i

NUNO VEIGA/LUSA

NUNO VEIGA/LUSA

Português-Marcelês. O dicionário do Presidente comentador

Presidente aproveita contacto com populares e as situações mais inusitadas para anunciar iniciativas, mandar recados ou fazer comentário político. Uma palavra, com Marcelo, não é só uma palavra

Marcelo Rebelo de Sousa garantiu que deixaria de ser comentador no dia em que entrasse em Belém. Oficialmente, até o fez bem antes: assim que se assumiu como candidato presidencial. Mas não foi bem assim. Nas suas mensagens políticas, intervenções ou conferências de imprensa, o Presidente da República não se cansa de enviar várias mensagens nas entrelinhas. Na rua — enquanto interage com os populares, quando fala com crianças, quando corta presunto ou está a colher morangos — o Presidente dá notícias, faz críticas e comentário político.

Os momentos escolhidos já não passam pelas noites de domingo na televisão, mas não passam despercebidas: alimentam peças televisivas e radiofónicas e artigos de jornais. Marcelo nunca desmentiu essas interpretações, e, durante dois anos, nunca tinha falado sobre elas. Isto até à última sexta-feira quando em resposta a perguntas alunos do sexto ano numa escola na Ribeira Brava, nos Açores, decidiu falar sobre o assunto. Com humor.

Tudo começou com a pergunta inocente de uma criança: “Como se sente por ter sempre tantos jornalistas atrás?” Marcelo aproveitou a deixa. Disse que não tinha só jornalistas atrás, mas “à frente, ao lado, por cima, por baixo”. Explicou que os jornalistas querem saber, por exemplo, se o Presidente “quando passou pelo primeiro-ministro em vez de o abraçar imenso, de repente só deu um aperto de mão”. Nesse caso, brinca Marcelo, fazem logo a interpretação: “Atenção, isto está frio”. Disse ainda que os jornalistas até o “apanham à saída da casa de banho” e que estão sempre “à procura de um segundo significado” das suas palavras. O que é certo é que o Presidente não diz nada ao acaso. A prova disso é que as palavras que escolhe, nunca são inocentes.

As suas presidências abertas, chamadas “Portugal Próximo” — no Alentejo, em Trás-os-Montes ou nos Açores — têm sido profícuas em palavras com segundas intenções para as quais é, por vezes, preciso um dicionário de Português-Marcelês. Ou seja: uma tradução política do que o Presidente realmente queria dizer enquanto dava um beijo ou comia um queijo.

“Aikido”

Português: substantivo masculino; [Desporto] Arte marcial de origem japonesa.

Marcelês: arte marcial que serve para avisar o Governo que quando ataca o Presidente da República, o chefe de Estado consegue virar a força do ataque contra o Governo num contra-ataque, deixando-o imobilizado.

O dia era, talvez, o de maior crispação pública entre Belém e São Bento desde que o Presidente tomou posso. Nesse dia, 26 de outubro de 2017, a manchete do diário Público dava conta de que o Governo tinha ficado “chocado” com o discurso duro de Marcelo a 17 de outubro, na terça-feira que se seguiu à segunda grande tragédia do ano: mais de 40 mortos a somar aos 64 de Pedrógão Grande. Logo pela manhã, após assistir a um treino militar na Ilha da Terceira, Marcelo — que se encontrava de visita aos Açores — respondia ao Governo novamente com dureza, dizendo que “chocado ficou o país” e que quem entra no “diz que disse especulativo não entendeu, nem entende nada do que se passou em Portugal nas últimas semanas“.

Mas isso foram os ataques diretos, com os microfones e as câmaras em riste, mas durante a tarde — já após voar para Ponta Delgada — vieram as indiretas dirigidas ao Governo. Desta vez, utilizando o aikido. Na visita à Coriscolândia, um espaço lúdico da Kairós (uma IPSS), aproveitava uma conversa com uma criança sobre karaté para mandar recados ao Executivo de António Costa: “O que eu gosto, desde sempre, é o aikido: aproveitar a força de quem ataca para, com essa mesma força, utilizando-a, canalizá-la, para o imobilizar”.

No dia seguinte, numa aula para crianças do sexto ano na Ribeira Brava — para os jornalistas que não tinham ouvido a referência ao aikido — fez questão de lembrar o episódio e a interpretação que lhe foi dada. Explicou que estava “a fazer um comentário bem disposto” quando contou à criança que praticava esta arte marcial. Nesse momento, acrescentou o Presidente, olhou para a jornalista que estava perto e pensou: “Ó diabo, isto já vai dar uma notícia.” Tinha sido, essa aliás, a intenção Marcelo: avisar o Governo que, sempre que o atacar, ele utilizará essa força para o contra-ataque, deixando-o imobizado.

O curioso é que Marcelo não foi gratuito na arte marcial que escolheu. No final dos anos 1980, quando começou a ser mais regular nos mergulhos diários e chegou a praticar bodyboard, Marcelo começou também a praticar aikido e a fazer, ioga e meditação transcendental. Marcelo foi aluno da escola de aikido “Ten-Chi” (Céu-Terra), em Sintra, criada pelo mestre belga Georges Stobbaerts.

"O que eu gosto, desde sempre, é o aikido: aproveitar a força de quem ataca para, com essa mesma força, utilizando-a, canalizá-la para o imobilizar".

“Amuo”

Português: substantivo masculino; 1. Manifestação de enfado ou de mau humor que se revela por gestos, por um silêncio obstinado ou por se evitar olhar para o seu causador; 2. Zanga passageira.

Marcelês: Forma de dizer que o primeiro-ministro amuou por o Presidente ter tido um discurso duro após a segunda tragédia

O Presidente estava nos Açores, a visitar um espaço da fundação Kairós, a Coriscolândia, quando chegou à zona de creche. Nessa altura um bebé faz uma birra, que Marcelo, naturalmente, não consegue travar. O Presidente — que nesse dia trocou galhardetes com o primeiro-ministro em declarações públicas e soube por um jornal que o Governo estava “chocado” — começou a contar uma história sobre amuos. “Tenho uma amiga minha estrangeira que diz que os homens portugueses são os únicos do mundo que amuam. Nos outros países, as mulheres amuam e os homens irritam-se. Em Portugal, os homens amuam”. Era mais uma indireta a Costa, que teria “amuado” com o Presidente após o discurso de 17 de outubro, por este, alegadamente, estar já informado de tudo o que ia acontecer mas, mesmo assim, ter feito um discurso duro para com o Governo.

“António”

Português: Nome próprio.

Marcelês: Nome do primeiro-ministro, que serve para o Presidente o visar, com indiretas, no auge da crispação entre os dois órgãos de soberania.

Mais uma vez na Coriscolândia, mais uma vez num dia em que as relações entre o Presidente Marcelo e o Governo de António Costa estavam mais tremidas. Após fazer o desenho de um pirata com guaches, Marcelo sentou-se ao lado de crianças na Coriscolândia, em Ponta Delgada, a recortar letras de jornais. O objetivo era criar novas palavras. A criança que estava ao seu lado, chama-se “Vitória”. Era preciso encontrar aquelas letras todas. Num dos jornais, o Presidente encontrou logo as letras “vit”, seguiu-se o “o”, “r”, “i”, mas faltava o “a”.

Marcelo — com um manancial de opções à sua frente — em vez de escolher um “a” do tamanho das restantes letras, pegou num “a” muito pequeno. Os jornalistas toparam (aliás, como era objetivo de Marcelo). Então, fizeram a pergunta: “Esse ‘a’ é de António?”. Ao que o Presidente respondeu, fazendo-se despercebido: “António? De António? Gosto muito de António [pequeno compasso de espera], tenho um irmão chamado António”. A sala riu-se. Marcelo ainda brincou: “Estavam a pensar em António Guterres, não é?” Pouco depois lá acabou por escolher outro ‘a’: “Vamos pôr um ‘a’ maior a pedido de várias famílias”. Ficou muito mais proporcional do que a primeira letra que Marcelo tinha recortado. Ficou dado o sinal: naquele dia Marcelo queria transmitir a ideia de que o primeiro-ministro tinha sido “pequenino” ao dizer que estava chocado e de que estava zangado com o chefe de Governo.

“A de António? De António? Gosto muito de António [pequeno compasso de espera], tenho um irmão chamado António”. 

“Cogumelo”

Português: [Biologia] Designação dada às frutificações de alguns fungos basidiomicetes e ascomicetes, muitas das quais são comestíveis e algumas venenosas.

Marcelês: Fungo que serve para enviar recado ao Governo que o Presidente está acima do poder executivo e que tem o poder de dar suporte ou fragilizar um Governo.

Marcelo estava já há três meses como Presidente da República e o Portugal Próximo em Trás-os-Montes não arrastou tantos jornalistas de Lisboa, como a primeira “presidência aberta” de Marcelo, no Alentejo. Quando assim é, o Presidente gosta de agitar as coisas. Durante uma visita a uma fábrica de cogumelos, a SousaCamp, em Vila Flor, a 5 de julho, Marcelo enviou recados ao Governo. Começou por dizer, enquanto colhia o fungo: “Olha que maravilha, um duplo cogumelo“. Depois disferiu comentário fatal, puxando dos galões da hierarquia do Estado, explicando que há o “cogumelo gigante, presidencial” e concluí: “Este [cogumelo maior] é o Presidente da República e este é o Governo que é mais pequenino“.

Mas não se ficou, por aqui. Com a faca e o cogumelo na mão, Marcelo acrescentava aquele cogumelo duplo era uma apologia da “solidariedade institucional” existente em que o papel é o “Presidente aguentar o Governo”. Embora tenha acrescentado uma frase que tudo baralhou: “Por uns tempos…”. Ora, no meio de uma produção de cogumelos, onde nem todas as câmaras de televisão estavam posicionadas, Marcelo deixou dúvidas se seria sempre o apoio do Governo de António Costa.

“Coelho”

Português: Substantivo masculino. Designação dada a diversos mamíferos lagomorfos da família dos leporídeos, muito prolíferos, de cauda curta, orelhas e patas longas, cuja raça selvagem, ou coelho bravo, escava luras nos terrenos arenosos e arborizados, e é a origem do coelho doméstico.

Marcelês: Animal de peluche utilizado pelo Presidente para enviar recado ao líder da oposição.

Marcelo foi até ao Alentejo num primeiro Portugal Próximo, com pouco mais de um ano de mandato. O Governo tinha conseguido que fosse aprovado no Parlamento, na semana anterior, o Programa de Estabilidade e Marcelo Rebelo de Sousa ouvia as primeiras críticas da direita de “dar a mão” à esquerda. O rosto mais visível dessa contestação a Marcelo era Pedro Passos Coelho, que no Congresso do PSD, em Espinho, se tinha referido ao Presidente de forma fria e provocadora: “O dr. Rebelo de Sousa”.

O Presidente caminhava pelas ruas do centro de Évora,se cruzou com Inês, uma menina de 5 anos que agarrava entre os braços um “coelhinho” de peluche. Marcelo ainda lhe pediu o boneco, mas como, envergonhada, Inês não quis dar, o Presidente não insistiu. “Não dês, não dês, os coelhinhos são objetos de estimação”. O tom com que Marcelo o disse foi malandro. Os jornais, as rádios, as televisões aproveitaram a deixa tiveram a mesma leitura: o Presidente estava a enviar um recado a Passos Coelho.

O coelho que Inês, de cinco anos, resistiu a emprestar ao Presidente

LUSA

“Colar”

Português: verbo transitivo; pegar com cola.

Marcelês: Verbo utilizado para o Presidente transmitir que é ele que consegue unir posições quando o ambiente se crispa na política.

O Presidente estava numa IPSS, na tal tarde nos Açores, onde recortou as letras com o nome próprio do primeiro-ministro (ver a palavra “António”), mas não se ficou por aí. A chalaça continuou. Marcelo queixou-se da cola UHU, que “cola nos dedos”, principalmente quando os papéis são mais pequenos. Lá vieram as indiretas políticas. O Presidente atirou: “Cortar é mais fácil que colar, por isso é que eu ando sempre a colar coisas. Ando sempre a colar tudo”. Marcelo dizia assim que é ele que tem de unir esquerda e direita quando o país está crispado.

“Gin”

Português: (palavra inglesa); substantivo masculino; aguardente de cereais = gim

Marcelês: Bebida indicada para exigir mais uma vez, a descrispação no combate político entre esquerda e direita.

Marcelo ouvia o empreendedor, da Sharish Gin, explicar que o gin que estava a provar era a “bebida ideal para estar com os amigos, num final de tarde, na esplanada”. O Presidente da República — que tinha tomado posse há pouco mais de um mês — aproveitou o brinde para exigir aquilo que tinha definido como um dos objetivos do mandato: a descrispação do panorama político. Em Reguengos de Monsaraz, o Presidente fez a prova e atirou: “Todos os políticos deviam tomar disto. Para ficarem suaves, suaves. Era bom para a descrispação“.

NUNO VEIGA/LUSA

“Morango”

Português: substantivo masculino; [Botânica] Fruto de morangueiro.

Marcelês: 1- Fruto que serve para transmitir que com um Governo de esquerda, é o Presidente que tem de fazer esforços para a governação se manter ao centro; 2- Fruto que serve para revelar o admitir de um segundo mandato presidencial.

O Presidente estava numa visita a uma plantação de morangos, cultivados em hidroponia, e começou a colher alguns destes frutos e a tentar colocá-los num carrinho, mas o carrinho acabava por deslizar demasiado para a esquerda, em vez de se manter — como era suposto — no meio do corredor. Segue-se então uma conversa com o ministro da Agricultura Capoulas Santos, em que Marcelo explica que tenta manter o Governo ao centro:

Marcelo: – “Isto é muito bom. Estão a ver como isto é. Está o carro a virar para a esquerda. Vê o ministro e vira para a esquerda. Este carrinho é ensinado. É uma coisa. E eu a tentar metê-lo ao centro. Isto está difícil, senhor ministro”.

Capoulas Santos: “Não está a conseguir, senhor Presidente.”

[Gargalhadas de ambos]

Marcelo:Não estou a conseguir. Isto está tudo a ir muito para a esquerda. Ora lá está. Ele vai para o centro-esquerda. Tenho de empurrá-lo para o centro. Mas lá está! Consegui.”

Também tendo os morangos como pretexto, Marcelo admitia ficar 10 anos em Belém. Primeiro, enquanto cortava morangos, brincoy com o proprietário da fábrica (a PaxBerry, em Beja): “Se tiverem um dia um problema, ao fim dos meus 5 anos de mandato, se me arranjar um lugarzinho nessa altura…” E aí veio a pergunta: Cinco ou dez? Ao que Marcelo respondeu: “Para já vamos contar com 5. Para eu ainda ter as mãos lestas. Porque isto exige lapidez de mãos. Aos 10 anos eu temo que já esteja um bocado gasto. Ora bem, vamos lá ver. O que não aconteceu com os demais Presidentes, que saíram jovens do cargo“. Depois disso fez uma resenha pela idade com que os seus antecessores saíram do cargo, demonstrando que é idêntica àquela que Marcelo teria caso esteja dois mandatos em Belém. Ou seja: Marcelo lembrava, com o pretexto dos morangos, que ainda tinha idade para ir a um segundo mandato.

“Pirata”

Português: substantivo de dois géneros; 1- Pessoa que cruza os mares para roubar os navios;

Marcelês: Forma de dizer que tem que lidar mais com a esquerda, que é maioritária no Parlamento, do que com a direita.

A Coriscolândia, em Ponta Delgada, nos Açores, apesar de ainda só ser 26 de outubro, já se vestia a rigor para o Halloween. Eram várias as bruxas e os piratas que esperavam o Presidente, quando visitou o espaço da IPSS Kairós. Há uma altura em que Marcelo começa a desafiar as crianças para uma fotografia. O local escolhido é uma mesa demasiado alta, com cadeiras demasiado altas, quer para crianças, quer para graúdos.

O Presidente começa a organizar os lugar: “Olhem para ali todos os piratas também. Onde estão? E a bruxa? Tudo a olhar para ali e no meio disto há uns piratas da comunicação social pelo meio.” Ainda não está como ele quer. E então, manda uma das suas tiradas habituais sobre esquerda e direita, ao ver que há mais crianças do lado esquerdo: “Vem aqui para a direita senão eu tenho muito mais esquerda que direita, aliás é o costume (…) E gosto! O senhor Presidente gosta disso!

LUSA

“Presunto”

Português: substantivo masculino; Perna ou espádua posterior do porco, depois de salgada e curada.

Marcelês: Forma de anunciar a receção do secretário-geral das Nações Unidas no Palácio de Belém.

O Presidente da República estava no último dia de “Portugal Próximo”, numa visita à Ovibeja, com os pavilhões completamente cheios de gente. A densidade de pessoas ainda era maior por onde passava o Presdidente. Foi então que, numa das bancas de enchidos, Marcelo Rebelo de Sousa decidiu cortar presunto, que iria levar para Lisboa. O vendedor aconselhava que o Presidente cortasse, como se estivesse a tocar violino. Marcelo empenhou-se, mas, pelo meio, libertou a notícia, dizendo que o pedaço de presunto que iria levar ia “dar para não-sei-quantos jantares em Belém”. E logo veio a revelação: “Como eu tenho agora chefes de Estado e o secretário-geral das Nações Unidas. Vai ser presunto para o secretário-geral das Nações Unidas.” Com qualquer outro político não seria normal anunciar que iria receber o secretário-geral da ONU (na altura Ban Ki-Moon) enquanto cortava presunto. É uma forma de não se mostrar deslumbrado. Para o Presidente Marcelo receber o secretário-geral da ONU é “just another day in the office.

“Isto vai dar para não-sei-quantos jantares em Belém. Como eu tenho agora chefes de Estado e o secretário-geral das Nações Unidas. Vai ser presunto para o secretário-geral das Nações Unidas"

Recomendamos

Populares

Últimas

A página está a demorar muito tempo.