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Rui Manuel Fonseca/OBSERVADOR

Rui Manuel Fonseca/OBSERVADOR

Prédio Coutinho, dois meses depois: “Se nos tirarem é diretamente para o cemitério"; "Vais ter de aceitar o dinheiro” /premium

Dois meses depois das ameaças de demolição do prédio Coutinho, os 9 moradores mentalizam-se para a hipótese de terem mesmo de deixar as casas. Mas prometem resistir até ao fim.

Viana não deu pela passagem do tempo. Há, pelas ruas, sinais das Festas da Senhora d’Agonia, as maiores do ano, que esquentam o verão da cidade do Alto Minho. Há dois meses, o “mamarracho” que Fernando Coutinho decidiu construir nos anos 70 era o centro das atenções mediáticas. Não imaginou Fernando Coutinho que, anos mais tarde, a construção do novo mercado da cidade ia ser usada para justificar a demolição do prédio.

Ele lá está, do alto dos seus 13 andares, pouco alheio aos olhares dos que passam pela Alameda 5 de Outubro e pelo Jardim da Marginal, que inaugura a paisagem para o rio Lima. Os corredores, sombrios, desmascaram a pouca percentagem de apartamentos habitados. Seis, ao todo; de um total de 105.

Lá dentro, persistem os mesmos resistentes que em junho, há exatamente dois meses, ficaram conhecidos pelo país inteiro “e até no Canadá”, empola Fernanda Rocha, do 2º direito. Agora já voltaram a ter luz, gás e água para fazer “um cozido à Portuguesa”.

Nas duas entradas do prédio Coutinho, há cadeiras onde se costumam sentar os seguranças para os turnos.

Rui Manuel Fonseca/OBSERVADOR

Na verdade, a semana em que estiveram retidos no prédio nem foi nada comparada com o que o coronel Santos passou na guerra, conta ao Observador, de raspão. Sobre o que pode vir a seguir à resposta do tribunal quanto à reversão da expropriação, prefere não tecer comentários. A VianaPolis afirma ter os fundamentos legais para expropriar estes nove moradores. Os advogados duvidam e insistem na reversão ao pedido.

Ao pronunciar-se, o tribunal vai determinar o desfecho da narrativa prédio Coutinho: ou saem, ou ficam. As prateleiras vazias das frações dos nove resistentes evidenciam alguma falta de esperança em que o caso seja resolvido a seu favor. E por estes dias já se fazem contas de cabeça ao tempo que passou sem terem uma resposta. Há quem acredite que ainda venha esta semana e quem aponte para a próxima. Comum é a palavra de ordem: resistir.

Reportagem. O prédio Coutinho já foi um mercado e vai voltar a ser. É esperado há 17 anos

Os Cunha. “Isto para o Estado português foi uma vergonha.”

Quando subimos ao 2º andar do bloco poente, Armando não esperava receber o Observador. Com a televisão ligada a fazer ruído de fundo, revia os jornais onde era mencionado o prédio que é o seu desde 1976. “Se é para falar esperem um bocadinho que eu já venho”. Enquanto Fernanda não vinha das compras, trocou a t-shirt cor-de-rosa por um polo cinza e os calções por umas calças. Arranjou o cabelo, apareceu a mulher e logo lhe disse: “Falas tu que eu não sei”.

Rui Manuel Fonseca/OBSERVADOR

Na casa arrumada do casal emigrado mais de 30 anos em Versailles, os móveis estão despidos. A orquídea branca e rosa de Fernanda está a morrer. Parece condizer com o semblante dos dois quando se fala na semana em que escolheram não sair a sair e não poder voltar a casa.

“Isto para o estado português foi uma vergonha. Para o estado e para estes cabeçudos aqui de Viana. Mesmo que eles ouçam eu não me importo"
Fernanda Rocha

A falta de água foi o que mais incomodou Fernanda: “Não podia cozinhar à minha maneira. Gosto de fazer um cozido à portuguesa, uma feijoada, umas batatinhas assadas com frango, um arroz de cabidela”. Tudo paladares familiares para Armando, 41 anos a transportá-los na marmita que levava para o trabalho na construção civil, em França.

Esperam, como todos, a decisão do tribunal mas até lá têm vivido “como sempre viveram”. Sabem que não aceitarão os cerca de 210 mil euros que a VianaPolis atribui pelo apartamento. “Onde é que se compra um apartamento por esse preço aqui em Viana?”. Mas o tempo e a necessidade de um plano B levou o casal a esvaziar os móveis do prédio que lhes tem dado dores de cabeça e a mudá-los para um apartamento que comprou já há mais de um ano, “a um quarto de hora” de distância, “para quem andar bem a pé”.

Mas dizem que vão ficar “até ao fim”. E ele pode estar próximo. “Da minha parte, está tudo varrido por completo”, avisa Fernanda, sob concordância de Armando, que acena com a cabeça na sombra da voz da mulher. Não guardam rancor mas lamentam se perderem a casa em que sonharam passar os últimos anos de vida. E nos tempos mortos, ainda se lembram da mãe de Fernanda: “Quando vinha cá a casa estava sempre com pressa de se ir embora”. E não quis que comprassem o apartamento.

Os Rocha. “Queriam-nos dar uma barraca, mas eu nunca morei em barracas”

Há 40 quilómetros a separar Versailles de Paris. Do segundo andar do lado poente do prédio Coutinho até ao oitavo do lado nascente vão meia dúzia de metros. As famílias Rocha e Cunha podem nunca ter pensado nisso, mas têm idênticas as vidas e as histórias com apartamentos T3. É que os Rocha também estiveram emigrados em França e só se anteciparam dois anos na compra do apartamento naquele prédio.

Do sítio cativo de Francisco no sofá, vê-se o jardim de pernas para o ar refletido numa placa de mármore que separa, no teto, a sala da varanda. As janelas estão abertas. Estavam a jogar Candy Crush, com dois tablets para cada um, “porque isto tem de se parar ao fim de cinco partidas”. É “para passar o tempo”.

Rui Manuel Fonseca/OBSERVADOR

Raquel preocupa-se: “Não reparem nos armários vazios. Nós arrumámos tudo em cartões, na garagem”. Tudo menos os móveis. “Os móveis não. Onde é que os vou meter?”.

Também o casal outrora emigrado em Paris sabe o que fazer se for forçado a sair do apartamento. Mas ao contrário dos Cunha, não pensa comprar casa. “Vou para a casa dos meus filhos. Comprar não compro. Temos 74 anos… Comprar para quê, neste país? Para deitar abaixo? Não vale a pena”.

A vida têm-na passado “normalmente”. Gostam de passear no jardim da frente e de tomar os cafés que, durante anos em França, circunscreviam. “Não íamos a um restaurante, não íamos a um café. Era casa-trabalho, trabalho-casa”. E só assim foi possível “juntar mil contos em 15 anos lá fora”. Este ano não foram de férias por não quererem abandonar a casa e estranham os seguranças que continuam a fazer turnos às entradas do prédio. Estamos “bem guardados”, diz Francisco.

E apesar de ser Francisco o incumbido de falar, porque Raquel, com um travo de sotaque francês, “não se expressa tão bem”, é ela quem toma a conversa para expressar desagrado: “Deitar isto abaixo vai ser a maior asneira da vida deles. A construção é bem feita, os apartamentos estão magnifique”.

“Queriam-nos dar uma barraca, mas eu nunca morei em barracas”, cimenta Raquel, inconformada com os apartamentos contruídos para realojar os moradores do prédio Coutinho.

Ao lado dos tablets, na mesa da sala, está uma lupa “com mais de cem anos, vinda da casa de uma patroa em França” e um verniz rosa choque. As velas vermelhas erguem-se semi-tombadas nos castiçais enquanto o casal, alheio à nossa presença, diverge na pujança que dá aos argumentos. Francisco está mais conformado; Raquel mantém-se mais reivindicativa.

Ela: “Eu não prefiro uma casa nem o dinheiro, prefiro esta casa”

Ele: “Ah, mas vais ter de aceitar o dinheiro”

Ela: “Eu já disse que se nos tirarem daqui vai ser diretamente para o cemitério”

Ele: “E eles estão lá importados com isso?”

Rui Manuel Fonseca/OBSERVADOR

Os Correia. “Não digo que ela morreu disto, mas abreviou-lhe a morte”

Agostinho é o mais velho morador do prédio Coutinho e dos únicos que ainda não se reformou. Faz 89 anos dia 22 de outubro e ainda hoje trabalha “7 ou 8 horas por dia”. É um homem de negócios, fabricante de artesanato “em larga escala”. Quando o edifício estava ainda em construção, Agostinho “passava aqui todos os dias, via a construção e não gostava”. Tantos andares davam a impressão de serem muito baixinhos. Mas um dia, quando o prédio estava praticamente acabado, “tive o cuidado de pedir para me deixarem ver isto. Fiquei maravilhado”.

Pediu imediatamente para lhe reservarem dois apartamentos. “Um era para comprar de certeza, o outro ia dar resposta ao fim de oito dias”. Acabou por só comprar um, mas agora diz-se “arrependidíssimo” da decisão.

Prédio Coutinho. Onze perguntas e respostas que explicam o que se passa em Viana do Castelo

O papel de parede beje cornocopiado ainda é o da altura, “o melhor que havia”, mas na casa pouco resta. Com a ajuda dos filhos, Agostinho tem deixado apenas o essencial. Muitos móveis já foram dali retirados e até há em cima da mesa um conjunto de mais de quinze chaves.

“Existia um mercado aqui, por sinal muito bonito. Tinha, nos quatro cantos, uma espécie de torre em ferro forjado. Deitaram o mercado abaixo e quiseram fazer um prédio aqui. O projeto foi aprovado.. não foi feito clandestinamente. “Então agora dizem que querem acabar com o prédio Coutinho para montar cá um mercado? São tolos. Ouviu?”
Agostinho Correia

A sala onde conversamos com Agostinho Correia foi o “quartel general”, como lhe chama, dos dias em que os moradores estiveram dentro do prédio. “Conversávamos, convivíamos. Também era aqui que recebíamos os nossos advogados”. Quando o presidente da câmara, José Maria Costa, tentou para conversar, Agostinho não o deixou entrar.

Maria Amélia, a esposa, morreu no dia 1 de julho. A falta da mulher não desorganiza Agostinho, mas acarreta saudades. Escolheu, em junho, não sair do prédio mesmo com o estado de saúde dela a agravar-se. Houve um dia em que a VianaPolis autorizou excecionalmente o morador a sair e a voltar a entrar no prédio, para poder ir ver a esposa. Agostinho não culpa ninguém pela morte da esposa. “Não digo que ela morreu disto, mas abreviou-lhe a morte”.

No quarto que era dela, “porque escolheu ter um só para si”, pintado a vermelho na carpete e na sanefa, a cama está por fazer. Maria Amália adoeceu à medida que o caso Coutinho se complicou. “Só há cerca de 18 anos é que a luta começou de quererem deitar isto abaixo. Alguns, mais necessitados de dinheiro, foram saindo, até que ficámos sete ou oito, firmes. E não arredamos pé, ouviu?”

Sem mais idas ao hospital, a vida de Agostinho resume-se, agora, a meia dúzia de metros quadrados. Do prédio, vira à esquerda para o escritório que tem no edifício vizinho e vira à direita para o restaurante Universo quando quer almoçar ou jantar e não é dia de a empregada lá ir a casa.

Hoje, como antes, veste camisa, gravata, calças de sarja e sapatos. “Está a ver ali na foto o lencinho no casaco? Andava sempre impecável. Ainda hoje!”. A baínha está só um pouco comprida para quem já se curva a andar. Agora Agostinho já dorme no quarto da mulher.

Rui Manuel Fonseca/OBSERVADOR

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