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AFP/Getty Images

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Reportagem em Londres. Portugueses à deriva na “jangada de pedra” britânica /premium

São milhares os portugueses que vivem no Reino Unido. Entre eles, há quem espere que o Brexit não aconteça e que a vida siga como dantes. Outros já não aguentam a xenofobia e estão prontos para sair.

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Enviada especial ao Reino Unido

“Por mim era arrumar com a Theresa May, que isto resolvia-se logo.” A frase é atirada de rajada por baixo do bigode, quase de repente, assim que se ouvem as palavras “jornalista de Portugal” e “Brexit”. A identidade do empregado do restaurante Grelha d’Ouro, contudo, fica por descobrir: “Depois eles ficam a saber que eu disse isto e estou feito, não é? O melhor é falar com o patrão”, diz, antes de se apressar a ir atender uma mesa. São quase oito da noite e o restaurante de letreiro azul começa a encher, apesar de ser dia de semana.

O patrão, José Rodrigues, conta que o negócio vai de vento em popa e que, para já, não parece ter sido afetado pelo Brexit. “Aqui em Stockwell não se nota muito. Mas tenho colegas que trabalham na City, por exemplo, que me dizem que lá já se nota uma grande quebra na clientela”, conta ao Observador. Veste um polo azul-claro, semelhante ao que serve de farda aos funcionários do restaurante, mas o casaco de cabedal que veste por cima distingue-o rapidamente como dono da casa. Sentado numa mesa discreta junto ao balcão cheio de luzes de néon azuis, onde se acumulam alguns papéis da contabilidade, convida a sentar e aproveita para se dizer descansado: “Por enquanto, ainda não nos podemos queixar”.

Apesar disso, José, de 50 anos, é da mesma opinião que o seu empregado: “Os ingleses não vão sair. Só vão é esperar que a Theresa May caia. Os deputados não aprovam nada porque querem que ela vá embora”, diz, referindo-se ao futuro da primeira-ministra. Para este empresário, que está no Reino Unido há 17 anos, não há dúvidas: o Brexit foi um erro e os britânicos sabem disso. “Vai ter de haver um novo referendo”, assegura. E, desta vez, o resultado será diferente dos 52%-48% que ditaram a saída do país da União Europeia (UE).

José Rodrigues, dono do restaurante Grelha d'Ouro, em Lambeth, garante que o seu negócio não tem sido afetado pelo Brexit (CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

(CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

Estamos em Little Portugal, o bairro no sul de Londres onde há quase tantos portugueses por metro quadrado como autocarros vermelhos por toda a capital britânica. Ao todo, estima-se que vivam neste pequeno triângulo entre 30 a 40 mil cidadãos europeus — dos quais a esmagadora maioria serão portugueses.

São fruto da vaga de emigração dos anos 60 e 70, a que se foram juntando muitos outros portugueses atraídos pelo facto de ali já terem familiares e amigos, ou simplesmente aliviados por conseguirem alugar um quarto num lugar onde se fala português. Muitos passam ali uma vida inteira, sem aprender grandes palavras de inglês. Little Portugal distingue-se dos outros bairros de Londres pelos cafés com bandeiras portuguesas à porta, pastéis de nata vendidos ao balcão e cervejas de marca portuguesa por detrás das vitrines. Mas por detrás da fachada pitoresca,, há uma comunidade isolada, com baixos estudos e problemas de integração, que percebe pouco do que se passa com o Brexit — embora possa vir a ser das mais afetadas por ele.

Little Portugal. Quando o conforto do “cantinho português” também significa uma comunidade isolada

No Reino Unido, há quase 400 mil portugueses registados oficialmente. O número real, contudo, pode ser bem maior, inflacionado por muitos homens e mulheres que vêm em busca do El Dorado, deslumbrados com os relatos que ouvem e esperançados no amparo de uma comunidade. Mas o sonho, muitas vezes, acaba em pesadelo, como conta Júlio Cunha, membro do grupo local Portugueses4Europe: “Os jovens em Portugal ganham uns 600 euros por mês. Ouvem dizer que aqui se ganha 400 por semana, ficam logo malucos a fazer contas e dizem ‘Eeeh, vou já!’. Mas depois chegam cá… E a habitação? E a comida? Caem muitas vezes em situações complicadas e, por vezes, até ilegais”, reflete Júlio.

A viver no Reino Unido desde 2007, este portuense passou por uma situação de desemprego quando a refinaria onde trabalhava no País de Gales fechou. Transplantado para Londres, acabou por dar à volta à situação e está, desde 2009, a trabalhar como técnico de redes de água e aquecimento central. Durante o tempo que esteve sem emprego, aproveitou grande parte dos dias para conhecer a cidade e absorver a cultura de Londres — mas sabe que é uma exceção. “Há muita gente aqui que não sabe onde é o National Museum. Atravessar a ponte é como atravessar uma fronteira…”, diz, referindo-se à Vauxhall Bridge que separa o bairro de Lambeth, onde Little Portugal se insere, do centro da cidade. O Parlamento, em Westminster, e o Big Ben ficam a 20 minutos de metro.

“Os jovens em Portugal ganham uns 600 euros por mês. Ouvem dizer que aqui se ganha 400 por semana, ficam logo malucos a fazer contas e dizem ‘Eeeh, vou já!’. Mas depois chegam cá… E a habitação? E a comida? Caem muitas vezes em situações complicadas e por vezes até ilegais.”
Júlio Cunha, residente português em Londres, sobre a comunidade portuguesa local

“A maioria desta comunidade é working class. Se o nosso país tem menos pobres é porque alguns estão aqui”, garante Guilherme Rosa, também membro da Portugueses4Europe. Português a viver em Londres há 16 anos, é dos poucos com experiência política na política local — em 2014, foi eleito para o council de Lambeth, pelo Labour, onde esteve até 2018. O mandato, contudo, deixou-o com sentimentos contraditórios: “Aqui há imensos problemas sociais. Pessoas presas, miúdos levados para gangues… Mas a comunidade está tão diluída e tem tanta dificuldade em falar, que não tem expressão política. E acaba por ser ignorada.” Em Little Portugal, vai-se vivendo para dentro. Com exceção da vitória no Euro 2016, quando milhares de portugueses saíram à rua para festejar, o mais habitual aqui é cultivar as alegrias e as tristezas dentro de portas.

Ruas de Lambeth aquando da vitória de Portugal no Euro 2016 (D.R. FACEBOOK DEBRA DAVIS)

Colados à ideia tipicamente portuguesa do “vai-se andando”, muitos dos habitantes nacionais do bairro vão adiando tratar do settled status, o documento que lhes garante alguns direitos, pós Brexit, caso comprovem que vivem e trabalham no país há mais de cinco anos. Alguns não falam o suficiente de inglês para saber como fazê-lo; outros têm estado a trabalhar de forma ilegal, por vezes explorados em situações laborais complicadas. “E agora, como é que garantem que têm o settlement?”, questiona-se Júlio. “A minha mulher não tem trabalho aqui, mas eu ganho e desconto o suficiente para ela poder ter autorização para permanecer, por inerência, por ser casada comigo. Mas muitas destas pessoas não vão conseguir provar como conseguiram sobreviver nos últimos cinco anos neste país”, lamenta-se.

Ajuda por parte das autoridades está, para a maioria, fora de questão. As críticas à falta de eficiência do consulado, onde a marcação online se revela um pesadelo de dimensões kafkianas, é apontada por todos os portugueses com quem o Observador falou. Há relatos, à boca pequena, de pequena corrupção, rumores de Cartões de Cidadão feitos a troca de 20 libras por pessoas que sabem “como resolver” o problema. Oficialmente, o Governo já garantiu um reforço de pessoal para lidar com o Brexit. Na prática, o mal já está feito: a desconfiança é tanta que a grande maioria opta por tratar de todas as questões burocráticas quando vai de visita a Portugal, para evitar problemas.

A somar-se a tudo isto há o afastamento da classe política portuguesa, que os residentes de Little Portugal também sentem, garante Guilherme. “Ninguém as procura”, resume. Mesmo em pleno processo do Brexit, as visitas de governantes são escassas. Guilherme só se recorda da vinda de um eurodeputado do PCP e de um único membro do Governo, o à altura secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Pedro Nuno Santos, que esteve no bairro aquando do 10 de junho, em 2017. “O Presidente da República podia vir aqui perfeitamente, seria um banho de gente”, prevê. “É Paris, Newark… Aqui, nada.”

“O Estado português decidiu dar apoio às empresas para se adaptarem ao Brexit. Mas aos cidadãos portugueses que aqui estão não foi dado nada. Não devíamos ter uma diplomacia mais ativa? Que ajudasse a desenvolver o associativismo, a promover o ensino do inglês a adultos, que apostasse na requalificação profissional.”
Guilherme Rosa, residente em Londres há 16 anos e antigo membro do council de Lambeth

Já fora da política, Guilherme continua, contudo, a sentir-se revoltado pelo que considera ser o desprezo dos políticos nacionais por esta comunidade. “O Estado português decidiu dar apoio às empresas para se adaptarem ao Brexit. Mas aos cidadãos portugueses que aqui estão não foi dado nada”, lamenta. “Não devíamos ter uma diplomacia mais ativa? Que ajudasse a desenvolver o associativismo, a promover o ensino do inglês a adultos, que apostasse na requalificação profissional…”, sugere. As críticas, dispara-as à esquerda e à direita: ao Governo atual, que fez um plano de contingência “limitado ao consulado”. E também a Rui Rio, que criticou a ineficiência dos serviços consulares portugueses, mas “esqueceu-se que foi no Governo de Pedro Passos Coelho que se cortaram aqui funcionários”. Guilherme pousa a chávena de meia-de-leite branca, de marca portuguesa, com estrondo. “Desculpe, já me estou a enervar”, justifica-se. “Mas há um elitismo nos nossos representantes, não ouvem os problemas desta comunidade.” “Não sabem falar a voz do povo…”, remata o amigo Júlio, encerrando o assunto.

O dia do referendo, “o primeiro dia de uma guerra”

Apesar de estarem isolados, os portugueses que vivem em Little Portugal não têm, no entanto, sentido um dos efeitos do Brexit que mais se tem falado no rescaldo do referendo de 2016: o de um possível aumento da xenofobia. “Londres é uma zona muito educada e não acontece muito”, esclarece Guilherme. “No geral, há é uma fadiga do processo e eles podem olhar de lado para nós na rua ou algo do género.” Dentro de Little Portugal, esse não é um grande problema, para já. Aqui, é como se estivéssemos num protetorado português, entre gente amiga. E mesmo no resto da cidade — uma metrópole com quase nove milhões de pessoas e onde são faladas mais de 300 línguas — essa não é uma situação dramática para a maioria. “Mas acho que todos os portugueses já tiveram um episódio ou outro, mais ou menos grave. Já toda a gente ouviu um ‘vai para a tua terra'”, acrescenta Guilherme. Simplesmente, essa era uma situação que já acontecia antes, garante. Em Lambeth, bairro que votou esmagadoramente pela permanência no Reino Unido (79%), a hostilidade não aumentou.

Nem todos os portugueses, contudo, podem dizer o mesmo. Que o diga Ricardo Castro, para quem o dia do referendo foi como “o primeiro dia de uma guerra”. “A partir daí, eles passaram a dizer em voz alta tudo o que até aí sussurravam”, afirma. A integração fácil que teve quando chegou a Oxford, em 2015, arranjando rapidamente trabalho para si e para a sua mulher — ele como gestor comercial de marcas de roupa, ela como auxiliar hospitalar na área de Oncologia —, foi-se complicando à medida que o tempo avançou.

“Fui parte de um filme que me transcende, o filme que este país está a viver, onde se acha que os estrangeiros têm de comer e calar”, resume Ricardo, de 45 anos, sentado à mesa da cafetaria de um dos museus desta cidade universitária. Aqui, votou-se também em massa pela permanência na UE e este português recorda-se do dia do referendo como um dia marcado pelas lágrimas: “Vi um país de luto. Os universitários aqui choravam, tinham noção do que isto significava. Mas também vi o outro lado de pessoas felizes, a pensar ‘vamos correr com os estrangeiros’.”

Mesa de voto para o referendo em Oxford. Nesta cidade universitária, a grande maioria votou pela permanência na UE. Mesmo assim, há portugueses que se queixam de xenofobia (ADRIAN DENNIS/AFP)

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Essa outra face só se tornou visível depois da votação, mas não tardou a vir ao de cima na vida de Ricardo, que liderava, à altura, uma equipa de trabalhadores britânicos numa loja de uma conceituada marca de roupa internacional. Um dia, ao dar uma ordem rotineira a um dos seus funcionários mais novos, com quem sempre se deu bem, ouviu um ‘não’. “Não aceito ordens de uma pessoa vinda de um país como o teu”, acrescentou o empregado. Habituado às brincadeiras do colega, Ricardo riu-se e repetiu a instrução. A resposta foi a mesma, dita de cara fechada. “Na altura, calei-me, não sabia o que mais fazer. Depois, reportei a situação. Iniciou-se um pesadelo”, conta. A empresa abriu um processo de averiguação interno, para apurar o que se passou. O empregado, que viria a admitir ser apoiante do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), de Nigel Farage, admitiu que talvez tivesse exagerado. No entanto, tudo acabou por ser desvalorizado e o testemunho de Ricardo foi posto em causa pela empresa. Desiludido, demitiu-se.

Não demorou até arranjar de novo emprego na mesma área, com funções semelhantes. Mais uma vez, tinha de chefiar uma equipa de britânicos. E, mais uma vez, isso teve reflexos. Um dia, uma empregada com dupla cidadania britânica e norte-americana, resolveu ir trabalhar com um crachá de apoio a Donald Trump. Ricardo pediu-lhe que retirasse o crachá enquanto estivesse a trabalhar. A resposta, diz, foi muito semelhante a uma que já tinha ouvido no passado: “Não tenho de ouvir lições de moral de um estrangeiro.” Mais uma vez, reportou a situação a quem estava acima de si. Mais uma vez, diz que o apoio lhe faltou. “A pessoa disse-me: ‘Isto é muito simples. Tu tens um passaporte europeu, ela tem um passaporte britânico e um americano. Os dela valem mais. Desiste.'” Foi o que fez, demitindo-se uma segunda vez.

Desde então, Ricardo não voltou a tentar procurar trabalho. Vai vivendo de algumas poupanças enquanto espera que a situação política no Reino Unido se defina. A mulher continua a trabalhar num hospital, numa equipa praticamente composta só por cidadãos não-britânicos. Com frequência, conta Ricardo, há doentes que criticam o facto de serem atendidos por “uma estrangeira”. Mas também há aqueles que lhe agarram na mão e pedem desculpa pelo resultado do referendo. “Felizmente ainda vai havendo estes momentos de lucidez”, desabafa.

Ficar ou sair? Eis a questão para milhares de portugueses

Momentos como estes são, contudo, cada vez menos frequentes na vida de Ricardo, que se vai isolando. Comprador habitual do The Times e espectador da BBC, começou a reduzir a sua dieta de notícias por sentir que estava farto de ouvir “comícios anti-Bruxelas”. Os contactos com os britânicos começam também a diminuir, por desgaste com a situação política. O português, que, durante a conversa com o Observador, recorda a troca de impressões com outros estrangeiros como um amigo polaco, sente-se agora isolado. “Estou praticamente sem amigos, já foram todos embora. Parecemos a Jangada de Pedra do Saramago, andamos aqui à deriva…” diz sobre a sua situação e a dos outros imigrantes portugueses no Reino Unido.

"Estou praticamente sem amigos, já foram todos embora. Parecemos a Jangada de Pedra do Saramago, andamos aqui à deriva..."
Ricardo Castro, gestor comercial português a viver em Oxford com a família desde 2015

Cecília (nome fictício) é uma das poucas amigas portuguesas de Ricardo que ainda não pegou na mala para partir. Prefere não ser identificada, para não ter problemas no colégio onde trabalha, “servindo cafés e fazendo um pouco de tudo”. Em Portugal, trabalhou 14 anos como professora de História, mas viu-se sem emprego. “Fui obediente. Como houve um governante que disse que os professores deviam emigrar, foi o que fiz”, afirma com ironia, referindo-se ao conselho deixado por Passos Coelho aos professores em 2011, antes de soltar uma gargalhada. Cecília é despachada, de palavrão fácil, “uma mulher do Norte” como a própria se define. Mas, apesar disso, reconhece que tem medo no seu dia-a-dia.

A viver em Oxford há seis anos, diz que sempre se sentiu desagradada com o que considera ser a frieza dos britânicos: “Estou num país que não é o meu e do qual nunca gostei particularmente. Mas tinha 38 anos e não queria que a minha mãe me sustentasse para sempre. Portanto, fui-me virando, até fiz limpezas quando cheguei”, conta. E também sempre sentiu o desagrado por parte da maioria dos britânicos face aos estrangeiros, percebendo rapidamente que o seu período como emigrante seria temporário. Na escola, apostou 50 libras em como o ‘Sair’ iria vencer no referendo — e ganhou. “E se houvesse um segundo referendo, voltava a apostar o mesmo”, atira.

Diariamente, enfrenta um país que lhe diz repetidamente que não a quer, garante. No trabalho, uma colega queixa-se porque o neto “não tem um único amigo que fale inglês na escola”. Na rua, os episódios de insultos sucedem-se: “No dia do referendo, estava a sair de um autocarro quando um velho me esfregou a bandeira do Reino Unido na cara e me disse ‘Ó polaca, está na hora de ires para casa’. Quando lhe disse que era portuguesa, respondeu ‘Então vai para a tua terra fazer bombas’.”

"No dia do referendo, estava a sair de um autocarro quando um velho me esfregou a bandeira do Reino Unido na cara e me disse 'Ó polaca, está na hora de ires para casa'. Quando lhe disse que era portuguesa, respondeu 'Então vai para a tua terra fazer bombas'."
Cecília, portuguesa a viver em Oxford há seis anos

Perante tudo isto, Cecília já tem os planos feitos: quer esperar que a situação política se defina em Westminster e, depois, venderá as suas coisas, fará as malas e regressará a Portugal. “Quero ir pela minha mãe, para não a deixar sozinha, mas também por mim, pela minha saúde mental. Era algo que eu já queria, mas o Brexit acelerou tudo. Não sei até quando me sentirei segura na rua”, confessa. Ricardo, sentado ao lado, abana a cabeça em silêncio, em sinal de concordância. “Houve uma altura em que só me sentia seguro quando chegava a casa e fechava a porta”, confessa o gestor comercial, que evita falar ao telefone com o pai na rua para não ser ouvido a falar português. “Temos de aprender a viver com o medo. Foi uma coisa que vi nos livros de História, mas não tinha noção de que não estava preparado para isto. No Natal, fui a Portugal e nem fui capaz de abrir a boca para falar sobre isto. Era muito difícil.”

Agora, vai aprendendo a lidar com a situação. Com Cecília, troca episódios sobre “os cámones” quase como quem troca cromos e tenta rir dos problemas. No dia da saída, seja ele qual for, a portuguesa já decidiu o que vai fazer: “Chorar não vou chorar, já chorei muito. Agora, no dia em que for, vou pôr um CD e música a tocar à meia-noite!”, atira, provocadora. “Mas isto não tinha de ser assim…”, concede a portuguesa, sobre todo o processo do Brexit.

O português Guilherme Rosa foi eleito para o council de Lambeth em 2014 (CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

(CÁTIA BRUNO/OBSERVADOR)

Se em Oxford há quem viva ansioso por um processo que ninguém sabe ao certo como e quando vai chegar ao fim, em Little Portugal está tudo mais descansado. Mas nem por detrás dos muros invisíveis que separam a pequena comunidade que se espalha pelos arredores da South Lambeth Road se está completamente protegido do imprevisível. Em caso de uma saída sem acordo, as consequências do Brexit são uma incógnita. E Guilherme Rosa teme o pior: “Há sempre a possibilidade de haver contestação social e os portugueses que vivem nos bairros sociais são bons bodes expiatórios. Somos um alvo fácil para as frustrações deles”, avisa, relembrando que, em 2011, Londres foi palco de motins violentos sem explicação aparente. “Pode ser que não dê em nada, mas o seguro morreu de velho…”

No Grelha d’Ouro, onde se juntam para jantar portugueses, britânicos e imigrantes de outras nacionalidades, esse parece, por agora, um cenário apocalíptico e impensável. Mas até o patrão José Rodrigues, que está plenamente confiante de que os britânicos irão afastar May e, depois, arranjar apoio para um segundo referendo, preocupa-se com o aumento das taxas alfandegárias caso haja um chamado hard Brexit. Com um no deal, acho que nem foxes [raposas] ia haver em Londres, porque eles iam comê-las!”, afirma com um sorriso. O cenário para este empresário português é tão de pesadelo que se torna quase risível. Mas o risco, esse, permanece lá — e, para os comerciantes portugueses, também existe. Em caso de saída sem acordo, acaba por dizer José, talvez não restem tantos negócios portugueses com a porta aberta nas ruas de Lambeth. “Se saírem com no deal, daqui a seis meses isto está deserto. Ninguém se vai aguentar.”

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