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Fran

ANA MARTINGO/OBSERVADOR

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ANA MARTINGO/OBSERVADOR

Pulou de uma janela de um hotel e escapou à justiça durante décadas. As fugas de Franklim Lobo, o maior narcotraficante português /premium

Em 1999, fugiu à polícia saltando da janela do hotel. Condenado a 25 anos em 2000, foi absolvido por um erro processual. Ficou com Covid-19 e o julgamento foi adiado. Começou esta semana.

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“Ele gosta da cor do carro, mas é em madrepérola. Como não é essa cor, não gostou. Ele já levou um igual. Deve estar cheio, é isso! Todos os carros que lá tem são em madrepérola”

Não eram carros que Franklim Lobo negociava. Estaria, na verdade, a usar uma linguagem codificada para falar sobre droga. Azeite, queijo ou tinta castanha metalizada também eram designações que habitualmente utilizaria para se referir à verdadeira mercadoria. Mas daquela vez terá preferido fingir que estava a falar de automóveis para ajustar os últimos detalhes de uma importação de cocaína do Brasil. Entre 15 a 20 quilos de droga seriam dissimulados na estrutura de um avião comercial que aterraria no aeroporto de Lisboa no fim de semana de 10 e 11 de outubro. O ano era 2015.

Segundo a acusação, a cocaína tinha sido colocada em diferentes locais da cabine do avião pelos colaboradores que Franklim Lobo tinha no Brasil. Tinham filmado todo o processo de acondicionamento da droga e fotografado cada sítio onde tinha sido escondida de forma a que outro colaborador que esperava o avião no aeroporto de Lisboa a pudesse recolher. O plano estava a correr como previsto: o avião aterrou no fim de semana com vários quilos de cocaína que, na segunda-feira seguinte, alguém iria recolher. Mas, por alguma razão, o colaborador não conseguiu localizar a droga e Franklim Lobo entrou em “desespero” — descrevem os procuradores que o viriam a acusar, anos mais tarde, de tráfico de estupefacientes.

Do Brasil chegava-lhe a informação de que a droga tinha sido colocada no avião como planeado. Ao mesmo tempo, o seu braço direito, Vítor Caeiro, tentava perceber junto do colaborador do aeroporto de Lisboa porque é que não conseguia encontrar a droga. Já “desesperado”, Franklim Lobo “descontrola-se” e deixa de usar a linguagem codificada relacionada com compra de carros para começar a falar do verdadeiro produto que estava a negociar. Aquele que é considerado o maior narcotraficante português acabaria por explicar na chamada todo o processo de importação da cocaína do Brasil, sem saber que a chamada estava a ser intercetada pela polícia e que tinha acabado de lhes dar de bandeja o seu modus operandi — mas o que aconteceu à mercadoria nem a polícia veio a perceber ao certo.

Entre 15 a 20 quilos de droga seriam dissimulados num avião que aterraria no aeroporto de Lisboa do fim de semana de 10 e 11 de outubro de 2015

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Não foi o seu fim, mas foi o princípio do fim. Segundo a mesma acusação, esta importação falhada juntava-se a outros insucessos recentes e Franklim Lobo começava a procurar outras soluções: importar droga do Brasil para Portugal por via marítima. Este novo método, porém, durou pouco tempo. Em 2016, começou a ser investigado no âmbito da Operação Aquiles.

A verdade é que Franklim Lobo seria tudo menos um conjunto de operações falhadas. Seria o líder de uma rede de tráfico de droga com mais de uma dezena de elementos que desde 2014 importava cocaína da América do Sul e haxixe de Marrocos, que depois eram comercializadas em Portugal e Espanha — uma rede de tráfico de droga que recebia informações policiais privilegiadas de dois inspetores da Polícia Judiciária (PJ) que acabariam também detidos na mesma operação.

Operação Aquiles. O mistério dos 280 quilos de cocaína que tramaram dois coordenadores da Polícia Judiciária

Aliado a inspetores, Franklim Lobo conseguiu durante anos fugir à justiça — por vezes, literalmente, chegando inclusive a saltar da janela de um hotel onde estava a ser guardado pela PJ ou atravessando o Mediterrâneo para chegar a Marrocos. Mas também com julgamentos anulados por falta de provas ou erros processuais. Apanhá-lo demorou tanto que o julgamento da Operação Aquiles arrancou ainda Franklim Lobo estava em parte incerta. Encontrado e detido em Espanha em março de 2019, quando ia finalmente sentar-se no banco dos réus no passado dia 13 de novembro — num outro processo separado do Aquiles — viu o seu julgamento adiado devido a um surto de Covid-19 na cadeia onde se encontra preso. Dias mais tarde também ele acabaria por testar positivo para o novo coronavírus. O julgamento começou finalmente na passada quinta-feira.

O “pulo do Lobo” da janela de um hotel de onde fugiu. E a operação “Toca do Lobo” que levou à sua detenção em Espanha

Natural da Vermelha, no concelho do Cadaval, aos 30 e poucos anos já contava com um longo cadastro, que incluía roubo e tráfico de droga. Cadastro que foi crescendo ao longo dos anos, a par com as alcunhas pelas quais foi sendo conhecido: ‘Fininho’, ‘artista’ ou ‘enfermeiro’ eram apenas algumas delas. Aos 43 anos, já acumulava 12 inquéritos judiciais — a maioria por tráfico de droga — e cresciam as ligações a grupos internacionais do crime, em Espanha ou na América do Sul.

Mas foi em 1999 que Franklim Lobo deu definitivamente nas vistas ao saltar de uma janela de um hotel onde estava sob custódia da PJ. Tudo começou porque os vários negócios que tinha, como bares noturnos, comércio ou imobiliário, levantaram suspeitas sobre a proveniência do dinheiro. A PJ seguiu-o durante vários anos e apontou o tráfico de cocaína como principal fonte de rendimentos, escreveu o Público em 2007.

Aos 30 e poucos anos já contava com um longo cadastro, que incluía roubo e tráfico de droga e que foi crescendo ao longo dos anos, a par com as alcunhas pelas quais foi sendo conhecido: 'Fininho', 'Artista' ou 'Enfermeiro' eram apenas algumas delas.

Em 1999 seria então detido por suspeitas de tráfico de droga, mas não ficou em prisão preventiva porque se disponibilizou a colaborar com as autoridades na apreensão de duas toneladas de cocaína — uma operação, escreveu o Diário de Notícias, cujos contornos nunca foram bem explicados. Foi colocado num hotel da Avenida Duque de Loulé, em Lisboa, com dois agentes encarregues da sua vigilância. Só que, a meio da noite, o narcotraficante saltou da janela do primeiro andar do hotel e fugiu. A polícia só viria a anunciar a fuga — conhecida como “o pulo do Lobo” — semanas depois. Mesmo estando em parte incerta, no ano seguinte, 2000, foi condenado à revelia a 25 anos de prisão por tráfico de droga pelo Tribunal de Sesimbra.

Durante este tempo, Franklim Lobo fazia uma vida de luxo em Fuenjirola, perto de Málaga, Espanha, onde tinha uma vivenda e detinha várias empresas imobiliárias, ainda segundo o DN. Foi ali que a polícia espanhola o viria a deter, em 2004, no cumprimento de um mandado de detenção emitido por Portugal, no âmbito de um processo denominado  “Toca do Lobo”. Foi extraditado para Portugal, numa operação repleta de medidas de segurança — era considerado um homem perigoso e costumava estar acompanhado por pessoas que a polícia considerava violentas, explicou o Público.

Em Portugal, esperavam-no os 25 anos pelos quais tinha sido condenado quatro anos antes, em 2000, e que nunca tinha cumprido. Mas a sua defesa detetou um erro processual e fez um pedido de habeas corpus que viria a ser aceite. O narcotraficante saiu em liberdade, voltando a fugir. 

Depois da fuga, foi detido no Brasil. Julgamento em que foi condenado a 25 anos foi repetido e acabou absolvido

Foi vigiando os seus familiares que a PJ viria a descobrir, em 2004, onde estava Franklim Lobo: numa pequena localidade no estado de Goiás, no Brasil. As autoridades portuguesas acreditavam que era a partir dali que geria uma rede de tráfico de dimensão internacional de onde vinha o dinheiro que lhe permitia ter um império imobiliário em Espanha avaliado em mais de 42 milhões de euros, segundo o Público. A sua filha, um contabilista português e um advogado espanhol eram os gestores de um aldeamento turístico de luxo com 132 apartamentos, adiantou o mesmo jornal, e acabariam detidos e acusados por branqueamento de capitais. A PJ preparou outra grande operação para voltar a capturar Franklim Lobo e, no início de 2005, foi de novo preso.

Foi vigiando os seus familiares que a PJ viria a descobrir, em 2004, onde estava Franklim Lobo: numa pequena localidade no estado de Goiás, no Brasil.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Só em outubro foi extraditado novamente para Portugal. Embarcou no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, onde a polícia brasileira, temendo uma outra fuga, montou um dispositivo de segurança com dezenas de elementos armados. Segundo o Público, na altura, muitos passageiros chegaram a pensar que se tratava de um atentado terrorista.

Uma vez cá, em 2007, sete anos depois de ter sido condenado a 25 anos de prisão, viu o julgamento repetido devido a um erro processual. E recebeu uma sentença completamente diferente: acabou por ser absolvido pelos crimes de associação criminosa e tráfico agravado. O coletivo de juízes presidido pelo juiz Nuno Coelho não validou as escutas telefónicas que tinham levado à sua condenação em 2000 e considerou frágeis os testemunhos das pessoas que anteriormente tinham sido ouvidas, escreveu o Público na altura. Daí a absolvição.

Foi novamente preso em 2009, mas libertado em 2014. Voltou a estar na mira da PJ na Operação Aquiles, mas fugiu para Marrocos

Em maio de 2008 foi novamente absolvido, desta vez num processo de branqueamento de capitais. Mas, nem um ano depois, viria a ser novamente preso. Na noite de 3 de março de 2009 foi preso no centro de Lisboa, por suspeita de tráfico de estupefacientes e associação criminosa. Rodeado de inspetores da PJ, não reagiu, manteve-se sempre calmo e educado, nem tentou fugir, escreveu o Expresso. No bolso do casaco tinha uma folha com matrículas de dezenas de carros da unidade da PJ que investiga o tráfico de droga. Mas, cinco anos depois, acabou libertado pelo Tribunal de Execução de Penas.

Na noite de 3 de março de 2009, Franklim Lobo foi detido no centro de Lisboa, por suspeita de tráfico de estupefacientes e associação criminosa. Rodeado de inspetores da PJ, não reagiu, manteve-se sempre calmo e educado, nem tentou fugir.

Em 2016, o narcotraficante voltou estar na mira da polícia no âmbito da Operação Aquiles. Líder de uma rede de tráfico de droga, a função de Franklim Lobo seria a de importar drogas da América do Sul a partir de Espanha, onde estava sediado. Em várias zonas, contava com colaboradores seus. Vítor Caeiro, por exemplo, seria quem geria a rede em solo português. O arguido Manuel Baleizão, a quem caberia a distribuição da zona do Grande Porto, era outro dos seus homens de confiança, e fazia de segurança quando Franklim Lobo vinha a Portugal negociar, chegando a fazer-lhe escolta até à fronteira com Espanha. Também o seu filho, Francisco Lobo, colaborava na atividade, sobretudo a nível da distribuição do produto, angariação de compradores e fixação de preços. Tudo isto, segundo a acusação do MP.

Mas era Carlos Gregório, outro elemento da rede, quem serviria de intermediário entre Franklim Lobo e os dois inspetores da PJ que viriam a ser detidos. Sempre que o líder preparava uma operação de tráfico, Carlos Gregório ligava ou marcava um encontro com Carlos Dias Santos, o ex-coordenador Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes da PJ, para o colocar a par dos acontecimentos e solicitar a sua “especial intervenção”, lê-se na acusação.

A importação era feita por correio ou por avião. Mas depois de Franklim Lobo ter visto quase 20 quilos de cocaína desaparecerem no aeroporto de Lisboa, começou a angariar quem tivesse acesso facilitado ou conhecimentos em portos marítimos portugueses. Nessa altura já se encontrava a preparar a operação de importação de cocaína, a partir do Brasil, com a ajuda Maria Luísa Caeiro, irmã de Vítor Caeiro — que está a ser julgada junto de Franklim Lobo, uma vez que, à data da acusação, também estava em parte incerta.

A mando de Franklim Lobo, Maria Luísa Caeiro deslocou-se ao Brasil, mais concretamente a São Paulo, em dezembro de 2015, para se encontrar pessoalmente com o colaborar da rede naquela cidade: deveria pagar-lhe os 88 quilos e 150 gramas de cocaína importada para Portugal e trazer as referências do contentor marítimo onde a droga tinha sido escondida cerca de duas semanas antes, com destino à Grécia, mas com transbordo no Porto de Sines. Cumprida a tarefa, Maria Luísa Caeiro regressou a Portugal. Mas acabaria por ser fiscalizada pelos serviços alfandegários, que viriam a encontrar na sua posse o documento com as referências. O suficiente para conseguir apreender a droga que fora dissimulada em três malas de viagem colocadas no interior do contentor.

O ex-coordenador da PJ, Carlos Dias, acusado no âmbito da Operação Aquiles

Álvaro Isidoro / Global Imagens

Face às suspeitas, as autoridades queriam deter o narcotraficante, que estava a viver em Espanha. Só que Franklim voltou fugir. Desta vez, para Marrocos — suspeitaram as autoridades. Quando foi deduzia a acusação contra ele e outros 28 arguidos, estava em parte incerta. Só em março de 2019, no âmbito de um mandado de detenção europeu, foi detido em Málaga. Já em Portugal ficou em prisão preventiva — que durou apenas três meses.

Franklim Pereira Lobo. Maior traficante de droga português foi detido em Espanha

Em julho, a juíza Ana Peres, do Tribunal Central de Instrução Criminal, mandou libertá-lo por entender que não havia perigo de fuga. A magistrada alegou que as autoridades judiciais se enganaram a notificar o traficante da acusação e foi por essa razão que ele não se apresentou à justiça portuguesa a tempo de ser julgado com os outros arguidos. O Ministério Público tê-lo-ia notificado da acusação não para o endereço de Espanha, mas para uma antiga morada na Reboleira, na Amadora. E, por pensar que se encontrava em parte incerta, foi emitido um mandado de detenção europeu.

Já em dezembro, o Tribunal da Relação de Lisboa contrariou a decisão da juíza e decidiu que Franklim Lobo deveria voltar à medida de coação de prisão preventiva. A sua defesa fez um pedido de habeas corpus para o libertar, mas o Supremo Tribunal decidiu mantê-lo preso até agora. Quando Franklim Lobo ia finalmente sentar-se no banco dos réus, porém, um surto de Covid-19 na prisão de Lisboa obrigou-o a fazer um teste. Deu positivo e o julgamento teve de ser adiado novamente. Arrancou esta quinta-feira. Confrontado com as escutas que revelam os esquemas de tráfico de droga, Franklim Lobo afirmou, segundo o Público: “Não sou eu nessas escutas”.

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