Pré-publicação. Os escritos de Victor Cunha Rego

25 Fevereiro 2018

"Na Prática a Teoria É Outra" chega às livrarias dia 27 e reúne textos de Vitor Cunha Rego escritos entre 1957 e 1999. O Observador revela três destes artigos numa pré-publicação.

Em 1999, Victor Cunha Rego (1933-2000) recolheu em livro, a convite do editor Manuel de Brito, uma selecção das crónicas “Os Dias de Amanhã”, que publicara diariamente desde 1991 na última página do Diário de Notícias — fundando provavelmente um modelo bonsai de comentário prestigiado com múltiplos sucedâneos em várias publicações desde então.

Em 2004, foi possível mostrar no volume Liberdade também o essencial da sua vasta colaboração em grandes jornais de São Paulo (1958‑73), que em Abril de 1974 o qualificavam sem dúvida como um dos jornalistas portugueses com maior conhecimento da cena internacional, facto que não escapou a Mário Soares, que logo requereu a sua colaboração directa no Ministério dos Negócios Estrangeiros, num momento tão decisivo da nossa diplomacia e até da própria política internacional, como Victor Cunha Rego reconheceria a Nuno Miguel Guedes numa entrevista em Setembro de 1991.

Faltava claramente agregar a estas duas partes o período intermédio, durante o qual ele exerceu considerável papel na conquista, por vezes a pulso, de uma efectiva liberdade de imprensa, primeiro como director do estatizado Diário de Notícias, logo em Dezembro de 1975, e depois como fundador, inspirador e também director de A Tarde. Jornal Independente (um subtítulo geralmente esquecido) e, sobretudo, de Semanário, durante oito anos decisivos, entre a lenta ressaca do PREC, a segunda revisão constitucional de 1989 e a iminente entrada na CEE, em 1992.

Como escreveu José Cutileiro, Victor Cunha Rego viveu muito e pensou muito. Este volume, reunindo boa parte dos seus escritos, permite enfim reconhecê‑lo panoramicamente.

Vasco Rosa e André Cunha Rego (organizadores)

“Na Prática a Teoria é Outra: escritos 1957-99”, de Victor Cunha Rego (Dom Quixote)

Malraux

Diário de Notícias, 23 de Novembro de 1976

“Oh! Que ruído selvagem fazem, ao crepúsculo, | os carvalhos abatidos para a fogueira de Hércules!” (Les Chênes qu’on abat…) [Gallimard, Paris, 1971]

André Malraux, com 75 anos, está internado num hospital. A notícia quase passou despercebida neste país onde os jacarés parecem lagartixas e as lagartixas parecem jacarés. Mas os funcionários públicos que hoje pagam a promissória do passado «unitário» têm o direito de ficar comovidos e de ganhar alguns momentos de vida através do pecado de falar de coisas sérias.

Malraux foi, com Thomas Mann, Sartre e Herman Hesse, um dos grandes do Ocidente neste século.

De Thomas Mann ainda são citadas as descrições da burguesia estratificada da primeira metade do século XX. Sartre continua a ser lido em algumas escolas. Hesse goza de grande prestígio em todo o continente americano, onde Sidharta, Demian, O Lobo da Estepe e mesmo Narciso e Golmund são best‑sellers.

Mas as obras de Malraux caíram em desgraça.

Explicar o ostracismo actual de Malraux sob o ponto de vista da publicidade é fácil. A sua obra não é a de um retratista (como a de Thomas Mann), folheada como são folheados todos os álbuns. Nem a de um filósofo‑político como Sartre, que continua a frequentar as tertúlias da militância. Nem, sequer, a de um místico, como Herman Hesse, que nos traz, simultaneamente, a Idade Média europeia e a Idade Média asiática, a nós, tão perdidos na nostalgia da religião que não aconteceu idealmente.

Além disso, Malraux tem severos handicaps. Foi um precursor da revolução clássica, que abandonou tão logo esta ultrapassou os portões da Academia. Nunca a orquestra moscovita lhe perdoou o gesto. Também não ganhou com a mão direita o que jogara fora com a esquerda, porque foi gaullista — e poucas coisas existirão capazes de granjear tanto o isolamento (e a “grandeza”…) quanto o facto de ser‑se gaullista. Como se vê, um homem incómodo, um homem que se crê um dos últimos patrícios atenienses às vésperas do colapso da sua civilização. Não admira, portanto, que se venda pouco.

O que não deixa de admirar é que o último reduto sério da idade que está terminando – o reduto dos intelectuais anti‑intelectualismo – deixasse passar quase despercebida a síntese de toda a sua obra traduzida nas Antimemórias. Enfim…

André Malraux

A Condição Humana, L’Espoir, A Estrada Real, As Vozes do Silêncio, tudo isto passou. Tudo passa, tudo quebra, tudo cansa. Está certo. Aliás, tanto mais certo quanto ele não facilita as coisas, teimando em mergulhar nos vasos egípcios em vez de escrever sobre os desafios americanos, em comprazer‑se no apreço dos jardins hindus em vez de “futurizar” o século seguinte.

Mas bastará isso para explicar a “desgraça” de quem, como disse Lacouture, é o Heraclito moderno?

No fundo, aliás, estas “pequenas coisas” pouco apoquentarão o ateniense contemporâneo. A questão para ele parece ser a da revelação da linguagem da aparência e da linguagem do eterno. Ele é ateniense, mas o Egipto atrai mais do que a Grécia. Lá, nas bordas do Nilo, a obra de arte “sobrevive à cidade” (à ditadura?) e a morte é (ou pelo menos era…) o começo da eternidade.

Pois, como acentua um dos seus biógrafos, não era, afinal, no Egipto que as flores em vez de representarem junto dos mortos a perfeição do efémero representavam a preparação para o eterno? O que seria de nós se Marx, como Malraux, tivesse descoberto o Egipto? O deserto de Sabá, e Malraux, munido de um mágico aparelho chamado avião, tentando aterrar nos Jardins de Semiramis. E no regresso de Semiramis a primeira experiência de «volta à terra e à vida», após um encontro esvoaçante com a morte, que é a mesma em Malraux e em Lampedusa, o príncipe siciliano.

Malraux e a morte, de novo mas desta vez sobre o Guadarrama, em Espanha, onde o liberalismo perdeu (embora hoje não o entenda, mas voltará a entendê‑lo…) a primeira grande batalha contra a «cidade‑ditadura».

Por fim, o ministro de De Gaulle. Diz Emmanuel d’Astier [1900‑69] que perguntando a Malraux o que significava ser ministro este respondeu‑lhe com uma história de Mallarmé. Uma noite, Mallarmé escuta os gatos que conversam no telhado. Uma gata negra pergunta ao seu gato: “E tu, o que fazes?” O gato de Mallarmé responde: “Faço de conta que sou o gato de Mallarmé…”

Antes de ser gato, perdão, ministro, Malraux representou a morte sempre presente nos tanques que comandou na primeira hora da batalha contra o nazi‑fascismo e no maquis, de que foi chefe; o desfilar incessante de feridos, grandezas e misérias que fazem parte da luta; mas, de tudo isso, “só me ficava na memória a fraternidade”, aquela mesma fraternidade cuja falta levou um dos heróis de L’Espoir a duvidar da revolução.

Depois, Malraux foi ver Mao Tsé‑Tung.

Impressionante e indubitável o Mao Tsé‑Tung de Malraux, porque este não mente nem, sequer, como Malaparte, se dá ao luxo de contar o que talvez não fosse mas deveria ser. Mao Tsé‑Tung, que era para Malraux um tradicional imperador asiático e que o fazia pensar “nas carapaças cobertas de ferrugem do chefe do Exército que pertencera às cortes funerárias dos imperadores e que se encontram ao abandono nos campos de sorgo”. Porque, para o francês, Mao estava só, terrivelmente só. Sabia que não chegaria a ver a revolução planetária e que “os proletariados se unirão aos capitalistas como nos Estados Unidos, como na Rússia”. Aliás, foi o próprio Mao que, ao despedir‑se dele, lhe disse: “Estou só…” E a esperança do imperador parece só uma: a de que o seu país, “devotado à vingança e à justiça”, esteja presente na hora do grande choque planetário.

Mas Mao Tsé‑Tung (apesar de se tratar de um descendente dos grandes fundadores do Império do Meio) e a própria China são, mesmo assim, transitórios para a grande voz do silêncio. Para Malraux, afinal, o que sobreviveu (o que sobreviverá?…) são o Egipto e a Índia. Outra vez a nostalgia da religião não acontecida e ideal…

Esta capacidade dialéctica de ver o ponto inicial e ver o infinito, juntando‑os e tornando a separá‑los à semelhança do homem polifacetado, é que torna Malraux o maior de todos os ocidentais contemporâneos.

Em Malraux, como em todos os homens que vivem olhando a História, a preocupação constante e inequívoca de tudo situar no tempo e no espaço. O seu avô suicida‑se em Verona. E o neto, ao falar‑nos do “imperceptível rasto deixado pelos que levaram os cadáveres”, descreve, logo em seguida, o barulho que vinha do lado dos vivos, acrescentando: “A esta hora na direcção de Kabul, de Samarcanda, iam as caravanas de jumentos, cascos soando perdidos no tédio muçulmano.”

Esta capacidade dialéctica de ver o ponto inicial e ver o infinito, juntando‑os e tornando a separá‑los à semelhança do homem polifacetado, é que torna Malraux o maior de todos os ocidentais contemporâneos.

Há três ou quatro anos Malraux falou do amanhã: aproxima‑se o fim da época dos caballeros, dos gentlemen, para começar a época do homem‑massa.

Os comunistas e afins asseguram‑nos o nascimento do “Homem Novo”. É natural que as amostras que nos são dadas pelo PCP e pelas novas classes dominantes africanas provoquem reacções fortes e legitimadas neste País. Mas se o “homem da rua” de hoje se mostra corrupto e bárbaro, nem por isso será possível voltar ao “homem de bem” de anteontem. A síntese, boa ou má, virá da capacidade de servir de ponte entre o passado e o futuro sem se deixar cair em tentações de submissão perante “originalidades” (velhíssimas vassalagens) ou “tradições” (novíssimas decadências).

A vida, segundo Malraux, tem de ter um destino e ser uma aventura.

Corrida de touro

Estado de S. Paulo, 22 de Janeiro de 1961

O que é tourear?

Na modorra do meio da tarde, numa fazenda do interior, um amigo desperta de sua vaga sonolência e pergunta‑me o que significa tourear.

Sei que a pergunta implica um desafio porque para ele uma corrida de touros se resume à morte de quem não devia morrer e à luta desigual de um homem devidamente preparado contra um animal indefeso.

Meu primeiro impulso é de desânimo: há coisas que não se podem e nem devem explicar a quem não compreende logo de entrada. Uma corrida de touro não se explica, sentimo‑la ou não. Explicá‑la é cometer uma heresia.

Além disso, como será possível condensar numa frase toda a psicologia do povo mais difícil do Ocidente, o povo espanhol? Como será possível explicar a necessidade que atrai o homem para a gratuidade da aventura? Não posso dizer que a corrida de touro é um encontro do homem (o toureiro) consigo mesmo, à vista de milhares de outros homens que coparticipam da grandeza ou da miséria desse momento; seria certamente uma explicação muito abstrata. Não posso dizer que uma corrida de touros é uma tarde de sol; seria muito superficial. Não posso dizer que uma corrida de touros é o resultado geométrico do encontro de uma linha vertical (os homens que coparticipam da tal e o touro); seria demasiado esquemático. Não posso dizer que uma corrida de touros é a Espanha: seria muito vago. Ou que é um espetáculo colorido: seria muito estúpido.

Teria de falar muito e teria de falar claro para que meu amigo fosse tentado a deitar fora os preconceitos e a compartilhar um pouco da minha perspectiva e da minha emoção.

Ao procurar falar muito e claro, dei por mim balbuciando timidamente e perguntando a mim mesmo: O que é tourear?

Pepe‑Hillo escreveu, ou mandou que escrevessem, a primeira Tauromaquia ou Arte de Torear [: Obra utilísima para los toreros de profesión, para los aficionados y toda clase de sogetos que gustan de toros, Turner, Madrid, 1982] em que expunha todos os seus pensamentos fundados na “sábia experiência que é a mãe legítima dos conhecimentos”. Um touro matou‑o.

Joselito não escreveu nada, mas toureava sem esquecer uma única das regras tauromáquicas: sabia não só o que ia fazer, mas como iriam reagir os touros. Joselito teve como talvez nenhum outro toureiro a noção do seu terreno e a noção do terreno do inimigo. Um touro matou‑o.

Pepe‑Hillo, o da sábia experiência, e Joselito, o Sábio, que toureavam sem enganos, ambos mortos nas hastes de touros! E o Manolete, o Monstro de Córdova, o sábio do pós‑guerra, não diziam que jamais morreria, tal o seu conhecimento das regras e das reses?

O que é a tourada?

E Juan Belmonte? Quando apareceu, diziam os sevilhanos: “Você viu o Belmonte? Não? Pois apresse‑se que, da forma como toureia, não vai viver muito.” Juan Belmonte ainda vive nos dias que correm [1892-1962].

O que é tourear?

O que anda misturado com os touros no campo, toureia. O que, vendo‑se atacado no meio da lezíria, foge do touro, toureia. O campino que aparta o gado para uma corrida ou que muda os touros de pastagem, toureia. O que, no seu pequeno povoado, lida um touro no dia da grande festa, toureia. O espectador que, ao domingo, consegue vencer o medo e salta a barreira de uma praça de touros, misturando‑se com profissionais, toureia. Todos esses toureiam de uma forma prática, assim com toureiam teoricamente o empresário da corrida, o público, o presidente e o crítico.

Todos toureiam. Mas o que é tourear?

O toureio tem a sua explicação matemática no movimento geométrico de uma linha vertical, que é o homem, e de uma linha horizontal, que é o touro. Enquanto a linha vertical usufrui da vantagem de girar sobre si mesma, sobre o mesmo ponto de apoio, a horizontal é obrigada a deslocar‑se com maior ou menor amplidão. A possibilidade de tourear reside exatamente na forma como for aproveitando esse tempo que o touro leva a investir contra o homem e, depois, a voltar‑se para carregar todo de novo. Todas as outras regras falharão se esta não for levada em conta.

O restante da possibilidade de tourear (e a defesa do toureiro) pode resumir‑se em dois pontos: conhecimento de reses e conhecimento das sortes. Ou seja, olhar para um touro e saber qual a sua bravura, qual o seu poder, qual a sua rapidez, para que lado investe melhor e como investe; depois saber o que fazer com ele. Muito simples.

O que é mais importante, conhecer a rês ou conhecer a sorte? O que é mais importante para o jornalista: conhecer o fato ou saber expô‑lo com clareza? Ambas são condições sine qua non.

A corrida de touro não é mais o que era. Em alguns pontos conseguiu resistir à derrubada da Ordem que caracteriza o século a partir de seu segundo quartel, mas em muitos outros foi obrigada a transigir. Uma das causas que mais contribuíram para abastardá‑la foi a ânsia do povo espanhol em ver corridas após a guerra civil. Os espanhóis não souberam esperar: as principais ganaderías haviam sido dizimadas pela guerra; começaram corridas de novilhos. Pegou a moda.

Aos novilhos deram‑se purgas e limaram‑se as pontas das hastes, aos toureiros fez‑se propaganda em grande escala, os empresários aumentaram os preços; beneficiando‑se do turismo, o conformismo político entrou no terreno das praças de touro. A festa perdeu seu cunho de sinceridade.

Mas o público, o grande público, não deu por isso. Nunca houve mais toureiros, nunca se ganhou tanto dinheiro como durante a época que mediou entre 1940 e 1950, princípio da reação contra a burla do corte e da falsificação do peso das reses. As praças encheram‑se, os cartazes do turismo espanhol passaram a ter, invariavelmente, uma sevilhana e um touro, Tyrone Power fez uma fita em que era matador de touros, e o Brasil goleou a Espanha, em 51, ao som do pasodoble “Touradas em Madrid” [ João de Barro e Alberto Ribeiro, 1938]. Era a consagração turística.

Dois norte‑americanos tornaram‑se toureiros; nos EUA, os bares que tivessem na parede carteles de corrida de touros com nomes famosos passaram a dar fortunas. A bibliografia dos touros e dos toureiros aumentou de forma vertiginosa na língua inglesa. Algumas estrelas de cinema apaixonaram‑se por matadores de touros. Foi a conta.

E no entanto o espetáculo mais doloroso a que já assisti foi o dos touros cujas feridas ocasionadas em arena infetavam e eram posteriormente curadas com água e vinagre. Nunca ninguém queira ver um animal nobre e fortíssimo arrastar‑se pelos campos, minado pelas febres, arreado, miserável.

Atualmente, as praças espanholas enchem‑se de turistas, especialmente norte‑americanos e franceses. Só não gostam de corridas de touros aqueles que, sem as conhecer, ficam chocados com o aparente caráter brutal do espetáculo, ofuscados pela sua cor, enjoados pelo seu cheiro, repugnados pelo seu sangue; e isso faz‑me recordar o amigo que me perguntou o que era tourear e se eu sei lastimar a sorte do touro “indefeso” em face do homem “preparado”.

O meu amigo não tem razão.

E o tiro aos pombos? E a luta desesperada entre o pescador e o peixe? E a perdiz ferida na asa? E a bomba atômica?

Em Portugal não se matam os touros nas arenas. A lei, uma lei pseudodecente, proíbe‑o.

E no entanto o espetáculo mais doloroso a que já assisti foi o dos touros cujas feridas ocasionadas em arena infetavam e eram posteriormente curadas com água e vinagre. Nunca ninguém queira ver um animal nobre e fortíssimo arrastar‑se pelos campos, minado pelas febres, arreado, miserável.

Um dos enganos mais freqüentes que a corrupção de touros proporciona aos observadores ocasionais como esse meu amigo, é o de que o touro não merece o respeito do espectador.

O touro, para o verdadeiro aficionado, é tão importante quanto o toureiro. Os tratados de Tauromaquia dão‑lhes a primazia e, conforme já acentuamos, podem realizar‑se corridas de touros sem toureiros “profissionais”, mas elas não existirão sem os touros.

Existe um poema de Emilio Carrere [1881‑1947] que nos dá um aspecto muito esquecido das corridas de touros:

“La plaza de la aldea
hierve de sol y mosto…, es tarde de capea.
Una turba que huele a sudor y a zamarra
aúlla sobre los carros con las varas en alto.
Un torerillo hambriento quiere pasar de un salto
la barrera… Un silencio. Se oye como desgarra
la carne palpitante el cuerno. Como un trapo
queda en la arena, envuelto en el rojo guiñapo
del joyante capote. Se oye un clarín sonoro
y todo el mundo aplaude la bravura del toro.”

[“La víctima de la fiesta”, in Los Toros en la poesía castellaña. Estudio e antología, de José María de Cossío, 1931].

O que é tourear?

A lide de um touro começa no momento em que ele entra na arena; a sorte de matar principia no primeiro lance de capote. Ver como um toureiro, que é um homem, se comporta em face destes dois postulados.

Pode dar ao espectador momentos de altíssima alegria ou raivoso desapontamento, mas nunca deixará de comovê‑lo.

O toureiro a pisar uma praça de touros tem de dominar dois inimigos: o medo e o touro. O primeiro é bem mais importante que o segundo.

Há duas formas de se tourear bem ou mal, autêntica ou inautenticamente, mas três quartas partes do público que enchem as praças de touros têm maiores preocupações de composição plástica do que de autenticidade, mais desejo de “bailado” do que a exigência da pureza, e o êxito popular tanto se alcança toureando como mistificando habilmente. Litri ganhou mais dinheiro e mais fama «turística» do que Antonio Bienvenida, e se o valenciano era um homem valente isso não significava que um verdadeiro aficionado traçasse uma tarde de Bienvenida por toda uma temporada de Litri. Ir a uma corrida de touros, saber que o êxito tanto pode ser alcançado pelo caminho da mistificação em que cada lance foi fabricado de forma a oferecer o menor risco possível, embora o público incipiente pense que não, e encontrar um homem que, encontrando-se consigo mesmo, prefere o rumo da verdade e do risco autêntico, é um privilégio inexcedível.

A profissão de toureiro é mais incômoda que arriscada: o perigo é acidental e pode ser afastado, muitas vezes; o incômodo é a sombra cotidiana do toureiro. A maneira como ele se comporta em frente a um touro nunca é uma causa: é sempre conseqü.ncia. O toureiro, quando começa, tem de enfrentar a desconfiança do público, o desdém dos colegas, a avareza dos empresários; mais tarde, um dia, atentarão em si e neste instante terá de possuir dois atributos essenciais: o ser toureiro e o saber ser toureiro, a aptidão e o procedimento. Se o homem não for toureiro, poderá tentá‑lo quantas vezes quiser, que terminará sua vida como político, lanterninha de cinema, milionário ou jornalista — mas nunca matador de touros. Se o toureiro não for homem, terminará desprezado pelo público.

Quando não pode ser toureiro e homem no mesmo grau, que seja mais homem que toureiro, pois nos momentos cruciais de uma corrida de touros quem resolve o seu destino é o homem que se veste de toureiro.

Quem morre nas hastes de um touro é o toureiro; o homem teria de morrer cedo ou tarde. Mas quem sofre o incômodo da vida é o homem e não o toureiro. Quem se apresentou na corrida de Miura no ano em que faltara às outras por se encontrar gravemente ferido: o Belmonte homem ou o Belmonte toureiro? Por que Bombila no ocaso de sua carreira nunca recusou o risco de competir com Joselito, jovem naquela época? Por que Guerrita nunca voltou a cara a Espartero ou a Reverte?

Por que Manolete, naquela tarde em Limares, foi morrer na cabeça de um touro? Não o havia avisado o seu peão de confiança que o inimigo investia mal daquele lado? E quem respondeu: Yo lo sé, pero hay que matarlo? O homem; que tem de sobrepor‑se ao toureiro.

O presidente senta‑se no lugar de honra e a banda ataca mais vivamente um pasodoble. Finalmente chega o instante em que se inicia o paseo. São cinco horas em ponto. São cinco horas em todos os relógios…

Como é possível na vida em sociedade sabermos quando o homem é autêntico, ama a aventura pela aventura, não cede à corrupção e respeita seu semelhante se o não conhecermos pessoalmente durante toda a vida? É verdade que a Igreja aponta os Santos, mas sempre tarde de mais para que a sua geração os adore. A História faz o mesmo com seus heróis e seus mártires. Só o tempo poderá dizer — tarde de mais! — quem devíamos ter respeitado e idolatrado.

A corrida de touros é a forma menos falível e mais ao nosso alcance de encontrarmos o homem que não conhecemos pessoalmente, na sua miséria ou na sua grandeza. O ídolo de cinema é falso, pintado, fabricado.

O seu adversário é a técnica expressionista. O adversário do toureiro é uma fera à solta. Para que encontremos o homem que se esconde dentro do toureiro é preciso apenas uma coisa: que saibamos o que é tourear.

Desde manhã cedo que a multidão se enerva. Os pequenos restaurantes regurgitam de forasteiros e um largo cheiro de azeite frito espalha-se pela cidade. De Vigo chegaram dez vagões de mariscos, de Málaga chegaram montanhas de laranjas, dos pastos vizinhos veio a carne.

A corrida está marcada para as cinco da tarde mas a multidão, impaciente, desde as quatro forma uma longa fila serpenteante na direção da praça. Os que puderam comprar bilhetes entram e ficam nos corredores discutindo a última de Sevilha, de Madri, de Valência ou de outras feiras. Os outros, fora da praça, preparam‑se para escutar ovações e broncas e saber para quem elas se dirigem consoante o número de toques de clarim.

A hora aproxima‑se.

O presidente senta‑se no lugar de honra e a banda ataca mais vivamente um pasodoble. Finalmente chega o instante em que se inicia o paseo. São cinco horas em ponto. São cinco horas em todos os relógios…

Gregorio Corrochano, um dos maiores críticos de touros vivos, escreveu um livro admirável [¿Qué es tourear? Introducción à la tauromaquía de Joselito, Madrid, 1953; ilustrações de Martínez de León] em cujo último capítulo se podem ler as seguintes palavras: “O que é tourear? Eu não sei. Acreditava que Joselito soubesse e vi como foi morto por um touro.

“16 de maio. Feira Talavera. Mês de maio, mês mau para os toureiros; muita primavera nos campos, muito sangue bravo nos touros […]. Uma praça de touros como há muitas. […]. Seis horas da tarde. Na arena está um touro que se chama Bailaor […]. Sai Joselito armado de estoque e muleta. Vai matar o touro. Ninguém suspeita; nem ele próprio. Joselito com a idéia fixa de que o touro perdera a vista na primeira parte da lide, põe a muleta junto aos olhos para que ele a possa ver. O touro não arranca. Joselito afasta‑se e ao entrar em distância o touro apercebe‑se do vulto e investe. Joselito espera‑o tranqüilo; com sua habitual precisão trata de desviá‑lo com a muleta. Mas o touro ao chegar junto dela perde novamente a vista e acomete cegamente na direção do vulto. O toureiro é atirado ao ar; vai sobre a cabeça do touro e este atinge‑o, pela segunda vez, com a ponta do chifre esquerdo. […] O touro fere‑o sem o ver, ou porque tenha perdido a vista no início da lide ou porque na verdade era burriciego como eu predissera. Nunca nos pusemos de acordo. Fiquei sempre na dúvida. Mas nada disso importava. Joselito já não vivia; um touro matara‑o.”

O que é tourear?

“Exclusive”

O Semanário, 21 de Outubro de 1989

Em Londres, mergulhado num indian summer literal, da temperatura à cor da pele da minoria que cresce, os intelectuais vão ver Gauguin no Warhol, toda a gente de bom gosto não perde Elaine Page (Evita, Chess, Cats, etc.) no mais fabuloso Anything Goes de todos os que se fizeram no palco, e o establishement está no Strand, onde se estreou a primeira peça de Jeffrey Archer (Not a Penny More, Not a Penny Less, Kane and Abel, First among Equals, etc.). O título é Exclusive e os actores principais são Paul Scofield e Alec McCowen.

Quem se recordar de Scofield e McCowen juntos, no Royal Shakespeare Theatre, em 1962, recorda‑se da elegância de cortar à faca de Scofield no King Lear e do brio cheio de candura de McCowen no Fool. Em Exclusive eles dão a mesma imagem. Scofield impecavelmente dramático, ao ponto de parecer farsante. McCowen tão perfeitamente cómico, que não tem o menor sentido de humor…

Só que King Lear foi o começo da modernidade e Exclusive não é o começo de nada.

A peça é uma espécie de Front Page, a mais brilhante escrita (Ben Hecht e Charles McArthur) sobre jornalistas e jornalismo. Estreava na Broadway em 1928 com Osgorne e Lee Tracy. Um êxito. A primeira versão no cinema era com Pat O’Brien e Adolphe Menjou. A seguinte com Cary Grant, a última com Jack Lemmon e Walter Matthau. Front Page levou escritores a transformarem‑se em autores de roteiros com jornalistas como primeiras figuras. A partir daí, alguns dos escritores passaram a dirigir os próprios filmes: Dudley Nichols, Nunnally Johnson, Dalton Trumbo, Herman e Joseph L. Mankiewicz escreveram os papéis de Clark Gable (jornalista em nove filmes!), Spencer Tracy, James Stewart (Love is a Very Splendored Thing), James Cagney (Johnny Came Lately), Edward G. Robinson, Fred McMurray, Dana Andrews, William Holden, Gregory Peck, Humphrey Bogart (Deadline), Orson Welles (Citizen Kane) e… Ronald Reagan.

Jeffrey Archer, autor da peça "Exclusive"

Nesta lista — feita de memória por quem não perdeu um filme com jornalistas — a peça de Jeffrey Archer não faz má figura.

Archer segue a tradição. De domingo à noite a sexta‑feira à noite, vive-se na redacção do The Chronicle e vivem‑se as suas sucessivas edições.

O cenário é ultramoderno, mas a forma de fazer jornalismo – crime e política à frente, a grande distância do desporto, economia e internacional, mulher, arte (comércio), ciência, por esta ordem – é a mesma que fez, desde há um século, da imprensa britânica a melhor do mundo.

Megalómano, inteligente, egoísta, arrogante, insuportável, o director do The Chronicle, Nicholas Berkeley — n.b. para a redacção — é o arquétipo do director (editor, na Grã‑Bretanha) de um grande jornal.

Antes de tudo o mais, o scoop para a primeira página. Se possível, marcado exclusive. E antes dos outros exclusives, conseguidos com fibra, argúcia, trabalho pelos jornalistas — o exclusive que mais agrada ao seu ego: aquele que ele próprio consegue.

Exclusive é isso. Não começa nada. Acabará alguma coisa? Será o último aviso da morte do jornalismo limpo e brilhante da Inglaterra.

Desde o Daily Beast de Waugh [Scoop, 1938], esse jornalismo vive entre a adulação e o desprezo. Com os Murdoch e os Maxwell, a avaliar pelo comentário de Steve Smith, jornalista dos jornalistas, os jornais ingleses deixaram de ser um clube de gentlemen e estão à beira da vulgaridade.

Será assim?

Os jornais ingleses estão mais criativos do que nunca. Tudo em Inglaterra é criativo. À saída do Strand os espectadores de Exclusive recebem o The Chronicle numa edição completa (com publicidade) com todas as histórias que viram criar, escrever e editar no palco. O marketing perfeito.

Os italianos são imaginativos, os alemães determinados, os americanos pragmáticos, os japoneses disciplinados, os franceses racionais, os espanhóis idealistas, os polacos são bravos, os húngaros românticos, os suíços equilibrados. Os ingleses são cínicos, criativos e perfeccionistas.

Nenhuma pessoa nem nenhuma sociedade conseguiu civilizar‑se sem criatividade e perfeccionismo.

Os jornais ingleses vão continuar a ser os mais civilizados — e, podem descansar os moralistas, que a ponta de cinismo também não faltará.

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