Reportagem em Manchester. A velha glória, o elefante na sala e o regresso /premium

24 Outubro 2018573

O Observador esteve na cidade dos red devils, assistiu ao Manchester United-Juventus, percebeu que já ninguém quer José Mourinho e que Ronaldo consegue ser ídolo e tabu. Leia a reportagem.

“Já o transportei umas vezes, a ele e ao adjunto… É um tipo baixinho, até. Nunca sorri, esse Mourinho!” — foi desta forma que começou o dia em Manchester, logo à saída do aeroporto, em conversa com um taxista. “John” — chamemos-lhe assim — é adepto fervoroso do Manchester United, “desde sempre”, e gaba-se de já ter transportado vários jogadores (“Ainda noutro dia levei o Jesse Lingard”, conta). “Os jogadores já não o respeitam”, diz o condutor que afirma não falhar um único jogo em Old Trafford. O centro da cidade ainda estava a uns 20 minutos de distância mas olhando para as ruas quase desertas e cinzentas, nunca se imaginaria que nessa noite ia haver jogo grande.

O United jogaria contra a Juventus, para a Liga dos Campeões, estando a atravessar uma fase difícil sob o reinado do português José Mourinho. A somar a tudo isto, havia o regresso, pela segunda vez desde que saiu do Reino Unido, de Cristiano Ronaldo à sua segunda alma mater (a seguir ao Sporting) — estando o próprio CR7 a atravessar o momento mais conturbado da sua carreira. As expectativas eram altas, mas na cabeça dos adeptos dos red devils só havia um pensamento: Mourinho já não é bem visto aos comandos da equipa encarnada. Bring back Alex Fergusson!” — a última frase proferida por “John” só o confirmava.

Esteve um dia frio e cinzento em Manchester, aquele clássico em terras de Sua Majestade. Até poucas horas antes do jogo, ninguém adivinharia que era dia de jogo grande — o maior, talvez, desta fase de grupos da Liga dos Campeões. Ruas quase desertas e nem um pingo de vermelho e branco nas ruas. Sinal da crise vivida em Old Trafford? Talvez. A verdade é que só quando Denis Law falou é que a famosa mística dos red devils deu um ar de sua graça.

Na apresentação oficial de um uísque feito em parceria entre o clube inglês e a Chivas, o grande convidado era a lenda que ajudou a roubar ao Benfica a Taça dos Campeões de 1968 (o tal destilado especial comemora a data redonda, 50 anos). “Em 1958, o Manchester United perdeu metade da sua equipa naquele trágico acidente de avião. Se pensarmos que o Sir Matt Busby sobreviveu ao desastre e, dez anos depois, conquistou a Taça dos Campeões… É simplesmente incrível, não é?” — foi esta a primeira intervenção do homem que Sir Alex Fergusson considera ídolo, o único escocês vencedor da Bola de Ouro (um ano antes de Eusébio). Com o natural peso da idade já sobre si, Law falava para o pequeno auditório com um olho semicerrado, mesmo assim, boa disposição não lhe faltava: “Quando jogas com pessoas como o Bobby Charlton e o George Best, é fácil estares sempre a ganhar”, afirmou de sorriso na cara.

“Vocês são demasiado novos para se recordarem disto” atirou, antes de dar umas luzes sobre como era jogar naqueles tempos. “A partir de novembro os relvados viravam campos de lama, não têm ideia do que isso era!”, explicou. Sobre a fama de ser um jogador agressivo — por vezes demasiado —, Denis, o homem que inspirou os pais de Dennis Bergkamp a nomearem o seu filho (ficou com mais um “n” porque o registo civil holandês não reconhecia o nome só com um), culpa… a mãe: “Ela sempre me disse que se algum menino me desse um pontapé, eu devia dar-lhe outro com mais força.” Aproveitou a deixa para recordar a primeira vez que foi expulso, numa partida perto do Natal, que lhe rendeu um mês de suspensão — “Calhou mesmo bem porque pude passar as festas com a minha família, na Escócia! Passei a fazer isso todos os anos! [risos]”.

Denis Law, a velha glória do Manchester United. ©Diogo Lopes/Observador

O tom divertido da conversa só foi agitado quando o questionaram sobre que achava dos avançados do Manchester United: “Gosto muito daquele miúdo rápido que nós temos, desculpem mas não sei pronunciar o nome dele [Marcus Rashford], aliás, quase não consigo dizer o nome de nenhum dos nossos três avançados [Romelu Lukaku e Anthony Martial], quem me dera conseguir.” No seguimento da sua intervenção revelou que ainda se sente entusiasmado pela força atacante do clube que já representou, que gosta de ver golos, futebol atacante e jogadores que passam para a frente “e não para trás”. A lenda dos red devils depois escolheu não dizer mais nada, afirmando num tom meio brincadeira, meio a sério que os temas de conversa tinham ficado “bastante sérios”.

Terminada a conversa ficava a faltar o grande jogo em si, o histórico duelo com a Juventus, clube que mais vezes defrontou o United na Liga dos Campeões (12 encontros, cinco vitórias, dois empates e cinco derrotas) e que tantas ligações partilha com o clube de George Best, ora veja-se: o guarda-redes Edwin van der Sar foi um ícone de ambos os emblemas, assim como Paul Pogba, por exemplo, e, claro, Cristiano Ronaldo.

O elefante na sala dos Devils

Mourinho queixou-se do trânsito à volta do estádio e chegou mesmo a sair do autocarro que trazia os seus jogadores e fazer parte do trajeto até Old Trafford. Nessa mesma altura, enquanto o treinador português “descolava do pelotão”, o Observador estava num táxi com mais dois adeptos do Manchester United. Filipe é norte-americano de ascendência colombiana, nasceu em São Francisco mas mora no Reino Unido “há uma série de anos”; Graeme é escocês, não mora em Inglaterra e isso fez com que passasse “uns vinte anos” sem vir ao Teatro dos Sonhos (“Da última vez que tive aqui tinha uns 15 anos!”). Duas pessoas diferentes, dois estilos de conversa distintos.

O "Teatro dos Sonhos" em dia de jogo grande. ©Diogo Lopes/Observador

“Eu odeio o Mourinho, mas quero que o United destrua aquele violador, como se diz aí” — Foi desta forma seca e direta que Filipe quebrou o gelo e destapou o elefante na sala. Durante o dia, nem na televisão nem nas ruas se ouvia alguém a falar do alegado caso de abuso sexual que envolve o CR7. “Tenho a certeza que ele o fez, o Der Spiegel é um dos melhores sítios para jornalismo de investigação!”, acrescentou. “É capaz de ser verdade, sim. Eles nunca publicariam uma coisa tão impactante se não tivessem a certeza”, acrescentou Graeme. Num dia inteiro passado entre adeptos de futebol e, acima de tudo, do Manchester United, não houve ninguém a falar do polémico caso. Sempre que se tentava puxar o assunto, a resposta era sempre algo como: “Ui… É muito complicado, uma tristeza”. Se já não era exagero considerar este tema como sendo tabu, aquilo que se viu e não ouviu na cidade onde Ronaldo explodiu só o confirma. Até Marta, uma rapariga espanhola que bebericava um refresco de laranja na zona de comidas em Old Trafford pareceu querer evitar o assunto. Afirmou que achava tudo “demasiado específico e detalhado” para ser mentira, mas não tardou em desviar o tema da conversa e contar que os seus irmãos , “madrileños desde nascença”, gozaram com ela quando souberam que ia ver “o Judas” jogar.

Pelos vistos não é só em Portugal que Cristiano parece ser “demasiado grande” para estar associado a um possível crime desta natureza. Fica a ideia de que meio mundo continuará a assobiar para o ar e evitar o tema. Até quando? Quem sabe. Independentemente de tudo isto, os adeptos do United não conseguiram ignorar o português que em tempos tanto lhes deu.

Welcome home”, era o que se lia em muitos dos cartazes que salpicavam as bancadas do Teatro dos Sonhos. Visitados e visitantes ainda só faziam exercícios de aquecimento quando Ronaldo foi logo recebido com aplausos. Discreto e concentrado, agradeceu. Discreto e concentrado manteve-se também durante quase toda a partida.

Há sempre um momento em que todos nos apercebemos que está na hora de passar testemunho, dar hipótese a outros de crescer, aparecer e brilhar. Por muito que Edward, o colega do lado na bancada este de Old Trafford, quisesse que Cristiano tivesse regressado a Manchester, admite que a Juventus pode ter sido uma boa opção. “Tem menos jovens talentos que outras equipas, menos possibilidades de ficar no banco a vê-los jogar. Ao menos ali ainda tem protagonismo”, revelou. Seja verdade ou não, o que é certo é que na Vecchia Signora o astro português está longe de ter o protagonismo de outros tempos — pelo menos dentro do campo. Durante todo o jogo — dominado pela Juve do início ao fim— não soltou aquelas suas arrancadas típicas ou desmarcações fulminantes. Mais reservado, deixava as correrias para o jovem Dybala, o “mascarado” que gelou o estádio quando aos 17 minutos limitou-se a encostar a bola para dentro da baliza. Ora aqui está a tal transição: A Jóia, como é conhecido o argentino, está com espaço para brilhar e Cristiano parece feliz com isso.

Casa cheia no Manchester United-Juventus. ©Diogo Lopes/Observador

A partir do golo dos bianconeri o estado de espírito nas bancadas esmoreceu. Os 73.946 adeptos  que nos arredores do estádio já entoavam cânticos de apoio passaram a não se levantar das cadeiras tantas vezes, a deixar maiores intervalos de tempo entre os gritos “United! United! United!”. Antes do golo, tudo corria bem, até a invasão de campo aos três minutos foi tida como piada: “Se era para fazer isto mais valia ter feito no fim, assim ainda via o jogo!”, comentou alguém nos lugares de trás. O United jogava de forma aborrecida, não parecia estar interessado em dar velocidade ao jogo e criatividade nem vê-la. “O Mourinho perdeu a sua magia”, comentou Patrick. “Ele antes tinha aquela mentalidade ‘somos nós contra o Mundo’ e os jogadores alinhavam. Agora não, já não o respeitam.” O percurso do técnico português parece cada vez mais sinuoso, a pressão é cada vez maior mas o que vale é que os adeptos ingleses (hooligans à parte) são dos mais civilizados que existe. Nunca criticaram o árbitro, por exemplo, e preferiram sempre culpar os jogadores pelo falhanço de uma jogada — a demonstração clara de uma mentalidade “se estamos mal é culpa nossa, não dos outros”, algo que o futebol português podia adotar.

Se mais provas fossem necessárias para demonstrar do que são feitos estes adeptos, basta recordar o momento de extremo perigo para as redes de De Gea quando o próprio defendeu um remate espetacular do capitão da Seleção. Aplaudiram tanto a tirada acrobática do guarda-redes espanhol como o pontapé de Cristiano (“Que jogada fantástica!”). Até aplaudiram Dybala quando este foi substituído.

A selfie e a apoteose

O cronómetro ia correndo e com ele desapareciam as esperanças dos red devils, tanto dos que estavam nas bancadas como dos que estavam em campo. Numa das últimas jogadas do encontro, Rashford está junto à linha lateral, pede a bola a Young e este faz um passe disparatado. O jovem desiste do lance e faz aquele agitar de braços típico de quem quer dizer “olha, que se lixe” e não pode. Apesar do pequeno ressuscitar motivado pela bola de Pogba ao poste, os fãs já davam tudo por perdido e começaram a sair do estádio quando ainda faltavam quase 15 minutos para o fim.

Aos poucos ia acontecendo um autêntico êxodo nas bancadas e quando soou o apito final o estádio já tinha perdido quase metade da sua ocupação. Quem saiu mais cedo, porém, acabou por perder o melhor drible da noite e a selfie que seguramente vai render uma chuva de likes nas redes sociais.

A equipa italiana foi agradecer aos seus adeptos com um salto de mãos dadas — por esta altura, o plantel do United já devia estar a sair do banho, abandonara o relvado rapidamente — e, quando regressava ao túnel, o segundo invasor da noite começou a correr na direção dos bianconeri. Quem é que ele procurava? Ronaldo, claro. O veloz infiltrado quase conseguiu chegar ao português, antes de ser placado por dois seguranças. Cristiano foi ter com ele, pediu calma aos stewards e tirou uma foto com o invasor. Enquanto tudo isto acontecia, de trás surge um rapaz pequeno que viria a dar alguma alegria aos ingleses que ainda estavam nos seus lugares ao fintar três seguranças e arrancar das bancadas um coro de “Olés!” e muitos sorrisos.

José Mourinho está a viver uma fase problemática no United

Resolvida a confusão, CR7 prosseguiu sozinho — foi o último jogador a sair do relvado — com todo o estádio a gritar o seu nome. O português ripostou com acenos e as mãos junto ao coração. Costuma-se utilizar a expressão “o regresso do filho pródigo” para episódios deste género, porém, dada a incerteza pesada que recai sobre o jogador (pelos piores motivos possíveis), é preferível guardá-la para outro momento — da mesma forma que Cristiano ainda guarda o seu amor e admiração pelo universo que é o Manchester United.

O Observador viajou a convite da Chivas

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