Quando os deputados “tiraram o rabinho da cadeira” para conhecer os pássaros do Tejo

03 Junho 2016110

Rouxinóis, milherangos e corujas das torres preencheram a visita dos deputados da comissão do Ambiente ao EVOA, em Vila Franca de Xira. O Observador foi com os deputados observar as aves do Tejo.

O pânico assaltou o grupo de deputados num dos pontos de observação do EVOA – Espaço de Visitação e Observação de Aves. Se a primavera permite melhores condições de observação das mais de 120.000 aves que habitam nas margens do estuário do Tejo, na região de Vila Franca de Xira, traz também a proliferação de convidadas indesejadas nos sapais: as carraças. Seguiram-se momentos em que alguns deputados sacudiam a roupa, outros começavam já com comichões. “Para ver uma coisa tão bonita, tínhamos de pagar um preço”, arriscou um dos deputados. Esta foi a visita final de um roteiro que os deputados da comissão do Ambiente têm vindo a fazer desde o início do ano para conhecer os problemas do Tejo e das regiões que dependem dele.

De Vila Velha de Ródão a Lisboa e à Margem Sul, já percorremos o caudal do Tejo todo. O nosso desígnio nesta sessão legislativa era o Tejo e tem tido resultados. Há problemas que não conhecíamos como o impacto e a forma de como as descargas das barragens afetam a variação dos caudais, e, consequentemente, as propriedades à sua volta“, afirmou o deputado Pedro Soares, presidente da Comissão de Ambiente, Ordenamento do Território, Descentralização, Poder Local e Habitação, ao Observador. O bloquista considera que é importante que os deputados tirem “o rabinho das cadeiras” e conheçam os problemas do país no terreno e assim, na terça-feira, às 8:30 da manhã, 12 deputados dos vários grupos parlamentares – PAN e Verdes não marcaram presença – que integram a comissão do Ambiente partiram de Lisboa.

Bem, nem todos partiram de Lisboa. Maria da Luz Rosinha, deputada do PS e antiga presidente da Câmara de Vila Franca de Xira, foi ter ao centro de observação de aves criado ainda durante o seu mandato, mas com algum atraso – a deputada exerceu o cargo de presidente da câmara entre 1997 e 2013, tendo estado envolvida com o poder local na região desde 1976. “Perdeu-se na sua terra?”, questionaram os deputados que aguardavam a chegada da colega à porta da estrutura de madeira do EVOA. “Não me perdi, fomos aos toiros primeiro”, respondeu Maria da Luz Rosinha. “Se estivesse cá o André Silva não podias dizer que tinhas ido aos toiros”, rematou Alberto Mesquita, sucessor de Maria da Luz presidente da Câmara de Vila Franca de Xira, em relação ao deputado do PAN.

O EVOA foi construído em finais de 2012 e abriu portas ao público no início de 2013 para promover a conservação da natureza na região. Está situado nos terrenos da Companhia das Lezírias e mesmo antes de ter as infraestruturas necessárias já atraía alguns amantes de aves e da vida selvagem, devido à diversidade de espécies concentradas naquele espaço. Engloba 70 hectares de lagoas de água doce, com três percursos pedonais para quem deseja conhecer a diversidade das aves nas margens do Tejo ou praticar birdwatching – observação de pássaros que tem estatuto de hóbi -, tendo vários pontos de observação com telescópios para permitir ver em detalhe as aves e o seu habitat. O espaço conta ainda com um centro de interpretação, ou seja, um edifício que dá apoio aos visitantes com uma exposição permanente que explica o ecossistema da lezíria, cafetaria e instalações sanitárias. Em períodos de migração, o estuário do Tejo recebe mais de 120 mil aves e cerca de 14 espécies têm neste espaço 1% da população europeia total. Esta reserva tem a mais alta densidade de corujas-das-torres do Mundo, com esta espécie a tornar-se um dos principais ex-líbris do EVOA.

Foi exatamente a coruja das torres que despertou o interesse dos deputados. Uma caixa no topo do edifício serve de local de nidificação para um casal de corujas que esta primavera teve uma cria e uma câmara no seu interior permite aos visitantes acompanhar o dia-a-dia destas aves. “Está a dormir”, constatou um dos deputados. “Ela é que faz bem, dorme durante o dia”, arriscou outro. Sandra Silva, bióloga e coordenadora do EVOA, explicou que as corujas-das-torres têm o seu pico de atividade à noite, sendo uma exceção nos sapais, já que a maioria das espécies têm picos de atividade relacionados com as marés.

Largar pássaros e ouvir as queixas do Tejo

“Alguém quer libertar um pássaro?”, perguntou um dos técnicos do EVOA que anilhava os animais capturados pela manhã – a reserva segue esta rotina todos os dias, apanhando várias aves em redes de modo a recolher dados sobre a população, verificar a sua condição física e anilhá-las para poder seguir o seu percurso nas rotas de migrações. “Eu quero!”, respondeu Maria da Luz Rosinha. O pássaro, um rouxinol-grande-dos-caniços, mal foi colocado na mão da deputada, voou pelos sapais. “Maria da Luz, não percebes nada disto”, lamentou o deputado social-democrata Manuel Frexes, antigo presidente da Câmara do Fundão. No meio deste processo em que os técnicos iam mostrando aos deputados as diferentes espécies que se podem encontrar ali, Frexes comentou que quando era pequeno apanhava pássaros, mas para os comer. Também a deputada Emília Cerqueira disse que os costumava apanhar, mas que os libertava em seguida. Esta deputada social-democrata também se prontificou a soltar uma das aves capturadas pela manhã.

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Para António Saraiva, presidente da Companhia das Lezírias, o EVOA já é “uma realidade visível”, com mais de 8 mil turistas desde a sua abertura e a visita de várias escolas de diferentes regiões e de diferentes anos letivos. “Não queremos que o Tejo seja só aquilo que já é. Queremos que atraia turismo e seja um ponto de formação”, indicou Saraiva, dizendo aos deputados que qualquer visita ao Tejo e à sua realidade não ficaria completa sem uma visita ao EVOA. Já Vasco de Mello, presidente da Brisa, considera que o EVOA se tornou em ponto “importante” em termos de divulgação do Tejo e das suas espécies para os estudantes, sendo um dos pontos mais importantes nas rotas de migrações das aves. A Brisa é um dos principais financiadores do projeto, tal como os fundos europeus do QREN.

Culminar a visita ao Tejo no EVOA, depois de viagens pelo rio, encontros com os agricultores que dependem da água do rio e encontros com os municípios adjacentes ao seu caudal em abril e maio, não foi uma escolha ao acaso. Com o Dia Mundial do Ambiente a celebrar-se no dia 5 de junho, um domingo, a comissão do Ambiente quis assinalar esta data com uma visita que englobasse o meio ambiente e alguns deputados mostraram os seus dotes no conhecimento das espécies. José Carlos Barros, deputado do PSD, foi diretor do Parque Natural da Ria Formosa e disse ao Observador que trabalhar em espaços ao ar livre é muito diferente dos corredores da Assembleia da República. “Trabalhar ao ar livre é uma experiência muito forte e gratificante”, considerou o deputado, mostrando que ele próprio é um entusiasta da observação de pássaros, tendo instalado uma caixa para ninhos na sua propriedade no Algarve.

Mas a visita teve também momentos de reivindicação por parte do presidente da Câmara de Vila Franca de Xira. “Temos graves preocupações como a qualidade da água e a navegabilidade do Tejo. Temos aqui a nossa melhor autoestrada e não está a ser aproveitada”, defendeu Alberto Mesquita. Para o autarca, uma visita ao terreno por parte dos deputados “tem grande impacto” porque podem conhecer os problemas concretos da região. “Quanto mais conhecimento há sobre as matérias, mais fácil é tomar decisões”, concluiu o autarca em declarações ao Observador.

A primeira consequência destas deslocações ao Tejo foi a chamada de António Mexia, presidente da EDP, à Comissão de Ambiente, para explicar a gestão das descargas das barragens no Tejo que, segundo Pedro Soares, faz com que alguns proprietários fiquem sem hectares de terras devido à erosão das margens do rio. “Não poderíamos fazer muito diferente do que fazemos atualmente. A EDP limita-se a abrir e fechar de acordo com o que vem de Espanha”, ressalvou Mexia na audição no Parlamento que aconteceu no dia 17 de maio.

A beleza natural e as carraças do Parlamento

A realidade das carraças só atingiu a visita no percurso pedonal para uma das lagoas mais próximas. Apesar dos avisos de Sandra Silva para não se pisar as ervas altas, é difícil fugir a estes aracnídeos. Seja como for, o deputado Maurício Marques considerou que o trabalho parlamentar já acarreta alguns encontros imediatos com espécies parasitas. “A Assembleia da República tem tudo. Tem carraças, tem ratos, tem outros parasitas”, brincou o deputado, enquanto mais à frente no grupo que ia caminhando disperso, alguém dizia que o cenário fazia “lembrar o National Geographic”.

À semelhança do que acontece nos locais mostrados pela National Geographic, o Tejo e os seus habitats também já têm um documentário. Pedro de Carvalho e Maria de Lurdes Carvalho realizaram nos últimos dois anos o documentário “Estuário – as marés selvagens do Tejo”, que foi exibido na SIC nos dias 8, 15 e 22 de maio, antes jornal da hora de almoço. Segundo a Wilder, o trabalho que ficou dividido em três episódios de 45 minutos vai agora ser também editado em DVD.

Apesar de entretidos na observação das aves, nomeadamente com os colhereiros que se alimentavam na lagoa e com um milherango (“Milherango ou mulherengo?”, gracejou um deputado) as carraças voltaram a preocupar os deputados quando vários membros do grupo começaram a encontrar carraças a subir pelas pernas acima. “Tenham cuidado. Vim cá com uma amiga há dois fins de semana e ela saiu daqui com 10 carraças”, avisou Maria da Luz. “Isso é porque não lava a cabeça”, brincou Manuel Frexes.

A visita terminou com a preocupação geral do que aconteceria à comissão do Ambiente se todos os deputados que a compõem ficassem com febre da carraça. No entanto, Sandra Silva afirmou que um estudo às carraças do EVOA já tinha demonstrado que não há perigo de febre.

Maria da Luz Rosinha afirmou que é visitante assídua do espaço que inaugurou em 2013 e mostrou familiaridade com todos os funcionários durante a visita. “Para mim, um dos aspetos mais importantes do EVOA é que trouxe investigadores à região e aqui produz-se conhecimento”, afirmou Maria de Luz Rosinha ao Observador. Mas as saudades do Ribatejo no dia-a-dia já se fazem sentir. A deputada foi gabando a tranquilidade da lezíria aos colegas, lembrando-os que não é todos os das que têm possibilidade de aproveitar estes espaços ao ar livre. “Aproveitem aqui, porque na Assembleia é só crises e problemas. Lembrem-se depois lá que há outras vidas”, ia aconselhando.

fotografia de Michael Matias.
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