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Richard Heathcote/Getty Images

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Quando os Lobos foram ter com os profissionais

Foram "os melhores amadores" entre profissionais, estrearam Portugal em Mundiais e beberam cerveja com os All Blacks. Hoje vêem pela televisão: "Olha, joguei contra este e tive aquele à minha frente".

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Está ali tudo o que é preciso para tornar a pele igual à de uma galinha. Poucas horas faltam para a estreia e a altura é para entrar no autocarro rumo a Saint-Étienne. Estão longe, com a base montada “numa vilazinha com pouca coisa” e algo “alheados de tudo o resto”, consequência de serem os últimos a chegar a França. Com o estádio a ficar mais perto começam a ver gente à beira da estrada. As pessoas passam a grupos, estes evoluem para uma multidão e ela transforma-se “num cordão humano com quilómetros e quilómetros”. Ninguém fala. O espanto come a língua a todos e o autocarro enche-se de um silêncio que Tomaz Morais “nunca mais” sentiu.

Lá fora, os portugueses viajados de Portugal misturam-se com os emigrantes com vida feita em França. Gritam, abanam bandeiras e dão nas vistas por estarem “equipados à Lobos”, com cachecóis, pinturas na cara e camisolas vestidas. Os jogadores ficam com os olhos feitos em esponja e absorvem tudo, com as bocas caladas que nem um túmulo.

Os amadores entre profissionais

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Portugal foi a primeira seleção completamente amadora de râguebi a qualificar-se para um Mundial. Calhou no grupo da Nova Zelândia, Escócia, Itália e Roménia. A estreia deu-se contra os escoceses, a 9 de setembro de 2007.

Os Lobos conseguiram algo que nem os romenos e os italianos lograram: marcar pontos contra todas as seleções do grupo. O ponta Pedro Carvalho marcou o primeiro ensaio português e médio de abertura Gonçalo Malheiro abriu o marcador nacional frente à Nova Zelândia. 

O autocarro faz o que lhe mandam. O motorista embala-o na estrada e fá-lo galgar metros à distância que separa os Lobos do estádio Geoffroy-Guichard. À medida que ele se aproxima, o silêncio acentua-se, fica mais notório com o barulho que vem de fora. Os aplausos, os gritos, os “força Portugal”, o torcer pelo sucesso através do ruído. Não se recorda da altura ou da pessoa que o interrompeu, mas Tomaz Morais não se esquece de como o silêncio mostrava a “forma como todos estavam a viver aquele momento”. Ainda o acompanha “o volume de emoções” que sentia cada um, à medida que o autocarro se aproximava do recinto. O silêncio “transformou-se num sentido de responsabilidade enorme” e, se ainda fosse preciso a ficha cair, foi aí que os mais de 30 homens se aperceberam dali a poucas horas iam mesmo ser os primeiros a representar o país num Campeonato do Mundo de râguebi.

A chegada ao estádio prometido deixa o cordão humano engolir o autocarro e dar um momento “claramente arrepiante” a quem dedicava a vida ao desporto que nunca retribuía com multidões em Portugal. “Foi a nossa ligação real ao facto de estarmos a viver o objetivo de estarmos no Mundial. Isso marcou-nos”, recorda o selecionador nacional. Caía a ficha.

Pedro Leal, o mais baixo que está à direita, não esquece o que esta imagem representa: "Entrar em campo contra a Escócia, o estádio cheio de portugueses, cantar o hino... Foi o melhor momento".

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Saem do autocarro, um de cada vez. Uns levantam as mãos e acenam aos adeptos, outros distribuem sorrisos e compensam os que, desabituados ao alarido, se limitam a seguir o caminho rumo ao interior do estádio. Todos estão surpreendidos com as boas-vindas que Saint-Étienne lhes dá. Ainda mais ficam quando chegam ao relvado para aquecerem os músculos antes da estreia: o estádio, além de estar à pinha, tem mais de metade dos lugares preenchidos com portugueses. Vasco Uva estava pasmado com o que via e denuncia na voz como o que sentiu em 2007 ainda lhe mexe na alma. “Estavam 20 mil portugueses no estádio, tanto pessoas que vieram diretamente de Portugal como luso-franceses, ou emigrantes, e estavam todos a gritar por nós. Pela primeira vez sentimos um país connosco”, diz, cheio de pequenas pausas no discurso, de quem não mais esqueceu o que viveu no dia da estreia do râguebi português em Mundiais. Era muita coisa junta e misturada. A felicidade, a emoção, o sentido de responsabilidade, a vontade em jogar, a pica em dar tudo, o orgulho de estar ali. Por isso é que A Portuguesa embalou as lágrimas pela cara abaixo de tantos jogadores.

"Aquilo na altura saía, não era nada combinado. Era uma equipa, um conjunto de jogadores que sentia mais do que nunca aquele momento e o orgulho em estar a representar Portugal. A vontade que tínhamos de estar ali era imensa. O hino transmitia-nos uma força maior e surgiam aqueles momentos espontâneos. Vinha de dentro, não era nada combinado. Era tão intenso que alguns de nós até choravam."
Gonçalo Malheiro

A orquestra toca os primeiros acordes e o hino começa a ecoar no estádio. Miguel Portela, um dos mais velhos, que está numa das pontas da fila de 23 portugueses apertados num abraço gigante, grita: “Vamos embora malta!”. Todos berram, uns puxam ao máximo pela voz. Entoam o hino nacional o mais alto que podem e o minuto que passam a fazê-lo arrepia só de ver e ouvir. “Sempre foi uma coisa que nos deu muita emoção. É aí que estamos mais perto de representar Portugal. Nesse jogo foi um bocadinho diferente, apesar de sempre cantarmos o hino com grande emoção. Foi a primeira vez que sentimos que não estávamos sozinhos, que tínhamos um país atrás de nós”, recorda Vasco Uva, que estava na outra ponta dos portugueses alinhados e que nunca deixou de ter o punho cerrado à frente do coração, a segurar a camisola. O capitão sorria como hoje sorri ao lembrar o momento: “Havia um grande sentimento de realização”.

Porque grande parte de quem ali estava andou durante anos e anos à caça daquele momento, de estar num Mundial. “Vieram-nos quatro, cinco, seis anos de trabalho feito para chegar ali. O estádio cheio de portugueses, o hino a tocar… Ainda puxa mais pela alma e pela pátria. Por isso é que em cada hino vários de nós choravam. Mas o primeiro foi o mais marcante”, evidencia Pedro Leal, o arriêr que foi titular em quatro dos cinco jogos. O sonho cumpria-se.

Qualquer primeira vez é especial. Havia nervos e ansiedade a chatear a cabeça, mesmo com orgulho de sobra para abafar tudo. O jogo arranca e os portugueses aguentam 12 minutos até a Escócia marcar um ensaio. Os Lobos encaixariam mais três até ao intervalo, mas pelo meio voltariam a gritar, a mostrar que estavam ali para bater o pé. Pedro Carvalho, um dos pontas que muito corria, fez o primeiro ensaio português num Mundial e deu ao jogo um 27-7 ao intervalo. O resultado enganava: parecia ser de um jogo entre duas seleções das grandes e não de um duelo entre uns amadores e uma equipa que estava no top-10 do ranking mundial. Mas os Lobos batiam o pé. Placavam baixinho, à portuguesa e ao nível dos joelhos, não se resguardavam nos pontapés e arriscavam no jogo à mão. “A qualidade de jogo que a equipa revelou, a forma como chegou ao ensaio, como quebrou, por várias vezes, a linha da vantagem, como conseguiu evitar ensaios escoceses e como se bateu quer na touch, quer na mêlée, acabou por ser, para nós, uma confirmação do que estávamos a fazer”, explica Tomaz Morais, saudoso, quando recorda ao Observador o que a memória guarda com afinco.

O resultado ao intervalo contra a Escócia enganava: parecia ser de um jogo entre duas seleções das grandes e não de um duelo entre uns amadores e uma equipa que estava no top-10 do ranking mundial.

No final, o marcador já não escondia as diferenças que, com os minutos, se foram notando mais em campo. O cansaço não fez cerimónia e o ritmo de jogo escocês passou a atropelar o português. A seleção perdeu, como perderia os outros quatro jogos que fez no Mundial, mas os jogadores saíram do relvado surpreendidos. “Foi uma surpresa para nós, pois era a primeira vez que estávamos a competir ao nível de um Mundial e havia aquela ausência de experiência. Acho que ficámos muito desgastados porque quisemos jogar olhos nos olhos com a Escócia e pagámos essa fatura”, garante o selecionador. Portugal perde por muitos (56-10), mas a estreia injeta orgulho nos jogadores e aumenta-lhes o sorriso que já tinham na cara. Porque todos sabem que o melhor vinha a seguir: os All Blacks

A peladinha e as cervejas com os neozelandeses

Há muito que os Lobos tinham guardada na cabeça a certeza de que iriam defrontar a Nova Zelândia. Sabiam-no desde a visita ao Uruguai (março de 2007), que fez de Portugal o vigésimo país a apurar-se para o Mundial — e, por ser o último, apenas restava uma vaga por preencher e estava no grupo do monstro do râguebi. Ainda bem que assim o foi e Pedro Leal sabe que todos pensavam da mesma forma. “Se era para estar no Mundial, ainda bem que calhámos com a Nova Zelândia, porque eram os nossos heróis e os melhores jogadores do mundo. Se nos perguntassem contra quem queríamos jogar, de certeza que todos responderiam o mesmo”, diz o homem que, antes do jogo, teve de ir à conferência de imprensa dar palavras ao que pensava. Não se recorda do que disse, mas não esquece o que ouviu os neozelandeses dizerem: “Se eles estão aqui é porque têm qualidades, por isso, independentemente de serem amadores, vamos fazer o nosso trabalho e respeitá-los”. A melhor prova de respeito apareceu com os 95 pontos de vantagem com que os All Blacks venceram por 108-13 — ainda hoje é o quinto resultado mais desnivelado na história da competição. 

Os Lobos tiveram direito a assistir ao Haka a poucos metros de distância dos neozelandeses. Para Vasco Uva "foi um momento muita giro" e, "se pudesse, repetia-o todos os fins de semana"

FRED DUFOUR/AFP/Getty Images

Foi um atropelamento (Portugal sofreu 16 ensaios) e ninguém esperava que não o fosse. No râguebi as surpresas são e eram uma raridade, mesmo que no relvado estivesse “a melhor equipa amadora do mundo” a querer “jogar de igual para igual com a melhor seleção profissional do planeta”. Por mais inflacionada que fosse a ambição, era isso que os portugueses queriam e Tomaz Morais confirma-o. “Não tínhamos nada a perder. Acima de tudo, queríamos criar um marco histórico porque não sabíamos quando íamos voltar a jogar contra a Nova Zelândia. E o nosso grande objetivo do dia foi conseguido: que durante 20 minutos conseguíssemos acreditar, e que o estádio acreditasse, que estávamos a jogar de igual para igual com os neozelandeses”, admite, cheio de contentamento na voz, ao dar conta da forma como os Lobos encararam a partida. Depois houve a maneira como os todo-poderosos da bola oval optaram por enfrentar Portugal. “Foi uma lição, porque no râguebi o respeito tem de existir do primeiro ao último minuto. Prova disso é que eles, infelizmente para nós, nunca quiseram parar de marcar pontos”, defende Pedro Leal, um dos mais pequenos jogadores (1,70m) do Mundial e que teve de passar 80 minutos a placar gigantes vestidos de negro.

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O número de ensaios que Portugal sofreu contra a Nova Zelândia. A derrota por 108-13 é o quinto resultado mais desnivelado da história dos Mundiais de râguebi. Mas durante 20 minutos, Portugal conseguiu uma coisa: “A melhor equipa amadora do mundo jogou de igual para igual com a melhor seleção profissional do planeta”.

Mas houve um antes e um depois do choque contra a Nova Zelândia. O pré deixou Vasco Uva feliz da vida por, antes de o Mundial arrancar, ser convidado para “uma reunião de capitães” em Paris, onde a pompa foi montada para a circunstância da apresentação do troféu da competição. O português vestiu um fato e, de repente, estava a conviver com jogadores que sempre vira através da televisão. “Eu adoro râguebi, não é? E pela primeira vez tive a oportunidade de falar com quase todos os capitães”, completa. Não se esquece do passou bem e da conversa que trocou com Richie McCaw, o terceira linha neozelandês que ainda hoje está aí para as curvas e fará o 149.º jogo pelos All Blacks na final do Campeonato do Mundo de 2015. “Por azar nosso, não jogou contra nós. Falei com ele e expliquei como era o râguebi em Portugal”, resume o português, que entretanto disse adeus à seleção nacional quando cumpriu a centésima internacionalização. Depois houve o pós

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Ou a terceira parte, como se chama no râguebi ao que vem a seguir às duas metades do jogo em que toda a gente anda ao molho no relvado. O árbitro apitou para acabar com tudo, os jogadores cumprimentaram-se e os portugueses convidaram os neozelandeses para o convívio. A resposta foi um sim. “Eles foram ter ao nosso balneário e nós, todos contentes, a tirar fotografias”, conta Pedro Leal. Fora resultados, placagens, jogadas ou chutos aos postes, lembra-se de toda a gente estar contente naquele momento. E os homens vindos do canto oposto do planeta só torceram o nariz a uma coisa: “Acho que alguém pediu autógrafos e eles disseram: ‘Não, isso não damos porque vocês estão no Mundial connosco, são como nós'”. Os minutos que partilharam no balneário serviram para os All Blacks “conhecerem um bocadinho da realidade portuguesa”. A Federação Portuguesa de Râguebi preveniu-se e tinha CD’s de fado, mapas de Portugal e uma “caixa representativa” do Turismo de Portugal para oferecer a cada neozelandês. Depois veio a melhor parte — no balneário “beberam umas cervejas” juntos e, no campo, “os que não tinham jogado fizeram uma peladinha”.

Trocou-se a bola oval pela redonda e os melhores passaram a ser os que não vestiam de negro. “Normalmente fazíamos sempre um treininho depois de cada jogo. Mas alguém misturou ali uma bola redonda e ainda bem para nós, porque os portugueses gostam sempre quando o futebol aparece”, resume Gonçalo Malheiro, o portuense e médio de abertura que, na parte do râguebi, marcou os primeiros três pontos portugueses no jogo, quando o pé direito fez a bola atinar com os postes num pontapé de ressalto. As bancadas do estádio já tinham pouca companhia de gente quando o relvado passou a ser de futebol. Gonçalo, Pedro ou Tomás, ninguém se lembra quem tirou da cartola a ideia de convidar os neozelandeses para darem uma perninha no desporto que não dominam, mas Vasco Uva ainda deu um palpite. “Vou ser sincero, não me recordo bem, mas deve ter sido o Pedro Cabral, que não jogou. No final da partida [o de râguebi] desmaiei e saí em ombros, portanto dessa parte não me lembro muito bem. Apaguei mesmo”, admite, a soluçar de riso, o antigo capitão dos Lobos. Muito poucos se recordam de quem teve a ideia, embora todos se lembrem como a experiência terminou: Portugal ganhou.

"A ideia partiu de quem não jogou. Normalmente fazíamos sempre um treininho depois do jogo e na altura misturou-se ali uma bola redonda. Ainda bem para nós, porque os portugueses gostam sempre quando o futebol aparece.”
Gonçalo Malheiro

A dar mais uso às mãos do que às pernas, contudo, os Lobos nada venceram na prova. Os resultados contra a Escócia e a Nova Zelândia não tiveram nada de renhido e a esperança dos portugueses estava em ganharem aos italianos ou aos romenos. Não conseguiram, mas quem dava ordens na equipa ainda hoje acha que não lhes faltou faltou muito. “Estivemos bem mais perto de uma vitória do que aquilo que pensamos”, assegura Tomaz Morais, carregando no tom sério da voz quando tem de explicar o ponto de vista: “Faltou-nos força física e anímica. Ainda faltava àquela equipa uma profundidade posicional que lhe permitisse jogar 80 minutos da mesma forma. Ainda por cima, a altura crítica do râguebi passa-se nos 20 minutos finais. Portugal acabou por sentir isso mesmo no jogo contra a Itália e contra a Roménia. Contra os italianos [31-5] acabámos por jogar muito bem. A 15 minutos do fim estávamos dentro do resultado e acreditava-se no estádio que podíamos ganhar. Acabaram por ter sorte num ressalto que dá um ensaio. Contra os romenos [14-10] perdemos o jogo nos últimos cinco minutos. Ficámos sem soluções para a segunda linha e pagámos isso na parte final. Os jogos contra a Nova Zelândia e a Escócia disseram-nos: ‘Sim senhor, é possível fazer algo mais’. Mas lá está, faltou-nos força”. Cinco jogos, outras tantas derrotas, pontos marcados em todos os jogos e um orgulho a transbordar em todos.

O salto maior do que a perna

Mais ou menos um mês depois de chegarem de França, acordaram do sonho. Anos e anos de sacrifícios terminavam. Os Lobos regressaram a casa e revogavam as licenças sem vencimento dos empregos que lhes deram tempo livre para serem amadores no meio de profissionais. Oito anos passaram e, em duas fases de qualificação, Portugal nem perto esteve de voltar a conseguir apurar-se para um Mundial. Por isso, a edição de 2011 foi vivida da mesma forma como a de 2015 — longe, pela televisão. “Custa muito. A primeira coisa que te lembras é que já lá estiveste dentro. É sempre difícil, gostávamos de lá estar. Eu não sei se estaria porque já estou um bocadinho velhote”, reconhece quem deixou de jogar no final da época passada. Desta vez, Gonçalo Malheiro pegou no comando e sentou-se no sofá quando quis viver o Mundial e foi assim que reconheceu várias caras. “Passados uns anos é que os vemos na televisão e dizemos: ‘Olha, joguei contra este, tive este à minha frente, troquei de camisola com aquele…’”, diz o antigo médio de abertura. Mas, e tal como Vasco Uva, ainda conseguiu ir a Londres assistir a um jogo do Campeonato do Mundo cuja final se realiza, no sábado, entre a Austrália e a Nova Zelândia.

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Mesmo já trintão e hoje dedicado apenas à vida de engenheiro, Gonçalo Malheiro tem várias coisas a dizer sobre os falhanços que apareceram após o sucesso dos Lobos. Ao mesmo tempo que a Geórgia, a Roménia ou a Rússia, países que em 2007 estavam taco-a-taco com Portugal, começaram a puxar mais a sério pelo râguebi, por cá “apostou-se na matéria desenvolvida que já tínhamos, em vez de se ir à matéria-prima, às camadas mais jovens”. Pensou-se “no futuro imediato em vez do médio-prazo”. O ex-jogador do CDUP e do Grupo Desportivo Direito reconhece que, após o Mundial, “toda a gente quis mais” e olhou-se mais para os seniores. “Apostou-se só num cavalo”, lamenta, e desde aí “tem sido difícil voltar a apanhar a carruagem” onde já seguem embalados os georgianos, romenos ou russos. Gonçalo está fora do que se passa na seleção e salienta-o várias vezes, mas tem a impressão de que, hoje, os “muito bons jogadores” que Portugal tem “se fartam um bocadinho rápido dos sacrifícios” e para isso nada ajuda o facto de “os resultados não estarem a aparecer”. É nesta deixa que Tomaz Morais pega.

O antigo selecionador nacional (2001-2011) ainda mandava durante a fase de qualificação para o Mundial que se seguiu ao brilharete português. Defende que, na altura, se notou “a indisponibilidade temporal e as dificuldades económicas” dos jogadores, que já “não lhes permitiam deixar para trás estudos, emprego ou a família para jogar râguebi ao mais alto nível”. Portugal emperrou a evolução e hoje continua “no limiar do amadorismo” enquanto as nações adversárias “enveredaram pelo profissionalismo”. O tempo para os jogadores se prepararem como deve ser foi sendo cada vez menos e os clubes e a federação ficaram “agarrados a processos e métodos que resultaram um dia”, mas que “poderiam não resultar mais”. Quando ainda estava a tomar conta da seleção, Tomaz Morais já sentia “o modelo” a esgotar-se: “Os jogadores não podiam fazer nada. Não podiam ir ao ginásio, não podiam treinar e trabalhar, alguns não cumpriam o plano de treinos. Tivemos de recorrer a mais luso-franceses do campeonato francês, começaram a faltar jogadores em posições chaves, como a de médio de abertura, como hoje ainda se verifica”.

O Mundial foi histórico. Puxou pelas atenções que antes não agarrava. Chamou público para o râguebi. Atraiu investimento que nunca se sentira seduzido pela modalidade. Mas “a modalidade começou a caminhar ferozmente, a um ritmo absurdo, em direção ao profissionalismo” — sem que Portugal tivesse “recursos e infraestruturas suficientes ou capazes para acompanhar esta vontade”. Depois há a parte dos jovens e bons jogadores, “os de 19 ou 20 anos”, que vão aparecendo e que Vasco Uva gostaria de ver mais vezes “em academias de clubes franceses ou ingleses”. São problemas que um sucesso já com oito anos em cima ainda não ajudou a resolver. E as soluções ainda estão em silêncio.

Os melhores momentos

Tomaz Morais

Portuguese rugby union national team coach Tomaz Morais walks on the field as he attends a trainning session 14 september 2007 at the Gerland stadium in Lyon, on the eve of the rugby union World Cup group C match New-Zealand vs Portugal. AFP PHOTO / FRED DUFOUR (Photo credit should read FRED DUFOUR/AFP/Getty Images)

“Além da chegada do autocarro ao estádio, no jogo com a Escócia, acho que o que mais me marcou foi a satisfação de ver os jogadores com um sorriso na cara em todos os momentos. Com o sentimento de dever cumprido e orgulhosos em sentir que Portugal estava a passar o râguebi, a bola, as regras e que estávamos a chegar um pouco por todo o país, com os Lobos a entrarem em casa das pessoas. Era esse o nosso objetivo e só podemos agradecer uns aos outros a forma como o fizemos.”

Vasco Uva

Portugal's rugby union captain Vasco Uva (C) runs during a training session, 14 September 2007 at the Gerland stadium in Lyon, on the eve of the rugby union World Cup group C match New-Zealand vs Portugal. AFP PHOTO / FRED DUFOUR (Photo credit should read FRED DUFOUR/AFP/Getty Images)

“Houve vários. Quando, no primeiro jogo, chegámos ao estádio e vimos aquelas pessoas todas à nossa espera, na rua. Percebemos que havia muita gente connosco. Depois o momento do Haka contra a Nova Zelândia. E o jogo inteiro contra a Itália, uma equipa contra a qual tínhamos perdido por 80 pontos um ano antes e sabíamos que tínhamos capacidade de fazer um bom resultado. Ficámos perto de fazer história, perdemos só por 20 pontos se não me engano [foram 26, ficou 31-5], mas tivemos quase taco-a-taco com os italianos em grandes fases do jogo, que é uma equipa do Seis Nações. E o jogo contra a Roménia foi marcante por ser o último da carreira do Joaquim Ferreira, que era um jogador muito importante para nós.”

Pedro Leal

Portugal's fullback Pedro Leal (C) is tackled by Scotland's centre Marcus Di Rollo (R) during the rugby union World Cup match Scotland vs Portugal, 09 September 2007 at the Geoffroy-Guichard stadium in Saint-Etienne, eastern France. AFP PHOTO FRED DUFOUR (Photo credit should read FRED DUFOUR/AFP/Getty Images)

“Entrar em campo contra a Escócia, com o estádio cheio de portugueses, a cantar o hino… Foi esse o melhor momento, talvez até mais do que ver o Haka à nossa frente. É uma sensação única. Andamos tantos anos a ver aquilo pela televisão e de repente temo-lo à nossa frente. Passou rápido, é uma sensação brutal. Deu-nos mais motivação a nós do que a eles, que o fazem todos os jogos. Vimos aquilo uma vez na vida e deu-nos mais pica!”

Gonçalo Malheiro

LYON, FRANCE - SEPTEMBER 15: Goncalo Malheiro of Portugal breaks throught the New Zealand defence during match fourteen of the Rugby World Cup 2007 between New Zealand and Portugal at the Gerland Stadium on September 15, 2007 in Lyon, France. (Photo by Ross Land/Getty Images)

“Todas as memórias são boas. Estivemos todos envolvidíssimos nisto, ganhar por um ponto ao Uruguai, os sacrifícios, o primeiro jogo… Cada um viveu a experiência à sua maneira. Eu, particularmente, entrei a titular contra a Nova Zelândia, tive oportunidade de marcar pontos. Cada vez que há um Mundial estas recordações vêm à baila, com alguma emoção.”

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