Quando João Félix era capitão do FC Porto: as histórias do miúdo que “sempre quis, sempre quis, sempre quis” /premium

02 Março 20192.266

Chegou ao Benfica com 15 anos, mas antes foi capitão do FC Porto e vestiu de azul e branco durante seis épocas. Os antigos colegas recordam João Félix, o miúdo ligado à família que "sempre quis".

João, que usa como apelido o nome do meio e não o último, fez em novembro 19 anos. Sem sequer ter duas décadas de vida, é complicado para João ter muitas histórias para contar, muitas reviravoltas na carreira e muitas surpresas para revelar. Mas a verdade é que, sem sequer ter duas décadas de vida, João já fez aquilo que poucos fizeram: transferiu-se do FC Porto para o Benfica, marcou dois golos ao Sporting e tornou-se o mais novo de sempre a chegar aos dez golos com a camisola dos encarnados. João, o miúdo que usa como apelido o nome do meio e não o último, foi a sensação da temporada da Primeira Liga que agora terminou, titular na frente de ataque do Benfica sem sequer ter duas décadas de vida.

João Félix nasceu em Viseu e começou a jogar à bola mais a sério ainda no Futebol 7 d’Os Pestinhas, um clube infantil da cidade onde cresceu. A maioria dos colegas de equipa dessa altura, como não podia deixar de ser, jogam atualmente nas camadas jovens do Tondela mas João, sempre mais esguio do que todos os outros mas sempre melhor do que a grande maioria, saiu para a formação do FC Porto logo em 2008, com apenas nove anos. Foi nos dragões que se fez jogador e onde começou a dar nas vistas, passando seis anos a subir de escalão para escalão até ser emprestado ao Padroense enquanto juvenil, clube satélite do FC Porto. Meses depois, para surpresa geral, mudou-se para o Benfica.

Nos encarnados, onde se tornou uma das estrelas do Seixal logo a partir do segundo ano de juvenil, estreou-se como profissional na equipa B e pela mão do treinador Hélder Cristóvão, num empate a zeros com o Freamunde. Chegou à equipa principal ainda com Rui Vitória e afirmou-se no onze inicial já com Bruno Lage, beneficiando da lesão de Jonas e do bom entendimento com Seferovic: marcou 20 golos em 43 jogos em todas as competições e é uma das figuras de um Benfica que parecia estar fora das grandes decisões mas empreendeu um período de retoma que valeu a conquista da Primeira Liga. Na Luz, e mais do que Félix, João é feliz. Algo que, como já revelou, nem sempre foi no FC Porto.

“À medida que fui crescendo enquanto homem e jogador, percebi aquilo que adorava — ter a bola, jogar um futebol bonito e feliz. É aí que estou no meu melhor, é aí que me sinto eu. Mas quando jogava nas camadas jovens do FC Porto, isso nem sempre aconteceu. Eles não acreditavam em mim tanto quanto eu acreditava em mim. Não confiavam em mim dentro de campo. Criticavam-me pelo meu tamanho. Tiravam-me do campo, tiravam-me a bola. No FC Porto, perdi a alegria”, confessou João Félix ao The Players’ Tribune no final de janeiro. Ainda assim, o avançado passou seis anos, dos sete aos 13, de azul e branco. E por lá fez amigos, entre os colegas de equipa que hoje estão espalhados pelos quatro cantos do mundo do futebol. E são esses amigos que agora recordam o miúdo que fez parte de uma geração de ouro das camadas jovens dos dragões.

Aos 19 anos, João Félix é titular do Benfica, já marcou duas vezes ao Sporting e é o jogador sensação desta temporada da Primeira Liga

Renato Martins, atualmente a representar a AD Marco 09, de Marco de Canaveses, cruzou-se com João Félix quando ambos tinham apenas 11 anos. O lateral esquerdo de 19 anos recorda o avançado do Benfica como um jogador “que sempre se destacou” — apesar do físico pouco desenvolvido que, tal como Félix confessou há pouco tempo, acabou por ser um dos motivos da saída. “Com o físico dele, ninguém dava nada por ele. Mas sempre foi aquele miúdo que ninguém gostava de apanhar pela frente”, explica Renato, que antes de se juntar ao clube de Marco de Canaveses ainda passou pelas camadas jovens do Paços de Ferreira.

“Eu já sabia que ele, chegando lá acima, ia automaticamente rebentar. Sempre foi muito focado naquilo que queria. Quando estávamos em estágio, num hotel, se era para estar pronto às três, o João às duas e meia já estava lá em baixo no sítio da concentração à espera de todos. Sempre quis, sempre quis, sempre quis. Nada disto me surpreende”, garante Renato Martins que, ainda assim, reconhece que a ida para o Benfica apanhou muita gente de surpresa mas “dava para perceber nos últimos tempos que não estava contente”. “Ele não estava feliz. Não era o João que se vê agora. Agora é que ele anda feliz”, considera o antigo colega de equipa.

O jogador da AD Marco 09, que defende que João Félix não tem de recear uma saída para o estrangeiro porque “com a qualidade que tem joga em qualquer lado”, sublinha ainda a forte ligação do avançado do Benfica à família. “A família para ele é tudo. Se há uma hora vaga num estágio, se calhar os outros vão todos para o Instagram ou para o Facebook e ele não, já está a ligar para a família. Sempre teve ali aquele braço direito para o manter protegido”, conta Renato Martins, que acha ainda que Félix vai fazer a diferença porque “não quer saber” das expectativas criadas: “Ele chega lá dentro e nem se lembra nada”.

"Sempre foi muito focado naquilo que queria. Quando estávamos em estágio, num hotel, se era para estar pronto às três, o João às duas e meia já estava lá em baixo no sítio da concentração à espera de todos. Sempre quis, sempre quis, sempre quis. Nada disto me surpreende".
Renato Martins, colega de equipa de João Félix na formação dos dragões e atual jogador da AD Marco 09

Em 2013/14, já enquanto juvenil, João Félix integrou uma equipa orientada pelo ex-FC Porto e Sporting Bino, que tinha ao seu dispor jogadores que hoje fazem parte do plantel principal dos dragões, do Benfica e ainda de clubes estrangeiros. Nessa equipa, que no final da temporada ficou no primeiro lugar da Série B do Nacional de Juvenis mas acabou em último da final four nacional que o Benfica conquistou (e que integrava ainda Sporting e U. Leiria), estavam Diogo Dalot, atualmente no Manchester United, Diogo Leite, Diogo Queirós e Diogo Costa, todos atuais jogadores da equipa B do FC Porto mas já com passagem pela equipa principal, e ainda Jorge Silva, defesa central que alinha pelos sub-20 da Lazio de Roma. E Nuno Esgueirão. O lateral esquerdo, que faz parte dos sub-23 da Académica, era um dos que mais proximidade mantinha com João Félix e jogou com o avançado desde 2012 até este se mudar para o Benfica, em 2015.

João Félix jogou no FC Porto durante seis anos. Nuno Esgueirão é o terceiro a contar da direita na fila do meio

Para Nuno, que recorda que “havia muita qualidade” no plantel comandado por Bino, Félix já tinha na altura “uma qualidade técnica acima da média”. “Ele fazia da bola o que queria, tinha um capacidade de visão de jogo completamente acima da média. Em relação a mim mesmo e aos outros que lá estavam”, acrescenta. O lateral, que saiu para a equipa de Coimbra mais ou menos na mesma altura em que João Félix deixou o Porto e se mudou para Lisboa, explica que a ida do amigo para um rival tão direto foi uma surpresa. “Sabia que ele tinha intenções de sair mas não fazia ideia de que era para o Benfica, para um grande rival do FC Porto. Não estava à espera de que fosse para lá, fiquei um bocado surpreendido, como é óbvio. E acho que toda a gente ficou”, defende Nuno Esgueirão que, apesar de tudo, considera que foi a melhor opção para Félix.

“Sinceramente, acho que foi o melhor para ele. Dado o estilo de jogo do Benfica e o tipo de jogador que ele era. Foi uma escolha acertada porque o Benfica também gosta muito de apostar na formação”, sublinha o jogador da Académica, que se lembra dos períodos em que João Félix parecia estar “mais em baixo” devido às saudades da família, já que “estar longe dos pais lhe custava um bocado”. Nuno Esgueirão, que conhece o avançado do Benfica desde os 13 anos e frequentava a casa da família, em Viseu, garante que o apoio familiar e suporte dos pais será o maior trunfo do jovem jogador — principalmente quando começarem a surgir propostas de valores muito elevados vindas do estrangeiro. “Já se sabe que os valores são um bocado elevados e há sempre aquela tentação, ainda por cima sendo muito jovem como ele é. É um bocado difícil resistir. Mas, conhecendo os pais dele, acho que vai ter o apoio de que precisa para tomar essas decisões. Ele tem uma família bastante unida e que sempre o apoiou, sempre estiveram lá para o ajudar. Eu via esse apoio quando ia a casa dele, notava-se que ele tinha ali uma boa estabilidade e um bom lar”, garante o lateral esquerdo de 20 anos, que agora luta por uma oportunidade da Académica, atualmente no quinto lugar da Segunda Liga.

"Sabia que ele tinha intenções de sair mas não fazia ideia de que era para o Benfica, para um grande rival do FC Porto. Não estava à espera de que fosse para lá, fiquei um bocado surpreendido, como é óbvio. E acho que toda a gente ficou".
Nuno Esgueirão, colega de equipa de João Félix nas camadas jovens do FC Porto

Zé Gomes, que acompanhou João Félix durante seis anos na academia portista, garante que o percurso “só serviu para ele ganhar mais força e saber que consegue ultrapassar obstáculos e se superar-se a si mesmo. É dessa crença que se faz os vencedores”. Mesmo se João Félix olhar para os jogos como se fosse um jogo da Liga dos Campeões, estará pronto para os enfrentar: “É um jogador que sabe o que quer e não se deixa levar por outros caminhos. A pressão é o que ele supera melhor. Sabe a qualidade e valor que tem“.

João Félix era o capitão de uma equipa que também integrava Diogo Dalot e Diogo Leite

Hoje, Zé Gomes representa o Infesta, em 9.º lugar nos campeonatos distritais do Porto. Mas lembra-se de conhecer João Félix em 2008 — na equipa sub-10 de futebol de sete do FC Porto — e de reparar “logo na qualidade que ele já tinha naquela altura”. A qualidade do atual jogador do Benfica terá sido ainda mais aparente durante os primeiros anos no Porto, quando “o físico não contava tanto para a vista das pessoas”. A dificuldade de João Félix em destacar-se na formação do Porto terá surgido nos escalões mais avançados, em que se “olha mais para o físico de um jogador do que para a qualidade em si”. Para Zé Gomes, o sistema que afastou João Félix dos campos era “totalmente errado”, afetando “qualquer um que tenha capacidade e seja diferenciado”.

[João Félix a marcar pelos iniciados do FC Porto]

A saída para o Benfica terá servido como um “grande click“, que só surgiu graças à força mental de João Félix: “Quando um jogador vê que tem qualidade para jogar e não percebe o que lhe falta para alcançar isso pode por em causa tudo, mas quando o João se muda para o Benfica ele vai com a mentalidade que vai vingar e quer mostrar que aquele sonho de sempre de ser jogador profissional se pode realizar e põe à vista de todos a grande capacidade e qualidade que todos lhe viriam a reconhecer”.

"Esteve sempre bem aconselhado e acompanhado pelos pais, que sempre o ajudaram em tudo e nunca puseram barreiras e sempre o deixaram decidir por si mesmo o que era melhor"
Zé Gomes, colega de equipa de João Félix na formação dos dragões e atual jogador do Infesta

Antes, no Porto, destacava-se a ética de trabalho de um jovem “feliz como qualquer jogador da formação de um clube grande é”, com “os pés bem assentes na terra” e que “sempre trabalhou muito”. De acordo com Zé Gomes, todos sabiam que João Félix era especial: “Era dos jogadores que quando entrava para dentro do campo esquecia de tudo cá fora e dedicava-se ao máximo. Já com aquela idade percebia muito bem o jogo e quando se tratava de ir um para um frente o adversário todos os colegas de equipa já sabiam que ele ia desencantar dali uma finta incrível que só mesmo jogadores muito dotados tecnicamente como ele podiam fazer“.

Tanto no FC Porto como no Benfica, a família foi mesmo fulcral para o crescimento do jovem avançado. Foi com o apoio dos pais que João Félix se iniciou no futebol: “Esteve sempre bem aconselhado e acompanhado pelos pais, que sempre o ajudaram em tudo e nunca puseram barreiras e sempre o deixaram decidir por si mesmo o que era melhor“. A capacidade de João Félix superar a distância da família que jogar pelo FC Porto implicava mostra, para Zé Gomes, uma dedicação que “só podia ser para quem quer mesmo agarrar este sonho do futebol”.

João Félix já defrontou o FC Porto e na condição de titular, mas para a Taça da Liga: na altura, os dragões venceram por 1-3

João Félix “sempre quis, sempre quis, sempre quis” e a verdade é que conseguiu chegar à alta roda do futebol português. Depois de ser capitão e de “ninguém dar nada por ele” no FC Porto, mudou-se para o Benfica e agora é o nome maior de uma nova geração de jogadores formados no Seixal. Todos os olhos estão em cima de João, o miúdo que ainda nem tem duas décadas de vida mas já carrega nas costas as expectativas dos adeptos portugueses para as próximas temporadas.

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