faz grandes números para as televisões, e até aos últimos dias não entrou em diálogos inter-campanhas. Depois acabou por não resistir quando foi atacado num comício da CDU e, talvez tomando-lhe o gosto, no último discurso da campanha disparou em todas as direções.

A estratégia do shut down

Esta é a segunda campanha para as legislativas que faz à frente dos destinos do Bloco de Esquerda. Catarina Martins conta ao Observador que é hoje uma candidata “mais preparada” para a agitação mediática. “Uma pessoa percebe que há sempre picos. E quando os picos são constantes aprendemos a lidar com eles. Há um momento em que não se sabe lidar com isso e se sofre com esses picos constantes. Não é que isso mude ou mudasse a linha política, que nunca mudou. Mas hoje vivo melhor com isso”.

A líder do BE confessa que gosta do ambiente de festa e de contacto popular inerente a este período mas reconhece que nem tudo é bom. “Não gosto do histerismo. É diferente ser uma festa, que é bom, de haver coisas que são exacerbadas só porque há câmaras… Às vezes é como se fosse uma claque. E isso faz-me impressão”.

O deputado do CDS e candidato a deputado fez “várias voltas nacionais”, mas é a primeira que lidera e faz um “balanço positivo”. Isabel Santiago Henriques

Aponta ainda um fator perigoso da campanha: “Como é tudo tão intenso, cria-se uma bolha”. Catarina Martins afirma que tem de fazer um exercício constante para sair dessa tal “bolha da campanha”. Nem sempre é fácil. Uma das estratégias é um shut down momentâneo. Na carrinha que também faz as vezes de escritório bloquista nem sempre se está a trabalhar. “Às vezes preciso de silêncio, digo-o e respeitam”. É essencial para arrumar as ideias e pensar no que vai fazer ou dizer no que resta do dia de campanha.

O candidato desconfortável na bolha

Rui Pereira é vice da Câmara de Sintra, eleito pelo PS, mas meteu férias para liderar mais uma caravana do partido. Faz campanhas desde sempre e foi diretor das voltas de António Guterres, quando o líder entrava nos comícios também ao som de Vangelis, como agora. “Desta vez quisemos cortar um bocadinho a parte triunfal, quisemos ter uma coisa mais equilibrada”, explica ao Observador. Não foi só na música que o PS de António Costa conteve emoções. É uma campanha nos mínimos dos três G’s: menos gente, menos gastos, menos grandiosa.

“É a campanha mais pequena que alguma vez fiz”, diz o homem que trata da operação no terreno. No currículo conta, por exemplo, com as campanhas da era Sócrates, onde a equipa que tinha na rua era bem mais extensa do que as pouco mais de 30 pessoas que compõem a caravana de Costa (já chegou a ter 100 ao seu comando). Metade deste grupo são elementos da JS, fáceis de identificar com t-shirts amarelas com a inscrição “futuro agora” e responsáveis por trazer algum barulho às ruas onde Costa circula. Compõem a moldura de arruadas e comícios e debatem o carisma dos líderes enquanto esperam por eles nas esplanadas do café.

Com um telemóvel na mão, Pedro Salgueiro, assessor do CDS e da bancada há vários anos e que é responsável pelo contacto com os jornalistas (Isabel Santiago Henriques)

Numa das arruadas, enquanto um grupo de jotas aguardava pelo cabeça de cartaz com outros jovens (não “fardados”) que também iam participar na ação do partido, a conversa era sobre a imagem política de António Costa. Alguma preocupação. “É um gajo que trabalha, faz as coisas, mas para estar à frente… falta-lhe mais”.

Costa é um pragmático e nota-se que andar naquela bolha, bem no meio da turba da arruada, não é propriamente a sua praia. Não é o candidato mais expansivo — ainda que apareça mais à vontade do que nas abordagens de 2015 –, não estende a mão se não vê no interlocutor um sinal mínimo de abertura. Não se mete em danças (e foi convidado para isso na associação cabo-verdiana, em Lisboa), não canta e até os saltinhos que já deu em comícios ficaram na Madeira.

Quase sempre carimba a sua passagem com quem se cruza com um “muito bem”, seja abordado com desejos de boa sorte ou com um problema muito concreto. O que gosta mesmo é de andar sem o aparato ao lado, diz Rui Pereira, que também já trabalhou com Costa no Ministério da Administração Interna. “Desta vez estivemos quase a fazer uma coisa diferente, talvez fique para a próxima”, confidencia a meio da arruada de Coimbra onde Costa vai a distribuir rosas vermelhas com a ministra da Saúde, Marta Temido, ao lado. O diferente era ir para a rua sem comunicação social, fazer uma campanha de proximidade, sem bombos, papelotes e muito menos com repórteres em cima — não raras vezes Costa vai dando ordens, impaciente, ao batalhão de jornalistas que vai à frente, “desviem-se”, “deixem as pessoas passar”.

Para a primeira ação do tempo de campanha oficial, nos transportes públicos na margem sul do Tejo, a direção da campanha teve de fazer contas a quem ia no autocarro com o candidato. “Só jornalistas eram quase 20 pessoas, mais candidatos” locais, queixa-se um dos dirigentes: “Como é óbvio tira qualquer dinâmica”. Mas sem imagem é como se não tivesse acontecido — e o candidato sabe que não pode dispensar essa visibilidade.

João Gonçalves Pereira é o líder da volta do CDS: "Tem de ser tudo organizado, desde questões de horas, climatéricas, o que nos obriga a ter planos B, caso haja um problema qualquer". Está muitas vezes ao telefone, como denunciam os airpods que tem aos ouvidos.

Na direção da campanha, um dos momentos apontado como o “mais emocional e atrativo” para António Costa foi o percurso que o candidato fez, ainda em pré-campanha, pela nacional 2. “Foi feito com tempo e distante da turbulência associada à campanha. Ele consegue estar descontraído no contacto com as pessoas”, garante a mesma fonte. Na bolha da arruada, quando é abordado, é tudo à pressão.

A tropa de seguranças do primeiro-ministro candidato

Depois há a condição de primeiro-ministro. Na verdade, António Costa até se vê ao contrário e chegou a dizer aos jornalistas que faz campanha “nos tempos livres” do Executivo. Foi muitas vezes a Lisboa, sempre que houve uma manhã livre, e rumou ao gabinete em São Bento. E na rua é difícil esquecer o cargo, já que com ele andam sempre membros do Corpo de Segurança Pessoal da PSP, facilmente identificáveis pelo auricular que têm no ouvido, o fato que normalmente vestem e a altura que têm no meio dos ajuntamentos. São uns oito que têm andado com Costa nesta caravana e vão-se revezando em turnos.

Aí, nem o partido nem o candidato têm nada a dizer. Os seguranças têm de acompanhar o primeiro-ministro e avaliam com as autoridades locais cada ação de campanha por onde ele vai passar. Chegam aos locais cerca de 45 minutos antes para a visita preparatória para a avaliação de potenciais riscos, delineiam um plano, dizem à organização da caravana e é para seguir.  Quando o cenário é mais tenso, podem ir todos atrás de Costa, mas nesta campanha foi raro ver mais do que quatro de uma vez em ações de rua. Alguns andam à paisana, na guarda do primeiro-ministro candidato.

António Costa é sempre seguido por uma comitiva de seguranças desde que saí dos comícios até que entra no carro, como se vê na imagem, ao centro. Aqui também ao lado da sua mulher e filho.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O perímetro de segurança que estabelecem à volta de António Costa vai apertando, caso o ambiente seja mais descontrolado, e o número de seguranças sobe, tal como aconteceu em Santa Catarina, no Porto. Curioso é que, em maio, em Coimbra, pelas Europeias, a proteção foi bem mais elevada e até musculada, como registou o Observador na altura, do que agora em qualquer arruada.

Só dispersam quando António Costa sai de cena. Se o líder socialista estende a conversa pela noite dentro no bar do hotel, por exemplo, eles aguardam pacientemente até que dê por encerrado o dia e suba ao quarto. Mais pequena do que qualquer um deles, mas igualmente eficaz como guarda avançada do socialista, está a sua secretária de anos, Conceição Santos. Está sempre nestes bastidores e, na arruada de Santa Catarina (especialmente agitada), interveio várias vezes para impor a ordem lá à frente.

É ela quem faz companhia a Fernanda Tadeu, mulher de António Costa, durante as reuniões mais prolongadas, como aquela extensa reunião de Costa com as startups, em Lisboa. Conceição foi secretária de António Guterres, depois acompanhou Costa desde que foi líder parlamentar do partido — foi também com ele para o Ministério da Administração Interna e, entretanto, para a Câmara de Lisboa. Está agora em São Bento, no mesmo papel de secretária pessoal, a mais próxima de António Costa.

Os membros do seu gabinete meteram férias para acompanharem o líder socialista em campanha. E de lá vieram também os dois fotógrafos que o acompanham sempre como primeiro-ministro.

Na organização da caravana garante-se que a mobilização mais murcha foi uma questão de opção. “Se quisermos meter duas mil pessoas num sítio, pomos”, garante um colaborador. “Mas os banhos de multidão já não fazem sentido e agora a ideia é fazer campanha mais próximo das pessoas.” A campanha foi centrada em António Costa — José Sócrates, por exemplo, em todas as campanhas que fez, tinha mais tropas de elite à volta, todos os dias havia ministros em vários momentos de campanha, a comitiva era bem mais alargada.

A acusação de Tancos deu alento ao outro lado deste combate e obrigou o PS a responder. Essa resposta foi decidida neste momento, depois de uma ação de campanha com startups.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Agora, a maioria dos comícios foram ao ar livre, para atrair pessoas sem gastar tanto dinheiro (incluindo em alugueres de salas e na adaptação do espaço). “Cada um é um agente do ponto de vista comunicacional. Isto tudo somado não pode ser desvalorizado”, explica um colaborador de Costa. “As pessoas é que acabam por ser porta-voz da mensagem”, continua, rematando que a imagem do “candidato rodeado de pessoas” que aparece nas televisões “não é um detalhe”, é precisamente o que se quer passar.

Paulo Miguéis, do PS de Abrantes, deu a voz ao partido que anda na estrada. É o speaker dos comícios e, quando o candidato está para chegar, é avisado pelo sistema de comunicação interna (são uns meros walkie-talkies de pouco alcance) e pega no iPad. Corre para baixo o texto que tem de ler, preparado entre ele e o responsável pelas redes sociais, Duarte Moral, e começa a dizer a frase batida: “Há pessoas assim, que transmitem esperança e confiança… ele é a nossa voz  e o nome é António Costa”. Toy sai de cena e entra António. Agora já sem a versão musical do tema “À Minha Maneira”, dos Xutos & Pontapés, a acompanhar, como aconteceu em 2015. Aprendeu. Já sabe que no dia a seguir às eleições, a 7 de outubro, é à maneira que os portugueses quiserem.

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