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CHAMILA KARUNARATHNE/EPA

CHAMILA KARUNARATHNE/EPA

Queda abrupta nos testes e nas chamadas para o SNS24 no dia de Natal. Pessoas com sintomas podem ter adiado o diagnóstico /premium

Números revelam corrida aos testes à Covid dois dias antes e uma quebra abrupta no dia de Natal. Chamadas para o SNS24 também caíram. Especialistas dizem que quem teve sintomas adiou o diagnóstico.

Os números mostram o que era expectável acontecer depois de o Governo ter anunciado um relaxamento das medidas, permitindo um Natal quase sem restrições, embora com muitos avisos de cautela: o número de testes à Covid-19 atingiu um pico nunca antes registado desde o início da pandemia dois dias antes do Natal. Isso mesmo também já tinha sido antecipado pelos laboratórios, que falavam em muitas marcações de testes para essas datas. Eram, claramente, pessoas que se preparavam para passar o Natal com as famílias e, testando-se, procuravam uma maior tranquilidade. O que talvez não se antecipasse era que o cenário se invertesse totalmente no dia 25: o número de testes à Covid-19 atingiu o valor mínimo dos últimos oito meses. Não se faziam tão poucos testes desde inícios de abril, quando a capacidade de testagem era ainda reduzida.

Especialistas ouvidos pelo Observador têm uma explicação para os dois cenários: por um lado houve muitos testes feitos por prevenção e que serviram de luz verde a um Natal em família; por outro, no dia 25 de dezembro, quem sentiu sintomas ligeiros “protelou” a sua chamada para a Linha de Saúde 24. Essa é uma tendência que já era visível nos fins de semana e feriados, que normalmente registam números mais baixos de testes, aliada a uma menor reposta por parte dos laboratórios. No dia de Natal, porém, a queda foi ainda maior.

Segundo os dados disponibilizados pela Direção Geral da Saúde, o dia 23 de dezembro foi aquele em que mais testes se realizaram desde o início da pandemia: 57.716 PCR e Antigénio (mais conhecidos por testes rápidos). Para uma maior exatidão, foi o dia em que mais amostras foram processadas em laboratórios e as suas informações introduzidas num computador.

Se quisermos perceber melhor esta ordem de grandeza, basta olhar para o segundo maior dia de dezembro, em termos de número de testes, o dia 3, em que se processaram 43.816 amostras; ou para o número de testes realizados desde março, em que o segundo maior dia foi a 13 de novembro, com 49.615 testes realizados.

"Qualquer sintoma é para ser valorizado e, até prova em contrário, assumir todas as medidas preventivas"
Elisabete Ramos

Os laboratórios já estavam preparados para isso: muitas pessoas marcaram o teste à Covid-19 com antecedência para a semana do Natal, aquela em que o Governo decidiu suspender as restrições de circulação entre concelhos e o recolher obrigatório até à próxima festa que se aproxima, a da Passagem de Ano. Por isso, esclareceu uma fonte do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge ao Observador, muitos laboratórios reforçaram as suas equipas para “processarem mais” nestes dias que antecederam a Consoada e o Natal, que foram colados a um fim de semana, onde normalmente há uma menor procura e também uma menor realização de testes.

Assim, no dia 23, aos testes normalmente realizados na sequência dos inquéritos epidemiológicos ou de quem tem sintomas que possam ser de Covid-19 somaram-se os testes de quem queria passar um Natal descansado em família.

No feriado de 25 de dezembro a procura não foi só menor que a dos fins de semana ou dos feriados. Foi mesmo o dia em que se fizeram menos testes à Covid-19 desde inícios de abril, numa fase em que a testagem não chegava aos 10 mil: no total, no dia 25 de dezembro, foram feitos 8.372 testes. Mais: dados a que o Observador teve acesso atestam também que a própria procura via Linha de Saúde 24 — a primeira para a qual se deve ligar mal se tenha sintomas compatíveis com a Covid-19 — desceu a pique.

"As pessoas acabaram por protelar, não é a atitude correta, mas sabemos que acontece",
Ricardo Mexia

Uma enfermeira que ali estava de serviço no dia 25 de manhã contou ao Observador que, de facto, notou uma redução muito comparável aos dias feriados ou mesmo aos fins de semana, mas os números mostram mais do que isso. No Dia de Natal, o SNS 24 recebeu cerca de 4.700 chamadas relacionadas com a Covid-19, quando nos dias anteriores, e no feriado de 8 de dezembro, por exemplo, tinha recebido entre 7.500 e 11 mil.

Para o médico pneumologista Filipe Froes, é normal que, nestes dias, a procura dos serviços de saúde seja menor. Sobretudo no dia de Natal, quando a maior parte dos laboratórios e dos profissionais de saúde não trabalham. “Há menos profissionais de saúde a trabalhar, os próprios laboratórios não têm a capacidade de resposta”, explica. Por outro lado, diz, nestes dias só procura ajuda médica quem se sente de facto mal. “A  maneira como interpretamos o que nos acontece depende do momento que estamos a viver e do contexto em que estamos inseridos”, explica ao Observador.

O médico de Saúde Pública e epidemiologista Ricardo Mexia lideram também a Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública

Observador

Já o médico de Saúde Pública e Epidemiologista Ricardo Mexia, também à frente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, diz mesmo que “pessoas com sintomas mais ligeiros acabam por aguardar o outro dia”. “As pessoas acabaram por protelar, não é a atitude correta, mas sabemos que acontece”, acrescenta. Só em casos mais “severos” as pessoas recorrem aos serviços de saúde. “Sabemos que nestes dias os casos que aparecem nos hospitais são verdadeiramente graves”, corrobora Filipe Froes.

“Em relação ao dia 25, é uma expressão mais intensa do que acontece ao fim de semana e aos feriados, a menos que esteja com uma situação mais complicada”, afirma Ricardo Mexia, que também não descura que a resposta dos laboratórios é mais reduzida nestes dias.

A epidemiologista Elisabete Ramos, no entanto, abre mais o leque da sua análise. Para a presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologistas, não há nada que indique que as pessoas se tenham contido, no dia de Natal, a recorrerem aos serviços de saúde ou mesmo a ligar para a Linha de Saúde 24 mesmo tendo sintomas. Ainda assim, afirma,”não é de todo desprezar que possa ter acontecido”, mas não será o mais “impactante” nos números. O facto de dois dias antes ter havido um número recorde de testes, numa altura em que as infeções estavam a descer, pode demonstrar que os testes que seriam feitos naqueles dias foram “antecipados”.

O primeiro-ministro António Costa aconselhou as famílias a comemorarem o Natal de forma repartida

PAULO VAZ HENRIQUES/GABINETE DO PRIMEIRO-MINISTRO

“Um teste negativo não nos deve aliviar”. Números podem disparar nos próximos dias?

O médico infeciologista Francisco Antunes lembra, por outro lado, que esta corrida aos testes dois dias antes do Natal para garantir um Natal mais tranquilo foi “uma falsa sensação de segurança”. “O problema dos jantares e festazinhas familiares é que são sempre uma situação de risco, em que não se garante o distanciamento”, afirma. E sublinha que o facto de alguém ter um teste negativo não significar que não possa estar infetado. “Pode ter sido feito precocemente ou ser um falso negativo”, lembra.

"Nos próximos 10/15 dias vamos ver os resultados, que é aquele período a partir do 10.º dia após o abrandamento dos confinamentos. Inicia-se sempre uma escalada do número de casos e dos internamentos depois disso"
Francisco Antunes

Por exemplo, os testes rápidos, que aumentaram exponencialmente a 23 de dezembro (foram feitos 12.271, quando no dia anterior tinham sido 7.435 — o segundo maior dia do mês de dezembro), são mais úteis para pessoas sintomáticas e com um risco muito grande infeção. Nas palavras do infecciologista, o teste Antigénio fornece uma informação muito importante: dá positivo quando um indivíduo está em fase de grande infeção. “Porque estes testes detectam o vírus, e não parte do genoma do vírus. Um indivíduo que tem um teste rápido positivo tem um elevado grau de transmissibilidade”. Têm, porém, um risco: uma pessoa pode estar positiva e não ter carga viral suficiente para isso ser detetado neste tipo de teste.

"O facto de ter um teste negativo no dia 23 não significa que no dia 24 ou 25 não esteja doente. A validade do resultado é circunscrita a algumas horas, um teste negativo não nos deve aliviar"
Filipe Froes

Filipe Froes não é contra a testagem, mas defende que ela deve ser feita sob orientações médicas “para explicar e contextualizar o seu resultado”. “O facto de ter um teste negativo no dia 23 não significa que no dia 24 ou 25 não esteja doente. A validade do resultado é circunscrita a algumas horas, um teste negativo não nos deve aliviar”, afirma. As regras de segurança, como uso de máscara, o distanciamento social e a higienização das mãos devem ser mantidos.

Significa com isto que muitas pessoas podem ter ido passar o Natal descansadas com falsos negativos e que os números nos próximos dias poderão disparar? Os especialistas não têm dúvidas. Aliás, a Ricardo Mexia têm já chegado relatos de positivos que acabaram por infetar os seus familiares no Natal. Até porque a alguns dos que testaram negativo nos testes rápidos foi recomendado repetir o teste, casos os sintomas persistissem, mas apenas dois dias depois.

O médico pneumologista Filipe Froes

“Muito me surpreenderia se os números não subissem, há vários fatores que me levam a acreditar que, a contar do fim de semana, a subida de casos vai ser uma realidade. Apesar dos testes adicionais, houve mais contactos familiares. Também aconteceu nos EUA com o Dia de Ação de Graças”, sublinha.

Esta quarta-feira provou isso mesmo, com o número de novos casos a disparar para os 6.049, depois de quatro dias em que esteve abaixo dos 3.500.

Por outro lado, aproxima-se o período da gripe sazonal, que, até agora, “está praticamente desaparecida” graças aos cuidados de higienização das mãos e uso de máscara que têm sido mantidos por causa da Covid-19. O infecciologista Francisco Antunes já antecipava que o impacto do Natal seria sentido precisamente a partir dos dias 30 e 31 de dezembro, lembrando também que, depois do Natal, houve os saldos — levando a mais filas e concentrações de pessoas nas lojas.

“Nos próximos 10/15 dias, vamos ver os resultados, que é aquele período a partir do 10.º dia após o abrandamento dos confinamentos. Inicia-se sempre uma escalada do número de casos e dos internamentos depois disso”, explica.

Elisabete Ramos também aqui diverge dos seus colegas, lembrando que o ritmo de evolução da Covid-19 não é comparável a outras doenças e que a evolução ao nível dos testes foi super eficaz. “No conjunto dos testes rápidos podemos ter varias qualidades de testes e com várias características, mas os rápidos, por si só, não significa que são maus, embora não sirvam de diagnóstico”, defende.

A epidemiologista lembra também que se aproxima o Ano Novo e “não vale a pena correr o risco”. “Qualquer sintoma é para ser valorizado e, até prova em contrário, assumir todas as medidas preventivas”, diz. É que os efeitos das vacinas ainda estão longe de se sentir, alerta Ricardo Mexia.

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