Raspadinhas. Em busca da sorte grande às vezes sai uma adição

15 Janeiro 2016

Nunca se venderam tantas raspadinhas: mais de 625 milhões de euros em 2014. Em 2015 vai ser mais. Mas valerá a pena apostar? Há quem garanta que os riscos de comportamentos aditivos são grandes.

Raspámos cinco bilhetes — um de cada preço: 1, 2, 3, 5 e 10 euros. O Observador investiu 21 euros na realização deste vídeo. Recuperou um euro.

Maria Olga joga diariamente, duas vezes ao dia. Mas não raspa nada. Há uma mão (“de anjinho barroco”) que o faz por ela

Estrada de Benfica, Lisboa. Oito da manhã. Maria Olga Fialho enviuvou há menos de um ano. É reformada. 74 anos. “Ora adivinhe lá o menino que idade tenho eu?”, pergunta prontamente, envaidecida por ninguém a dizer septuagenária. É bem-apessoada, orgulhosamente vaidosa, rugas mal se lhe veem, o cabelo está imaculadamente, madeixa por madeixa, pintado de loiro, penteado à Manuela Eanes (nos seus dias no Palácio de Belém), veste tons claros, na roupa traz padrões florais – “Ele [o marido] não me queria ver enlutada quando morresse. E eu faço-lhe a vontade” –, sorri a quem passa.

Vai duas vezes por dia, de manhã cedo e ao cair da tarde, à Igreja de Nossa Senhora do Amparo. Mesmo em frente à igreja, cruzando a movimentada estrada, com autocarro vai, autocarro vem, e num espaço de poucos metros, não há um nem dois, tão pouco três, mas quatro lugares onde comprar raspadinhas, entre quiosques, tabacarias e até uma casa (só) de jogo – há também, mas cada vez são menos de ano para ano, os ardinas de rua, com lotarias e raspadinhas estendidas na mão e apregoadas na voz. É um corrupio àquela hora do dia. É um entra e sai, sai e entra, raspam-se os bilhetes às centenas, vence-se, raspa-se mais um, perde-se, não se raspa mais nada e “raspa-se” dali para fora.

Créditos: Pedro Granadeiro/Global Imagens

Maria Olga traz a neta pela mão, atravessa a estrada em sprint, passada longa – nem a neta, com perninhas curtas de quem só tem cinco anos, a acompanha –, sem esperar sequer que o sinal caia para o verde, e entra na Casa da Sorte.

– Ó menina, dê-me cá uma [raspadinha] de um euro… Mas com prémio, menina! Com prémio!”, graceja ao balcão, Maria Olga, enquanto busca na mala por uma moeda com a qual pague e outra com a qual raspe.

Catarina, a neta, palmo e meio de altura, não chega ao balcão e distrai-se na vitrina. E há razão para isso: a vitrina está apinhada de Lotarias Instantâneas, boca à boca conhecidas por raspadinhas, que a enfeitam de ponta a ponta. “Vem cá à avó, vem.” E Catarina, a neta, vem. A custo, ensonada, mas vem. Maria pega-a ao colo, senta-a sobre o balcão suspenso na parede — ou “raspódromo”, como o apelida a bem-disposta avó –, e pede-lhe: “Ora raspa aqui com a moedinha, raspas?” Catarina pega prontamente na moeda de um euro que avó lhe dá. Fá-lo todos os dias. Ou quase. Haja prémio ou não haja, uma coisa é certa: a “moedinha” da avó fica com Catarina, sendo depositada por Maria Olga, mal a deixe no infantário e chegue a casa no mealheiro da petiz.

Confessa que raramente lhe sai um prémio de maior. Chega para compensar o que gasta e às vezes pagar o pequeno-almoço na pastelaria Nilo, também a dois passos dali. Mas Catarina, e é a avó quem o diz, tem uma mão afortunada. “Eu levo-a ao infantário, trago-a do infantário, e até é ela quem diz me diz: ‘Ó, avó, compra-me uma raspadinha, por favor.’ Ela gosta. Não lhe digo que não, não é? E dá-me sorte. Quando eu jogo sem ela, nunca me sai nada. E ela já raspou bons prémios. Mas é tão sabichona – tem esta cara de anjo barroco, nem sei onde é que aprendeu tanto! –, que me diz logo que o prémio é para o mealheiro dela. E é mesmo.”

Ainda que jogue diariamente, ou quase, à mesma hora de sempre, com a superstição de ser Catarina a raspar, Maria Olga não crê ter o vício da raspadinha. “Se eu quero parar, eu paro.” Mas sabe de quem o tenha. “Às vezes dá-me uma certa confusão à cabeça ver senhoras da minha idade, avós como eu, que nem tomam o pequeno-almoço como deve ser, só pedem uma bicazinha para enganar o estômago, e depois gastam aos 10 e aos 20 euros de cada vez em raspadinhas. E não tenho memória de ver nenhuma ficar rica. Sabe?, eu só jogo por distração e porque, parecendo que não, o dinheiro vai para a Santa Casa da Misericórdia – e a Santa Casa ajuda quem precisa, não é?”

Conversa puxa conversa, passou-se um quarto de hora num sopro, mas Maria Olga tem que deixar a neta no infantário. E lá seguem as duas, com a mão entrelaçada, rua adiante — em sprint, pois claro. Uma das mãos hoje não foi de fortuna. Mas o bolso de Catarina vai a tilintar, com a moedinha da avó.

Nunca se jogou tanto como hoje em Portugal

Créditos: MICHAEL M. MATIAS /OBSERVADOR

Não é novidade. Os números que se conhecem — e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa disponibiliza — são os de 2014. Ao Observador foi comunicado que os resultados de 2015 só serão apresentados no final do primeiro trimestre deste ano. Olhando aos primeiros 11 meses de 2014, constata-se que as vendas brutas da Lotaria Instantânea ultrapassaram os 625 milhões de euros, só superadas pelos 846 milhões de euros do Euromilhões, que continua a ser o jogo social mais lucrativo da Santa Casa.

Contudo, se se atentar à evolução das vendas entre 2014 e o período homólogo de 2013, e enquanto o Euromilhões decai um por cento, a raspadinha é o jogo que mais cresce: 15,2%. É curioso ver também que, desde 2010 e até 2014, o valor bruto da raspadinha subiu cerca de 500%. Somados, a Lotaria Instantânea e o Euromilhões valem 87% do valor bruto apostado, contabilizando os outros cinco jogos (Totoloto, Totobola, Lotaria Popular, Lotaria Clássica e Joker; em 2015 surgirão os valores respeitantes à aposta desportiva Placard) não mais do que 13% do valor total.

Quando a Lotaria Instantânea foi apresentada pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, há mais de 20 anos, era marginal ou quase, sempre na sombra dos grandes jogos sociais de apostas, como a Lotaria, Totoloto ou o Totobola.

Mas a crise económica mais recente, sobretudo a partir de meados de 2008, alterou por completo esse cenário. Os portugueses, com a carteira a esvaziar-se, procuraram (e procuram) enchê-la à força de uma moeda, raspando-a num bilhete que se quer com prémio. Com o prémio ou sem, a verdade é que a raspadinha é hoje o segundo jogo mais popular da Santa Casa. Em apenas sete anos, as receitas passaram de 48 milhões de euros, em 2008, para mais de 625 milhões em 2015.

Em qualquer lado, num café ou num quiosque, numa tabacaria, papelaria ou casa de jogo, é possível comprar uma raspadinha. Em todo o lado, de norte a sul, na cidade grande como na aldeia remota, é possível comprá-la. E há-as para todos os gostos (e entenda-se por “gostos” a modalidade do pagamento do prémio máximo) e preços.

Consultando o site dos Jogos Santa Casa, constata-se que são hoje 23 as variedades de bilhetes à venda. Quanto aos prémios, a raspadinha “Pé-de-Meia” (com bilhetes simples, “Mini”, “Super” ou “Mega”), que custa entre um e 10 euros, é a que dá os prémios mais avultados: entre 500 e 2000 euros todos os meses, durante um período que pode chegar aos 12 anos. Ou seja, neste tipo de raspadinha, o prémio não é entregue na totalidade de uma só vez, mas funcionará como um salário que a Santa Casa paga ao vencedor.

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A raspadinha pode ser um vício. Tenha atenção aos sinais

Henrique Lopes é presidente da Sociedade Cientifica Ibero-Latina-Americana para o Estudo do Jogo. Em meados de 2003, e enquanto investigador principal da Unidade de Saúde Pública do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica, foi-lhe encomendado um estudo sobre o jogo em Portugal.

Mais do que o estudo, Henrique fez a defesa técnica de Portugal no Tribunal Europeu de Justiça, num processo em que a Bwin, casa de apostas desportivas na Internet, intentou contra o Estado português, exigindo a liberalização do jogo online no país. O Tribunal Europeu de Justiça deu, em setembro de 2009, razão ao Estado português. Mas o estudo serviu também para Henrique Lopes deixar alertas às sucessivas administrações da Santa Casa. Nenhum deles foi atendido. “Na altura, e depois de realizar esse estudo, eu sugeri-lhes, à Santa Casa: não promovam as raspadinhas; isto só nos trará problemas. Os problemas de dependência ao jogo surgem em cinco anos, no máximo numa década. A verdade é que o estudo que fiz tem mais de uma década. Os resultados de hoje seriam diferentes dos de então. Os problemas de dependência estão aí. E vão continuar a aumentar com o aumento das vendas”, lamenta.

16 mil portugueses viciados em jogo. 400 mil em risco

A investigação da Unidade de Saúde Pública da Universidade Católica para a Santa Casa conclui que os jogos de cartas, as apostas online e as slots machines são os mais viciantes, sendo os da Santa Casa os procurados por mais jogadores.

Entre os dependentes, segundo o mesmo estudo, quase um quarto já teve problemas profissionais e familiares devido ao vício. Cerca de 25 por cento venderam mesmo património familiar; 18 por cento recorreram a agiotas para conseguir dinheiro para jogar ou pagar dívidas de jogo.

E a maior parte 80 por cento) dos dependentes do jogo a dinheiro já tentou parar, mas não conseguiu.

A solução, defende Henrique Lopes, é fechar a porta, mesmo que parcialmente, à venda da raspadinha. “Sempre que se abre uma porta perigosa em saúde pública, seja no tabaco, jogo, álcool, operações plásticas, chegará o dia em que terá que se fechar essa porta. Mas os efeitos negativos dessa porta perigosamente aberta, não desaparecem do dia para a noite.”

Mas nem sempre a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa apostou como hoje aposta (e com os resultados nas vendas que se conhecem) em raspadinhas. A decisão foi sobretudo essa: política. Má política, no entender de Henrique Lopes. “Sim, é uma decisão mais política do que técnica. É inenarrável. A Santa Casa da Misericórdia tem os direitos do scratching, raspadinha ou Lotaria Instantânea, chame-se-lhe o que quiser, há muitas, muitas décadas. No começo, por decisão das sucessivas direções, e mais ou menos até ao mandato de Maria José Nogueira Pinto, a Santa Casa optou por não promover este jogo – havia até, recordo-me eu, um armazém enorme com raspadinhas por utilizar. Hoje vende-se tudo. E mais houvesse para vender, mais se venderia. É urgente fazer uma autolimitação à venda das raspadinhas. E essa é uma decisão que tem de ser governamental. Na praça pública só devem vender-se os jogos de menor grau de adição. E a adição na raspadinha é tremenda. É dos jogos sociais mais aditivos que há”, avisa.

Portugal foi, “durante anos, muitos anos”, um exemplo a nível europeu, recorda Henrique Lopes, de um país em que, havendo stock de raspadinhas para vender, não as vendia para “não deitar fogo à palha”. E critica: “A certa altura houve decisões, do foro político, no sentido de promover prática do scratching. E promovia-se em todo o lado. O que é que aconteceu com isso? Deitou-se fogo à palha. Volto a afirmar: é inenarrável o que se vez. É necessário ter a consciência de que manter as raspadinhas à venda em todo o lado, nas papelarias, tabacarias, cafés, quiosques, é como ter uma slot machine a cada esquina.”

Mais urgente do que a Santa Casa autolimitar a venda de raspadinhas, há que estudar, hoje, o efeito deste jogo social na saúde pública.”O resultado está à vista de todos. Mas é necessário fazer-se um estudo, atualizado, sobre o jogo em Portugal e alertar quem joga. Antes, a Santa Casa patrocinava os estudos. E fazia-o por responsabilidade social. Há países onde isso é lei. Outros, como em Portugal, em que não. Os operadores de jogo, com ou sem a lei, têm que saber que têm uma responsabilidade social. Até por monitorização lhes será útil: saber onde apostar mais, onde desapostar. O que se está a fazer, não havendo estudos – há talvez oito investigadores em Portugal nesta área, mas que trabalharam sobretudo no estrangeiro e não cá – é tapar os olhos às pessoas”, acusa Henrique Lopes, o presidente da Sociedade Cientifica Ibero-Latina-Americana para o Estudo do Jogo.

O vício da Lotaria Instantânea... em tribunal

Em outubro de 2013, uma mulher de 39 anos, Maria Silva, prostituta na cidade do Porto, exigiu uma indemnização de um milhão de euros à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa por “publicidade enganosa e ausência de uma política de jogo responsável”.

Maria alegava ser viciada em raspadinhas.

À época, o advogado de Maria, Rodrigo Alves Moreira, queria (na ação intentada nas Varas Cíveis do Porto) que a Santa Casa “garantisse àquela mulher, pelo menos, o suficiente para pagar as contas.”

E acrescentou, ao Público: “Aquilo [raspadinhas] é dizer: ‘Não se preocupem com a taxa de desemprego, não se preocupem com o estarem a trabalhar cada vez mais e a ganhar cada vez menos, porque temos aqui um salário.'”

Pedro Hubert é psicólogo, também especialista em dependências de jogo, no Instituto de Apoio ao Jogador. Os primeiros casos de adição à raspadinha começaram a surgir-lhe nos últimos anos. São ainda poucos, não é possível traçar-lhes um padrão etário, social, mas é possível compreender as causas. E tratá-las.

“Sabe-se muito pouco. O que se sabe, e o que a minha experiência me diz, é que há três fatores que criam dependência: há os individuais, ou seja, alguém que tem uma predisposição para o jogo, para a impulsividade, a dificuldade em controlar os seus impulsos e vontades; há depois os fatores a que chamamos estruturais, e é aqui que entram os diversos tipos de jogo: a adição é maior quando a frequência com que se joga também o é, quando a resposta ao prémio é rápida ou o valor do prémio é atrativo; Por último, há fatores situacionais, como a crise, a legislação, a cultura, a moda, o marketing. Quando estes três fatores se conciliam – ou seja, o meio envolvente, o tipo de jogo e os problemas intrínsecos à pessoa – é que os problemas surgem”, explica.

O doutoramento de Pedro Hubert conclui por exemplo que quem joga na rapadinha, com adição, terá também adição a outro tipo de jogos, sociais ou não. “É quase como um toxicodependente, que consume heroína, depois cocaína, depois álcool. É difícil dizer que há quem só seja viciado em raspadinhas. O que a evidência tem demonstrado é que começam por jogar noutros jogos e chegam à raspadinha. Mas o fenómeno contrário também pode acontecer. Um mal comum na dependência de jogo é aquilo a que se chama de comorbidade. Ou seja, quem tem problemas com álcool, com drogas, quem sofre de depressão, tudo isso vai aumentar a probabilidade de haver adição ao jogo. Por exemplo, pessoas de uma determinada faixa etária, sobretudo reformados, mais sozinhos, às vezes com depressões graves, tendem a desenvolver o problema do jogo.”

Créditos: Pedro Granadeiro/Global Imagens

E o psicólogo do Instituto de Apoio ao Jogador recorda que, dos quatro pacientes com a adição à Lotaria Instantânea que acompanhou recentemente, dois são reformados. E mulheres. Antes de mais, no tratamento, é importante questionarem-se: porque é que jogam? “Os estudos demonstram-nos que 60 por cento das pessoas que jogaram tiveram prémios significativos nas primeiras vezes. A motivação delas é o ganhar dinheiro, mas também, em última análise, a adrenalina, a euforia do momento do jogo. Por outro lado há uma rutura, um alienamento face aos problemas do dia-a-dia quando se aposta.”

E como se trata a adição à raspadinha? Pedro Hubert explica: “O tratamento é igual, seja com raspadinhas ou com drogas. No caso das raspadinhas, e em 90 por cento das vezes, o que traz as pessoas para o jogo é a rotura financeira, as dívidas. O tratamento passa sobretudo pelo controlo da impulsividade. Na psicologia nós chamamos a uma adição como a da raspadinha a ‘adição invisível’. É uma adição que não se deteta nos estados físicos, seja o cansaço físico, a alteração de humor. É uma adição que se perpetua no tempo e só se dá conta dela quando há uma rutura financeira grande.”

O Observador tentou até à publicação da reportagem agendar uma entrevista com um responsável do Departamento de Jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, mas tal não foi possível. O Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), por sua vez, e financiado que é pela Santa Casa, recusou-se, por enquanto, a comentar a adição à Lotaria Instantânea em Portugal, comprometendo-se a discutir o fenómeno durante o II Congresso do SICAD, de 5 a 7 de abril, na Fundação Calouste Gulbenkian. Nessa altura, diz o SICAD, “terá mais informação sobre quem joga, quando joga e quanto joga, também onde se joga”, informação que ser-lhe-á disponibilizada pela própria Santa Casa.

Quem quer ser milionário das raspadinhas? A probabilidade diz-lhe que é pouco provável vir a sê-lo

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No site Poupar Melhor, António Sousa, engenheiro de Sistemas de profissão e matemático nas horas vagas, faz, volta e meia, o cálculo da probabilidade de se vencer um prémio na raspadinha. Em todas as raspadinhas. E não tem dúvidas em aconselhar os seus leitores quando o impulso de raspar lhes chega à moeda entre o indicador e o polegar: “O melhor é nem sequer começarem a raspar. Vão perder.”

António dá um exemplo prático para se compreender o quão improvável é vencer os prémios máximos. “Quando falamos da Mega Pé-de-Meia — a tal raspadinha mais cara, que custa 10 euros –, há quatro milhões de bilhetes, mas apenas cinco deles têm o prémio mais alto. Por exemplo: o estádio da Luz tem capacidade para 65.647 espetadores. Era necessário ir a 61 jogos, consecutivamente, sempre com lotação esgotada. E durante esses 61 jogos iam sair as cinco raspadinhas com o prémio máximo. Não há dúvida que é um mau investimento. Ainda assim, um em cada três espetadores desses 61 jogos receberia os 10 euros de volta.”

Mas o que leva, na opinião de António, que escreve no “Poupar Melhor” sobre poupanças, os portugueses a jogar tanto, gastar desbragadamente e cada vez mais? “O que leva as pessoas a jogar é a ilusão de vencer o prémio máximo. No exemplo do estádio da Luz, provavelmente quem vencesse, desceria ao relvado e todos saberiam que ganhou. É o facto de haver quem vença que leva os outros a jogar, mesmo que não vençam eles. Se todos nós fizéssemos um orçamento, à semana, sobre o quanto se investiu e quanto se amealhou, rapidamente perceberíamos que é um mau investimento. É isso que tento demonstrar com a análise da probabilidade.”

Créditos: Pedro Granadeiro/Global Imagens

Antes que se compreenda o quão ruinoso é jogar na Lotaria Instantânea, o vício instalou-se. E a ruína financeira também. “Qualquer jogo é normalmente mau. Ponto. Se se investe 50 euros, cem euros, normalmente vai perder-se, não só o que se investiu, mas mais até. E a tentação é a de continuar a jogar para recuperar o que se perdeu. A raspadinha não é uma exceção. A raspadinha sai muitas vezes, é verdade, sai a muita gente, mas o que sai são sobretudo os prémios menores, idênticos ou inferiores ao valor investido. Gasta-se um euro aqui, e outro, e outro, e outro, e contas feitas, gastou-se mais do que a conta. Jogar na raspadinha é um ciclo vicioso. É verdade que parte dos rendimentos dos jogos socias da Santa Casa vão para a ação social. Mas também é verdade que quem mais joga é quem menos rendimentos tem. E isso é um problema”, alerta António Sousa.

Elói aposta 50 euros (“às vezes mais”) por semana. Todas as semanas. “Sou só um bocadinho viciado”

Mas regressemos à freguesia lisboeta de Benfica, manhã cedo.

Logo adiante da Casa da Sorte, a tal onde Maria Olga e a neta vão depois da igreja e antes do infantário, fica o Quiosque Almeida. Ao lado, naquele largo movimentado do bairro, a fila na paragem de autocarro vai longa, talvez com duas dezenas de pessoas à espera, demoradamente à espera. E vai crescendo a fila, de minuto para minuto. É hora de ir trabalhar. Elói Semedo, “Schumacher” — ou só “Schu”; ganhou a alcunha por na meninice ser veloz nas futeboladas de rua como o piloto alemão era nas pistas –, nascido na ilha cabo-verdiana do Sal há 36 anos, mas nado e criado na Amadora desde os seis, aguarda pelo autocarro 78 que tarda em fazer-se ver na reta que vai das Portas de Benfica à Igreja de Nossa Senhora do Amparo, mais adiante. O contador eletrónico da paragem diz-lhe que faltam três minutos para o ver; mas o contador, pragueja Elói, “é uma treta, pá!”

Enquanto espera e desespera, está com a moeda a raspar, a raspar, e fá-lo estonteantemente e com a técnica, de pé e sem ter balcão onde pousar a raspadinha que tem na palma da mão, de quem sabe o faz. E fá-lo diariamente. “Gasto à volta de 50 euros por semana. Às vezes mais…”, recorda, escolhendo os ombros, sem desviar os olhos por um instante sequer da Lotaria Instantânea. Mas não há só técnica em Elói. Há também superstições. Quase todos os jogadores (e entenda-se aqui por “jogadores” aqueles que o fazem diariamente, talvez várias vezes ao dia) de Lotaria Instantânea as têm, uns oram a Deus que lhes dê sorte, outros não olham para o bilhete enquanto o raspam, há quem vá a determinada hora, a determinado local, há quem traga a neta como Maria Olga, mas Elói não. Elói tem um amuleto da sorte.

“Sabe que moeda é esta? É uma libra. Tem a cara [para de raspar, vira-a de coroa e aproxima-a dos olhos, semicerrando-os] da rainha de Inglaterra aqui. Foi o meu irmão, o Jaílson, que me trouxe de Londres – ele está lá a trabalhar desde o verão; hei de ir visitá-lo lá para fevereiro ou março, assim haja dinheiro para o avião. Dá-me sorte, a moeda. Uso sempre esta. Se não a tiver, não raspo nada. Ou então só raspo em casa. Mas raramente a tiro do bolso.”

Créditos: Carlos Santos Silva/Global Imagens

Mas quanto é que a sorte já lhe deu, monetariamente falando? Pouco. “Vai-se ganhando num dia, noutro perde-se, mas eu tenho a certeza que, mais dia menos dia, vou ganhar aquele prémio que é um ordenado todos os meses: o Mega Pé-de-Meia. Isto está mau, estou desempregado há mais de um ano, e o prémio dava-me para arranjar uma casinha, não é?, para pagar as despesas do dia-a-dia, tudo isso. Isso é que era.”

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No site dos Jogos Santa Casa está disponível uma linha verde de atendimento aos apostadores.

E há também conselhos para o jogo responsável. Algumas das recomendações são: “antes de começar a jogar, fixe o montante que pretende gastar”; “não peça dinheiro emprestado”; “controle o montante gasto e tenha atenção que o jogo depende apenas da sorte e não existem fórmulas que permitem ganhar.”

O contador da paragem de autocarro decresceu dos três para os dois minutos de espera. E passaram-se talvez uns cinco de conversa. A raspadinha de Elói estava premiada com um euro, o mesmo euro que gastou. É a segunda vez naquela manhã que vai deixar a fila para ir ao Quiosque Almeida trocar a raspadinha premiada por outra de valor igual. Troca feita, retorna à fila, ao fim da fila, e volta a raspar. Estonteantemente como antes. Com a mesma moeda de antes, de sempre. Desta vez teve menos sorte, Elói. Não ganhou nada. “Faz parte, não é?”, pergunta, cabisbaixo, enquanto deita a moeda ao bolso e o bilhete ao lixo.

“Eu não diria que sou um viciado nas raspadinhas. Só um bocadinho. [Risos] A verdade é que também aposto noutros jogos: no Euromilhões à sexta, no Placard antes dos jogos – eu gosto muito de futebol, como se vê… [traz vestido um casaco de fato-de-treino com o emblema do Benfica] –, mas por acaso até é na raspadinha que tenho mais sorte. Porque é que o faço? Por causa do dinheiro. É dinheiro fácil, rápido, raspa-se, se se ganhar, ganhou-se e pronto.”

O autocarro chega, à pinha. Empurrão daqui, outro de acolá e Elói conseguiu entrar. E até a lugar sentado teve direito. Há dias de sorte. Não necessariamente ao jogo.

Texto de Tiago Palma, fotografia de Michael Matias, ilustração de Andreia Reisinho Costa, grafismo de Milton Cappelletti, vídeo de Michael Matias, edição vídeo de Fábio Pinto.
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