Roda, roda, vira: o ano em que o Brasil (re)descobriu as vozes portuguesas

30 Dezembro 2017157

Desde os anos 40 que não se ouvia tanto sotaque lusitano no Brasil, muito antes de Zambujo e Carminho chegarem pelas mãos do produtor João Mário Linhares, que conta ao Observador como tudo aconteceu.

Estão 35 graus à sombra e já são seis da tarde. Maria Vitória, vítima de um golpe de Lucinda, decide voltar a Portugal de navio e é surpreendida por um atentado, mesmo na abertura da novela das seis, “Tempo de Amar”, que anuncia um novo capítulo pela voz suave de Salvador Sobral. Acaba a novela e vamos a caminho do Vivo Rio, sala de espetáculos carioca, onde Carminho continua a digressão de casas lotadas. O taxista sobe o volume da rádio e ouve-se o novo single do pop star Filipe Catto, a fazer sua melhor imitação de António Variações: “Tu estás livre e eu estou livre”. Na semana passada, isto podia ser uma tarde na vida de qualquer carioca, no coração da música brasileira e rodeado pelo cante lusitano. Como chegámos aqui?

Se em 1500 foi a descoberta do Brasil pelos portugueses, em 2017 foi a descoberta de Portugal pelos brasileiros, ou pelo menos, da música portuguesa, presença constante e invulgar neste ano brasileiro de convulsões. Porém, a geração que hoje se encanta com António Zambujo e Carminho, os dois pilares desta invasão lusitana, não têm idade suficiente para recordar que a música portuguesa já esteve nos grandes palcos brasileiros. Agora, retornou triunfante, e podemos dar razão a Carminho na releitura de “Sabiá”:

“Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar”

“Quando era criança, em Santo Amaro, ouvia fados e quando cantava tentava imitar o jeito português de pronunciar as palavras”, contou Caetano Veloso ao Observador no início do ano. “Com 12, 13 anos, no show do ginásio, eu cantava fados e as pessoas ficavam impressionadas. Eu ainda com a voz fina de criança, fazendo um pouco de arabescos portugueses na voz e imitando o sotaque português”. A música portuguesa, sobretudo com o fado de Amália Rodrigues e as declarações românticas de Francisco José, faziam parte da cultura popular no Brasil que viu crescer Caetano e colegas que revolucionaram a MPB, assim como da geração anterior, dos bossa-novistas.

“Modinha” é uma canção de Tom Jobim, com versão de Carminho e Maria Bethânia no álbum Carminho Canta Tom Jobim, e para qualquer musicólogo, a palavra “modinha”, ou moda portuguesa, é também um dos estilos musicais mais ouvidos no Brasil do século XIX aos anos 40. Orlando Silva, um dos pais da cantiga brasileira, arriscava modinhas e até sotaque tuga, e claro, é sempre bom lembrar que na mesma altura reinava Carmen Miranda, nascida em Marco de Canaveses.

Fora do eixo Rio-São Paulo, a música portuguesa influenciou de forma sorrateira o Baião Nordestino, assim como o bê-á-bá das tradições gaúchas. Além disso, e por consequência do tráfico português de escravos africanos, florescia o lundu, talvez o estilo que mais ligou os dois países musicalmente. Se acreditarem na palavra de estudiosos como Rui Vieira Nery, o lundu carioca foi primordial para a gestão do fado como o conhecemos, que pode explicar a sintonia musical de Carminho em terra brasilis.

“Ai cachopa, se tu queres ser bonita”

“Mas e então”, questionam-se vocês, “como é que a música portuguesa passou de quase samba-canção para décadas de maldita Geni, feita pra apanhar e boa para cuspir, como no hino de Chico que Zambujo cantou este ano?”. Não existe uma explicação precisa, mas é razoável afirmar que com a explosão da MPB e de toda a infindável riqueza musical brasileira, a presença portuguesa na rádio quase que desapareceu, lembrando que nestas relações ancestrais de colonizadores com ex-colónias, existe sempre uma saudável renega à antiga cultura dominante.

Sobre a recente “moda portuguesa”, da música aos vistos Gold, Ricardo Noblat, o colunista do jornal O Globo, sublinhou há poucos dias como esta migração cultural não está a ser suficientemente comentada: “Esse silêncio é significativo e merece ser apontado, na medida em que ele traduz um certo estado de espírito em relação a Portugal, que vem pelo menos desde a independência do Brasil e foi sendo instituído (muitas vezes de forma até inconsciente) de maneira a consolidar, pela diferença e pelo afastamento, a própria identidade nacional.”

Antes de Zambujo e Carminho se afirmarem neste ano, a percepção da música portuguesa nos últimos tempos era quase restrita a um único nome: Roberto Leal e o hit “Arrebita”, aquele que vai assim:

“Ai cachopa, se tu queres ser bonita
Arrebita! Arrebita! Arrebita!”

O fado tinha desaparecido das rádios, e os emigrantes portugueses que ficaram no país viam com agrado a propagação do folclore saudosista de Roberto Leal, uma piada sem fim para o povo brasileiro, a render até uma magnífica homenagem pelos Mamonas Assassinas. Por outro lado, a interpretação do vira, sem a cena de “uma tal de suruba”, foi uma das canções no crucial primeiro álbum de Secos e Molhados, pela influência forte que a música lusitana tinha deixado no jovem e performático Ney Matogrosso, peça importante deste puzzle que meteu novamente os ouvidos brasileiros atentos ao sotaque tuga.

“Madredeus e Dulce Pontes conseguiram algum sucesso, e aconteceram alguns discos comemorativos bem sucedidos”, conta ao Observador o empresário e produtor JOão Mário Linhares, que levou Zambujo e Carminho para o Brasil, “mas nunca existiu nenhum investimento como o que fizemos agora”.

Se Roberto Leal era o único português bem sucedido, alguns gigantes da MPB “flirtavam” com a nossa música, como Chico Buarque em “Fado Tropical” e “Tanto Mar”; Caetano em “Os Argonautas”; Moraes Moreira quando grava com os Trovante; e sobretudo Ney Matogrosso, primeiro com “O Vira” e depois “Dança da Lua”, dueto com Eugénia Melo e Castro. O empresário de Ney Matogrosso, João Mário Linhares, acompanhava os encontros e desencontros dos artistas portugueses, com dificuldade a entrar num mercado altamente competitivo. “Madredeus e Dulce Pontes conseguiram algum sucesso, e aconteceram alguns discos comemorativos bem sucedidos”, conta ao Observador o empresário e produtor que levou Zambujo e Carminho para o Brasil, “mas nunca existiu nenhum investimento como o que fizemos agora”.

Convites irrecusáveis

No dia que conversámos com o empresário e produtor de Ney Matogrosso, Milton Nascimento, João Bosco, Roberta Sá e tanta outra gente, dono da produtora Muito Prazer, Brasil (MP,B), celebra-se a lotação esgotada de Carminho em Brasília, três dias antes de tocar no Rio de Janeiro, e apenas um mês depois de Zambujo fazer sete datas seguidas no país. “Isto demanda um investimento muito grande, de passagens e equipamento muito caros, e investimento de tempo, é um risco”. Apaixonado pela voz e o cântico desde o início dos 40 anos de carreira, João Mário Linhares foi quem levou Tom Jobim para o célebre concerto no Mosteiro dos Jerónimos, nos anos 90. “E muito outros, desde os meus artistas, como Ney, Milton a Roberta Sá, como músicos não exclusivos, a Maria Rita, o Chico Buarque, Zeca Pagodinho, Djavan”, explica a partir do escritório da MP,B. “E em todas essas viagens a Portugal sempre me cobrava: porque ainda não levei nada da música portuguesa para o Brasil?”

O primeiro convite irrecusável foi ao “excelente guitarrista português”, Pedro Jóia, para acompanhar Ney Matogrosso no Brasil durante cinco anos. Noutra viagem à terrinha, o produtor Ricardo Cruz apresenta-lhe Outro Sentido, álbum de 2007 de António Zambujo, que convence finalmente João a arriscar as economias pela música portuguesa. “Organizei um show para lançar o álbum no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico”, recorda. “E convidei Caetano e Moreno Veloso, Ney Matogrosso, João Bosco, e Roberta Sá.” A receita, de apresentar um prato desconhecido (Zambujo) e acrescentar ingredientes brasileiros (músicas e músicos), seria o segredo do produtor, que resultou nesta grande barrigada de sucesso em 2017.

“Quando a Carminho vem fazer o show, pergunto que três artistas brasileiros ela gostaria de cantar”, lembra João Mário Linhares, da segunda vez que testa a receita de sucesso. “Ela escolheu o Chico, Milton e Nana Caymmi.” O empresário de Chico, Vinicius França, seria quem aceitaria ajudar João para esta empreitada de “vender” a fadista, e tanto Milton como Nana eram amigos de longa data. “Hoje sem dúvida, são os dois artistas portugueses mais famosos no Brasil”, confirma. “Nunca tive a menor dúvida que estavam ali dois cantores maravilhosos, cada um na sua sua arte, no seu jeito, o Zambujo no caminho de Caetano e João Gilberto, e Carminho naquela intensidade toda.”

No final do ano passado, Carminho lança o álbum com covers de Jobim, e o produtor sugere para Zambujo que grave um disco apenas com versões de Chico Buarque, que seria o Até Pensei que Fosse Minha, escolhendo a dedo o reportório para o cantor alentejano. A digressão consequente de Zambujo é um êxito, na mesma altura que Salvador Sobral se ouve no genérico da novela “Tempo de Amar” — passo crucial para qualquer artista brasileiro — e Carminho revela ser a participação surpresa em duas músicas dos Tribalistas, entre elas “Os Peixinhos”, banda sonora destas compras de Natal no Brasil em qualquer shopping perto de si.

“É preciso um grande investimento mesmo”

“Estive agora no Rio a ver o concerto de Zambujo no Circo Voador, e as pessoas adoram-no, não estavam lá para ouvir as canções de Chico Buarque, mas sim para ouvir António Zambujo”. A nossa testemunha ocular é a rapper Capicua, outro nome recorrente neste ano repleto de música portuguesa. “No caso de Zambujo e da Carminho, já existe um reconhecimento muito palpável”, confirma ao Observador, “mas não sei se isso já se pode estender à totalidade dos músicos portugueses”.

Para Capicua, o repentino interesse na nossa música vem de um ano em que “os brasileiros estão a descobrir Portugal, e que tudo no Brasil parece envolver Portugal, desde gastronomia a música”. “Senti isso nas duas vezes que viajei ao Brasil este ano”, continua, “as pessoas ou vêm de Lisboa ou querem ir para Lisboa, existe uma abertura muito maior para o que vem de Portugal, e claro que isto tudo é apenas para uma elite com capacidade de viajar e conhecer.”

“Agora, no meu Spotify, onde tenho mais ouvintes é em São Paulo, seguido de Lisboa, Rio de Janeiro, e só depois a minha cidade, o Porto”. Sobre o próximo ano, e possível ainda maior abertura ao mercado brasileiro, Capicua confirma o que João Mário Linhares já nos tinha confessado. “Para fazer uma carreira no Brasil e editar discos é preciso um grande investimento mesmo”, diz.

“Espero que outras pessoas venham fazer sucesso, como o Miguel Araújo, acho ele maravilhoso, e continua existindo muita demanda de música portuguesa”, sugere João Mário Linhares em despedida. O precedente está aberto, e agora são os músicos brasileiros atentos ao outro lado do oceano, com exemplos na versão power pop de “Canção de Engate” por Filipe Catto, o prestigiado sambista Diogo Nogueira com D.A.M.A., e Diogo Piçarra com Anavitória, dupla vencedora dos Grammys latinos, e parte do movimento de nome caricato fofolk (que quer dizer precisamente “folk fofo”). As grandes editoras já perceberam esta movimentação intercontinental, tanto Piçarra como Anavitória são da Universal Music e Raquel Tavares lançou este mês um álbum apenas com músicas do rei, Roberto Carlos por Raquel Tavares, a convite de Max Pierre, diretor da Sony Music no Brasil.

Foi bonita a festa pá, neste 2017, mas, apesar de tudo, “ainda há léguas a nos separar, tanto mar, tanto mar”, nomeadamente, a senhora Carminho, que tem insistido — de forma adorável, é verdade — a trocar os “vocês” por “tus” nas canções. “Para mim, tratar algum amor por você é falar com o avô, com o presidente, é muito respeitoso”, explicou nesta digressão brasileira, onde revelou que até pediu a devida autorização a Chico Buarque numa das canções. E depois houve a desastrosa crítica na Folha de São Paulo aos concertos de Virgul, Carlão e HMB no Rock in Rio, que chama o hip hop tuga de “tímida cena portuguesa de género” e que “quem assistiu ao show saiu acreditando que o hip-hop português ainda está no jardim de infância”. Felizmente, sabemos que não é bem assim. E mesmo neste eixo Portugal-Brasil, contra a maré, apareceu o coletivo hip hop Língua Franca, com Emicida, Valete, Rael e Capicua, sendo que a rapper portuense esteve ainda este ano ao lado de Manuel Cruz no festival MIMO (Rio de Janeiro) e deu aval aos Paralamas do Sucesso para gravarem “Medo do medo”.

“Agora, no meu Spotify, onde tenho mais ouvintes é em São Paulo, seguido de Lisboa, Rio de Janeiro, e só depois a minha cidade, o Porto”, revela satisfeita a mulher de Língua Franca. Sobre o próximo ano, e possível ainda maior abertura ao mercado brasileiro, Capicua confirma o que João Mário Linhares já nos tinha confessado. “Para fazer uma carreira no Brasil e editar discos é preciso um grande investimento mesmo”, diz. “Não é fácil penetrar num mercado tão competitivo, é preciso uma estratégia completa, continuada, com divulgação, tournée, com a colaboração de artistas brasileiros, se eu quiser consolidar o trabalho no Brasil que fiz este ano, se calhar preciso de um investimento que não tenho, de dinheiro, lobby e tempo.”

“Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização”

Assim começa Zambujo na primeira canção de Até Pensei que Fosse Minha, que podia ser este exercício de tentar descobrir a origem da música portuguesa a florescer no Brasil, vestígios de estranha civilização que chegou em 1500, deixou algumas canções e foi embora, para voltarem em 2017 a passar fadunchos na rádio, como se estivessemos nos anos 40. Estará este rejuvenescimento relacionado com a recente emigração da classe alta brasileira para Lisboa, que como o escritor Ruy Castro disse este mês: “Só uma coisa me preocupa por lá. Brasileiros de mais”. Ou é algo como um daqueles programas de intercâmbio de estudantes, nós ficamos com Mallu Magalhães, Marcelo Camelo e Adriana Calcanhoto, e eles com Zambujo e Carminho? E o futuro da MPB, será uma encruzilhada com os ritmos de Portugal? Agora, Zambujo podia abrir o livro dos versos emprestados por Chico Buarque, puxar o sotaque alentejano e acalmar-nos:

“Não se afobe, não
Que nada é pra já”.

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