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Uma rua de Barcelona, durante o período do estado de alarme

Getty Images

Uma rua de Barcelona, durante o período do estado de alarme

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Rastreio de contactos e mini-confinamentos. O que podemos aprender com os europeus que começaram a reabrir /premium

Países como Alemanha e França e até as mais afetadas Itália e Espanha já reabriram parte das suas economias. Virá aí nova subida dos números? Como evitar uma segunda vaga? Os especialistas explicam.

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“Merkel está a proibir a vida”, “Travem o lóbi farmacêutico” e “Liberdade!”. Estas foram algumas das palavras de ordem que se leram e ouviram numa manifestação em Berlim há duas semanas, segundo a Euronews. As mais de 100 pessoas que se reuniram na Praça Rosa Luxemburgo, a par de outras centenas noutras cidades da Alemanha, queriam protestar contra as medidas de confinamento impostas pelo Estado para combater o novo coronavírus. Isto apesar de a chanceler, Angela Merkel, já ter por essa altura anunciado que a reabertura do país iria começar, gradualmente.

Para estes manifestantes, contudo, isso não chega. Querem a reabertura aqui e agora de todos os negócios e de todas as atividades. Querem o regresso à “vida normal” — independentemente de os números nos dizerem que mais de 170 mil pessoas já testaram positivo para a Covid-19 no país e que quase oito mil perderam a vida.

"Queremos a nossa vida de volta", pode ler-se no cartaz de uma das manifestantes em Berlim

dpa/picture alliance via Getty I

A pressão para os governos desconfinarem rapidamente e em grande escala começa a sentir-se por toda a Europa. Até nos países mais arrasados pela pandemia, como Itália e Espanha, a vida vai lentamente caminhando para o ritmo de antes, com o regresso físico ao trabalho para alguns, a reabertura de lojas e o regresso às esplanadas. Em parte, porque a economia assim o exige. Por outro lado, porque milhões de cidadãos trancados em casa durante cerca de dois meses começavam a dar sinais de preferir correr o risco de se infetarem do que continuarem fechados.

Perante este cenário, países como a Alemanha e França seguem em frente no desconfinamento, mais avançados do que Portugal — por terem sido atingidos pelo vírus mais cedo. E os seus exemplos podem ser decisivos para perceber o que aí pode vir nos próximos tempos.

Países europeus com altos e baixos no número de casos. Há razões para preocupação?

Com parte das lojas reabertas há mais de duas semanas, esta semana começou com os alemães a monitorizarem de perto os seus números de infeção, antecipando uma subida no número de casos, mas esperando que não fosse significativa. À primeira vista, os alarmes soaram, já que, de segunda (11 de maio) para terça-feira (12 de maio), o número de casos aumentou bastante: 357 novas infeções num dia saltaram para 933 no dia seguinte.

Ao longo da semana, contudo, os números foram saltitando. Esta quarta-feira, ficaram na casa dos 700. No dia seguinte, voltaram a subir para mais de 900.

E, pelo meio, os jornais dissecaram o drama do R — o índice de contágio, ou seja, o número médios de pessoas infetadas por cada doente. Desejavelmente, deve estar abaixo de 1. Contudo, ao longo desta semana, o R alemão esteve acima de 1 em alguns dias, como admitiu o próprio Instituto Robert Koch. E, no entanto, os seus especialistas disseram não haver caso para alarme. Como é isto possível?

O epidemiologista alemão Tobias Kurth tentou explicar ao Observador por que razão considera, à semelhança do Instituto Robert Koch e da maioria da comunidade científica alemã, que a situação no país está “estável” e, por enquanto, longe de estar a registar uma segunda vaga da Covid-19. “Veja, neste momento temos um surto de Covid-19 no sul da Alemanha em algumas fábricas de produção de carne e matadouros. Esses surtos têm impacto sobre o R e podem fazer com que ele não represente fidedignamente a situação de todo o país”, afirma o especialista, que é também diretor do Instituto Nacional de Saúde da Universidade de Berlim.

"Neste momento temos um surto de Covid-19 no sul da Alemanha em algumas fábricas de produção de carne e matadouros. Esses surtos têm impacto sobre o R e podem fazer com que ele não represente fidedignamente a situação de todo o país”.
Tobias Kurth, epidemiologista alemão, sobre os "altos e baixos" no número de casos na Alemanha

“Os números estimados de reprodução são sempre difíceis de calcular e é por isso que é necessário ter em conta mais dados para lá do R”, acrescenta Kurth, apontando a curva do número de novos casos e a taxa de letalidade do vírus como outros fatores que ajudam a traçar um desenho da situação da epidemia em todo o país.

A aceitação da população e a adesão às regras, diz, tem sido alta e fruto de uma “boa comunicação”. “As manifestações não são exemplo”, diz o epidemiologista. “Estamos a falar de pessoas que estão a interpretar a situação de forma diferente da maioria e que creio estarem a ser muito politicamente influenciadas pela extrema-direita”, afirma o professor de Saúde Pública.

Em Itália — onde as imagens de dezenas de caixões em fila à espera de funeral marcaram o mundo —, a situação começa a ser semelhante à da Alemanha, muito embora o ponto de partida tenha sido muito pior. Vejamos o número de novos casos que foram surgindo esta semana, num verdadeiro ziguezague de subidas e descidas: 744 novos casos na segunda-feira; quase o dobro, 1.402, no dia seguinte; descida para 888 na quarta-feira; e nova subida para 992 esta quinta. Porquê?

Mais uma vez, de acordo com um especialista local, devido aos diferentes surtos regionais, que influenciam os dados nacionais: “Ainda há áreas no norte (como a Lombardia e Piedemonte) onde a circulação do vírus dentro da comunidade ainda está ativa. No resto do país, só temos pequenos surtos limitados. E é tudo isto que ajuda a explicar estes altos e baixos nos dados”, resume ao Observador Pier Luigi Lopalco, professor de Higiene e Medicina Preventiva na Universidade de Pisa. De uma coisa já não tem dúvidas: “A epidemia em Itália está agora numa fase descendente”.

Cuidado com a segunda vaga. Ou devemos antes dizer com as “pequenas ondas”?

Significa isto que a Europa pode começar a respirar de alívio, à medida que as curvas epidemiológicas descem? Não exatamente. Ainda no final de abril, o diretor executivo do programa de emergência da Organização Mundial da Saúde (OMS), Michael Ryan, deixava um aviso: “Parece-me lógico que, quando se retira a pressão demasiado rápido, o vírus pode regressar em força. Não sabemos o que vai acontecer daqui a dois, três, quatro ou cinco meses, poderemos assistir a um ressurgimento da doença”, avisou.

Em Itália, a grande maioria das lojas já voltou a abrir portas

Getty Images

O risco de uma segunda vaga é quase certo, de acordo com os especialistas. O presidente do Robert Koch Institute, na Alemanha, disse-o claramente: “Isto é uma pandemia. E, nas pandemias, o vírus continua a adoecer as pessoas até que 60 ou 70% da população tenha sido infetada”. Ou seja, até que seja criada a chamada imunidade de grupo.

Sem querer expor a população ao vírus — para evitar as mortes quase certas que ocorreriam como espécie de danos colaterais —, a maioria dos governos europeus (com exceção da Suécia) optou pelo confinamento obrigatório. Agora, com o surto controlado, começam a reabrir os seus países. Mas isso significa uma quase certa subida no número de casos e, potencialmente, uma segunda vaga ainda maior do que a primeira, tal como aconteceu aquando da Gripe Pneumónica, em 1918.

Para evitar que tal aconteça, os governos começam a deitar mãos à obra, cada um fazendo as suas pequenas experiências. Os alemães colocam um limite de 50 infeções em cada 100 mil habitantes — quando tal valor for atingido durante mais de uma semana num dos Länder (região federal), o governo regional terá de impor medidas de restrição. Na segunda-feira passada, exemplificava a revista Der Spiegel, havia três locais no país acima desse limite (Grei e Sonneberg, na Turíngia, e Coesfeld, na Westfália Norte). Mas o “travão” só entrará em vigor se esses números continuarem assim ao longo de sete dias seguidos.

Outros países optam por medidas diferentes. É o caso de Espanha, que optou por encarregar o Exército de criar uma operação para lidar com uma possível segunda vaga, a Operação Balmis. Por enquanto, 1.500 militares estão a postos e a analisar dia-a-dia a evolução da epidemia. A sua missão é a de criar medidas para aplicar preventivamente e evitar uma segunda onda de casos.

Os especialistas ouvidos pelo Observador, contudo, consideram que é um erro estar à espera exatamente de uma segunda grande vaga, à semelhança do que aconteceu com a Gripe Espanhola. “A questão é: o que é uma vaga?”, pergunta provocatoriamente Tobias Kurth. “A ameaça continua aqui, continuamos a ter casos, o vírus não desapareceu. A partir de que número é que lhe chamamos uma vaga ou onda?”

Lopalco completa a ideia: “Qualquer previsão pode falhar. Qualquer comparação com as pandemias do passado são difíceis de fazer. A situação que vivemos é única e não sabemos o impacto que este lockdown geral em que vivemos teve no vírus”, aponta, relembrando que este novo coronavírus já pode ter assumido várias mutações e que há, atualmente, mais dúvidas do que respostas. “Sim, olhando para os países asiáticos parece que há o risco de os casos voltarem a subir, mas não podemos dizer com certezas que vem aí uma grande segunda vaga”.

Então isso significa que a OMS está errada e que podemos respirar de alívio? Não, nem por sombras. O comportamento do vírus pode alterar-se, mas ele continua a existir e é imprevisível. Nos Estados Unidos, uma equipa liderada pelo epidemiologista Marc Lipsitch da Universidade do Minnesota publicou um estudo que dava conta de outros comportamentos que esta pandemia pode registar.

“Qualquer previsão pode falhar. Qualquer comparação com as pandemias do passado são difíceis de fazer. A situação que vivemos é única e não sabemos o impacto que este lockdown geral em que vivemos teve no vírus.”
Pier Luigi Lopalco, professor de Medicina Preventiva na Universidade de Pisa

Em cima da mesa, conta o The New York Times, a sua equipa colocou três cenários possíveis. Um dos cenários prevê que, a seguir a esta primeira vaga, temos um período de “picos e vales”, uma espécie de “mini-ondas” — como lhes chamou o diretor do centro de infeções da Universidade de Genebra, Didier Pitter — que se estendem por um ano ou dois até diminuírem e se extinguirem por completo.

Outro cenário é o de uma grande segunda vaga no outono ou inverno, à semelhança do que aconteceu em 1918/1919. O terceiro é uma descida lenta do número de casos, depois do pico registado esta primavera, numa espécie de coronavírus em “lume brando”, que se vai mantendo a circular, mas não volta a atingir proporções dantescas como estas que vivemos.

Do “testar, testar, testar” para o “rastrear, rastrear, rastrear”

Perante todas estas possibilidades, os especialistas creem que há algo a fazer, seja qual for o cenário que se venha a registar. “Quanto mais pessoas andam por aí, mais casos haverá”, reconhece o italiano Lopalco. “Isso é de esperar. Mas nós também estamos mais preparados para reagir e detetar surtos logo ao início, de forma a quebrar a cadeia de transmissão”. Aos cidadãos, restam duas “armas”: “distanciamento social e higiene”, resume. “Mas a vigilância das autoridades é essencial. Quando o número de casos começa a descer, é fulcral que se detetem e contenham os surtos para impedir que haja transmissão na comunidade”.

Ideia apontada também pelo próprio Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC), que recentemente criou um relatório a relembrar que o “rastreio de contactos é muito importante durante a fase em que as autoridades públicas de saúde estão a desconfinar”. O rastreio de contactos é, no fundo, a reconstrução da viagem do vírus: perceber quem infetou quem, quando e onde e quem poderá ter sido infetado. Depois, é essencial isolar e monitorizar os que correm o risco de terem ficado infetados.

É precisamente pela necessidade de fazer isto em larga escala que a maioria dos países europeus encetou a discussão sobre a criação de apps tecnológicas que pudessem ajudar a fazer esse trabalho. Mas, em parte devido às preocupações legítimas dos cidadãos europeus no que diz respeito à privacidade, esse caminho está a ser truculento e irregular nos vários países. O Le Monde recordava esta quinta-feira que, enquanto em países como a Islândia a app Rakning C-19 regista os movimentos dos cidadãos através de GPS e, no caso de um indivíduo testar positivo, pode escolher partilhar essa informação com as autoridades de saúde através da app. Sistemas semelhantes existem em países como a Noruega ou a República Checa, aponta o jornal francês.

Contudo, em França, o processo tem tido vários avanços e recuos, com afirmações iniciais de que tal sistema seria “anti-francês” e acabando no desenvolvimento da app StopCovid. Tudo isto enquanto a Apple e a Google desenvolvem a sua própria aplicação, mas com as quais França deixou claro que não pretende colaborar.

Em França, a discussão sobre um possível rastreio de contactos através de uma app tem tido vários avanços e recuos

Corbis via Getty Images

No meio de todas estas posições diferentes, a Comissão Europeia tenta uniformizar a situação ao aprovar uma resolução que exige às aplicações que respeitam as leis de proteção de dados da União Europeia e que, de preferência, sejam de participação voluntária por parte dos cidadãos. Ora esse fator pode definir o sucesso ou insucesso de uma aplicação deste género: os investigadores do Instituto de Big Data da Universidade de Oxford dizem que só será possível atingir uma “imunidade de grupo digital” se pelo menos 60% da população aderir a uma app deste tipo num país.

É por isso que alguns responsáveis, como o presidente do Instituto Superior de Saúde italiano, Silvio Brusaferro, sublinham que a tecnologia não pode ser a única solução: “As apps não são suficientes” para impedir uma segunda vaga, afirmou. Mas a vigilância também pode ser feita “à antiga”, como sugere o próprio ECDC, com seres humanos a fazerem os contactos e a registarem as ligações entre pessoas.

O Centro sugere mesmo que se utilizem voluntários ou pessoal que não seja da área da saúde para aumentar a capacidade de resposta nesta área. “O pessoal pode ser encarregado de entrevistar casos para obter uma lista de contactos e ir verificando esses contactos enquanto eles estão em isolamento”, diz o relatório. Essa tem sido mesmo uma das estratégias que já é levada a cabo pela Alemanha, de acordo com o BuzzFeed: no estado de Baden-Württemberg, a 1 de março havia 549 pessoas a fazerem este rastreio manual de contactos; a 7 de maio, eram já mais de 3 mil.

Regresso ao confinamento é uma fatalidade? “Se fizermos isto agora, com cabeça, temos hipóteses de conseguir reagir sem ter de fechar tudo”

Se a vigilância falhar, contudo, é quase certo que surgirão novos surtos. E vários líderes políticos têm deixado claro que não terão medo de recuar e voltar a obrigar os cidadãos a fecharem-se em casa. É o caso do primeiro-ministro português, António Costa, mas também de Angela Merkel, que impôs o tal limite de 50 infeções por 100 mil pessoas e que afirmou que a Alemanha “caminha sobre gelo fino”.

Deveremos então antecipar um possível regresso ao confinamento em massa? Não exatamente. É certo que países como a Alemanha têm esta medida no papel. Também a Bélgica, por exemplo, está a criar um plano de reconfinamento, caso se detetem surtos em escolas, fábricas ou aldeias. “O importante é ter o sistema de monitorização a funcionar para fazer soar o alarme”, resumiu ao Politico Erika Vlieghe, uma das conselheiras de saúde do governo belga, apontando a importância do rastreio de contactos.

O rastreio dos contactos pode ser essencial para impedir que um surto se espalhe de uma região para nível nacional

AFP via Getty Images

Mas qualquer um destes sistemas privilegia a deteção precoce para que, a aplicar restrições, estes sejam limitadas no espaço. “Se os números subirem muito rapidamente, provavelmente teremos um novo confinamento,porque já sabemos que é algo que resulta”, assume Tobias Kurth. “Mas agora estamos mais preparados para vigiar os casos e isolá-los. Portanto talvez possamos começar a fazer confinamentos apenas em determinadas regiões onde há surtos, em vez de ser um confinamento nacional”.

Esta pandemia, aponta o especialista, fez com que os planos que os epidemiologistas desenharam há anos para um possível caso destes começassem a ser de facto aplicados pelos governos, que até aqui iam empurrando o problema com a barriga. “Se fizermos isto agora, com cabeça, temos hipóteses de conseguir reagir sem ter de fechar tudo. Porque sabemos que isso também não ajuda em nada, quer em termos económicos, quer em termos psicossociais.”

A partir de Pisa, o professor Pier Luigi Lopalco diz praticamente o mesmo: “Em termos de saúde pública, a crise económica que aí vem pode ser tão grave como a crise de coronavírus que estamos a ter”, avisa. “E este distanciamento social pode ter um impacto muito negativo na saúde das pessoas, levando ao aumento da depressão.”

"Agora estamos mais preparados para vigiar os casos e isolá-los. Portanto talvez possamos começar a fazer confinamentos apenas em determinadas regiões onde há surtos, em vez de ser um confinamento nacional”.
Tobias Kurth, diretor do Instituto de Saúde Pública da Universidade de Berlim

O truque poderá passar, por isso, pela vigilância constante e por pequenos confinamentos localizados em vez de lockdowns nacionais. Mas terão os governos europeus capacidade de por tudo isto em prática? E será suficiente para conter um vírus que veio do nada e do qual pouco ou nada sabemos ainda? Neste momento, não há garantias do que quer que seja, concordam o alemão e o italiano. “Este vírus não é previsível, todos os dias estamos a aprender e é impossível saber quando é que será o pior momento da pandemia”, resume Kurth. “Mas os políticos, os cientistas e a população agora estão todos atentos. E a adotar determinados comportamentos. Se continuarmos assim, temos uma hipótese de aprender a viver com este vírus.”

Lopalco diz que não há um final feliz à vista a curto-prazo, mas que no futuro pode ainda ser encontrado “um novo equilíbrio” entre a nossa espécie e este novo vírus: “Isto já aconteceu no passado, com quatro estirpes diferentes de outros coronavírus”, relembra o professor, esperançoso. “E hoje em dia, o que é que eles provocam? Uma simples constipação a cada inverno em milhões de pessoas em todo o mundo”.

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