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Álvaro Tavares

Álvaro Tavares

Portugal chegou aos Jogos Sem Fronteiras há 40 anos: mas quem é que teve esta ideia genial?  /premium

A competição foi criada em 1975, mas Portugal só entrou em 1979, há precisamente 40 anos. Hugo van der Ding recorda o programa-concurso que mudou as salas de estar portuguesas às segundas à noite.

Vivemos num tempo de enorme nostalgia pelo passado. Depois dos loucos anos noventa do Cavaquismo, em que toda a gente deitou fora os móveis que agora se compram pelo preço da prótese de uma perna, e se encheram as casas de “sofás-cama”, bares com espelhos e “móveis da sala”, chega agora uma enorme saudade por tudo o que era moda nos anos 80. Dos glutões do Presto ao Tou do Bollycao.

Fazem-se filas para as exposições da Joana Vasconcelos, a artista que, como as avós fechadas em apartamentos na Amadora e nostálgicas da serra, cobre tudo o que seja superfície tridimensional com crochet. Só um enorme contentor de falta de noção, todo bordadinho até cima. Também Vhils tem estatuto de herói nacional, com a sua (impressionante) arte aos buracos, saudosos que somos do tempo em que as ruas das nossas cidades pareciam Sarajevo depois da guerra. Ou antes, que Sarajevo sempre foi uma cidade sinistra. Não desfazendo…

Depois de, nos anos 90, passarmos desdenhosamente à porta da mercearia do Sr. Antunes, em direção ao hipermercado sem baratas, sem chão encardido, e sem latas de atum fora de prazo, choramos, à beira de 2020, pelo velho lugar da fruta que agora se chama Chez Antunez e serve chá e scones.

Que atire a primeira pedra quem nunca deu um saltinho de alegria ao encontrar à venda, numa taberna de Serpins do Vouga, um pacote de pastilhas Super Gorila, um chapéu de chuva de chocolate, uns sugus de fruta, ou uma daquelas caixas de furos da Regina, da altura em que as guloseimas sabiam todas a sabão e provocavam seis tipos diferentes de cancro. Bons tempos. Hoje o cancro apanha-se com o sol da Polinésia e cura-se em clínicas em Londres e Nova Iorque. É a globalização.

[a primeira vez dos Jogos em Portugal, edição gravada na Praça de Touros de Cascais em 1979:]

Com o advento das low cost, a geração que cresceu nos anos 80 pode agora apanhar um avião e ir a qualquer cidade italiana comer os melhores gelados do mundo. Mas os melhores gelados do mundo não trazem aos olhos as lágrimas que despertam os gelados de gelo da Olá, que custavam vinte escudos. Ou um Calipo, vá, quando nos apetece satisfazer o nosso desejo de requinte, Ambrósio.

Eu próprio não sou imune a esta onda nostálgica. Tendo crescido com uma mãe macrobiótica, tenho saudades sobretudo do que nunca comi em criança. Sei identificar à primeira dentada dezassete tipos de algas japonesas diferentes, mas anseio por enfiar pela primeira vez os dentes numa carcaça com Tulicreme. Ou “banha de porco com Nesquik”, como chamava a minha mãe a essa Nutella das barracas. Já comi mais peixe cru que um urso polar, mas o que eu queria mesmo era encher a boca de Peta Zetas até me rebentarem os dentes todos. Que, por acaso, tenho mesmo todos. Obrigado, mãe.

Adiante.

O mundo do entretenimento, claro, não está imune às saudades, pelo contrário. Ainda há pouco tempo José Cid foi premiado com um Grammy de carreira. Latino, mas um Grammy. Ou melhor: um Grammy, mas latino. Talvez sejam efeitos secundários do aquecimento global, mas a verdade é que, por mais que digamos que queremos coisas novas e diferentes, gostamos mesmo é de bater o pézinho e cantar ao som reconfortante do passado.

Temos sempre a “nova Amália”, o “novo Variações”. E só não temos os “novos Delfins” porque ainda nos estamos a tentar esquecer que os originais existiram.

“Se eu nos vestir, franceses e alemães, com roupas ridículas, nos puser a fazer provas ridículas dentro de uma piscina, em cidades pequenas com nomes ridículos, de certeza que ficamos todos amigos outra vez”, terá pensado o velho presidente De Gaulle.

Mas falta falar da forma de entretenimento mais importante da era pré-internet: a televisão. O objeto quintessencial das casas portuguesas. Na altura, dizer-se, como sói dizer-se hoje, “ah, eu não tenho televisão” significava que se morava ou na rua ou numa cela solitária do Estabelecimento Prisional de Monsanto. E dizer “ah, eu não vejo televisão” significava que se era cego, ou que, no mínimo, se estava carregadinho de cataratas. Com dois canais portugueses, um deles transmitindo três horas por dia, ninguém perguntava “viste o filme de ontem à noite?”. Perguntava-se “o que é que achaste do filme de ontem à noite”. Nos cafés, não se discutiam mercadorias perigosas nem incêndios na Amazónia. Comentava-se o episódio da véspera da “Tieta” ou do “Roque Santeiro”.

Os millennials que me lerem ficarão com a ideia de que cresci (crescemos) na Roménia. Filhos, a Roménia comparada com Portugal dos anos 80 era o Japão. Mais aborrecido que um discurso do João Miguel Tavares no 10 de Junho. Estou a brincar. Mas quase.

Porém, não era só o tédio e o suor das costas nuas na napa que colavam os portugueses ao sofá em frente à televisão. Havia um programa, mais do que qualquer outro, que juntava as famílias para umas horas de boa disposição. As filhas largavam as tesouras e os recortes da Bravo, os filhos apagavam os charros e desciam dos terraços, as mulheres deixavam a loiça para mais tarde e os maridos não batiam nas mulheres por ainda não terem lavado a loiça. Um comovente quadro.

Uma das edições dos Jogos Sem Fronteiras gravadas em Portugal

Falo, claro, de Jogos Sem Fronteiras. Ou Jeux Sans Frontières, no original, que é francês. Foi aliás Charles de Gaulle, o general, quem teve a ideia de os organizar. De Gaulle tinha ideias ótimas. Já uns anos antes tinha tido a ideia de libertar França dos nazis. E depois os Jogos Sem Fronteiras. Onde é que aquele homem iria buscar estas ideias, pá! Creio que teria sido precisamente restaurar a amizade entre os franceses e os alemães durante a Segunda Guerra. “Se eu nos vestir, franceses e alemães, com roupas ridículas, nos puser a fazer provas ridículas dentro de uma piscina, em cidades pequenas com nomes ridículos, de certeza que ficamos todos amigos outra vez”, terá pensado o velho presidente. Brinco. Mas foi mais ou menos assim que nasceram os jogos em 1965. Convidaram também outros países à volta para participar, provavelmente por uma questão de educação, que os franceses são um povo muito educado. Estou a ser irónico, claro. São ordinaríssimos, como se sabe.

A Portugal, os jogos chegaram apenas em 1979, provavelmente para deixar passar algum tempo e não parecer que as provas eram a gozar com a Guerra Colonial.

A ideia dos Jogos Sem Fronteiras explicada a um marciano que chegasse hoje à Terra é mais ou menos isto: uma espécie de Jogos Olímpicos, mas com provas absurdas, tartes na cara, quedas para a água e quedas em geral, com toda a gente a rir. O mais provável era o marciano responder: “Disso tudo, só percebi ‘água’”. Que isso a gente já sabe que há em Marte. Mas penso que fica bem resumido.

Desde que Portugal participou pela primeira vez em 1979 — passam agora precisamente quarenta anos — os Jogos Sem Fronteiras tornaram-se logo o programa preferido dos portugueses. Esse e o programa com centrifugação da máquina de lavar, que era uma novidade na época, e que deixava a roupa já boa para o ferro. Isto antes de ser hipster lavar a roupa no tanque.

Bom, e assim eram os serões das segundas-feiras, sintonizados (literalmente) na RTP 1, embalados pela eterna voz de Eládio Clímaco, torcendo por Barcelos, por Vinhais, por Silves, por Albergaria-a-Nova e uma vez até por Albergaria-a-Velha. De certeza.

As provas dos JSF consistiam num percurso muito colorido que teria de ser completado pelas equipas dos vários países. O percurso era sempre diabólico, cheio de armadilhas, alçapões, rodas gigantes, rodas dentadas, rodas redondas, rodas quadradas. Uma espécie de Indiana Jones, mas em ácidos, que tinha muita cor.

O comentário de sofá, geralmente a cargo do chefe de família, ia beber muito à escola dos jogos de futebol, com os concorrentes a serem louvados quando ganhavam e as mães dos concorrentes a serem insultadas quando perdiam. As senhoras reclamavam: “Ó Arlindo, não digas palavrões em frente dos miúdos, c*ralho!”. Os miúdos riam como doidos dos pais e das figuras dos concorrentes. E o cão aproveitava a diversão da família para ir comer a cadela da vizinha.

Vem também daqui o ódio mortal a cidades que ninguém sabia sequer onde ficavam, como Torrejón Rubio, Vaduz ou Bedford-upon-Thames. Esses cabrões, pá!

Continuando com a alegoria do marciano, vou agora passar a explicar-lhe as provas. Mas primeiro vou perguntar-lhe se ele está preparado para isso, se não quer pensar duas vezes e enfiar-se na nave espacial e voltar para a terra dele. Ou para a Marte dele, vá. Ok, tu é que sabes.

As provas dos JSF (só agora é que me lembrei de usar uma abreviatura, que estúpido) consistiam num percurso muito colorido que teria de ser completado pelas equipas dos vários países, geralmente com um ou dois jogadores à vez, ajudado pelos outros colegas. O percurso era sempre diabólico, cheio de armadilhas, alçapões, rodas gigantes, rodas dentadas, rodas redondas, rodas quadradas. Uma espécie de Indiana Jones, mas em ácidos, que tinha muita cor. Aqui fica uma boa sugestão para os millennials perceberem como eram os JSF: assistir em LSD a “Os Salteadores da Arca Perdida”. Ou então, procurarem “Jogos Sem Fronteiras” no Youtube. Como preferirem.

Seria impossível falar dos JSF sem falar da piscina. A água era o verdadeiro elemento do programa. Os países competiam entre si, de ano para ano, para fazer a piscina maior. Nas últimas edições, já estávamos praticamente no Alqueva. E qual era o momento alto de cada prova? Pois era quando os concorrentes caíam à água, de alturas várias, de alçapões vários. Tudo isto com fatos gigantes inspirados em vários temas. E nunca ninguém se magoava. Nunca ninguém partia nem braços, nem pernas, nem cabeças, nem espinhas. Ou, pelo menos, não se falava dessas coisas. Não era como hoje, que já não se pode dizer nada. É todo o mundo a processar todo o mundo por dá cá aquela palha. Antigamente é que era bom.

Os JSF remetem-nos para uma época em que a vida era mais simples. Ou se perdia ou se ganhava. E quando se perdia, chorava-se. E quando se ganhava, chorava-se também. A vida tinha obstáculos, sim, mas a única consequência era cair dentro de uma piscina. E a moral da história era sempre a mesma: juntos, de mãos dadas, unidos por um desejo comum, confiando no potencial construtivo do ser humano, conseguirás atravessar este passadiço em forma de língua de jacaré, vestida de bule de chá gigante, pegar naquela liana, cruzar o ar, chegar ao outro lado com o ovo ainda na colher que trazes presa nos dentes, e carregar no botão. And the winner is: Portugal! Mais concretamente a Mealhada, anunciava o mítico presidente do júri Gennaro Olivieri.

Foi assim por cinco vezes, tantas quando ganhou Portugal. Mais do que isso, só a Alemanha, que ganhou seis mais participou mais vezes. De Gaulle deve ter achado imensa graça.

Os jogos foram interrompidos em 1982, para serem retomados em 1988. Durariam depois até 1999. No auge da popularidade eram vistos por mais de cem milhões de pessoas.

Houve algumas tentativas de trazê-los de volta, este ano, mas o mundo não está preparado. Ainda estamos a lidar com o regresso do campismo, dos chinelos com meias, da Eurovisão e da heroína. Não dá para tudo.

Mas é uma questão de tempo.

Tal como as fronteiras estão a voltar à Europa, também voltará a vontade de fingir que não. A vontade de sermos todos amigos por umas horas, a jogar à apanhada, vestidos de ovos da Páscoa. De Sheffield a Condeixa, de Bercy a Eindhoven, de Piza a Bayreuth.

E nós, em casa, sorrindo com nostalgia do tempo em que era divertido ver alguém a cair à água.

Hugo van der Ding é autor (“A Criada Malcriada”), ilustrador, apresentador e cómico em geral

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