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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Presidente do Futebol Benfica: "Paulo Bento veio para o Futebol Benfica por causa de um encontro de tupperwares" /premium

Domingos Estanislau é presidente do Clube Futebol Benfica desde 1987. Em entrevista, fala sobre Bruno de Carvalho e o futebol feminino, conta a história de Paulo Bento e revela o que lhe falta fazer.

Domingos Estanislau tem 72 anos. É presidente do Clube Futebol Benfica desde 1987. Nasceu no Algarve mas foi viver para Benfica, freguesia pela qual se considera “apaixonado”, ainda adolescente. É a cara e a alma do clube a que todos se referem como “Fofó”: mas a que ele, sem qualquer descuido, se refere sempre como Futebol Benfica. Pelo meio, escreveu um livro sobre o tempo que passou em Moçambique durante a Guerra Colonial e ainda sobre a sua experiência como autarca.

Pelo Estádio Francisco Lázaro, o campo do “Fofó”, passaram Gelson Martins, Rúben Semedo e Ricardo Pereira. E Paulo Bento, cuja carreira teria sido bem diferente se um tesoureiro do Futebol Benfica não tivesse ido a um encontro de tupperwares em Mem-Martins nos final dos anos 80. Domingos foi pai, líder e conselheiro de todos eles e mantém um contacto permanente com todos os jogadores que passaram um dia pelo clube da rua Olivério Serpa, junto ao Mercado de Benfica.

Acha que Bruno de Carvalho podia “esconder-se mais”, conta como o Futebol Benfica se tornou uma potência do futebol feminino nacional, recorda o dia em que teve de visitar o presidente de outro clube para que pagassem a transferência de um jogador e explica como é que já o confundiram com Luís Filipe Vieira.

30 anos de histórias do homem que lidera o Clube Futebol Benfica.

Domingos Estanislau nasceu em Ferragudo mas mudou-se para Benfica ainda adolescente. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Como é que um presidente fica tanto tempo à frente de um clube? Não é só uma decisão própria, é necessária aceitação exterior.
Eu tenho uma vivência muito grande do clube, conheço muita gente. Posso dizer, sem qualquer preciosismo, que tenho um conhecimento profundo da realidade do desporto em Portugal e alguma coisa também do associativismo. E sou bastante embrenhado nessas situações. E isso trouxe-me algum prestígio, obviamente, e embora a unanimidade nestas coisas nunca exista, isto permitiu-me ganhar as eleições todas sempre com margens significativas. Se me disser assim: “Mas isso é bom?”, se calhar não é, podia haver mais oposição quando é uma oposição que visa melhorar. E quem está nestas coisas, aqui como na política, tem que estar preparado para isso e também apoia o lado contrário, é bom que isso aconteça. Aqui no Futebol Benfica sabem que eu sou uma pessoa dedicada, aquilo em que me meto é para levar a sério, não desisto facilmente.

Durante estes 30 anos à frente do Futebol Benfica, acabou por se reformar. Que profissão é que tinha antes?
Era bancário e ficou-me algum espírito. Quando entrei aqui como diretor do Futebol Benfica foram dois velhos dirigentes que me meteram no corpo este vício. Depois isto é como o futebol: ouve-se muitas vezes os treinadores dizerem “o bicho do futebol”. As pessoas não se desapegam de uma forma simples. Fica-nos cá qualquer coisa. E eu fui andando, já conhecia o clube desde os meus 12, 13 anos, já conhecia o clube muito bem, até por laços familiares, mas depois fui conhecendo melhor. E a história do Futebol Benfica é muito rica e com a reforma dediquei-me muito mais, percebi que se podia ir muito mais além do que aquilo que se fazia naquela altura. E o Futebol Benfica tem um passado brilhante: a primeira vez que Portugal é campeão do mundo de hóquei patins três dos jogadores da seleção nacional eram do Futebol Benfica, os irmãos Serpa e o Zé Dias. Éramos o sócio número 1 da Federação de hóquei assim como da Associação de Patinagem de Lisboa. Estes galhardetes que aqui se vêem não são galhardetes oferecidos, e digo isto com um certo orgulho e carinho. São de de competição, porque o Futebol Benfica competiu com estes clubes todos.

O Domingos nasceu em 1946. Onde é que nasceu?
Nasci em Ferragudo, no Algarve, a terra do Mourinho pai. Ainda tenho uma prima que é casada com uma pessoa dessa família. Sou algarvio de gema.

E como é que um “algarvio de gema” foi parar a Benfica?
Tinha um tio meu que se encantou por uma tia minha, tia por afinidade, que ainda mora aqui em frente, o meu tio é que já morreu. E ele foi sempre um homem ligado ao Futebol Benfica, um homem de grande iniciativa, tinha feito teatro, foi durante 30 anos ensaiador da marcha de Benfica. Era um homem super inteligente, era aquilo que hoje se pode chamar um engenheiro. E era um homem bem introduzido na sociedade, quer sociedade civil, quer aqui no clube. Fui andando com ele, vim para Lisboa muito cedo, com 13, 14 anos, e fui vivendo com ele este bicho e fiquei por aqui. E fiquei e não estou arrependido. O Futebol Benfica deu-me esforço, dedicação. Por vezes tenho abandonado o outro aspeto da vida que é importante, que é o aspeto familiar. Este apego, esta coisa toda, deu-me conhecimento.

Conhecimento que aplicou noutras áreas?
Claro. No meu tempo aconteciam muitos episódios no banco, como um cliente exaltar-se por este ou por aquele motivo. Um caso concreto: eram dois irmãos que não tinham pai nem mãe e havia um que era malandro e o outro um rapaz com alguma deficiência. E o Estado, no fundo, é que tomou conta daquelas verbas a que ele teve direito. E o irmão um dia entrou lá e queria receber o dinheiro todo e disse que partia aquilo tudo. E quem é que ia resolver isto? Era eu. E dizia-lhes: “Epá, vocês não conhecem a sociedade, vocês saem daqui vão para casa, vão ver televisão!”. Este hábito, esta dinâmica já do próprio clube, determinava que tivesse outro tipo de intervenção nesse aspeto. E resolvi assim alguns problemas. Outra vez aconteceu um engano qualquer e tivemos de ir a casa da pessoa que tinha feito a vigarice. E para não prejudicar um colega meu, eu ofereci-me. “Epá, vamos lá, eu faço de Polícia Judiciária e a gente resolve o caso a bem”. Batemos à porta, abri a carteira, “Judiciária”, fechei a carteira, entrámos e resolvemos a bem. Mas isso foi uma coisa que adquiri aqui no clube, o conhecimento da sociedade. Ainda hoje nós temos aqui no Futebol Benfica 60 indivíduos com pequenos delitos a fazer trabalho comunitário, de reinserção.

A sala da direção do Clube Futebol Benfica está revestida de bandeiras, galhardetes e recortes de jornais. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Que tipo de trabalho comunitário é que fazem aqui?
Fazem aquilo que a gente quiser. E se não quiserem fazer nunca tive problema nenhum. Aqui nós temos sensibilidade para isso, para perceber de onde é que as pessoas vêm. Já tive nesta sala um professor de Filosofia ali do liceu da Amadora. Era um caso de divórcio, tinha havido um problema com a mulher e ele apareceu aqui muito revoltado. “Eu a esses gajos não dou um tostão, pode-me mandar limpar as casas de banho, faço tudo, mas ao Estado não dou um tostão”, dizia ele. Estava revoltado com a decisão. E eu disse-lhe, porque sabia que ele era professor de Filosofia: “Vamos fazer aqui um curso de filosofia, escolha aí um tema”. Porque ao fim da tarde, assim a partir das cinco horas, juntam-se aqui os pais, os avós, dos meninos que andam a jogar futebol, a treinar ali com os nossos professores. O objetivo era trazer aquela gente, em vez de estarem ali às vezes a cortar na roupa do vizinho, vinham para aqui para o curso. Então qual foi o tema? Relações no trabalho. E foi giro, estivemos aqui três meses a ouvir e foi importante. O que é que isto quer dizer? Que o Futebol Benfica é bem visto, este trabalho que a gente faz, na reinserção social. E há aqui sensibilidade. E isso também me deu alguma capacidade para lidar com pessoas destas. Eu falei no professor de Filosofia, mas apanhamos aqui outro tipo de pessoas com quem é precisa uma maior sensibilidade. Mas tem que se saber situar com quem estamos a falar, a conversa que tenho com o professor de Filosofia não posso ter com um outro indivíduo.

E nunca passou por aqui um caso mais complicado de resolver?
Uma vez apanhei aqui um, esse já era um caso grave, mas faço com uma vontade extrema porque sei que também estou a fazer um serviço à sociedade. Esse era um indivíduo todo retalhado, a cara toda retalhada, sinal de que tinha tido alguns problemas. Andou aqui, a gente sempre a falar bem com ele, quando acabou o trabalho veio ter comigo e diz-me assim: “Patrão, gostei muito de estar aqui, fui bem tratado, se precisar de alguma coisa minha, estou sempre ao serviço”. E eu pensei assim: “Estou sempre ao serviço?”. Fiquei com aquela, não tive atrevimento na altura de lhe perguntar qual era o serviço porque percebi que o serviço não era nada agradável, que era qualquer coisa de sangue. Mas perguntei a um outro que andava aí também e ele disse: “Epá, faz todo o serviço, pode ser partir um braço, dar um tiro num pé e até eliminação do indivíduo”. Mas ele foi simpático, saiu bem daqui. Tem de se ter uma certa filosofia para lidar com esta gente e as pessoas não são más, às vezes o acontecimento é que provoca a maldade. Ttenho essa experiência, este homem foi uma experiência grande. As pessoas quando são bem tratadas também reagem bem.

O Domingos vem então para Lisboa aos 13 anos. E como é que começa a ligação ao clube? Enquanto atleta?
Sim, com 16 anos comecei a jogar futebol. Na altura, só havia os principiantes e os séniores. Hoje desde os sete anos que se joga à bola, começa-se a jogar aos sete anos já em competição. E jogar à bola naquela altura, com aquela idade, era importante porque havia poucos clubes. E quem tivesse o privilégio de jogar, que era mesmo um privilégio, ficava de certa forma agarrado, que foi o meu caso, foi o pagamento a uma entidade que me proporcionou uma coisa que não está ao alcance de muitos. Já vivia aqui dentro, com o meu tio, criei aqui amizade e tive essa possibilidade. Depois joguei hóquei em campo, também. A seguir fui para Moçambique e quando voltei fui convidado a fazer parte da direção.

O estádio do Clube Futebol Benfica fica no centro da freguesia, mesmo junto ao mercado municipal. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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E esse “apego” ao clube já lhe trouxe alguma situação mais caricata?
Uma vez íamos jogar a Elvas. Apanhámos um trânsito descomunal e chegámos lá atrasados. Chegámos nós e o árbitro! E o presidente do Elvas tinha sido diretor do Benfica, naquela direção do Damásio. Quando lá chegámos, o homem estava com um cachecol do Elvas. Eu tinha sido operado ao coração pouco tempo antes e fiz aquela viagem com medo, com receio, ia muito bem agasalhado e ele põe-me o cachecol do Elvas ao pescoço. Mesmo no final do jogo, estávamos a perder 1-0, fizemos o 1-1 e o árbitro invalidou o golo. E eu nestas as coisas, às vezes, transcendo-me um bocado. O gajo invalidou o golo, saio do camarote todo lixado porque era um golo limpinho e faço um compasso de espera para me cruzar com o árbitro. O gajo passa ali, vou ter com ele e digo: “Epá, isto é sempre a mesma merda, o golo é limpo e anulam o golo!”. Mas vi que o homem ficou um bocado confundido. Quando um diretor meu foi buscar os cartões à cabine do árbitro o gajo vira-se e diz: “Epá, já viu, estes gajos ganham o jogo e mesmo assim ainda me estão a criticar”.

Portugal é, por natureza, um país de formação no futebol. Temos vários clubes que têm uma grande escola de formação. Como é que o Futebol Benfica se tornou um clube de formação? Saíram daqui muitos jogadores que acabaram por jogar na I Liga.
Temos agora aí três. Infelizmente, tenho de referir o caso do Rúben Semedo. Que é um puto porreiro. Estou convencido de que aquilo está um bocado empolado, não consigo falar com ele, porque ele está preso, mando mensagem mas provavelmente ele nem a isso tem acesso.

Andou aqui, a gente sempre a falar bem com ele, quando acabou o trabalho veio ter comigo e diz-me assim: "Patrão, gostei muito de estar aqui, fui bem tratado, se precisar de alguma coisa minha, estou sempre ao serviço". E eu pensei assim: "Estou sempre ao serviço?". Fiquei com aquela, não tive atrevimento na altura de lhe perguntar qual era o serviço porque percebi que o serviço não era nada agradável, que era qualquer coisa de sangue. Mas perguntei a um outro que andava aí também e ele disse: "Epá, faz todo o serviço, pode ser partir um braço, dar um tiro num pé e até eliminação do indivíduo".

Alguma vez pensou que uma coisa assim pudesse acontecer com o Rúben?
Não, o Rúben era um rapaz… Ele e o Gelson, mesmo quando passaram para o futebol profissional, para o Sporting, e depois passara a ir habitualmente às seleções, andavam sempre juntos e vinham aqui. E o Gelson é um indivíduo calado, caladinho, e ele é que era o animador da festa, contava anedotas e tal. Nunca aqui no Futebol Benfica ele se portou mal, pelo contrário. Era um indivíduo alegre. Tenho aqui um diretor de uma escola onde o Rúben andou que tem aí uma filha a jogar, vem aqui muitas vezes, e já tenho falado com ele e perguntei-lhe qual era o comportamento dele. E ele disse que era porreiro, nada a apontar, era aluno do meio da tabela para cima. Aquilo, o que aconteceu, para mim, por aquilo que conheço dele, era incapaz de entrar nisto. Mas às vezes as companhias determinam outros fatores. O Rúben não é rapaz para isso. Infelizmente, estragou a vida dele, tinha a vida estabilizada e agora não sei o que vai acontecer.

Do lado esquerdo, Francisco Lázaro, o atleta que morreu durante a maratona e dá nome ao estádio do clube. Do lado direito, Gelson e Rúben Semedo com Domingos Estanislau. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Há um ano disse que o Gelson vai ser o próximo Cristiano Ronaldo. Ainda mantém essa opinião?
Era uma expressão. Mas tem condições para ser um bom jogador – que já é, aliás – mas para evoluir mais do que aquilo  em que está. Agora, acho que o Gelson tem necessidade de sair do Sporting. Para entrar num campeonato com mais visibilidade, a visibilidade de um campeonato inglês. E isto ajuda, porque a envolvência desse campeonato também é determinante, os prémios, tudo é maior, tudo é diferente daquilo que acontece em Portugal.

Acha que o Mundial pode ser uma boa montra para ele?
Acho que sim, já falei com ele, já lhe mandei uma mensagem, agora no jogo do Sporting com o Benfica disse-lhe assim: “Olha, tens agora uma boa montra para te projetares, aproveita”. Mando-lhe assim essas mensagens.

E qual é a reação dele?
“Muito obrigado, presidente”. Cumprimentei também o Ricardinho [Pereira], o do FC Porto, que também é daqui. E felicitei-o, obviamente [pela transferência para o Leicester].

E quanto ao Ricardo Pereira? Acha que vai ter sucesso na Premier League?
O Ricardo fez uma época extraordinária. Acho que ele vai ao Campeonato do Mundo [a entrevista decorreu antes de Fernando Santos anunciar a convocatória para o Mundial 2018, que confirmou esta previsão]. Eles normalmente aparecem por aí. E isto dá um certo gozo, saber que estes miúdos ficam aí, ver que as pessoas ficam ligadas. Porque foi malta que passou por aqui e fui sempre mantendo esta relação com eles. E isso obriga a um contacto quase permanente. Se olharmos para o panorama internacional, olham para mim e dizem: “Epá, este gajo já está lá há 30 anos”. Mas alguém conhece algum clube que tivesse progredido e tivesse algum presidente três anos ou quatro? Por exemplo, o Sp. Braga, que saiu quase do anonimato, o Salvador está lá há quantos anos? As pessoas esquecem-se disso. O Guimarães andou ali sempre a fazer boas épocas com o Pimenta Machado, quantos anos é que ele esteve lá? E muitos mais! Parece que não, que o tempo só passa por mim, mas o Vieira [no Benfica] já está lá há 15 anos. E independentemente das pessoas andarem agora em cima dele por isto ou por aquilo, o homem fez muita coisa.

E como é que vê o cenário “Bruno de Carvalho”?
Acho que o Bruno de Carvalho podia esconder-se mais. Tive uma reunião com ele lá no Estádio de Alvalade, lá no gabinete, quando ele queria que o Futebol Benfica fizesse um acordo com ele por causa do futebol feminino. Como tive, aliás, com o Vieira. Mas não aceitámos. O Futebol Benfica tem uma dinâmica, uma filosofia diferente de todos os outros. Não temos aqui empresários, não estamos ligados a nenhum dos clubes grandes como acontece muito aqui em Lisboa, nós somos nós. Se aparecesse um dia aqui algum indivíduo que entrasse nesta área havia aqui coisas que se modificavam. O Futebol Benfica não tinha seis equipas de hóquei em campo, não tinha 60 miúdas na patinagem, não tinha nada disso. Se entrasse aqui uma SAD, a gente sabe o que acontece. Os clubes vão para as SAD e depois querem mandar mas não mandam nada. Quem é que manda num clube? É o futebol, o resto é conversa. O Atlético, que andou aqui a jogar no ano passado, acabou por descer e agora está a jogar no regional. Nós não aceitamos isso.

(Sobre Rúben Semedo) Aquilo, o que aconteceu, para mim, por aquilo que conheço dele, ele era incapaz de entrar nisto. Mas às vezes as companhias determinam outros fatores. O Rúben não é rapaz para isso. Infelizmente, estragou a vida dele, tinha a vida estabilizada e agora não sei o que vai acontecer.

Mas como é que acha que vai ser o futuro do Sporting?
[A entrevista decorreu antes das agressões aos jogadores e equipa técnica do Sporting em Alcochete.]
Acho que o Bruno de Carvalho fez – e essa é a defesa dele – um bom trabalho. Vamos ver as repercussões daqui por uns tempos. Vamos ver. Mas podia ser mais comedido, já chega. Ele arranjou ali um problema grave, quanto a mim, não sei como é que vai ser estas renovações com aqueles jogadores. Vai ser complicado para o Sporting. Aquilo que fizeram agora ao Patrício, toda a gente diz que aquilo foi de propósito, mandar com aquelas tochas… e mesmo que não fosse intencional deveria haver ali bom senso. Mas não há dúvida de que aquilo agora também pesa na cabeça do rapaz. Aquilo faz-se ao adversário! Mas o Sporting… vamos ver, não sei, acho ali muito dinheiro, muita coisa, ele quer ganhar tudo mas aquilo custa tudo muito dinheiro, aquela equipa de andebol, a de vólei, a de hóquei patins, tudo aquilo é uma coisa incrível. E depois há a outra parte: “Epá, o homem fez o pavilhão”. O pavilhão não foi ele que fez! O projeto já vem de trás. Isto é como na política, às vezes aparece uma obra feita e as pessoas pensam que aquela obra tem a ver com aquele indivíduo e ele é apreciado por causa disso mas são coisas que levam tempo a fazer.

Outro dos nomes sonantes que faz parte da história do Futebol Benfica é o Paulo Bento, antigo jogador do Benfica e Sporting e ex-selecionador nacional. Como é que o Paulo Bento vem parar ao Futebol Benfica?
Às vezes há coisas na vida em que as pessoas nem se apercebem da sorte que têm. O Paulo Bento era miúdo ainda. Ele estava no Palmense. O gajo joga de cabeça no ar, as botas parece que têm olhos. E numa reunião de direção falo nisto. “O Palmense tem lá um puto, a gente devia ir buscar o gajo”. Disse aquilo e no sábado a seguir, o Mota, que já morreu e era o tesoureiro do clube na altura – era um gajo que via futebol mas nem percebia muito – vai a Mem-Martins a um encontro de tupperwares com a mulher. E em Mem-Martins jogava o Palmense naquele dia. E ele lembrou-se da conversa da reunião de direção e vai ver o jogo do Mem-Martins com o Palmense. No fim do jogo quis falar com o miúdo e ele – o Paulo Bento tinha uma personalidade forte – disse que quem tratava da vida dele era o treinador, o Carlos Santos. O Carlos Santos aparece e diz: “Não não, já está tudo organizado, vai para o Sacavenense”. E o tio do Paulo Bento, que foi ele que o acompanhou sempre, vai com ele ao Sacavenense e os gajos dizem: “Tu assinas aqui e a gente empresta-te”. O Paulo Bento e o tio não aceitaram e veio para o Clube Futebol Benfica. Foi a sorte dele. E andou aí e só foi titular na segunda volta. Andou aí, suplente, suplente, mas nunca protestou. Teve sempre um comportamento exemplar. O que também diz muito do caráter dele.

Um dos sonhos que Domingos Estanislau ainda quer realizar é construir um museu para mostrar a todos as conquistas do Futebol Benfica. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Estes clubes, com um historial de formação, normalmente têm sempre um jogador que é a eterna promessa, que prometeu mundos e fundos e depois não cumpre. O Futebol Benfica também teve um jogador assim?
Sim, havia aí um, foi daqui para o Guimarães, o Vital. Levado exatamente pelo tio do Paulo Bento. Chegou a Guimarães, andou a jogar no Vizela e depois morreu. Ou então outro, o Filipe, que até tem uma história engraçada. Vendemos o jogador por 2.500 contos. Aquilo foi no período de transferências de janeiro, o outro clube mandou as coisas porque tinham de inscrever o jogador no dia seguinte e veio um gajo deles aqui, um empregado, para fazermos a assinatura, porque quando é profissional tem de ser com notário. Fomos lá os dois ao notário, fizemos a assinatura, ele volta lá para a terra dele e o dinheiro nada. Correu um tempo e o dinheiro não aparecia. E as pessoas do norte normalmente são sérias. Pedi aqui ao Gomes para falar com eles e lá combinou um almoço num restaurante perto do estádio deles. Vou daqui para lá, vamos ao restaurante e estavam lá uns seccionistas. “Ah, o nosso presidente teve de ir a Guimarães, vendemos um jogador para o Guimarães e desapareceu e agora o Guimarães está a exigir o dinheiro”. Mas disseram que à tarde o presidente chegava.

No final do almoço fomos ter ao campo, esperámos pelo presidente e ele nada. Eu agarro no telefone, no meio daquela gente toda que estava a ver o treino, “ó senhor presidente, então o senhor não aparece, pá? Estão aqui dois saloios de Lisboa à espera que o senhor venha pagar a dívida”, assim no meio dos sócios, mas não estava ao telefone com ele. Alguém dali telefonou para alguém e lá vem o rapaz que tinha estado connosco no restaurante, com o telemóvel na mão, a dizer que o presidente estava ali. Falo com ele, no meio dos sócios, “então mas ó presidente, você deve dinheiro ao Futebol Benfica e quer que lhe peça desculpa?”. Combinei com ele ao final do dia outra vez no campo. Chego lá e está tudo às escuras, tudo apagado, e pensei: “Este sacana!”. Mas depois pronto, pensei que eles tinham uma equipa boa de vólei e decidi ir ao pavilhão. Estava a equipa de vólei a treinar e quando entrámos pedimos para falar com o senhor presidente. Quando perguntaram que é que deviam anunciar eu disse: “Diga-lhe que são dois saloios de Lisboa que estão aqui!”. Ela lá lhe ligou, ele não apareceu e eu disse que no dia a seguir estava no átrio da Câmara a fazer um comunicado em nome do Futebol Benfica a dizer que o clube nos devia dinheiro e ninguém aparece a dar a cara. Telefonei para o Filipe, o jogador em causa, e combinei ir jantar com ele. Ele senta-se à mesa e o presidente acaba por aparecer também, diz que é autarca e não pode assinar cheques. Eu rasgo um bocado da toalha de papel e digo-lhe para ele assinar ali em como vai pagar. Ele escreve as prestações, assina e eu digo: “Agora o bilhete de identidade”. O gajo mostra-me o bilhete de identidade e eu digo-lhe: “Agora como está no bilhete de identidade”, que ele tinha assinado com outro nome. Depois disse-lhe que também era autarca e que nunca tinha sido impedido de assinar cheques em nome do Futebol Benfica e que se isso se passava com ele era porque tinha algum problema de ordem pessoal. Depois resolvemos aquilo com um acordo que também meteu o presidente do Beira-Mar.

O Paulo Bento era miúdo ainda. Ele estava no Palmense. O gajo joga de cabeça no ar, as botas parece que têm olhos. E numa reunião de direção falo nisto. "O Palmense tem lá um puto, a gente devia ir buscar o gajo". Eu disse aquilo e no sábado a seguir, o Mota, que já morreu e era o tesoureiro do clube na altura - era um gajo que via futebol mas nem percebia muito - vai a Mem-Martins a um encontro de tupperwares com a mulher. E em Mem-Martins jogava o Palmense naquele dia.

Grande parte da história recente do Futebol Benfica está ligada ao futebol feminino. Como é que a modalidade chegou ao clube tantos anos antes de chegar aos clubes grandes?
O Futebol Benfica teve uma ação importante na dinamização do futebol feminino em Portugal. O Futebol Benfica e o Boavista são os clubes com mais anos de futebol feminino, temos 24 anos de modalidade a nível profissional e antes disso já tínhamos ganho uma série de campeonatos a nível regional, ainda em futebol sete. E um dia, um rapaz que era aqui da direção, o Zagalo, começou a falar disso nas reuniões de direção e a dizer que era giro começar a levar isto mais a sério porque já tínhamos ganho uma data de coisas aqui. Criou-se aí uma tradição.

O desaparecimento do 1.º Dezembro, até então uma potência do futebol feminino, ajudou na afirmação da modalidade no Futebol Benfica?
As coisas foram andando, fomos melhorando, o panorama foi melhorando aos poucos, as equipas boas que havia também foram caindo, o Leixões, o Boavista, que ganhou uma série de campeonatos, e nós fomos melhorando. Tivemos sorte com o desaparecimento do 1.º Dezembro porque três ou quatro jogadoras que jogavam lá vieram para cá reforçar. E dois anos antes de nós ganharmos o primeiro campeonato já eu dizia que um dia que o Futebol Benfica ganhasse o campeonato nacional o panorama do futebol feminino em Portugal alterava-se. Por duas razões óbvias: porque é uma equipa de Lisboa, da capital do país, e porque o Futebol Benfica tem uma boa audiência junto da comunicação social. Pensei logo que isto ia ser empolado. Foi a primeira equipa de Lisboa a ganhar o campeonato nacional de futebol feminino. Ganhámos a primeira Supertaça de futebol feminino que existiu. E fomos a equipa – tirando agora o Sporting – que mais vezes foi ao Estádio Nacional, à final da Taça de Portugal. Ainda perdemos lá duas finais e depois ganhámos outras duas.

Acha que esta incursão dos clubes grandes no futebol feminino trouxe mais mal do que bem?
Não, quer dizer, claro que não podemos proibir ninguém – não é essa a nossa pretensão – de poder participar. O que eu achei mal, e combati isso, foi a forma como fizeram as coisas. Trazer os clubes para a primeira divisão sem competição. Não podemos andar a falar em verdade desportiva e depois agarrar em quatro clubes e atirá-los para a primeira divisão. Isso é que condeno. Onde é que está a moral disto? O Futebol Benfica, para chegar onde chegou, teve de jogar na segunda divisão, fomos campeões da segunda divisão. E não tenho dúvidas de que qualquer uma das equipas, o Sporting ou o Sp. Braga, ganhariam facilmente a segunda divisão, a brincar. Como vai acontecer com o Benfica agora. Quem conhece bem o futebol feminino sabe que a nível da segunda divisão o Benfica vai ganhar sempre 15-0, de 15 para cima. Não tinha ficado nada mal haver aqui um bocadinho de humildade e terem disputado primeiro o campeonato que era correto. Vai sempre ficar esta mácula.

O Sporting tem duas jogadoras no plantel que veio buscar aqui ao Futebol Benfica, a Matilde Fidalgo e a Patrícia Gouveia. Isto é a prova de que as equipas grandes esvaziaram o potencial das equipas mais pequenas quando entraram no futebol feminino?
O Sporting foi buscar a maior parte delas que jogavam no estrangeiro. E fez uma boa equipa. O Sp. Braga fez a mesma coisa. E aí é difícil competirmos com eles. Mesmo assim, nos jogos com o Sporting, sobretudo com o Sporting, temos tido resultados normais no futebol, nada de transcendente. Mas isso não quer dizer que o Sporting não seja melhor. Qual é a nossa perspetiva? É continuar com esta dinâmica, temos três equipas e a perspetiva é criar mais uma. O objetivo é conquistar uma Taça de Portugal ou pelo menos chegar à final. E, fundamentalmente, queremos continuar com esta dinâmica em termos desportivos. Nós somos, essencialmente, um clube de modalidades. Às vezes as pessoas perguntam-me porque é que o Futebol Benfica não anda para a frente. Não anda para a frente? Um clube que é campeão nacional, que vai à Liga dos Campeões… quantos clubes em Portugal é que vão à Liga dos Campeões? É futebol feminino? É. Mas é uma coisa que tem desenvolvimento a nível internacional e essas conquistas já ninguém nos tira. Agora, no futuro, vai ser só Benfica e Sporting, nem o Sp. Braga vai mexer nisso. E até fizemos figura na Europa! Se as regras fossem as que o Sporting apanhou tínhamos sido apurados, fizemos melhores resultados.

O clube é carinhosamente tratado por "Fofó" pelos adeptos

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

E o clube alguma vez teve algum problema ou inconveniência por ter Benfica no nome?
Ainda sofremos um bocadinho. Portugal ainda tem falta de qualquer coisa mais. Nós temos situações de portugueses pelo mundo fora que demonstram capacidade mas, de um modo geral, o povo português não é muito formado e informado. Aqui há dois anos fomos jogar a um clube de Vila Nova de Gaia. E ao lado desse clube, desse campo, há uma Casa do Benfica. Ao intervalo, antes da segunda parte começar, começou a aparecer montes de malta com cachecóis do Benfica, SLB para aqui, SLB para ali, uma bandeirona a dar a volta ao campo. Entretanto, senta-se uma senhora com uma certa idade ao meu lado e grita: “Ó orelhas, onde é que tens as orelhas?”. Depois contaram-me que ela perguntou a alguém do Futebol Benfica onde é que estava o presidente. Ela senta-se ao pé de mim e pergunta onde é que estão as orelhas. E eu disse-lhe que naquele dia não as tinha levado. Mas a mulher ficou ali e ainda me perguntou porque é que não fomos lá beber a bica à Casa do Benfica. E aquilo estava o campo cheio, cachecóis, “SLB SLB”, e a dada altura desandaram todos porque alguém lhes disse que aquilo não era o Benfica, era o Futebol Benfica. Foi-se tudo embora. Mas já passei por ‘Orelhas’ [nome pelo qual é ostensivamente tratado Luís Filipe Vieira].

Tem dois filhos. Eles foram atletas no Futebol Benfica?
Sim, o meu filho jogou futebol e a minha filha praticou ginástica.

Ser presidente do clube há 30 anos faz com que esta já nem seja a segunda casa, mas sim a primeira?
Passo tempo no clube, há quem passe na taberna, há quem passe a jogar às cartas. O que é que pensa a cabeça daquelas pessoas que passam o dia a jogar às cartas? Esta malta envelhece. Eu não, não sou velho! Se estivesse ali o dia todo a jogar às cartas qualquer dia nem sabia falar com ninguém. O que é que fazia em casa? Olhava para a televisão? Qualquer dia estava paraplégico. Assim pelo menos tenho vida. Fui operado ao coração, já tive uma apendicite aguda, fui operado à coluna, já fiz estes disparates todos porque não tive preocupação nenhuma. Mas tive de aproveitar.

E o que é que ainda lhe falta fazer?
Um museu. Um museu onde pudesse expor tudo o que está aí espalhado porque assim tem pouca visibilidade e ninguém vai olhar para isto. Os estrangeiros dão muito mais valor a estas coisas. E eu olho para aqui e vejo um treinador que esteve cá três anos e agora é adjunto do Rui Vitória, olho para ali e vejo o Livramento, olho para o outro lado e vejo campeões do mundo. Mas se isto estiver num museu tem outro valor. Mas as coisas estão a andar. É um sonho antigo. O principal, agora, é o pavilhão, que se arrasta há gerações e gerações. Tenho ali presidentes da década de 40 a reclamar o pavilhão. Foi a única coisa que deixou cair o hóquei patins, uma modalidade em que éramos uma potência nacional. E gostava de ser eu – quer dizer, nós, as pessoas que me têm acompanhado – a deixar aqui essa marca. E se fizermos o museu é ouro sobre azul.

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