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FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Porque é que não se deve preocupar (muito) com as reações alérgicas à vacina contra a Covid-19 /premium

2% dos portugueses têm quadros clínicos de alergias que podem provocar reações graves à vacina. Mas 95% deles não terão problemas. Choque anafilático é raro, mas natural. E tem tratamento.

Dois em cada 100 portugueses têm quadros clínicos de anafilaxia, os mesmos em que se têm verificado as reações alérgicas mais severas às vacinas contra a Covid-19. Mas o número de pessoas que efetivamente desenvolvem esse tipo de resposta às vacinas é tão baixo que dá confiança à comunidade científica para estar pouco preocupada: em média, 1,31 pessoas tiveram um choque anafilático por cada milhão de doses administradas. Oitenta e cinco porcento (85%) delas tinham algo em comum: um historial de alergias profundas e mais generalizadas. Nenhuma delas morreu.

Durante os ensaios clínicos, os cientistas encontraram vários efeitos secundários nas dezenas de milhares de voluntários que participaram nos testes. Os mais comuns foram dores no local da injeção, cansaço, dor de cabeça, dores musculares, arrepios, dores nas articulações e febre, como indica o próprio folheto informativo que acompanha os frascos onde são transportadas cinco doses de 0,3 mililitros da vacina. Mas nenhum deles causa estranheza aos médicos: são frequentes noutras vacinas e sabe-se porque é que acontecem. Mais: são mesmo um bom sinal, mesmo quando são desconfortáveis, porque significam que o corpo está a reagir.

É o que nos relata Henrique Veiga Fernandes, imunologista da Fundação Champalimaud. Quando a vacina é introduzida no organismo humano, a maquinaria celular começa a produzir a proteína S — os espigões que o novo coronavírus exibe à superfície e que, uma vez reunida com os recetores que existem na célula, lhe permite inserir o material genético no interior — seguindo as indicações codificadas na molécula de ARN introduzida com a vacinação. Quando os glóbulos brancos detetam a proteína S, recrutam outras células do sistema imunitário que, por sua vez, produzem as citocinas — as substâncias culpadas por estes efeitos secundários.

O que acontece ao corpo quando recebe a vacina? Uma aula de Biologia, gastronomia e estratégia militar em 5 passos

Quando são emitidas pelas células imunitárias, os vasos sanguíneos dilatam-se, o plasma converge para o tecido muscular e provoca uma pressão no órgão. Três delas são especialmente matreiras — as interferons, a interleucina 1 e os fatores de necrose tumoral (TNF) — porque geram uma hipersensibilidade nervosa, causando dor. Além disso, são pirogénicas: quando atingem uma determinada concentração, induzem a produção de outro químico, a prostaglandina, que ,quando atinge o hipotálamo, nas profundezas do encéfalo, provocam um aumento da temperatura corporal.

As citocinas são as substâncias culpadas por estes efeitos secundários. Quando são emitidas pelas células imunitárias, os vasos sanguíneos dilatam-se, o plasma converge para o tecido muscular e provoca uma pressão no órgão. Três delas são especialmente matreiras — as interferons, a interleucina 1 e os fatores de necrose tumoral (TNF) — porque geram uma hipersensibilidade nervosa, causando dor. Além disso, são pirogénicas: quando atingem uma determinada concentração, induzem a produção de outro químico, a prostaglandina, que quando atinge o hipotálamo, nas profundezas do encéfalo, provocam um aumento da temperatura corporal.

Este processo é frequente após a toma de uma vacina. Menos frequentes e normais, mas ainda assim naturais, são as reações alérgicas severas que têm sido reportadas após a injeção da vacina da Pfizer/BioNTech e da Moderna contra a Covid-19. No Reino Unido, por exemplo, dois profissionais de saúde desencadearam uma “reação anafilática” pouco depois de terem tomado a vacina do consórcio. Nos Estados Unidos, um médico desenvolveu o mesmo tipo de resposta após ter recebido a vacina da Moderna. Mas todos eles tinham algo em comum: sofriam de anafilaxia, ao ponto de terem de andar com uma caneta de adrenalina para situações de emergência.

“Um excesso de defesas” levado ao extremo

Mário Morais Almeida, presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica, explicou ao Observador que a anafilaxia é a forma mais grave de manifestação de uma reação alérgica, “um excesso de defesas” levado ao extremo, que, no caso de uma vacina, pode ser desencadeada porque a dose administrada é demasiado grande para aquele indivíduo, porque o doente é alérgico a algum dos componentes da vacina (mesmo que não o saiba) ou simplesmente porque sim. São as “reações idiossincráticas”, surgem inesperadamente por mecanismos desconhecidos e imprevisíveis, mas são as mais raras de todas.

Neste caso, a resposta do organismo à vacina é ainda mais robusta do que acontece com os efeitos secundários comuns. Primeiro, a quantidade de citocinas aumenta em flecha. Depois, os mastócitos e os basófilos, células do sistema imunitário, desencadeiam uma reação descontrolada e, quando os anticorpos na sua superfície (neste caso, as imunoglobulinas E) se ligam à substância que causa a alergia, libertam explosivamente uma quantidade muitíssimo elevada de histaminas. Só uma coisa pode salvar o doente da morte: a adrenalina. A boa notícia é que essa solução é fácil de encontrar em qualquer hospital ou centro de saúde onde a vacina seja distribuída.

Mas isto não acontece com todas as pessoas que sofrem de reações alérgicas graves. Por um lado, “não é a alergia comum que se pode ter a uma substância específica que vai induzir estas respostas”, ressalva Henrique Veiga Fernandes: “É preciso ter um historial de tal forma importante de alergia que condiciona o estilo de vida, que obriga a andar com uma seringa de adrenalina atrás, para se estar preocupado”. Por outro lado, estima-se que mais de 95% dos alérgicos não terão um risco aumentado de ter reações, indica Mário Morais Almeida.

Mas isto não acontece com todas as pessoas que sofrem de reações alérgicas graves. Por um lado, "não é a alergia comum que se pode ter a uma substância específica que vai induzir estas respostas", ressalva Henrique Veiga Fernandes: "É preciso ter um historial de tal forma importante de alergia que condiciona o estilo de vida, que obriga a andar com uma seringa de adrenalina atrás, para se estar preocupado". Por outro, estima-se que mais de 95% dos alérgicos não terão um risco aumentado de ter reações, indica Mário Morais Almeida.

Então, o que distingue as pessoas alérgicas que têm uma reação grave à vacina das que não desenvolvem nenhuma resposta exacerbada? As farmacêuticas ainda não descobriram, mas há vários fatores em cima da mesa: a idade mais avançada, a interação com outros medicamentos e as comorbilidades podem aumentar a probabilidade de uma pessoa alérgica ter uma reação desadequada à vacina, quando comparado com outros alérgicos, enumera o imunoalergologista. Além disso, é possível que quem desenvolveu quadros anafiláticos tivesse reagido mal a outros ingredientes da vacina, como o polietilenoglicol.

É por isto que o folheto informativo indica que a vacina da Pfizer/BioNTech está contraindicada em pessoas com “hipersensibilidade à substância ativa ou a qualquer um dos excipientes”; e que, no caso de pessoas com anafilaxia, “deve estar imediatamente disponível tratamento médico e supervisão na eventualidade de uma reação após a administração da vacina”. Todas as pessoas que tomem a vacina devem ficar sob vigilância médica durante 15 minutos, mas quem já sofre de reações alérgicas severas tem de ficar sob observação por 30 minutos para ser acudido aos primeiros sinais de choque anafilático, caso aconteça.

Uma profissional de saúde recebe a vacina contra a Covid-19 no Hospital Curry Cabral, a 27 de dezembro, em Lisboa

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Vacinas não são retiradas do mercado há décadas

Este é um procedimento comum na administração das vacinas — quaisquer que elas sejam. O folheto informativo da vacina contra a gripe que está a ser aplicada este ano diz que os efeitos secundários após a sua administração são as “reações de hipersensibilidade”, incluindo edema facial (inchaço no rosto), urticária e, muito raramente, reações anafiláticas. Na vacina contra o vírus do papiloma humano, um dos maiores sucessos do plano de vacinação português, o documento também alerta que os doentes devem ser observados durante 15 minutos após serem inoculados. O motivo é, mais uma vez, as reações adversas que se verificaram quando a vacina entrou no mercado.

Na altura, quando a vacina contra o vírus do papiloma humano começou a ser administrada em adolescentes, as autoridades de saúde relataram casos de doentes que perdiam a consciência até quinze minutos depois de receberem a injeção. Desmaiavam, muitas vezes caíam, os músculos ficavam rígidos e o corpo começava a tremer. Nada disso comprometeu a distribuição da vacina: as reações adversas eram muito raras e facilmente tratáveis pelos profissionais de saúde nos hospitais e centros de saúde. Hoje, a cobertura da vacina é superior a 90% e o fármaco tornou-se uma das armas mais eficazes na prevenção do cancro do colo do útero.

“As reações adversas, no seu conjunto, são muito frequentes, por isso podemos considerá-las de ocorrência habitual, mas nunca como um evento normal. Podem ocorrer — e ocorrem — com todos os fármacos”, resume Mário Morais Almeida. Alguns deles são retirados do mercado por causa das reações adversas que provocam, algo que é mais frequente em anti-histamínicos, antiácidos e anti-inflamatórios não esteroides. Mas isso não acontece com as vacinas há décadas, garante o imunoalergologista: uma das últimas foi a vacina da poliomielite que, nos anos 50, provocou centenas de doentes porque continha o vírus ativo. O fármaco foi repensado e o episódio serviu de aprendizagem para todos os envolvidos, desde os produtores de vacinas aos legisladores.

"As reações adversas, no seu conjunto, são muito frequentes, por isso podemos considerá-las de ocorrência habitual, mas nunca como um evento normal. Podem ocorrer — e ocorrem — com todos os fármacos", resume Mário Morais Almeida. Alguns deles são retirados do mercado por causa das reações adversas que provocam, algo que é mais frequente em anti-histamínicos, antiácidos e anti-inflamatórios não esteroides. Mas isso não acontece com as vacinas há décadas, garante o imunoalergologista.

Ainda assim, depois dos episódios de reações anafiláticas nos profissionais de saúde britânicos, as autoridades de saúde decidiram desaconselhar a administração das vacinas a pessoas com reações alérgicas graves. Questionado sobre o que justifica esta decisão, tendo em conta que estes casos são raros mas naturais, Henrique Veiga Fernandes diz ser a “precaução”: “Como isto aconteceu logo no início da vacinação no Reino Unido, as autoridades de saúde britânicas quiseram perceber a frequência com que isto ia acontecer“.

Formulário que despista casos de contraindicação ou de precaução na vacina contra a Covid-19.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Se tem reações alérgicas graves, quando for chamado para tomar a vacina contra a Covid-19, o melhor mesmo é alertar o médico assistente da sua condição porque cabe a ele decidir se é admissível para ser vacinado. Uma das perguntas que é colocada aos utentes é se “teve anteriormente alguma reação adversa grave a uma vacina ou a outro medicamento ou alimento”. Mário Morais Almeida até vai mais longe: visite o seu imunoalergologista e ele dir-lhe-á o que fazer. Uma coisa é certa: “Devemos estar confiantes e informados”, apela o presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica: “O Programa Nacional de Vacinação é uma realidade de que todos nós nos devíamos orgulhar e continuar ativamente a promover, sejamos profissionais de saúde ou não”.

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