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Até ao final da década de 1940, Rosaleen Norton era apenas uma estudante de arte de Sydney, Austrália. Tudo mudou quando, em 1949, conseguiu expor o seu trabalho na Rowden White Gallery, uma pequena mas respeitada galeria que pertencia à biblioteca da Universidade de Melbourne. Apesar do seu estilo peculiar, marcadamente esotérico, os responsáveis acreditaram que a exposição seria inofensiva e que não causaria drama. Não podiam estar mais enganados — em vez de chamar atenção para o trabalho da artista, a mostra da Rowden White causou um escândalo após alguns visitantes terem considerado os desenhos obscenos. A exposição levou à abertura do primeiro processo em tempos modernos contra uma mulher artista na Austrália e revelou um lado de Norton até então escondido, o do fascínio pelo oculto. As imagens das suas pinturas não eram meras imagens, admitiu a artista em tribunal. Eram uma representação de práticas esotéricas que realizava.

O caso, seguido atentamente pelos tabloids australianos, foi o início da lenda da Bruxa de Kings Cross, nome pelo qual Norton ficaria conhecida após a sua mudança para o bairro boémio de Sydney. Nos anos seguintes, Norton foi constantemente assediada pelas autoridades, que arranjavam qualquer desculpa para a levar a detida. Foram várias as noites que passou na cadeia juntamente com o poeta Gavin Greenlees, companheiro inseparável, acusada de vários tipos de crimes mas mais frequentemente de depravação. A vida libertina de Norton e Greenlees, com a sua arte irreverente, a prática da magia (sobretudo sexual) e festas de quase 24 horas com álcool, drogas e sexo, chocava a população ultra conservadora de Sydney, que via no par uma ameaça à moral e aos bons costumes cristãos.

Só anos mais tarde, após a revolução social, sexual e até espiritual dos anos 60, é que Norton foi reconhecida como aquilo que sempre foi — uma artista inovadora e sem igual no panorama artístico australiano da primeira metade do século XX e uma mulher independente e à frente do seu tempo, que nunca teve receio de viver a vida que queria e de explorar abertamente e sem preconceitos sua sexualidade e espiritualidade através do desenvolvimento de uma forma de paganismo que girava em torno da figura de Pã. A recuperação da sua imagem começou nos anos 80, com a divulgação da sua arte em vários lançamentos e da reinterpretação da sua vida através da biografia do antropólogo Nevill Dury, Pan’s Daughter: The Strange World of Rosaleen Norton, e teve agora um novo e importante capítulo: o lançamento de um documentário sobre um “génio notoriamente escandaloso”, “The Witch of Kings Cross”.

[O trailer de “The Witch of Kings Cross”, documentário realizado por Sonia Bible:]

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