Relógio do Apocalipse foi acertado. Já só faltam dois minutos para o fim do mundo

26 Janeiro 2017410

O Relógio do Apocalipse foi atualizado. Agora, faltam apenas 2 minutos para uma guerra nuclear. Estamos tão próximos dela como quando os EUA obtiveram a poderosa bomba de hidrogénio.

Atualizado com o acerto do relógio por cientistas esta quinta-feira, dia 25

São 23 horas, 58 minutos e 00 segundos. Estamos a 2 minutos do fim do mundo. O Bulletin of the Atomic Scientists atualizou o Relógio do Apocalipse esta quinta-feira e aproximou o ponteiro dos minutos da meia-noite, que simboliza o início de uma guerra nuclear ou de qualquer outro evento catastrófico para a humanidade. São mais 30 segundos em relação à hora que foi marcada em 2016 e que não tinha sido atualizada desde o ano anterior. Uma guerra nuclear, consideram os cientistas, está mais próxima.

Ou seja, se toda a humanidade estivesse a caminho da meia-noite no “Doomsday Clock”, neste momento faltariam apenas 2 minutos e 30 segundos para a hora zero. A diferença entre este e os outros relógios é que, se o ponteiro bater as doze badaladas, não há dia seguinte: o “Doomsday Clock”, ou Relógio do Apocalipse em português, é um relógio simbólico que indica quão perto estamos de destruir a civilização com tecnologias perigosas projetadas pelo ser humano. Nas mãos erradas, essas tecnologias podem encaminhar o mundo inteiro para uma guerra nuclear completamente devastadora.

E esta quinta-feira, às 15h de Lisboa, o Bulletin of the Atomic Scientists anunciou que o nosso fim está ainda mais próximo. Tão próximo como em 1953, quando os Estados Unidos adquiriram uma bomba de hidrogénio e destruíram uma ilha no Pacífico com testes termonucleares.

O Bulletin of the Atomic Scientists destaca três motivos para a sua decisão: as armas nuclear, o perigo de uma corrida a armamento nuclear protagonizada pelos Estados Unidos, Rússia e Coreia do Norte; e as alterações climáticas, à conta dos grandes incêndios registados no ano passado.

A história do relógio a caminho da morte

Tudo começou em 1945, quando as nuvens em forma de cogumelo que se ergueram sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki serviram de aviso sobre o poder dos arsenais de guerra espalhados pelo mundo. Os Estados Unidos lançaram duas bombas atómicas, Little Boy e Fat Man, no território controlado pelo Império Japonês quase no fim da II Guerra Mundial. Foi o primeiro e único momento na História em que foram usadas armas nucleares em guerra e contra civis, mas o futuro seria negro se as grandes potências mundiais continuassem a fazer demonstrações de poder com esta magnitude.

Cientes desse perigo para a humanidade, o Bulletin of the Atomic Scientists juntou a alguns dos cientistas mais influentes do mundo para estudar os eventos políticos, sociais, económicos, tecnológicos e climáticos que podiam influenciar, positiva ou negativamente, a iminência do fim do mundo.

Devastation at Hiroshima, after the atomic bomb was dropped. The building on the right was preserved as the Hiroshima Peace Memorial, Atomic Bomb Dome or Genbaku Dome.(Photo by Keystone/Getty Images)

A devastação criada pela Little Boy, bomba atómica que caiu em Hiroshima em 1945. Créditos: Getty Images.

Em 1947, o primeiro Relógio do Apocalipse foi criado por Martyl Langsdorf (mulher do físico Langsdorf Jr., que esteve envolvido no Projeto Manhattan enquanto trabalhava na Universidade de Chicago). A primeira representação foi exibida na edição de junho desse ano e marcava as 23h53 porque “ficava bem nos olhos”, veio a explicar mais tarde a artista. Setenta anos depois, o ponteiro marca agora as 23h57.

Entre 1947 e 2016, o ponteiro dos minutos já se movimentou vinte e uma vezes. A primeira vez foi em 1949, quando a União Soviética testou com sucesso pela primeira vez a sua primeira bomba atómica: nessa altura, o ponteiro moveu-se quatro minutos em direção à meia-noite e passou a marcar as 23h57. O mais longe que já estivemos de uma guerra nuclear foi em 1991, quando o Bulletin of the Atomic Scientists decidiu que faltavam uns confortáveis dezassete minutos para a meia-noite do Relógio do Apocalipse. O mundo respirava de alívio com o fim oficial da Guerra Fria, que motivou os Estados Unidos e a Rússia a cortarem os seus arsenais nucleares: o Tratado de Redução de Armas Estratégicas permitiu reduzir consideravelmente o número de armas nucleares estratégicas e os países retiram mísseis balísticos estrategicamente colocados noutros países. Era um cenário em tudo contrastante com o que tinha sido vivido anos antes, em 1953, época em que estivemos no ponto mais próximo da meia-noite no Relógio do Apocalipse. Nesse ano, assim que os Estados Unidos decidiram obter uma bomba de hidrogénio e fazer testes com dispositivos termonucleares que destruíram por completo uma ilhota no Oceano Pacífico, o relógio marcou perigosamente as 23h58.

A decisão é sempre tomada por dois comités: um é o Painel de Ciência e Segurança e outro é o Painel de Patrocinadores, que inclui quinze cientistas laureados com prémios Nobel e nomes tão sonantes como Stephen W. Hawking, Thomas Pickering ou Paul Berg. Reúnem-se duas vezes por ano para “discutir eventos mundiais e reiniciar o relógio, se necessário”. Antes não era assim: entre 1945 e 1973, era o editor do Bulletin, Eugene Rabinowitch, que contactava os seus colegas cientistas para obter os seus pareceres. As regras só mudaram depois da sua morte.

Porque é que estamos tão perto de uma guerra mundial?

Que perigos foram agora equacionados? “Em primeiro lugar e acima de tudo, as armas nucleares, mas os perigos também incluem tecnologias capazes de criar alterações climáticas, biotecnologias emergentes e cibertecnologias que possam infligir ofensa irrevogável, seja intencionalmente, erro de cálculo ou por acidente” são os mais evidentes. Embora não levante totalmente o véu, num documento enviado ao Observador pelo gabinete de comunicação do Bulletin of the Atomic Scientists, entretanto publicado no site da organização, fica claro que a aproximação de uma guerra ou extermínio não é uma realidade assim tão distante: “Hoje, a arrepiante possibilidade de aniquilação nuclear como resultado de um ataque deliberado pelos Estados Unidos ou pela Rússia parece uma coisa do passado, mas o potencial para uma troca nuclear acidental, desautorizada ou inadvertida entre essas duas potências continua”.

"Hoje, a arrepiante possibilidade de aniquilação nuclear como resultado de um ataque deliberado pelos Estados Unidos ou pela Rússia parece uma coisa do passado, mas o potencial para uma troca nuclear acidental, desautorizada ou inadvertida entre essas duas potências continua".
Bulletin of Atomic Scientists

E o perigo não está apenas nos arsenais nucleares: tanto os norte-americanos como os russos espalharam tecnologia civil nuclear e reatores de pesquisa, os usos pacíficos da energia nuclear, por mais de 40 países. Resultado: os materiais necessários para construir uma bomba nuclear podem ser encontrados em cerca de 144 locais do mundo, revela o Painel Internacional de Materiais Fissíveis. Aliás, a Antártida é o único continente que não tem pelo menos um país com urânio altamente enriquecido ao seu alcance. Muitos — como o Reino Unido, França, Rússia e Estados Unidos — continuam a modernizar os seus arsenais nucleares tornando cada vez mais utópica a ideia de um mundo livre de armas de destruição em massa: “Enquanto as armas nucleares forem consideradas uma forma legítima de ganhar segurança nacional, toda a humanidade continua em risco à conta das mais perigosas tecnologias da Terra”.

E a Coreia do Norte? Pelos vistos, era o menor dos nossos problemas no ano passado: “Enquanto a atenção internacional se focar no pequeno número de armas nucleares da Coreia do Norte ou na busca do Irão por poder nuclear, com a possibilidade de criar armas, a Agência Internacional de Energia Atómica estima que outros 20 a 30 países possuam essa capacidade, senão a intenção, de comprar uma bomba”. Um ano depois, as preocupações adensaram-se à conta das ameaças feitas por Kim Jong-un diretamente a Trump.

"Enquanto a atenção internacional se focar no pequeno número de armas nucleares da Coreia do Norte ou na busca do Irão por poder nuclear, com a possibilidade de criar armas, a Agência Internacional de Energia Atómica estima que outros 20 a 30 países possuam essa capacidade, senão a intenção, de comprar uma bomba".
Bulletin of Atomic Scientists

Quanto às alterações climáticas, tomada em conta pela primeira vez em 2007, o Bulletin of the Atomic Scientists não podia pintar um quadro mais negro. Basicamente, os cientistas assumem que estamos presos num planeta em sufoco: mesmo que, neste mesmo segundo, as emissões de dióxido de carbono cessassem totalmente, os gases que já circulam na atmosfera iriam sobreviver por séculos e continuar a mudar drasticamente muitas das características do planeta durante centenas de anos. O cenário inclui um aumento do nível médio da água do mar na ordem dos nove centímetros, erosão da costa e agravamento das inundações nas épocas de tempestade, algumas das quais passariam a ser permanentes — algo que se poderia observar no delta do rio Indo (Bangladesh) ou do rio Mississipi (Estados Unidos).

Fora das regiões costeiras, dentro dos continentes, a desflorestação e a transformação das regiões alpinas iria colocar em perigo a saúde humana: os insetos transportadores de doenças iriam disseminar vírus e bactérias cada vez mais perigosos e os terrenos agrícolas iriam destruir-se por completo. As populações em zonas inundadas ou em seca iniciariam migrações históricas que conduziriam, inevitavelmente a guerras territoriais.

Outra das preocupações do Bulletin of the Atomic Scientists são os efeitos perversos associados aos avanços da biotecnologia. No mesmo laboratório onde um investigador tenta criar vacinas mais eficazes ou curas definitivas para doenças, pode estar a nascer um verdadeiro exterminador com que a Ciência não sabe lidar. Em 2001, por exemplo, cientistas australianos criaram uma nova estirpe mais poderosa do vírus ectromelia durante uma experiência em que a missão era criar geneticamente um método de controlo mais eficaz sobre infeções transmitidas pelos roedores. Dez anos mais tarde, foi criado em laboratório uma estirpe super-virulenta do H5N1 precisamente quando se tentava encontrar uma vacina contra o primeiro vírus.

Nenhum dos cientistas envolvidos no estudo do Relógio do Apocalipse consegue hierarquizar estas preocupações. Quando questionado sobre qual é a maior ameaça, se as armas nucleares ou as alterações climáticas, o Bulletin of the Atomic Scientists responde apenas que “cada uma destas ameaças tem potencial para destruir a civilização e tornar a Terra quase toda inabitada pelo ser humano”.

A decisão é difícil porque um aspeto não pode ser considerado sem o outro: alguns especialistas defendem que a redução das emissões de dióxido de carbono seria mais facilmente conseguida se usássemos com mais afinco a energia nuclear, mas o número crescente de reatores nucleares, e a quantidade de urânio enriquecido e de plutónio de que eles dependem, seria como escancarar a porta para o desenvolvimento dos arsenais nucleares. “Só que, se não reduzirmos essas emissões, certos recursos naturais como a água fresca poderiam tornar-se mais escassos, levando a conflitos que podiam culminar em guerra, possivelmente com uso de armas nucleares”, explica a organização. “Não nos podemos dar ao luxo de enfrentar uma ameaça sem abordar a outra. E, de facto, a cooperação internacional necessária para reduzir e proibir as armas nucleares provavelmente também levaria à cooperação para nos salvar da perturbação mortal do clima. No final do dia, tentar responder à pergunta é como ficar de pé numa casa em chamas a discutir se é melhor morrer de inalação de fumo ou da queda de um pedaço de madeira”, finaliza o Bulletin.

"Não nos podemos dar ao luxo de enfrentar uma ameaça sem abordar a outra. E, de fato, a cooperação internacional necessária para reduzir e proibir as armas nucleares provavelmente também levaria à cooperação para nos salvar da perturbação mortal do clima. No final do dia, tentar responder à pergunta é como ficar de pé numa casa em chamas a discutir se é melhor morrer de inalação de fumaça ou da queda de um pedaço de madeira".
Bulletin of Atomic Scientists

Ao longos dos últimos setenta anos, o Relógio do Apocalipse tem valido alguns olhares céticos dentro da comunidade científica, de investigadores que acusam o Bulletin of the Atomic Scientists de fazer futurismo. A revista nega: “Estudamos eventos que já ocorreram e tendências existentes”, sublinha. Fazem-no, dizem, olhando para os números e para as estatísticas associadas, como por exemplo o número e tipos de armas nucleares no mundo, as partes por milhão de dióxido de carbono na atmosfera, o grau de acidez nos nossos oceanos e o nível médio da água do mar. Também é estudado o esforço dos líderes e dos cidadãos para reduzir os perigos e a vontade das instituições para se manterem fiéis aos acordos assinados para manter a paz.

São “um pouco como um médico que faz um diagnóstico”, descreve: “Nós olhamos para os dados, como os médicos olham para testes de laboratório e raios-x. Consideramos quantos sintomas, medidas e circunstâncias estiverem ao nosso alcance. Depois chegamos a um julgamento que resume o que poderia acontecer se os líderes e cidadãos não tomarem medidas”.

WASHINGTON - OCTOBER 24, 1962: (EDITORIAL USE ONLY) (FILE PHOTO) A photograph of a ballistic missile base in Cuba was used as evidence with which U.S. President John F. Kennedy ordered a naval blockade of Cuba during the Cuban missile crisis October 24, 1962. Former Russian and U.S. officials attending a conference commemorating the 40th anniversary of the missile crisis October 2002 in Cuba said that the world was closer to a nuclear conflict during the 1962 standoff between Cuba and the U.S., than governments were aware of. (Photo by Getty Images)

Imagem do local onde foi colocado um dos mísseis soviéticos durante a Crise dos Mísseis em Cuba, em 1962. Créditos: Getty Images.

Uma das críticas mais severas feitas ao Bulletin of the Atomic Scientists prende-se com o facto de ter decidido não mudar o nível de ameaça em 1962 com a Crise dos Mísseis de Cuba, quando os soviéticos colocaram mísseis balísticos em território cubano durante o conflito com os Estados Unidos para deter uma eventual invasão dos norte-americanos após o caso da Baía dos Porcos de 1961 e a presença de mísseis balísticos em Itália e na Turquia. O Bulletin justifica-se dizendo que “pouco se sabia na época sobre as circunstâncias do impasse ou qual seria o resultado”.

Os cientistas dos comités concentraram todas as suas esperanças na linha telefónica direta instalada para comunicação entre os Estados Unidos e a União Soviética. Foi precisamente por isso, e pelo facto de o Tratado de Proibição Parcial de Testes ter sido assinado pouco depois, que o Bulletin só moveu o ponteiro em 1963. Garante que não baseia as suas decisões na agenda política: “Garantir a sobrevivência de nossas sociedades e da espécie humana não é uma agenda política. Se os cientistas envolvidos são críticos das políticas atuais sobre armas nucleares e mudanças climáticas, é porque essas políticas aumentam a possibilidade de autodestruição”, defende-se.

Os números confirmam a resposta do Bulletin: o relógio moveu-se tantas vezes em direção à meia-noite como em sentido contrário. E tantas vezes durante as administrações republicanas como as democráticas nos Estados Unidos.

Certo é que o ponteiro dos minutos no Relógio do Apocalipse anda de um lado para o outro há 70 anos sem nunca bater na meia-noite. A humanidade vai sobrevivendo à paz e às tensões das últimas décadas, o que nos leva a perguntar: devemos alimentar tanto assim este receio? Para o Bulletin, a tragédia só ainda não rebentou “porque os líderes nacionais têm até agora dado atenção às advertências e porque, em momentos críticos nos últimos 70 anos, estabeleceram canais de comunicação com adversários, negociaram tratados para controlar as armas, tomaram medidas para reduzir radicalmente os arsenais”. Mas o fim do mundo, insistem estes cientistas, está a escassos 3 minutos de distância.

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