Pré-publicação. Pode ser lunático, mas por que razão é que o mundo fala inglês? /premium

A edição portuguesa do livro "Loonshots", do físico e executivo Safi Bachall, chega a Portugal. Leia um capítulo de "Lunáticos. Como fomentar ideias loucas que fazem o mundo avançar".

O livro “Lunáticos. Como fomentar ideias loucas que fazem o mundo avançar”, de Safi Bachall, físico e empreendedor, chega esta terça-feira a Portugal pela Lua de Papel. Nesta obra, o autor mostra como os conceitos que permitem fazer descobertas radicais são diferentes do que o que podemos pensar e explica como se criam as condições ideias para introduzir inovações no sector público ou privado. Usa exemplos que vão das quedas da Polaroid, Nokia e Xerox, à propagação dos fogos florestais, passando pela caça a terroristas online, onde não falta a referência a James Bond – uma ideia lunática, rejeitada por muitos estúdios “cristalizados” antes de ser um sucesso.

Formado pela Universidade de Harvard e doutorado em Física pela Universidade de Stanford, Safi Bahcall trabalhou com o Prémio Nobel Robert Laughlin e fez parte do conselho científico do Presidente Obama. Empreendedor premiado no ramo da biotecnologia, Safi Bahcall inspirou-se no trabalho de Vannevar Bush (engenheiro formado no MIT que se alistou na Marinha durante a Primeira Guerra Mundial e a quem ficou a dever-se o uso do radar, pelos americanos, na destruição dos submarinos alemães) para escrever este livro, o primeiro a aplicar as transições de fase (uma das grandes ideias da física) ao dia a dia das empresas e organizações.

Em abril, lançou este livro, com título em inglês: “Loonshots: How to Nurture the Crazy Ideas That Win Wars, Cure Diseases, and Transform Industries [traduzido à letra, “Lunáticos: como ser incubadora para ideias loucas que vencem guerras, curas doenças e transformam indústrias”]. Rapidamente, tornou-se num sucesso da crítica, sendo referenciado pelo Washington Post, pelo Business Insider e até recomendado por Bill Gates.

O Observador faz a pré-publicação do nono capítulo deste livro.

Por que razão o mundo fala inglês

A GRANDE PERGUNTA DE NEEDHAM

Num dia ensolarado de agosto de 1937, no campus da Universidade de Cambridge em Inglaterra, uma atraente visitante de 33 anos bateu à porta de um famoso bioquímico. O estudo em três volumes de Joseph Needham sobre como se formam e crescem os embriões fora comparado por críticos à Origem das Espécie de Darwin. Gweidjen Lu viajara quase 13 mil quilómetros, desde Xangai, para conhecer e possivelmente trabalhar com o lendário Dr. Needham e a sua mulher, Dorothy, também ela uma bioquímica de sucesso.

Lu estava à espera de um “homem de idade com uma farta barba branca”. Mas encontrou um homem trintão, alto e magro, cuja voz forte tinha “uma suavidade, quase um ceceio” que ela achou fascinante. Lu descobriu rapidamente que Needham tinha uma série de interesses invulgares: era religioso devoto, participante entusiasta da natação nua em grupo e um ávido praticante do amor livre. Com o conhecimento de Dorothy, Needham começou a ter um caso com Lu.

Meses mais tarde, à noite, segundo o seu diário, Needham e Lu estavam deitados na cama, a fumar, quando de repente ele se virou para ela e lhe pediu que o ajudasse a escrever os carateres chineses para “cigarro” no seu diário. Juntos, escreveram: 香煙 Needham estudou a caligrafia bonita, lembrou Lu, e depois anunciou que tinha de aprender chinês. Ela seria a sua professora.

O interesse de Needham pela língua rapidamente se estendeu à História da China. Os cientistas e académicos ocidentais, Lu repreenderaos muitas vezes, não tinham consciência de que muitas invenções e tecnologias tinham aparecido primeiro na China.

No verão de 1942, Needham escreveu num papel: “Ciên. em geral na China – porque não desenvolver?” Se tantas ideias tinham aparecido pela primeira vez na China, perguntou ele a Lu, por que razão a Revolução Científica teve lugar na Europa Ocidental e não naquele país?

Lu não sabia a resposta. Needham decidiu então visitar a China, investigar a questão e resumir as suas conclusões num curto ensaio.

Needham nunca mais regressou à bioquímica. Depois de 27 volumes, 15 mil páginas e três milhões de palavras – descritos por um crítico como “talvez o maior ato de síntese histórica e de comunicação intercultural jamais realizado por um homem” –, Needham mudou para sempre o entendimento que o Ocidente tinha do Oriente. Con-cluiu aquilo que Gwei-djen Lu alegava: um grande número de avanços tecnológicos, militares e políticos surgiu em primeiro lugar na China. Em alguns casos, séculos antes. Noutros, mais de mil anos antes.

Mas Needham nunca chegou a responder à questão com que começara. Por que razão a Revolução Científica não teve lugar na China – apesar de todas as suas vantagens – ficou conhecida nos círculos de História de todo o mundo como a Grande Pergunta de Needham.

"Durante mil anos, desde os meados do primeiro milénio depois de Cristo até aos meados do segundo, a China e a Índia dominaram a economia mundial. Juntas, durante este período de tempo, representavam 278 em média metade do PIB mundial"

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Se fosse um alienígena vindo do espaço para nos visitar, ao ler a História da espécie humana na Terra como um romance, desde o seu início num estado quase primata, passando pela transformação de caçadores-recoletores em agricultores domésticos, ao virar as páginas, interrogando-se avidamente quando e onde apareceria a revolução na ciência e na indústria, apostaria quase de certeza na China ou na Índia.

Durante mil anos, desde os meados do primeiro milénio depois de Cristo até aos meados do segundo, a China e a Índia dominaram a economia mundial. Juntas, durante este período de tempo, representavam 278 em média metade do PIB mundial. Os cinco maiores estados-nações da Europa Ocidental, por comparação, representavam entre 1 e 2 por cento. O papel e a imprensa apareceram na China vários séculos antes de surgirem na Europa. A bússola magnética, a pólvora, os canhões, as cambotas, a perfuração em profundidade, o ferro fundido, o papel-moeda, os sofisticados observatórios astronómicos: China. Os exames para o serviço civil imperial – em mais de um milhão de candidatos testados anualmente, menos de 1 por cento passava – já criavam uma classe de elites académicas na China há quase mil anos, antes de as primeiras universidades abrirem portas na Europa. Nessa época, as taxas estimadas de literacia na China rondavam os 45 por cento. Em Inglaterra, ficava perto dos 6 por cento. Na primeira parte do século XV, a Marinha chinesa navegou até ao Norte de África e voltou com a maior frota de barcos jamais vista – 300 barcos, o maior dos quais pesava cerca de 3.100 toneladas, e 28 mil homens. Poucas décadas depois, Cristóvão Colombo navegou com três barcos pequenos, o maior dos quais pesava cerca de cem toneladas.

O Sino-Golias era de longe maior, mais rico e tecnologicamente mais avançado do que qualquer um dos muito mais pequenos Euro-Davids.

Mas algo estranho aconteceu no decurso desse longo período de tempo. O gigante chinês voltou-se para dentro, para grandes projetos que exigiam gigantescos recursos. Uma nova capital (Pequim). A Grande Muralha. O Grande Canal. Projetos de franchise. Os líderes chineses perderam o interesse por ideias ousadas, que foram facilmente abandonadas. O movimento dos planetas, por exemplo, ou as propriedades dos gases. Voos lunáticos.

Quando, no século XVIII, a Grã-Bretanha abordou a China para expandir o comércio, o imperador Qianlong escreveu ao rei Jorge III: “Não temos falta de nada. Nunca depositámos grande confiança em objetos estranhos ou engenhosos, nem precisamos das manufaturas do vosso país.” Pouco depois, uma dessas ideias estranhas e engenhosas chegou ao largo da costa chinesa, a fornecer energia ao navio britânico Nemesis. No espaço de semanas, a frota britânica destruiu os velhos e ultrapassados juncos da Marinha chinesa. O império chinês nunca recuperou. A fisga de David foi a máquina a vapor.

Durante este período, a Índia era governada pelos chefes mogóis, herdeiros de um reinado de seis séculos de sultões e imperadores. Também se deleitavam com grandes projetos de franchise. O Taj Mahal, por exemplo. Tal como os imperadores chineses, rejeitaram voos lunáticos. Em 1764, uma empresa privada de comércio britânica apoderou-se do controlo da Índia. Em 1857, a Índia tornou-se uma colónia britânica.

Os objetos estranhos e engenhosos da Europa Ocidental, que sub-jugaram os impérios muito maiores e mais ricos da China e da Índia, surgiram como resultado de um notável percurso intercultural de dois mil anos: de bispos católicos que contratavam judeus em Toledo para traduzirem críticas em árabe de textos gregos para latim, para os alemães lerem; de tecnologias chinesas, matemáticas indianas e astronomia islâmica importadas; de filósofos e papas; de monóculos, ímanes, relógios e sangue. Esse percurso culminou num novo conceito: existem verdades universais, subjacentes a tudo o que vemos, que podem ser determinadas através da medição e de experiências. Por outras palavras, leis da Natureza.

"Esse conceito, hoje conhecido por método científico, é possivelmente a origem de todos os voos lunáticos. Os imperadores chineses e mogóis descobriram a mesma lição com que se depararam tantos dos seus descendentes, envolvidos em negócios, séculos mais tarde: perder voos lunáticos pode ser fatal"

Hoje damos essa ideia por adquirida. Mas durante toda a História humana até essa época, as autoridades religiosas, governantes divinos ou filósofos da teoria do grande homem decretavam o que era verdadeiro e o que era falso. A ideia de que a verdade poderia ser revelada a alguém era radical. Subversiva. Os seus defensores eram muitas vezes ignorados como sendo loucos.

Esse conceito, hoje conhecido por método científico, é possivelmente a origem de todos os voos lunáticos. Os imperadores chineses e mogóis descobriram a mesma lição com que se depararam tantos dos seus descendentes, envolvidos em negócios, séculos mais tarde: perder voos lunáticos pode ser fatal.

VIVEIROS DE VOOS LUNÁTICOS NA INDÚSTRIA E NA HISTÓRIA

Este livro tem-se referido à criação de condições que encorajem voos lunáticos nas organizações. Podemos responder à grande pergunta de Needham: porquê a Europa, e não a China, a Índia, ou qualquer 280 outro país. Primeiro, iremos ver como se formam viveiros de voos lunáticos nas indústrias ou entre empresas. E depois vamos estender essa ideia: observaremos como um viveiro de voos lunáticos se pode formar entre países.

Veremos porque a Europa Ocidental, com as suas centenas de cidades-estados independentes e pequenos reinos, entre os quais a Inglaterra, foi para os grandes impérios da China e da Índia aquilo que o mercado fervilhante das biotecnologias em Boston tem sido para a Merck e a Pfizer, ou o que o enxame de pequenas produtoras de Hollywood tem sido para a Paramount e a Universal. Veremos porque teve sucesso a Tycho Brahe e porque a sua semelhante e ante-cessora chinesa, cinco séculos antes, chegou muito perto, mas não conseguiu ter sucesso. Veremos porque a Europa Ocidental se tornou o viveiro de voos lunáticos florescente da sua época e o que isso significa hoje para os países que querem evitar o destino daqueles impérios antigos. Comecemos por analisar de perto a origem de todos os voos lunáticos.

OITO MINUTOS QUE MUDARAM O MUNDO

O caminho até chegar ao conceito da existência de leis da Natureza – e ao método científico para revelar essas leis – abriu, e justificadamente, o caminho do heliocentrismo: a noção de que a Terra gira em torno do Sol, e não ao contrário. Se os governantes divinos poderiam estar enganados relativamente às questões mais elementares do céu e da terra, então precisavam de uma nova forma de definir e procurar a verdade.

A teoria heliocêntrica surgiu pela primeira vez no século IV a.C., depois voltou a aparecer periodicamente e foi esmagada, por vezes brutalmente, durante quase dois mil anos. No século VI, o astrónomo indiano Aryabhata sugeriu que a Terra rodaria sobre o seu eixo a cada 24 horas, explicando a rotação diária das estrelas e do Sol no céu. Nos séculos XIV e XV, na Europa cristã e em postos avançados do império islâmico, surgiram indícios de teorias que incorporavam o movimento da Terra.

Na Polónia, num pequeno panfleto concluído por volta de 1510 e distribuído de forma privada, Nicolau Copérnico, um prelado profundamente religioso da Igreja Católica, descreveu detalhadamente um sistema no qual a Terra girava em torno do Sol. Fez todos os esforços para explicar por que razão as suas ideias não constituíam qualquer conflito com a religião. O Vaticano, intrigado, encorajou Copérnico a publicar a sua tese (o conflito com a Igreja só começou um século mais tarde, quando Galileu ridicularizou os líderes católicos). Copérnico resistiu, sensível não só àquilo que os seus pares e outros prelados pudessem pensar, mas também à sua incapacidade de responder a falhas óbvias na sua teoria: se a Terra gira sobre o seu eixo a cada 24 horas a alta velocidade, porque é que os pássaros não são atirados para fora dos seus ninhos? Se giramos em torno do Sol, porque é que a Lua não fica para trás? Por outras palavras, tal como todos os voos lunáticos, a sua teoria surgiu coberta de defeitos.

Espicaçado por um ávido discípulo, Copérnico publicou finalmente, três décadas mais tarde, no seu leito de morte, em 1543. Poucas pessoas levaram as suas ideias a sério. Tal como ele temia, a maioria riu-se dos defeitos e menosprezou toda a teoria. Em 1589, o astrónomo italiano mais proeminente, Giovanni Magini, escreveu sobre as ideias de Copérnico: “As suas hipóteses são rejeitadas por praticamente toda a gente como sendo absurdas.” Cinco décadas após a morte de Copérnico, um historiador identificou apenas cinco intelectuais em toda a Europa que acreditavam num mundo com o Sol no centro.

Um desses cinco intelectuais era um professor da Universidade de Tübingen, na Alemanha, chamado Michael Maestlin, cujas aulas sobre os movimentos planetário impressionaram um estudante de 17 anos chamado Johannes Kepler. Este é Kepler a descrever-se a si mesmo no seu diário: O seu aspeto é o de um pequeno cão de colo. O seu corpo é ágil, rijo e bem proporcionado. Até os seus apetites são parecidos: ele gosta de roer ossos e de côdeas secas de pão. […] Ele aborrece-se com as conversas, mas cumprimenta as visitas como um pequeno cão; contudo, quando lhe tiram a última coisa, ele irrita-se e rosna. […] Ele odeia visceralmente muitas pessoas e elas evitam-no, mas os seus mestres estimam-no.

Kepler ficou fascinado com as ideias de Copérnico. Reconheceu as inúmeras incógnitas e falhas. Percebeu que a teoria era tão compli-cada quanto o antigo sistema grego, com dezenas de ciclos e epiciclos (círculos sobre círculos) necessários para descrever as órbitas. E não era menos precisa – e, por isso, não menos útil – do que o ampla-mente usado sistema centrado na Terra.

Foi a elegância da ideia que convenceu Kepler, que era algo romântico e muito místico. Um mundo centrado no Sol explicava de um modo muito mais natural os movimentos internos dos planetas (a razão pela qual Mercúrio e Vénus nunca se afastavam muito do Sol), bem como a ordenação invulgar dos períodos orbitais. Os planetas mais próximos do Sol completam as suas órbitas rapidamente; os que estão mais distantes do Sol demoram mais tempo.

Com 24 anos, Kepler publicou um livro cheio de visões de pirâmides e cubos gigantes no céu a dar forma às órbitas dos planetas. Apresentou o seu livro com grande entusiasmo: “Pela primeira vez, dou a conhecer este assunto à Humanidade […]. Aqui vemos como Deus, qual arquiteto humano, tratou da fundação do mundo!” Todas as suas ideias estavam erradas. Mais tarde retratou-se de muitas delas.

"Ao contrário de Kepler, Einstein teve a vantagem de estar integrado numa grande comunidade científica bem firmada. Como já referido, o eclipse de 1919 confirmou a teoria da gravidade de Einstein quatro anos após ele a ter publicado. A confirmação das ideias de Kepler aconteceu de forma muito mais gradual. Nas décadas que se seguiram à publicação da “Guerra Contra Marte” de Kepler, astrónomos, astrólogos e navegadores reconheceram lentamente que o sistema de Kepler funcionava muito melhor do que qualquer teoria centrada na Terra"

Mas o seu brilhantismo como matemático perdurou. Ele enviou o livro a Tycho Brahe, o maior astrónomo da Europa, que o contratou imediatamente como assistente. Tycho tinha a sua própria teoria sobre o movimento dos planetas e queria a ajuda do jovem Kepler para confirmá-la.

Tycho deu a Kepler a tarefa de analisar o movimento de Marte. Kepler iniciou os seus cálculos presumindo um movimento circular, a única forma considerada perfeita o suficiente para objetos celestes.

Todos os observadores de planetas anteriores – desde os babilónios aos gregos, árabes e europeus, até Copérnico e Tycho – começaram do mesmo modo. Mas, apesar de cinco anos de análise obsessiva, Kepler não conseguiu livrar-se de uma pequena discrepância entre o ponto onde os seus cálculos previam que Marte deveria aparecer no céu e o que ele via através dos instrumentos de Tycho. Era um erro de oito minutos de arco, menos de um vigésimo de 1 por cento.

Não importava quantos e que tipo de ciclos, epiciclos, equantes e excêntricos ele acrescentasse (os truques matemáticos usados pelos astrónomos gregos, islâmicos e europeus até então), não conseguia fazer desaparecer a minúscula diferença. Então, Kepler decidiu rejeitar “aquilo que existe apenas na mente, e que a Natureza se recusa completamente a aceitar”: a hipótese de movimentos circulares.

O ato de Kepler ateou um incêndio. Na sua obra Astronomia Nova (1609), anunciava: “Uma vez que não poderiam ter sido ignorados, estes oito minutos, por si só, terão aberto o caminho para a reforma de toda a astronomia.”Na medicina, na biologia ou na zoologia, a enorme variedade de objetos de estudo e a diversidade dos seus comportamentos deixam pouco espaço para leis gerais. Não existe uma teoria universal sobre rins ou sobre gatos. Já os planetas repetem as mesmas órbitas, ano após ano, ao longo de milénios. Uma verdade universal pode ser proposta e cuidadosamente testada.

As ideias de Kepler para verdades universais eram radicais. A ideia de órbitas elíticas (a própria ideia de órbita); a ideia de uma força proveniente do Sol que move os planetas; a ideia de que leis naturais governam esses movimentos; a ideia de que devíamos inferir essas leis com base em medições cuidadas – Kepler introduziu-as todas, e eram todas novas. Kepler rompeu com o passado de um modo muito mais violento do que Newton, que (essencialmente) unificou os princípios então existentes com o objetivo de explicar as órbitas de Kepler. Este estava mais perto, em espírito, de Einstein, 300 anos mais tarde, que também rompeu radicalmente com o passado. Einstein começou por rejeitar a ideia antiga de um éter, um único quadro de referência no universo com o qual tudo deveria ser comparado.

(A sua teoria da relatividade especial dizia que as leis da física são as mesmas em qualquer quadro de referência; nenhuma é especial.) Einstein rejeitava assim a gravidade de ação à distância de Newton, a ideia de que um planeta pode exercer uma misteriosa força de atração sobre um objeto distante. (A sua teoria da gravidade geral explicava essas forças mostrando como a matéria curva o espaço à sua volta.)

Einstein via em Kepler uma “alma gémea” que superou a perseguição religiosa, a pobreza, tragédias pessoais, públicos descrentes e uma herança de pensamento místico. “A obra de vida de Kepler só foi possível”, escreveu Einstein, “depois de ele conseguir libertar-se em grande medida das tradições intelectuais nas quais nasceu”.

Ao contrário de Kepler, Einstein teve a vantagem de estar integrado numa grande comunidade científica bem firmada. Como já referido, o eclipse de 1919 confirmou a teoria da gravidade de Einstein quatro anos após ele a ter publicado. A confirmação das ideias de Kepler aconteceu de forma muito mais gradual. Nas décadas que se seguiram à publicação da “Guerra Contra Marte” de Kepler, astrónomos, astrólogos e navegadores reconheceram lentamente que o sistema de Kepler funcionava muito melhor do que qualquer teoria centrada na Terra. Juntamente com a descoberta por Galileu das luas de Júpiter, as experiências de William Gilbert com ímanes e as especulações de Robert Hooke sobre uma gravidade universal, e em última análise as leis unificadoras de Newton, as ideias radicais de Kepler culminaram na aceitação generalizada não só de uma nova Astronomia, mas também de um novo modo de pensar: verdades julgadas pelo resultado de experiências e não pelo martelo da autoridade.

A explosiva difusão do método científico pela Europa Ocidental do século XVII nas décadas seguintes à morte de Kepler e a revolução nas ferramentas da indústria permitiram inflamar um ritmo e uma dimensão de mudança sem igual na História da Humanidade.

Durante dez mil anos, a esperança de vida quase não mudou. Entre 1800 e 2000, duplicou. Desde o ano 1 até 1800, a população mundial aumentou menos de 0,1 por cento ao ano. Em meados do século XX estava a crescer a um ritmo 20 vezes superior. A produtividade económica média por pessoa foi praticamente constante durante dois mil anos: entre 450 e 650, em dólares de 1990. Desde 1800, aumentou em 1000 por cento.

"A grande pergunta de Needham não é sobre recentes disparidades como o Haiti e a República Dominicana. É sobre voos lunáticos, a origem de todos os voos lunáticos. Porque é que apareceram e se espalharam rapidamente na Europa Ocidental por volta do século XVII, quando os impérios da China, da Índia e do Islão lideraram o mundo em riqueza, comércio, estudo organizado e ciência e tecnologia durante mil anos?"

As minúsculas nações-estados da Europa Ocidental, em particular a Inglaterra, levaram esse voo lunático ao domínio mundial, sendo esta a principal razão pela qual a língua global dos negócios é atual-mente o inglês, e não o chinês, o árabe ou o hindi.

TRÊS CONDIÇÕES PARA UM VIVEIRO DE VOOS LUNÁTICOS

O que nos leva outra vez à grande pergunta de Needham: porquê a Europa Ocidental? Comecemos por separar duas questões que aparecem muitas vezes juntas – e não deviam. O motivo de algumas economias terem crescido e outras decaído nos últimos dois séculos é muitas vezes confundida com a pergunta de Needham. Este questionou a origem, uma pergunta de criação. Recentes disparidades são uma questão de adoção: porque é que alguns países adotaram novas ideias sobre ciência e indústria mais depressa do que outros?

A economia do Haiti, por exemplo, decaiu durante grande parte do século XX. O PIB per capita da República Dominicana cresceu cinco vezes durante o mesmo período. Contudo, são duas metades da mesma ilha. A História não permite provas, mas algumas explicações não são muito difíceis de refutar ou, pelo menos, de colocar de lado. A experiência natural do Haiti e da República Dominicana permite-nos colocar de lado diferenças de raça, cultura, clima ou geografia – explicações padrão durante três séculos. Diferenças em instituições políticas e económicas são explicações muito mais naturais.

A grande pergunta de Needham não é sobre recentes disparidades como o Haiti e a República Dominicana. É sobre voos lunáticos, a origem de todos os voos lunáticos. Porque é que apareceram e se espalharam rapidamente na Europa Ocidental por volta do século XVII, quando os impérios da China, da Índia e do Islão lideraram o mundo em riqueza, comércio, estudo organizado e ciência e tecnologia durante mil anos?

O império islâmico, por exemplo, entre o século IX e o século XV, teve momentos em que foi superior ao Ocidente e à China na Matemática, na Astronomia, na Ótica e na Medicina, bem como em bibliotecas, hospitais, proto-universidades e observatórios que deram origem à ciência ocidental. Copérnico foi buscar muitos dos seus passos matemáticos fundamentais diretamente a astrónomos árabes.

Em 1025, o físico e académico persa Ibn Sina (chamado Avicena no Ocidente) escreveu o Cânone da Medicina. Durante sete séculos, foi o manual médico mais usado na Europa. Podemos mais uma vez colocar de lado antigas explicações sobre cultura, clima e geografia, como fizemos para a questão de adoção.

Se a cultura, o clima ou a geografia da Europa Ocidental fossem tão favoráveis ao progresso como os dos territórios da China, Islão e Índia, então como conseguiram esses impérios antigos dominar a economia e a inovação tecnológica mundiais (papel, imprensa, bússola magnética, pólvora, eclusas, técnicas avançadas de exploração mineira, etc.) durante tantos séculos? A sua cultura não mudou de repente. O pico das suas montanhas não mudou de repente.

Para obter respostas, comecemos por analisar as condições que encorajam voos lunáticos no seio das indústrias. As indústrias mostram um padrão que já nos é familiar: a separação de fases em dois mercados e o equilíbrio dinâmico entre esses mercados.

Depois, iremos aplicar esse padrão aos países. Veremos por que razão a estrutura foi mais importante do que a cultura, o clima ou a geografia para a ascensão do Ocidente e o declínio das restantes regiões.

* * *

Para que um viveiro de voos lunáticos floresça – numa empresa ou numa indústria – é preciso que estejam criadas três condições:

1. Separação de fases: separar grupos de voos lunáticos e grupos de
franchises

2. Equilíbrio dinâmico: intercâmbio contínuo entre os dois grupos

3. Massa crítica: um grupo de voos lunáticos suficientemente grande para se inflamar

Aplicadas às empresas, as duas primeiras são as primeiras regras Bush-Vail, tratadas na primeira parte. A terceira, massa crítica, está relacionada com empenho. Se não houver dinheiro para pagar ou contratar boas pessoas ou para financiar ideias e projetos em fase inicial, um grupo de voos lunáticos murchará, por mais bem concebido que esteja. Para prosperar, precisa de uma reação em cadeia.

Um laboratório de investigação que produza um medicamento bem-sucedido, um produto de sucesso ou designs premiados atrairá excelentes talentos. Os inventores e criativos quererão contribuir com novas ideias e apanhar a onda de uma equipa vencedora. O sucesso justificará mais financiamento. Mais projetos e mais financiamento aumentam a probabilidade de mais êxitos – o ciclo de feedback positivo de uma reação em cadeia.

"Quantos projetos são necessários para se atingir massa crítica? Imagine que as probabilidades de um voo lunático ter sucesso são de 1 em 10. Para ter massa crítica que desencadeie essa reação com elevada confiança é preciso investir em pelo menos duas dezenas desses voos lunáticos (um portfólio diversificado de dez desses voos lunáticos tem uma probabilidade de 65 por cento de produzir pelo menos uma vitória; duas dezenas têm uma probabilidade de 92 por cento)"

Quantos projetos são necessários para se atingir massa crítica? Imagine que as probabilidades de um voo lunático ter sucesso são de 1 em 10. Para ter massa crítica que desencadeie essa reação com elevada confiança é preciso investir em pelo menos duas dezenas desses voos lunáticos (um portfólio diversificado de dez desses voos lunáticos tem uma probabilidade de 65 por cento de produzir pelo menos uma vitória; duas dezenas têm uma probabilidade de 92 por cento).

Para vermos de que modo estas três condições se aplicam às indústrias – entre empresas e não no seio de uma empresa –, comecemos pelo cinema. Veremos como o governo federal norte-americano ajudou a separar as fases (n. I).

CINEMA

Vigaristas. No início da década de 1900, jovens imigrantes vindos da Europa, recoletores de sucata, comerciantes de peles e vendedores ambulantes de bijuteria com apelidos como Zukor, Mayer, Goldwyn, Loew, Cohn, Warner, Fox – quase todos judeus, alguns católicos –, aderiram à nova invenção de Thomas Edison: as imagens em movimento. Compraram o equipamento de Edison, alugavam os seus curtos filmes e mostravam-nos em pequenas salas, os nickelodeons, e em salões de diversão com máquinas. Em 1931, um escritor comparou essas novas imagens em movimento à luz elétrica, ao telefone e até à máquina a vapor: Nenhuma outra invenção da era mecânica criou um espanto e um interesse tão generalizados. […] Esta coisa nova – esta coisa das “imagens vivas” – não era uma ferramenta prosaica para reduzir o trabalho ou para poupar tempo; não era um instrumento para criar mais conforto e luxo para os ricos. Era um aparelho român-tico para dar entretenimento às pessoas comuns.

Os vigaristas aproveitaram essa onda de maravilhamento espalhada pelo país, explorando as patentes de Edison. Construíram teatros e contrataram autores, atores e realizadores para fazerem os seus próprios filmes e encher esses teatros. Edison tentou controlá-los ou travá-los através da sua empresa de patentes sediada em New Jersey, contratando bandidos para destruir equipamentos e queimar salões de diversão. Então, os vigaristas mudaram-se para o Oeste, para perto da fronteira com o México, onde podiam fugir rapidamente com o seu equipamento pirata sempre que a polícia de patentes de Edison aparecia. Criaram uma cidade própria: Hollywood.

Ao longo das três décadas seguintes, esses filhos dos salões de diversão transformaram-se em leões chefes de estúdios. Os seus estúdios – Paramount, Universal, MGM, Warner Brothers, Columbia – controlavam tudo, desde os teatros aos terrenos de produção, passando por contratos a longo prazo com os talentos. O oligopólio era glorioso para quem era chefe de um estúdio, um acordo faustiano para quem era estrela e um alvo oportuno para quem era advogado antimonopólio do governo. O Departamento de Justiça começou a processar os estúdios na década de 1920. Parou durante a Depressão, retomou a atividade, parou outra vez durante a Segunda Guerra Mundial e, por fim, com a decisão de 1948 do Supremo Tribunal num processo que opunha o Estado à Paramount, desintegrou a Paramount e os outros estúdios. Quem produzia filmes não podia ser dono de teatros.

O mercado recém-liberalizado originou uma panóplia de proprietários. Os estúdios foram comprados e vendidos por empresas de automóveis, de bebidas, cadeias de hotéis, agências de talentos, diferentes conglomerados e um golpista italiano que trabalhava com um banco estatal francês. O jogo das cadeiras atingiu o seu auge quando a Warner Brothers se fundiu com a Time Inc. e ambas dançaram a valsa até aos braços da AOL, no que se tornou a maior megafusão fracassada de todos os tempos, na ordem dos 186 mil milhões de dólares.

À medida que a música foi abrandando, a indústria do cinema separou-se em dois mercados. As atuais majors – Warner, Universal, Columbia, Fox, Paramount e Disney – adquirem e gerem projetos de franchise ou bem desenvolvidos. Competem para fornecerem esses produtos através do máximo de canais possível ao máximo de clientes possível e com o maior lucro que consigam. São especialistas na dimensão e nas relações necessárias para gerir uma noite de estreia em Nova Iorque, uma alavancagem financeira com o Citibank, um primeiro lançamento na Coreia, um on-demand com a Netflix, um vídeo com a Nintendo, brinquedos com a Walmart, negócios de terrenos para parques temáticos no Japão, e assim sucessivamente.

Na apresentação de resultados trimestral a analistas e investidores – grandes fundos mútuos de investimento como a Fidelity ou a T. Rowe Price – discutem questões de grandes orçamentos como o futuro do franchise Homem de Ferro, ou como um surto de sarampo pode afetar as receitas de um parque temático. Os analistas especulam sobre os ganhos dos trimestres seguintes e sobre as tendências globais do mercado. As majors não guerreiam, e os seus analistas e investidores não estão muito interessados em ouvir falar de novos guiões recém-comprados. Os mercados da liga das majors especiali-zam-se em adquirir e gerir franchises.

O segundo mercado é uma rede altamente fragmentada de centenas de produtoras pequenas e independentes que juntam guiões, talentos e investidores, e os guiam ao longo do comprido túnel escuro até um filme ficar concluído. Competem com os seus pares por acesso a novos materiais, talentos criativos de topo, reconhecimento em festivais de cinema e financiamento escasso. A Fidelity e a T. Rowe Price nunca investirão nelas. O dinheiro vem de indivíduos abasta-dos e gestores financeiros privados dispostos a apostar em projetos cinematográficos loucos, que foram colocados de lado pelos grandes estúdios. Um espião britânico metrossexual, por exemplo, que salva o mundo de homens perversos com mísseis de longo alcance e gatos fofos (James Bond). Ou um rapaz dos bairros de lata de Bombaím que aparece num concurso de televisão ( Quem Quer Ser Bilionário? , oito Óscares). Ou répteis que adoram espadas e piza ( Tartarugas Ninja, 1,2 mil milhões de dólares em receitas de bilheteira). Este é um mercado para criar, fomentar e comercializar voos lunáticos.

"Uma pequena produtora cria um filme e depois pede licitações às grandes majors pelos direitos de o comercializar. Existem no entanto outras parcerias,mais latas. A Universal, por exemplo, aliou-se à Imagine Entertainment para três décadas e 50 filmes. A Imagine procu-rava as histórias e criava os filmes. A Universal distribuía. Do seu catálogo fazem parte Apollo 13 e Uma Mente Brilhante, ambos vencedores de Óscares."

A indústria sobrevive e prospera graças à teia de parcerias que liga os dois mercados (equilíbrio dinâmico, n.0 2). Sem as certezas dos franchises, as altas taxas de insucesso dos voos lunáticos levariam a indústria à falência. Mas os franchises ficam gastos. Sem novos voos lunáticos, as grandes majors desapareceriam. Estas parcerias são quase todas feitas com base em acordos únicos.

Uma pequena produtora cria um filme e depois pede licitações às grandes majors pelos direitos de o comercializar. Existem no entanto outras parcerias,mais latas. A Universal, por exemplo, aliou-se à Imagine Entertainment para três décadas e 50 filmes. A Imagine procu-rava as histórias e criava os filmes. A Universal distribuía. Do seu catálogo fazem parte Apollo 13 e Uma Mente Brilhante, ambos vencedores de Óscares.

Os dois mercados do cinema, ligados por uma teia de parcerias, são exemplos da separação de fases e do equilíbrio dinâmico dentro de uma indústria, e não dentro de uma empresa. O mercado de centenas de pequenas produtoras que procuram, financiam e desenvolvem pequenos projetos ousados de filmes é um exemplo de um viveiro de voo lunático de uma indústria.

A intervenção do governo norte-americano – o fim do oligopólio dos estúdios – desencadeou a separação de fases no cinema. No mundo da biomedicina, a faísca foi uma nova tecnologia.

MEDICAMENTOS

Um pequeno número de grandes farmacêuticas internacionais (Pfizer, Merck, Abbott, Roche, Eli Lilly) dominou o desenvolvimento de medicamentos ao longo da década de 1980, do mesmo modo que
os velhos estúdios de Hollywood tinham dominado a indústria do cinema na década de 1940. Em ambas as indústrias, o desenvolvimento de produtos começa por recorrer a trabalho criativo feito fora da indústria. Histórias publicadas em livros ou revistas servem de ponto de partida para os filmes (o herói de Ian Fleming desenvolveu-se no franchise de Bond; a banda desenhada de Flash Gordon inspirou A Guerra das Estrelas). Da mesma forma, a investigação de universidades ou laboratórios nacionais fornece os pontos de partida para novos medicamentos. A investigação no colesterol de Konrad Bloch, Michael Brown, Joseph Goldstein, entre outros, por exemplo, inspirou as estatinas.

Até meados da década de 1980, era este o panorama da indústria do desenvolvimento de medicamentos: os académicos tratavam do campo amplo da investigação; as farmacêuticas internacionais pegavam nessa investigação para criar novos medicamentos (produção) e vendiam-nos a clientes (distribuição). Tal como as majors dos velhos estúdios de Hollywood, as majors das grandes farmacêuticas controlavam a produção e a distribuição. Até que um jovem médico que tratava um rapaz de 14 anos criou um tipo totalmente novo de medicamento.

"Vinte e cinco anos antes, um cientista polaco-alemão, Oskar Minkowski, descobrira que remover o pâncreas a animais causava sintomas de diabetes. Minkowski e muitos outros tentaram administrar pâncreas moídos de animais como forma de tratamento, mas, ao fim de mais de 20 anos de tentativas falhadas, o maior investigador norte-americano da diabetes escreveu num manual: “Todas as autoridades estão de acordo […]. As injeções de preparações pancreáticas revelaram-se inúteis e nocivas. O fracasso começou com Minkowski e continuou até hoje sem interrupção.”

A maior parte dos medicamentos que usamos provêm da Natureza: plantas, animais e micróbios. Os ingredientes ativos desses medicamentos são moléculas relativamente pequenas: a aspirina, da casca de salgueiro, tem apenas 21 átomos; a morfina, da papoila de ópio, tem 40; a estatina de Akira Endo, de um bolor, tem 62. Combatem as doenças atuando sobre as proteínas, sendo as moléculas maiores as que fazem a maior parte do trabalho numa célula. Quando as proteínas funcionam mal, as células podem descontrolar-se, provocando uma doença. Os medicamentos obtidos através de produtos naturais atuam comprimindo-se em minúsculas fendas de proteínas demasiado ativas, travando-as, como uma pequena chave inglesa inserida nas entranhas de um robô gigante e descontrolado. A aspirina bloqueia as proteínas envolvidas nas inflamações. A morfina bloqueia as proteínas que assinalam a dor. As estatinas bloqueiam uma proteína que regula os níveis de colesterol. As quimioterapias bloqueiam as proteínas (ou outras moléculas muito grandes) necessárias para a divisão das células. Quase todos os medicamentos desenvolvidos desde o século XIX até finais do século XX são deste tipo.

O aparecimento de um novo tipo de medicamento começou com um rapaz no Canadá. A 2 de dezembro de 1921, Leonard, de 14 anos, deu entrada num hospital de Toronto. Pesava 30 quilos, estava letárgico, o cabelo caía-lhe, tinha acetona na urina e um açúcar no sangue perigosamente elevado. Era uma das muitas crianças que estavam nas fases finais do que hoje se chama diabetes tipo 1. O tratamento mais avançado era passar fome. A esperança de vida era de poucos meses. Vinte e cinco anos antes, um cientista polaco-alemão, Oskar Minkowski, descobrira que remover o pâncreas a animais causava sintomas de diabetes. Minkowski e muitos outros tentaram administrar pâncreas moídos de animais como forma de tratamento, mas, ao fim de mais de 20 anos de tentativas falhadas, o maior investigador norte-americano da diabetes escreveu num manual: “Todas as autoridades estão de acordo […]. As injeções de preparações pancreáticas revelaram-se inúteis e nocivas. O fracasso começou com Minkowski e continuou até hoje sem interrupção.”

Regressando ao caso do rapaz de Toronto, um cirurgião canadiano de 29 anos, sem experiência de investigação e sem fundos (susten-tava-se a extrair amígdalas e a vender instrumentos médicos), leu um artigo sobre o pâncreas. Ficou curioso e decidiu trabalhar no problema, fosse porque se sentia corajoso perante todos aqueles fracassos ou – o mais provável – porque não lia manuais e não os conhecia. Teve uma nova ideia para extrair do pâncreas a misteriosa substância que talvez pudesse controlar o açúcar no sangue. Em colaboração com uma equipa de Toronto, testou a sua preparação em alguns cães e viu resultados promissores. A 11 de janeiro de 1922, testou-a em Leonard. A equipa esperou ansiosamente no corredor. Nada aconteceu. O extrato era turvo, por isso chamaram um especialista em bioquímica para melhorá-lo. Doze dias depois, injetaram a Leonard uma nova mistura.

No espaço de 24 horas, o açúcar no sangue de Leonard caiu quase 80 por cento, e a acetona e o açúcar na urina quase 90 por cento. Ele “ficou mais animado, mais ativo, com melhor aspeto e disse sentir-se mais forte”, escreveu o cirurgião, Fred Banting, num relatório médico rapidamente publicado. O extrato do pâncreas era, afinal, uma proteína. Banting chamou-lhe insulina. Salvou a vida de Leonard.

A notícia do novo tratamento espalhou-se depressa. O maior investigador norte-americano da diabetes, o Dr. Frederick Allen, voou até Toronto para ir buscar um frasco. Uma das suas enfermeiras escreveu sobre o dia em que ele voltou à clínica com esse frasco: A mera ilusão de uma nova esperança convenceu paciente atrás
de paciente a tentar uma nova vida. Diabéticos que não saíam da cama há semanas começaram a caminhar, ainda fracos, agarrando-se às paredes e aos móveis. Barrigas grandes, pescoços só com pele e osso, rostos que pareciam caveiras, movimentos frágeis, todas as idades, ambos os sexos. Foi uma ressurreição, uma agitação, como se fosse uma vaga primavera. […] Eu via-os entrar, silenciosos como os fantasmas, inchados que
pareciam. O simples facto de olharem uns para os outros trairia dolorosamente alguma da esperança intolerável que haviam trazido com eles. Por isso, limitavam-se a ficar sentados e a esperar, de olhos fitos no chão.

Todos ouvíamos os seus passos a aproximarem-se pelo passeio coberto, a passar a entrada até às salas principais. A mulher estava com ele, o seu passo rápido a fazer um ritmo estranho com o dele. O silêncio dos pacientes concentrava-se naquele som.

Quando ele entrou pela porta aberta, foi recebido por cem pares de olhos suplicantes. Eu parei-o. Ainda hoje tenho a certeza de que foi minutos antes de ele falar com eles, a sua voz num misto curioso de preocupação com os pacientes e excitação, que ele fez de tudo para não trair. “Penso”, disse ele, “penso que temos uma coisa para vocês”.

"Extrair pâncreas de animais para todos os diabéticos não é mais prático do que cortar salgueiros para fazer aspirina para todos os doentes de febre. Foram precisos 50 anos até se encontrar uma solução. Desenvolvida na década de 1970, a engenharia genética – que tornou possível a produção de enormes quantidades de proteínas humanas purificadas em laboratório – transformou a descoberta da insulina de Banting num tratamento prático"

A insulina mudou a medicina. As proteínas já não eram apenas os alvos dos medicamentos; podiam ser os medicamentos. Ao invés de bloquear um robô sem pontaria com uma minúscula chave inglesa, substituímos o robô.

Mas havia um problema. Extrair pâncreas de animais para todos os diabéticos não é mais prático do que cortar salgueiros para fazer aspirina para todos os doentes de febre. Foram precisos 50 anos até se encontrar uma solução. Desenvolvida na década de 1970, a engenharia genética – que tornou possível a produção de enormes quantidades de proteínas humanas purificadas em laboratório – transformou a descoberta da insulina de Banting num tratamento prático.

A maior parte das grandes majors farmacêuticas rejeitou a ideia de uma proteína produzida em laboratório como um novo tipo de medicamento. Mas a ideia de proteínas manipuladas como medicamentos seria aceite por alguns empreendedores no início da década de 1980, que fundaram o que ficaria conhecido como empresas de biotecnologia. O sucesso das suas ofertas públicas iniciais – sobretudo da Genentech, descrita no capítulo 5 – criou um mercado para um novo tipo de empresa: sem receitas, sem lucros, sem equipas de vendas, e sem certeza de quando, se é que alguma vez aconteceria, a tecnologia se transformaria em produto. Esses primeiros empreendedores criaram o que na época era, e ainda é hoje, um mercado negociado na bolsa para voos lunáticos.

Se a intervenção governamental dividiu o sistema dos estúdios de Hollywood, a engenharia genética dividiu o sistema das farmacêuticas. Separou a produção (os cientistas que inventam novos medicamentos) da distribuição (as farmacêuticas que os comercializam).

As majors farmacêuticas são um pequeno número de grandes mul-tinacionais (Novartis, Pfizer, Merck, Johnson & Johnson, Eli Lilly, etc.) com a dimensão e as relações capazes de gerir lançamentos de produtos na Argentina, a aprovação da autoridade reguladora em França, o fabrico em Porto Rico, a alavancagem financeira com a J. P. Morgan, diretrizes de reembolsos no Japão, e assim sucessivamente. Nas suas apresentações de resultados trimestrais a analistas e investidores – grandes fundos mútuos de investimento como a Fidelity ou a T. Rowe Price –, as majors discutem questões de grandes orçamentos. como o futuro dos seus franchises do colesterol ou da diabetes.

"A maior parte dos projetos biotecnológicos, tal como os voos lunáticos, tem dificuldade em sobreviver. E você vai querer ter apoio por perto, caso a sua empresa abra falência. Por razões semelhantes, os maiores investidores, vendedores e fornecedores convergem para Boston"

Os analistas especulam sobre os ganhos dos trimestres seguintes e sobre as tendências globais dos mercados. As majors farmacêuticas não guerreiam, e os seus analistas e investidores não estão muito interessados em ouvir falar sobre percursos moleculares ou candidatos a medicamentos em fase inicial. É um mercado para adquirir e gerir franchises.

Os investidores e os analistas que seguem as centenas de pequenas empresas do mercado biotecnológico, contudo, mergulham bem fundo na ciência. Muitas vezes os produtos ainda estão em estudos de laboratório ou em ensaios clínicos, ainda não foram aprovados pela FDA. Não há receitas para discutir, apenas biologia, química e dados de ensaios clínicos. As empresas biotecnológicas competem por pontos de partida (tecnologias de universidades ou de laboratórios nacionais), talentos criativos (biólogos e químicos) e financiamento escasso de investidores especializados. É um mercado para ideias pouco populares frequentemente rejeitadas pelas majors. As terapias genéticas, há 20 anos. As imunoterapias, há dez anos. As células estaminais, hoje.

Como no mundo do cinema, uma rede simbiótica de parcerias liga os dois mercados. Muitas são únicas. No capítulo 5, vimos como um acordo único ajudou a Genentech a sobreviver nos seus primeiros tempos (uma pareceria com a Eli Lilly), tal como um acordo único com a Disney ajudou a Pixar a sobreviver nos seus primeiros tempos.

Alguns acordos são mais latos. A parceria de duas décadas entre a Roche, uma gigante farmacêutica sediada na Suíça, e a Genentech, que tem sede em São Francisco, produziu provavelmente a maior sucessão de êxitos biotecnológicos da indústria até hoje. Alguns desses êxitos são o medicamento Avastin, referido no capítulo 2, inspi-rado na investigação de Judah Folkman, e o Herceptin, que transformou o tratamento do cancro da mama. As vendas anuais dos seus projetos conjuntos – os recursos da farmacêutica suíça alimentavam os voos lunáticos da empresa da Califórnia – ultrapassaram os 30 mil milhões de dólares.

As centenas de empresas biotecnológicas cotadas em bolsa ou com financiamento privado são o viveiro de voos lunáticos do mundo biomédico.

* * *

Quer a indústria do cinema, quer a da descoberta de medicamentos, dividiram-se em dois mercados: o mercado das majors, que comercializam franchises, e o mercado dos pequenos especialistas, que fomentam voos lunáticos. Estes dois mercados estão ligados por uma rede de parcerias. Essas separação e ligação são exemplos das primeiras duas das três condições descritas aplicadas às indústrias: a separação de fases (n.0 1) e o equilíbrio dinâmico (n.0 2).

A terceira condição, a massa crítica, demonstra-se melhor com um exemplo. Quase todas as grandes cidades dos Estados Unidos, na última década, tiveram a ideia de se reinventarem como “centro biotecnológico”. Agora imagine que terminou recentemente um doutoramento em biologia ou química. Para que cidade se sente mais inclinado a mudar-se em busca de uma carreira: Detroit, que tem algumas empresas biotecnológicas, ou Boston, que alberga mais de 200, além de centenas de investidores em capitais de risco e empreendedores de biotecnologia a lançar dezenas de novas empresas todos os anos? A maior parte dos projetos biotecnológicos, tal como os voos lunáticos, tem dificuldade em sobreviver. E você vai querer ter apoio por perto, caso a sua empresa abra falência. Por razões semelhantes, os maiores investidores, vendedores e fornecedores convergem para Boston.

"Recentemente, muitas das maiores empresas biotecnológicas do mundo mudaram as suas instalações de investigação para Boston. Querem estar perto de empresas e produtos que possam adquirir. Mais aquisições significam mais dólares investidos, que significam mais empresas. É um ciclo que se alimenta a si mesmo e cresce – um ciclo virtuoso. Boston alcançou massa crítica e descolou. Detroit não"

Todos querem opções e apoio por perto. Recentemente, muitas das maiores empresas biotecnológicas do mundo mudaram as suas instalações de investigação para Boston. Querem estar perto de empresas e produtos que possam adquirir. Mais aquisições significam mais dólares investidos, que significam mais empresas. É um ciclo que se alimenta a si mesmo e cresce – um ciclo virtuoso. Boston alcançou massa crítica e descolou. Detroit não.

O DESTINO DOS IMPÉRIOS

Agora vamos estender as três condições aos países. Para começar, comparemos o destino de dois homens. Um ajudou a desencadear a Revolução Científica na Europa. O outro, com ideias semelhantes, uma abordagem semelhante e um talento natural semelhante – ou maior – poderia ter feito o mesmo na China séculos antes, mas não fez.

Cinco séculos antes de Tycho Brahe construir o melhor observatório astronómico na Europa, Shen Kuo assumiu o comando do melhor observatório astronómico da China. Tycho, um nobre dinamarquês, ganhou o apoio do rei da Dinamarca. O rei ofereceu-lhe a ilha de Hven e fundos para contratar uma grande equipa e comprar o melhor equipamento. Shen vinha de uma família mais modesta e brilhou no exame do serviço civil imperial. Estudou astronomia no tempo livre, subiu na hierarquia e acabou por ganhar o apoio do imperador, que o nomeou chefe do Gabinete Imperial de Astronomia. (A Astronomia era importante para os reis da Europa e para os imperadores da China por motivos parecidos: os sinais dos céus eram interpretados como presságios.)

Joseph Needham descreveu Shen como “talvez a personagem mais interessante de toda a História científica chinesa”. Shen estudou, escreveu sobre e em muitos casos contribuiu para uma espantosa diversidade de áreas: a Astronomia, a Matemática, a Geologia, a Meteorologia, a Cartografia, a Arqueologia, a Medicina, a teoria económica, a estratégia militar, a Anatomia e a Ecologia. Foi o primeiro a descrever a bússola magnética e a identificar a diferença entre o norte verdadeiro e norte magnético (que transformou a navegação).

Desenvolveu os primeiros exemplos conhecidos de trigonometria e a matemática infinitesimal (percursora do cálculo) na China. Personificava aquilo a que hoje chamaríamos curiosidade científica. Este é Shen a interrogar-se por que razão um raio que atinge uma casa derrete o metal, mas deixa a madeira intocada: Em algumas prateleiras de madeira, alguns vasos lacados com bocas de prata foram atingidos por um raio, tanto que a prata derreteu e caiu ao chão, mas o lacado nem sequer se chamuscou.

"Quando um guião é morto na Paramount, na Universal ou em qualquer major de cinema, fica morto. Quando um projeto de medicamento em fase inicial é morto numa farmacêutica internacional, fica morto. Na China – ou em vários postos avançados do império islâmico –, quando o governante supremo esmagava novas e promissoras ideias, como o imperador esmagou as ideias de Shen Kuo, elas ficavam mortas"

Uma espada valiosa feita de aço forte também se derreteu em líquido, sem que as partes da casa tenham sido afetadas. Seria de pensar que o telhado de colmo e madeira seria o primeiro a arder, contudo, ali estavam metais derretidos e nem um dano no colmo nem na madeira.

Tal como Tycho, Shen questionava-se sobre os estranhos movimentos dos planetas no céu (no geral, moviam-se para leste relativamente ao fundo fixo de estrelas, mas durante parte das suas órbitas pareciam mover-se para trás, em direção a oeste). Tal como Tycho, insistiu em que apenas medições mais precisas forneceriam um conhecimento mais profundo. Concebeu os melhores instrumentos de medição astronómica da sua época, tal como Tycho. Shen propôs ao imperador um programa para medir a posição de cada planeta, com elevada precisão, três vezes por noite, todos os dias, durante cinco anos. Tal como Tycho, contratou assistentes brilhantes para levar a cabo o seu programa (Tycho recrutou Kepler; Shen recrutou o matemático cego Wei Pu).

Shen percebeu que o seu programa era caro. O financiamento iria exigir um forte apoio político. Acabou por perder esse apoio, tal como Tycho. No caso de Tycho, depois de o rei Frederick II da Dinamarca morrer, entrou em disputa com o seu filho, o novo rei de 19 anos.

Tycho escreveu uma carta ao jovem rei, Christian IV, a explicar exatamente porque deveria continuar a apoiar o seu observatório e a sua grande equipa. Afinal, Tycho era um famoso intelectual europeu que dera glória à Dinamarca. O rei respondeu que estava atordoado com a “audácia e a falta de bom senso” de Tycho, e pela forma como Tycho escreveu “como se fosse nosso igual”. E cortou-lhe o financiamento. Este perdeu a sua ilha e foi obrigado ao exílio. No caso de Shen, foi expulso do governo, vítima de uma política semelhante. Shen Kuo: “Só tinha o meu pincel de escrita e a pedra de tinta com quem falar”.

Mas há uma diferença crucial: depois de Tycho sair da Dinamarca, calcorreou a Europa à procura de um novo patrono. O rei Rudolf II de Praga acabou por dar-lhe a mão. Tycho mudou o seu observatório para lá, onde recrutou Kepler e continuou o seu trabalho que acabou por levar à “Guerra Contra Marte” de Kepler e à sua “reforma de toda a Astronomia”. Por outro lado, depois de Shen sair do governo, não tinha para onde ir. Não havia outros governantes que pudessem apoiar a Astronomia.

E o apoio privado à Astronomia era ilegal, porque o estudo dos céus estava reservado ao imperador. Então, Shen passou a última década da sua vida em reclusão, no exílio, metade desse tempo em prisão domiciliária. A sua obra mais famosa, que abrange uma dezena de áreas de estudo, chamava-se Conversas com o Pincel. Shen escreveu porquê: “Desde que me reformei e estabeleci a minha morada na floresta, tenho levado uma vida isolada e cortei todos os laços sociais.

Ocasionalmente lembrava-me das conversas com os meus convidados e anotava uma ou duas histórias com o meu pincel […]. Só tinha o meu pincel e a pedra de tinta com quem falar.” Quando um guião é morto na Paramount, na Universal ou em qualquer major de cinema, fica morto. Quando um projeto de medicamento em fase inicial é morto numa farmacêutica internacional, fica morto. Na China – ou em vários postos avançados do império islâmico –, quando o governante supremo esmagava novas e promissoras ideias, como o imperador esmagou as ideias de Shen Kuo, elas ficavam mortas.

A China da dinastia nortenha Song dos séculos XI e XII, a época de Shen, alcançou massa crítica. A produção de aço e ferro aumentou de forma explosiva. O papel-moeda, a imprensa e as trocas de mercado proliferaram. As inovações tecnológicas dos Song estendiam-se desde o Exército (pistolas, canhões, bombas), aos transportes (canais com eclusas), à navegação (bússola magnética, lemes à popa) e à manufatura (fiação movida a água para os têxteis). Este período foi apelidado de “o primeiro milagre industrial”. A produtividade e a inovação tecnológica nunca conheceram rival até seis séculos mais tarde na Europa.

"Um dos papéis essenciais do viveiro de voos lunáticos é manter vivos os voos lunáticos frágeis ao longo de fracassos e rejeições"

Embora a China tenha alcançado massa crítica (n.0 3), não conseguiu levantar voo. Nunca criou a separação de fases (n.0 1), nem o equilíbrio dinâmico (n.0 2). Batalhas políticas, e os preconceitos do imperador, iriam pisar regularmente as conclusões dos primeiros “cientistas”. Sete anos depois de Shen começar a trabalhar num novo sistema astronómico, por exemplo, o imperador decidiu que já estava suficientemente bom. Encerrou o projeto e demitiu o principal assistente de Shen. Foi como se Rudolf II tivesse dito a Tycho que o seu sistema já estava suficientemente bom e depois despedisse Kepler.

O imperador Song não isolou o seu grupo de voos lunáticos (sepa-ração de fases) e não manteve o equilíbrio entre voos lunáticos e franchise s. Por outras palavras, não fez exatamente o que Vannevar Bush se propôs fazer durante a Segunda Guerra Mundial. Outra forma de contar a mesma história, com o risco de uma chico-tada histórica e cultural: se os imperadores Song tivessem nomeado e dado ouvidos a um Vannevar Bush chinês, as revoluções científica e industrial poderiam ter ocorrido cinco séculos mais cedo. E hoje todos falaríamos chinês.

SUPORTE DE VIDA PARA VOOS LUNÁTICOS

Um dos papéis essenciais do viveiro de voos lunáticos é manter vivos os voos lunáticos frágeis ao longo de fracassos e rejeições.

Na descoberta de medicamentos e na indústria do cinema, como já foi referido, os projetos mortos no seio das majors farmacêuticas ou dos estúdios ficam normalmente mortos (ou transformam-se em zombies: não estão bem mortos, mas também não estão propriamente vivos). Contudo, no viveiro de voos lunáticos de pequenas empresas biotecnológicas de Boston ou de pequenas produtoras de Hollywood, um projeto encerrado ficará suspenso até um novo investidor se interessar. Por exemplo, a recente abordagem mais entusiasmante ao tratamento do cancro – estimular o sistema imunitário do corpo para combater tumores – foi rejeitada por todas as grandes farmacêuticas. Algumas pequenas empresas biotecnológicas, em estreita colaboração com académicos de universidades e laboratórios nacionais, mantiveram a ideia viva. A maior parte delas falhou. Outras saíram-se bem e operaram uma transformação no tratamento do cancro.

A grande maioria dos avanços mais importantes na descoberta de medicamentos saltou de nenúfar em nenúfar até superar o último desafio. Só depois do último salto, do último nenúfar, é que essas ideias conquistaram elogios generalizados.

Quando Tycho perdeu o apoio do rei da Dinamarca e andou de castelo em castelo durante dois anos até se fixar em Praga, também andou a saltar de nenúfar em nenúfar. O florescente viveiro de voos lunáticos de governantes locais dispostos a financiar pesquisas estranhas (e investigadores algo desagradáveis) não só salvou o observatório de Tycho, mas também manteve viva a ideia original de Copérnico das órbitas em torno do Sol. Uma escola de Wittenberg, na Alemanha, ensinou aspetos do sistema de Copérnico durante seis décadas, apesar da sua má fama, até Tycho e Kepler finalmente resgatarem a sua teoria.

A mera existência de um viveiro de voos lunáticos – separação de fases (n.0 1) – não é suficiente. As histórias eurocêntricas que descrevem a ascensão da ciência moderna na Europa Ocidental descuram muitas vezes a importância do frequente intercâmbio com os grandes impérios (equilíbrio dinâmico, n.0 2). Sem a matemática dos estudiosos indianos e dos astrónomos islâmicos, não teria havido a teoria de Copérnico. Sem a navegação, os transportes, as comunicações, a irrigação, a exploração mineira e as tecnologias militares importadas da China, não haveria riqueza em excesso nem classe intelectual na Europa para sonhar com teorias de movimentos celestes. Tudo isto garantiu à Europa Ocidental os recursos necessários para alcançar massa crítica (n. III).

E a massa crítica era um ingrediente essencial: inverter milénios de dogmas exigia uma sequência de voos lunáticos, não apenas um.

"A ideia de que os planetas orbitam em torno do Sol, bem como importantes precursores do cálculo, apareceram na escola indiana Kerala vários séculos antes de Kepler e Newton. Mas, tal como na China, esses precursores não conseguiram levantar voo"

Alguns deles tinham aparecido individualmente, muito tempo antes, noutras sociedades. A ideia de que os planetas orbitam em torno do Sol, bem como importantes precursores do cálculo, apareceram na escola indiana Kerala vários séculos antes de Kepler e Newton. Mas, tal como na China, esses precursores não conseguiram levantar voo.

A massa crítica da Europa, por outro lado, criou uma sinfonia pan-europeia de descobertas: telescópios (Holanda), apontados ao céu (Itália), confirmaram as órbitas elíticas (Alemanha) e o movimento da Terra (Polónia), que se conjugaram com ideias de inércia (Itália) e geometria (França) numa unificada teoria de movimento (Inglaterra). Isto é massa crítica.

Os impérios da China, do Islão e da Índia eram as majors dos estados-nações. Os países da Europa Ocidental, à época, eram o viveiro de voos lunáticos de novas ideias para o mundo, tal como centenas de pequenas produtoras serviram de viveiros de voos lunáticos para novos filmes, ou centenas de pequenas empresas biotecnológicas serviram de viveiros de voos lunáticos para novos medicamentos.

O termo majors vem do desporto. No basebol, refere-se à liga que tem os jogadores franchises. Os jovens talentos são fomentados nas minors. Os termos variam, mas quase todos os desportos têm uma estrutura semelhante. O que torna o basebol único é que o Supremo Tribunal norte-americano lhe concedeu uma isenção especial da lei antimonopólio. Essa isenção permite que a Major League controle os seus membros, o que mantém as Minor League na liga inferior.

Em qualquer outra indústria, as minors podem crescer até serem majors. A Disney começou por ser um negócio de duas pessoas (Walt e o seu irmão), a mais pequena das minors. Construiu-se sobre o sucesso inesperado de um rato com orelhas grandes e uma prin-cesa que se torna amiga de sete anões, e cresceu até se tornar um dos cinco estúdios major. A Amgen começou por ser uma pequena empresa biotecnológica, uma minúscula minor que esteve perto da falência. Construiu-se sobre o sucesso estrondoso do seu primeiro medicamento e cresceu até se tornar uma gigantesca major. Hoje tem vendas anuais superiores a 20 mil milhões de dólares.

Como em todas as outras indústrias, no mundo dos estados-nações uma minor pode tornar-se uma major. A Inglaterra começou por ser uma minúscula minor, como a Disney e a Amgen. E, tal como elas, construiu-se sobre o sucesso inesperado de um voo lunático pode-roso: a origem de todos os voos lunáticos. Explorou essa ideia para se industrializar, armar e evoluir para uma major, espalhando a sua língua e os seus costumes por todo o mundo.

PORQUÊ A INGLATERRA?

Temos estado a analisar a questão da primeira aparição: porque surgiu a ciência moderna na Europa Ocidental e não nos impérios da China, do Islão ou da Índia. Mas existe outra questão: porquê na Inglaterra, e não, por exemplo, em França, Itália ou na Holanda?

A resposta não pode ser justificada por um alegado monopólio de cientistas brilhantes. Houve cientistas de quase todos os países da Europa Ocidental a contribuir com passos científicos cruciais.

A sorte e o timing desempenham sempre um papel na criatividade e na invenção, a essência de uma primeira aparição. Branch Rickey foi o executivo do Baseball Hall of Fame que criou o sistema de Farm League para desenvolver novos talentos: os jogadores competem nas minors e ascendem às majors se se saírem bem. Rickey usou esse sistema para construir oito equipas da World Series. Foi Branch Rickey quem inventou o ditado citado na primeira parte: “A sorte é o resíduo da conceção.” A Inglaterra fez algo de uma forma muito diferente e muito melhor do que os seus países vizinhos, o que a preparou para ter mais sorte do que eles. Criou o primeiro viveiro de voos lunáticos de sucesso dentro de um país.

"Em 1687, Papin publicou um livro em que explicava como usar a bomba de ar de Hooke-Boyle para fazer comida. Chamou a este novo aparelho “Marmita de Ossos”, uma vez que esmagava ossos em pedaços comestíveis. O livro de 1687 foi uma sequela do seu primeiro livro sobre a invenção daquilo que hoje se chama panela de pressão, por isso Papin chamou-lhe Uma Continuação da Nova Marmita de Ossos"

A Royal Society de Londres, nascida em 1660, juntou quase todos os fundadores da ciência moderna em Inglaterra, entre os quais Robert Boyle, Robert Hooke e Isaac Newton. Desempenhou um papel crucial para ajudar e inspirar Newton. Sem a Royal Society, como observou um historiador, “é de duvidar que […] alguma vez tivesse existido um Principia”. Por outras palavras, aquilo que conhecemos hoje como as leis de Newton provavelmente teria outro nome, ou nomes. Gottfried Leibniz, por exemplo, desenvolveu o cálculo de forma independente na Alemanha, mais ou menos na mesma época de Newton. Christiaan Huygens, na Holanda, desenvolveu a ideia de força centrípeta, a teoria ondulatória da luz, a teoria moderna das probabilidades e inventou o relógio de pêndulo. Daniel Bernoulli, na Suíça, Leonhard Euler, na Alemanha, Pierre-Simon Laplace, em França, todos foram gigantes da matemática e da física que surgiram pouco depois de Newton.

A Royal Society ajudou Newton e a Inglaterra a vencerem uma corrida contra o tempo, uma competição para descobrir verdades da Natureza. Mas a Society não foi fundada puramente para investigações pontuais:
“A ciência deve ser fomentada e apoiada, pois conduz à melhoria do destino do Homem na Terra, facilitando a invenção tecnológica.” Em 1667, o primeiro historiador e promotor da Society, Thomas Sprat, escreveu sobre “invenções extraordinárias” como “relógios de pulso, fechaduras ou pistolas” e “remédio[s] […] contra uma doença epidémica” e afirmou que o “público deveria ter acesso a estas produções milagrosas”. A finalidade da Royal Society, escreveu Sprat, vai até à raiz de todas as invenções nobres e propõe um percurso infalível para fazer de Inglaterra a glória do mundo ocidental.

Uma afirmação um pouco mais arrojada do que o relatório de Vannevar Bush. Mas é a mesma ideia-base, três séculos antes. Enquanto Sprat escrevia estas linhas, Robert Boyle concluía as suas experiências na expansão e compressão de gases, levadas a cabo por Hooke e o seu assistente. Hooke construíra para Boyle aquilo que em breve seria um dos aparelhos de investigação mais famosos da Europa: uma bomba de ar. Boyle usou o aparelho para descobrir a lei que hoje tem o seu nome (a pressão de um gás é proporcional à sua densidade).

Ao fim de vários anos a trabalhar para Boyle, Hooke ficou cada vez mais ocupado com o seu próprio trabalho (a inventar o microscópio, a propor uma lei da gravidade universal), por isso, em 1675, Boyle contratou um novo assistente, um médico francês chamado Denis Papin. Papin deu continuidade às experiências com a bomba de ar, mas com uma diferença. Sentia curiosidade de ver se poderia adicionar um pistão à bomba e criar um ciclo de compressão e descompressão.

Em 1687, Papin publicou um livro em que explicava como usar a bomba de ar de Hooke-Boyle para fazer comida. Chamou a este novo aparelho “Marmita de Ossos”, uma vez que esmagava ossos em pedaços comestíveis. O livro de 1687 foi uma sequela do seu primeiro livro sobre a invenção daquilo que hoje se chama panela de pressão, por isso Papin chamou-lhe Uma Continuação da Nova Marmita de Ossos. Lá pelo meio, a seguir a uma secção sobre como cozinhar chifres de vaca e víboras secas, naquele a que poderíamos chamar o melhor exemplo de sempre de deixar o mais importante para depois, estava a resposta ao seu problema de como adicionar um pistão à bomba de ar de Boyle. Descrevia os componentes-chave de uma nova invenção: uma máquina a vapor.

A descoberta de Denis Papin, enterrada no meio de um livro sobre utensílios de cozinha. Embora os intelectuais da Royal Society tenham dado pouca atenção às ideias de Papin, sobretudo porque apareciam no meio de um livro de culinária, elas não passaram despercebidas a um artífice de Dartmouth, Inglaterra, chamado Thomas Newcomen. Newcomen tinha pouco interesse na Filosofia, mas tinha muito tempo para dedi-car a aparelhos úteis, como panelas de pressão.

"A Royal Society de Londres, o viveiro de voos lunáticos de Vannevar Bush em tempo de guerra, o OSRD e a Bell Labs de Theodore Vail tinham algo em comum: foram os maiores viveiros de voos lunáticos dos seus tempos. Foram, possivelmente, os maiores viveiros de voos lunáticos de sempre. Produziram a Revolução Científica, a vitória numa guerra mundial e o transístor"

Em 1712, Newcomen transformou o pistão amovível de Papin dentro de uma bomba na primeira máquina a vapor prática e funcional.

A sua invenção difundiu-se rapidamente por toda a Inglaterra. Ao longo do século seguinte, os inventores continuaram a melhorar a sua eficiência. Pouco tempo depois, a máquina elevou a produção de recursos e bens muito para lá dos limites definidos pela força humana ou animal, limites esses que tinham prendido as sociedades humanas de todo o mundo a um nível fixo de produção durante milhares de anos. A mudança, que começou em Inglaterra e rapidamente se espalhou ao resto da Europa, alimentou a rápida ascensão da Europa Ocidental ao poder mundial, a derrota de impérios muito maiores e antigos e levou a um crescimento exponencial da população humana.

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A Royal Society de Londres, o viveiro de voos lunáticos de Vannevar Bush em tempo de guerra, o OSRD e a Bell Labs de Theodore Vail tinham algo em comum: foram os maiores viveiros de voos lunáticos dos seus tempos. Foram, possivelmente, os maiores viveiros de voos lunáticos de sempre. Produziram a Revolução Científica, a vitória numa guerra mundial e o transístor.

Por que razão os impérios da China, do Islão e da Índia falharam a Revolução Científica, apesar da sua riqueza e das vantagens históricas? Pela mesma razão que a Microsoft perdeu os telemóveis, a Merck perdeu os medicamentos de proteínas e as majors do cinema perderam Viram-se Gregos Para Casar. Os voos lunáticos florescem em viveiros de voos lunáticos, não em impérios dedicados a franchises. Ser-se bom em voos lunáticos e em franchises são fases de uma organização, seja essa organização uma equipa, uma empresa ou um país. É isso que nos diz a ciência da descoberta.

Para sobreviver à próxima revolução – seja ela qual for –, os países e os seus líderes deviam estar atentos às lições de Vannevar Bush e Theodore Vail. Algumas estão incluídas nos capítulos anteriores, nas lições para equipas e empresas aplicadas aos países. Muitas podem ser encontradas no relatório Fronteira Interminável de Vannevar Bush, escrito em 1945, a pedido do Presidente Roosevelt.

FDR escreveu a Bush: “Temos à nossa frente novas fronteiras da mente, e se forem desbravadas com a mesma visão, coragem e moti-vação com que travámos esta guerra, podemos criar um emprego mais completo e frutífero, e uma vida mais completa e frutífera.” Com uma pequena ajuda, e um pouco de ciência, podemos continuar a avançar, como indivíduos, como membros de equipas, como cidadãos de países, na direção das nossas próprias fronteiras intermináveis.

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