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Pré-publicação. A vida de fé de Marcelo Rebelo de Sousa /premium

Os pobres, o Opus Dei, o Vaticano II e o Grupo da Luz. Pré-publicação do livro "Marcelo Rebelo de Sousa. O Presidente dos afetos", sobre o lado católico do chefe de Estado.

Em 1962, quando o Papa João XXIII inaugurou o Concílio Vaticano II, a maior reforma da história da Igreja Católica, Marcelo Rebelo de Sousa tinha 13 anos. Queria ser professor catedrático e ainda não lhe passava pela cabeça a possibilidade de vir a ser Presidente da República.

Mas a discussão à volta do que se passava no Vaticano apaixonava-o e foi precisamente aquele concílio que esteve na origem das primeiras discussões sobre religião na casa do pequeno Marcelo, que tinha a mãe do lado dos mais progressistas e o pai do lado dos mais conservadores.

Este é apenas um de vários episódios relatados no livro Marcelo Rebelo de Sousa. O Presidente dos afetos, escrito pela jornalista Cláudia Sebastião e publicado pela PAULUS Editora, de que o Observador pré-publica agora um excerto. O livro conta, em seis capítulos, o lado católico do Presidente da República, da infância à Presidência, que começou com uma celebração inter-religiosa na Mesquita Central de Lisboa no próprio dia da tomada de posse.

A autora do livro, a ex-jornalista da TVI Cláudia Sebastião, acompanhou durante 16 anos a política nacional como repórter de política da estação e como jornalista parlamentar. Hoje é jornalista da Família Cristã. O livro encontra-se em pré-venda na página da editora na Internet e pode ser adquirido aqui.

O livro “Marcelo Rebelo de Sousa. O Presidente dos afetos”, da jornalista Cláudia Sebastião, é editado pela PAULUS Editora e sai para as livrarias na próxima semana

Frente a frente com a miséria dos pobres

Além da entrega de cabazes a famílias, outra experiência marcou muito essa geração de jovens: as inundações de 1967 na Grande Lisboa. No dia 25 de novembro, cinco horas de chuva torrencial provocam as maiores inundações conhecidas. Estima-se que tenham morrido mais de 700 pessoas e mais de mil ficam sem casa em Lisboa, Loures, Odivelas, Vila Franca de Xira e Alenquer. A água leva tudo à frente, pessoas, casas, carros. O regime tenta esconder a dimensão da tragédia e usa a censura para impedir a contagem pública dos mortos. Mas mesmo assim, muitos jovens estudantes e universitários vão ajudar. Marcelo vai e o amigo João Seabra também. «A JEC mobilizou os jovens católicos todos de Lisboa para irem lá trabalhar. Isso gerou um movimento grande na camada dos jovens universitários e de liceus, que foram lavar, limpar, arrastar móveis, encontrar os pequenos pertences das famílias pobres e conhecer as circunstâncias de vida do povo trabalhador, do qual tínhamos uma ideia bastante vaga», conta.

A experiência com a realidade da pobreza extrema marca muito estes jovens e tem efeitos diferentes neles. «Em alguns jovens criou um desencanto com a eficácia do trabalho caritativo e levou muitos a atitudes revolucionárias, [pela] ineficácia social da Igreja – havia a ilusão que as ideologias revolucionárias eram mais eficazes para resolver os problemas. Para outros, pelo contrário, aprofundou a experiência da fé», defende. Terá sido o caso de Marcelo. Na biografia Marcelo Rebelo de Sousa, conta-se que ele «participa na missa quase diariamente […], vai à missa antes das aulas, sobretudo no período da Páscoa, durante a Quaresma». João Seabra diz que «Marcelo sempre foi católico a vida inteira, nunca foi outra coisa, sempre foi um católico incondicional».

Na JEC, contava em 2012, discutem «a oração, a prática religiosa, a vivência na escola, nomeadamente com a conferência de São Vicente de Paulo, e o Concílio Vaticano II». Era um jovem com uma «fé recebida de educação, era uma fé de tradição, uma fé óbvia, sem grandes angústias, sem grandes discussões, vivida serenamente». No Liceu, «passou a ser uma fé mais tumultuada na passagem para o Liceu e com os debates que surgiram muito cedo, sobretudo com os nossos colegas de inspiração marxista».

Marcelo Rebelo de Sousa é conhecido pelo seu estilo de proximidade (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Marcelo diz, desde pequeno, que quer ser professor catedrático de Direito. «Os miúdos da minha idade olhavam para mim e diziam: “Mas professor o quê? Catedrático?! O tipo é maluco. Mas o que é que ele quer dizer com catedrático?”» O estranho desejo tinha crescido ao conviver com o pai que «tinha querido ir para direito», mas teve de acabar em Medicina, e com «os amigos do meu pai, todos formados em direito e professores catedráticos da faculdade de direito de lisboa». Não é de espantar, pois, que entre na Faculdade de Direito de Lisboa em 1966. Tem como colegas Leonor Beleza e Braga de Macedo, com quem rivaliza pelas melhores notas. Da turma fazem também parte Vítor Melícias (sacerdote franciscano), Rao Kyao (músico), Luís Filipe Rocha (realizador) e Carlos Fino e Cáceres Monteiro (jornalistas).

A fé fortalece-se e amadurece. «Porque acredito em Jesus Cristo? Porque Deus acredita em mim. Tão simples quanto isso. Dirigiu-se-me e eu aceitei.» A explicação de Marcelo Rebelo de Sousa parece simples. À aceitação, junta-se o dom da fé. «Um cristão católico que não é otimista é profundamente ingrato. Nós estamos disponíveis para fazer misérias para ganhar o Euromilhões todas as semanas e não percebemos que o Euromilhões dos Euromilhões é a graça da fé. Não é contingente, não é semanal, não é conjuntural, não é limitado. É uma oportunidade única no caminho para a eternidade e no começo de construção da eternidade neste mundo.»

Tem perfil e é abordado para entrar no Opus Dei. É aí que conhece Adelino Amaro da Costa, que viria a ser fundador do CDS e o primeiro ministro da Defesa não militar, e se tornam amigos. «Era incansável e achava que o meu caminho para o Céu passava pela Obra [Opus Dei] na altura, ironia do destino. Inventou uma reunião sobre a universidade popular em Coimbra, na residência das beiras. Então estava-se em 1969 e lá vamos todos para a residência das beiras. A experiência não correu muito bem», conta Marcelo já durante a campanha presidencial. Vítor Matos revela que «o grupo começa a fartar-se da disciplina religiosa e decide procurar animação. Marcelo pede a chave para irem a Coimbra. Regressam animados com os copos. “Tínhamos o padre à nossa espera, com o pobre do Adelino a fazer sinalefas atrás dele como quem diz – vocês exageraram, pá, bolas!…”» Em entrevista ao jornalista, Marcelo admite que «o Opus Dei tem um lado positivo para mim, que é a ideia da santificação pelo trabalho. […] O mais complicado era a disciplina e o enquadramento comunitário, e eu era um rebelde, um individualista, e não era gregário nessa matéria».

Marcelo admite que «o Opus Dei tem um lado positivo para mim, que é a ideia da santificação pelo trabalho. […] O mais complicado era a disciplina e o enquadramento comunitário, e eu era um rebelde, um individualista, e não era gregário nessa matéria».

Jovem nas convulsões do Concílio Vaticano II

Noite de Natal de 1961. No Vaticano, o Papa João XXIII convoca o Concílio Vaticano II, que se realiza entre 1962 e 1965, terminando já durante o pontificado do Papa Paulo VI. Nele participam mais de dois mil bispos do mundo inteiro com o objetivo de «pôr em contacto com as energias vivificadoras e perenes do Evangelho o mundo moderno». «Vou abrir a janela da Igreja para que possamos ver o que acontece do lado de fora e para que o mundo possa ver o que acontece na nossa casa», disse o Papa João XXIII. Era um concílio revolucionário.

Em Portugal, Marcelo e os amigos acompanham tudo o que acontece no Vaticano durante aqueles anos. Recorrem a fotocópias e a publicações religiosas, que chegam a conta-gotas a Portugal. Em casa, o concílio trouxe «as primeiras discussões religiosas» porque «houve uma certa clivagem: a minha mãe estava com os mais virados para o futuro e o meu pai com os mais preocupados». Marcelo recorda o dia em que o pai chegou a casa indignado a reclamar: «“Agora passa a tratar-se o celebrante por tu. Parece que é uma cedência ao Brasil.” A minha mãe imediatamente explicou que isso tinha outra lógica, porque realmente havia que fazer uma distinção entre o celebrante e a divindade.» Discussões como esta fervilham em casa e nos meios em que se move. Ao mesmo tempo começam a ser aplicadas as mudanças que o próprio concílio veio introduzir. «Estão a ver o que foi viver isto ao vivo: fazer a transição do latim para o português, o reajustamento dos templos e o reajustamento da participação na liturgia. A mudança litúrgica foi uma certa revolução. Mas teve aspetos muito interessantes e muito estimulantes que foi começar a permitir um grau de participação crescente das pessoas.»

A primeira visita oficial de Marcelo Rebelo de Sousa foi ao Vaticano (ALESSANDRO BIANCHI/AFP/Getty Images)

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Marcelo Rebelo de Sousa diz que o Vaticano II foi «o Concílio na adolescência», quando tinha «13 anos, a iniciar o 2.º ciclo dos liceus, no Pedro Nunes, em Lisboa, dirigente da JEC, num tempo que seria o derradeiro da Ação Católica em meio escolar». Por isso, recorda «a emoção de um choque vital para os católicos». «Foram muitas sensações, muitas reflexões, muitas orações, muitas esperanças, muitas querelas com mais velhos ou entre mais novos […]. Bastantes dos meus companheiros de percurso espiritual nunca se ajustaram à mensagem conciliar, aceitaram-na porque tinha de ser, e, na primeira esquina da História, regressaram a um misto de pré-conciliar suavemente adaptado. Outros, a maioria, consideraram curta a mudança na Igreja portuguesa, ou lenta, ou, então, que fez mudanças de vida ou de atuação que a levou a afastar-se da vivência comunitária. […] Terceiros, vivem a sua Fé a sós, num estilo que se foi ampliando na sociedade portuguesa. Mas alguns – e, felizmente, não poucos – tentamos não confundir cabeçadas na vida com perda de Fé, nem ficar com saudosismos de uma Igreja pré-conciliar, nem ser sensíveis à ideia de grupos de eleitos que curam da sua salvação já que o mundo parece apostado na alegada volúpia da perdição, nem aderir às teses do fim da História – das marxistas às neoliberais –, nem nos satisfazemos com o neo-iluminismo relativista.»

Marcelo Rebelo de Sousa está neste último grupo e assume-se «um católico do Concílio Vaticano II», «profundamente marcado por aquela experiência que nos marcou a todos e continua a marcar, porque é uma mensagem que não está esgotada, porque no fundo é uma projeção de uma fé que nós sabemos que nunca se esgotará. É essa a grande graça que nós recebemos».

Na altura, foi tocado mais pela «ideia da Igreja serva e pobre, presente no serviço da comunidade, entidades de solidariedade social que se multiplicaram no tempo; o ecumenismo, o acompanhamento dos problemas sociais e a atenção preferencial pelos mais explorados, pelos mais dependentes, pelos mais oprimidos». Marcaram-no também «a nova evangelização», o «diálogo e o debate com a ciência e com a técnica». Mas a grande mudança aconteceu para os leigos: «A ideia de que éramos mais responsáveis, nós Igreja povo de Deus. Não era a Igreja o bispo, não era a Igreja o Padre, éramos nós comprometidos. E em muitos casos com os leigos a poderem e a deverem ir onde o sacerdote não pode ir. Isto era uma coisa nova.» Por tudo isso, diz dever «ao Concílio Vaticano II o que há de mais social na minha vivência cívica».

Noutra ocasião, durante a Semana Missionária da Paróquia de Arroios, em Lisboa, admite que foi então que descobriu o papel dos outros na própria salvação. «A razão de ser da nossa salvação ou do nosso percurso de salvação são os outros. Nós salvamo-nos pelos outros e com os outros. Foi através das ações que tínhamos nas conferências de São Vicente de Paulo, através das intervenções nos bairros de lata, através dos movimentos em que entrei naquela altura, sobretudo ligados aos franciscanos. Foi através do sofrimento, do apelo da realidade de Deus através do próximo. Mesmo quando esse próximo não era próximo passou a ser próximo. Descobri que havia aí mensagens e sinais dos tempos a que tinha de estar atento. E não tinha que ver com a razão, nem com a ciência. Era uma experiência diferente.»

«Nós salvamo-nos pelos outros e com os outros. Foi através das ações que tínhamos nas conferências de São Vicente de Paulo, através das intervenções nos bairros de lata, através dos movimentos em que entrei naquela altura, sobretudo ligados aos franciscanos. Foi através do sofrimento, do apelo da realidade de Deus através do próximo.»

Grupo da Luz: amizades para a vida

O Concílio Vaticano II haveria de ser amplamente discutido e enraizado na vida de uma geração de jovens estudantes universitários e profissionais que participam no Grupo da Luz. Os encontros começam em 1970, no Seminário da Luz, em Carnide, Lisboa. O padre franciscano Vítor Melícias reúne em torno de si um «grupo de geometria variável», com jovens estudantes e profissionais de diferentes origens. O sacerdote tinha regressado de Roma onde estivera a estudar Direito Canónico. Ingressa no curso de Direito da Faculdade de Direito de Lisboa e fica na mesma turma de Marcelo Rebelo de Sousa. «Ele era desde logo um aluno brilhante que todos conhecíamos, admirávamos e estimávamos. Teve depois mais proximidade comigo quando começámos a constituir o núcleo daquilo que viria a ser o Grupo da luz com António Guterres e os outros todos», conta Vítor Melícias. Marcelo refere-se ao sacerdote como «um irmão»: «Um irmão, para além de irmão na Fé, no caminho partilhado, na irremovível crença na bondade, no serviço, no Amor!» O caminho percorrido é próximo e desafiador.

Décadas mais tarde, como candidato presidencial, Marcelo lembra o início dessa aventura. «Estou ali pelo 3.º ou 4.º ano da faculdade, 1969, 1970 – o Vítor Melícias era nosso colega. Estava na [Seminário da] Luz e naturalmente se criou um ponto de encontro não apenas dos que estavam em Direito, mas de pessoas que vinham do Técnico, de Filosofia, de Economia.» Até 1974, pertenceu e foi muito ativo no grupo. «Era uma mistura de oração, de vivência sacramental um pouco heterodoxa, isto é, com minicelebrações na casa dos vários, que para a época era um pouco original», conta. Mas o grupo também fazia intervenção em bairros sociais. «Muitos dos que entraram vinham do CASU [Centro de Ação Social Universitária] com uma prática de apoio a bairros social, nomeadamente bairros de lata, ou a crianças que vinham do interior e que nunca tinham visto o mar. Tivemos essa experiência horrível de os ver precipitarem-se pelo mar dentro vestidos e nós assustados a ver quantos se afogavam.» Além disso, havia a componente da intervenção pública e «a ideia de estarmos presentes no maior número de intervenções na sociedade portuguesa». Marcelo Rebelo de Sousa revela que se discutia «além da reflexão sobre temas do Vaticano II, o papel dos leigos na vida social e na vida política. Havia uns que se dedicavam mais à política, outros, mais à parte social; outros, à parte da comunicação social e outros, na luta contra a pobreza», recorda.

Vítor Melícias lembra-se bem desses tempos. «Nessa altura, o Grupo da Luz tinha a participação sobretudo liderante de António Guterres e também de Marcelo. Embora António Guterres fosse mais o dinamizador do grupo e o Marcelo fosse mais dinamizador da informação e participação social, na área da comunicação social e da política.» Marcelo conta, a Vítor Matos, que entre ele e António havia «uma grande amizade, estávamos permanentemente em sintonia». Saíam juntos, iam juntos à Missa e pregavam partidas como tocar às campainhas à noite. «Às tantas da noite nós tocávamos e o pai dele, coitado, que era muito rígido… a partir de uma certa hora aquilo não se admitia, realmente…», admite Marcelo. Publicamente, como Presidente da República, também lembra esses tempos: «Nos meus vinte anos, eu integrava um grupo que ao mesmo tempo que debatia o que é que o país havia de ser politicamente no futuro, olhava imediatamente para os problemas concretos da sociedade portuguesa e eram muitos da mortalidade infantil até ao analfabetismo. Nesse grupo estava o engenheiro António Guterres, era mesmo o melhor de todos nós.»

Marcelo Rebelo de Sousa e António Guterres, atual secretário-geral da ONU, eram membros do "Grupo da Luz" (JASON SZENES/EPA)

JASON SZENES/EPA

As preocupações sociais levaram o grupo a criar um subgrupo. Vítor Melícias explica que faziam parte «o presidente da Fundação Gulbenkian, Vítor de Sá Machado, o economista Silva Lopes, Manuela Silva, vieram depois da área social mais prática como o Acácio Catarino, António Guterres, eu mesmo. E o Marcelo acompanhava bastante isso. Acabámos por realizar na [Fundação Calouste] Gulbenkian o primeiro fórum sobre o combate à pobreza.» Havia «pobreza generalizada» e era preciso sensibilizar a sociedade para isso, mesmo que isso não tenha agradado ao Governo de Mário Soares, que terá considerado tratar-se de um ataque, explica o sacerdote. António Guterres recorda esse momento do «grupo que se reuniu para lançar uma campanha nacional de combate à pobreza, durante os anos 80, num difícil período de austeridade, essa iniciativa culminou com uma grande conferência nacional na Gulbenkian e a publicação de um estudo admirável da autoria de Alfredo Bruto da Costa e de Manuela Silva. Foi um grito de alarme e de indignação numa sociedade que parecia resignada e silenciosa».

O grupo discute, intervém na comunicação social, mobiliza pessoas. «Éramos bastante ativos, mas não tínhamos ação política direta. Era sempre ação política indireta: sensibilização, empenhamento pessoal e grupal, estabelecendo contactos, por exemplo com D. António Ferreira Gomes, do qual tenho textos escritos a incentivar-nos embora dizendo tenham cuidado. Tivemos duas ou três audiências com D. António Ribeiro, Patriarca de Lisboa, e contacto muito direto com Miller Guerra do grupo dos liberais da Assembleia Nacional», recorda o padre Vítor Melícias. O Concílio Vaticano II estava na essência da ação do grupo. «Os leigos devem preparar-se para serem os agentes de dinamização, de cristianização da vida social. Portanto: menos clericalismo. Aliás, éramos bastante anticlericais. Funcionámos sempre como grupo autónomo na Igreja, tipo grupo de base e sempre com esta preocupação de que aqueles jovens se assumissem como membros de pleno direito da Igreja e com responsabilidade de agir no social, de agir no político e de agir na vida da sociedade.» O estudo dos textos, a «doutrinação mútua» conduziram à defesa de que «é preciso haver partidos, é preciso que a comunicação social seja livre e este grupo participou na fundação do Expresso».

Um tema muito presente nos encontros e nas reflexões do Grupo da Luz era a parábola dos talentos (Mt 25,14-30). Nessa história, um patrão entrega os seus bens aos empregados porque vai viajar. Quando regressa, ajusta contas com eles. Os que tinham recebido mais trabalharam e multiplicaram o que lhes tinha sido confiado. O que tinha apenas um talento teve medo de o perder e enterrou-o. O patrão castigou-o severamente. O padre Vítor Melícias recorda o que dizia a propósito desta parábola: «Vocês são jovens, até são bons alunos, têm obrigação de fazer render os talentos que receberam. Receberam talentos não para ficar para cada um, mas precisamente para beneficiar o bem comum.»

Marcelo Rebelo de Sousa refere, muitas vezes, esta parábola dos talentos. «Há uma fase da nossa vida, em que nós andamos a tentar descobrir qual é o talento, que depois descobrimos que muda ao longo da vida. Em vez de enterrar o talento, temos de fazer frutificar o talento. Modestamente, no meu caso é o pedagógico. Descobri qual é o talento que recebi e que é o transmitir informação, transmitir formação, valores. É isso.» Uma convicção que o há de acompanhar durante toda a vida.

«Há uma fase da nossa vida, em que nós andamos a tentar descobrir qual é o talento, que depois descobrimos que muda ao longo da vida. Em vez de enterrar o talento, temos de fazer frutificar o talento. Modestamente, no meu caso é o pedagógico. Descobri qual é o talento que recebi e que é o transmitir informação, transmitir formação, valores. É isso.»

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