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Rosaleen Norton fotografada em junho de 1943 para a Pix Magazine

Mitchell Library, State Library of New South Wales and Courtesy ACP Magazines Ltd.

Rosaleen Norton fotografada em junho de 1943 para a Pix Magazine

Mitchell Library, State Library of New South Wales and Courtesy ACP Magazines Ltd.

Rosaleen Norton: artista visionária, mulher à frente do seu tempo e bruxa de Kings Cross /premium

Na ultra conservadora sociedade australiana dos anos 50, Rosaleen Norton chocou ao viver a vida que queria, fazendo arte esotérica e praticando magia. Um novo documentário recupera a sua história.

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Até ao final da década de 1940, Rosaleen Norton era apenas uma estudante de arte de Sydney, Austrália. Tudo mudou quando, em 1949, conseguiu expor o seu trabalho na Rowden White Gallery, uma pequena mas respeitada galeria que pertencia à biblioteca da Universidade de Melbourne. Apesar do seu estilo peculiar, marcadamente esotérico, os responsáveis acreditaram que a exposição seria inofensiva e que não causaria drama. Não podiam estar mais enganados — em vez de chamar atenção para o trabalho da artista, a mostra da Rowden White causou um escândalo após alguns visitantes terem considerado os desenhos obscenos. A exposição levou à abertura do primeiro processo em tempos modernos contra uma mulher artista na Austrália e revelou um lado de Norton até então escondido, o do fascínio pelo oculto. As imagens das suas pinturas não eram meras imagens, admitiu a artista em tribunal. Eram uma representação de práticas esotéricas que realizava.

O caso, seguido atentamente pelos tabloids australianos, foi o início da lenda da Bruxa de Kings Cross, nome pelo qual Norton ficaria conhecida após a sua mudança para o bairro boémio de Sydney. Nos anos seguintes, Norton foi constantemente assediada pelas autoridades, que arranjavam qualquer desculpa para a levar a detida. Foram várias as noites que passou na cadeia juntamente com o poeta Gavin Greenlees, companheiro inseparável, acusada de vários tipos de crimes mas mais frequentemente de depravação. A vida libertina de Norton e Greenlees, com a sua arte irreverente, a prática da magia (sobretudo sexual) e festas de quase 24 horas com álcool, drogas e sexo, chocava a população ultra conservadora de Sydney, que via no par uma ameaça à moral e aos bons costumes cristãos.

Só anos mais tarde, após a revolução social, sexual e até espiritual dos anos 60, é que Norton foi reconhecida como aquilo que sempre foi — uma artista inovadora e sem igual no panorama artístico australiano da primeira metade do século XX e uma mulher independente e à frente do seu tempo, que nunca teve receio de viver a vida que queria e de explorar abertamente e sem preconceitos sua sexualidade e espiritualidade através do desenvolvimento de uma forma de paganismo que girava em torno da figura de Pã. A recuperação da sua imagem começou nos anos 80, com a divulgação da sua arte em vários lançamentos e da reinterpretação da sua vida através da biografia do antropólogo Nevill Dury, Pan’s Daughter: The Strange World of Rosaleen Norton, e teve agora um novo e importante capítulo: o lançamento de um documentário sobre um “génio notoriamente escandaloso”, “The Witch of Kings Cross”.

[O trailer de “The Witch of Kings Cross”, documentário realizado por Sonia Bible:]

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Realizado por Sonia Bible, com um orçamento apertado e meios limitados, “The Witch of Kings Cross” baseia-se no testemunho de especialistas como Dury e de alguns amigos de “Roie”, as últimas testemunhas vivas do fascinante mundo mágico de Rosaleen Norton. Os trabalhos artísticos e o próprio diário de Norton, que pertencem a colecionadores privados, dão vida e cor ao relato da incrível história da Bruxa de Kings Cross, representada pela atriz australiana Kate Elizabeth Laxton. O foco do filme, disponível desde 9 de fevereiro nas plataformas Amazon Prime, Apple TV, Vimeo e Google Play, não é tanto o interesse de Norton nas artes mágicas (que alguns até colocam em causa), mas o seu trabalho artístico, incompreendido no seu tempo. Este, tal como a sua autora, desprezada e temida pelos seus contemporâneos, teria sido recebido de forma bem diferente uma década depois.

“Se ela se tivesse lançado nos anos 60, com a contracultura e o feminismo, ela teria sido como o [importante artista australiano] Brett Whiteley”, defendeu a realizadora, que explorou a Sydney do pós-guerra numa outra produção, “Recipe for Murder”, um filme-documentário sobre três assassinas dos anos 50. “Ela estava na vanguarda e teve impacto e inspirou pessoas. Os jovens iam até Cross à procura dela”, garantiu ao jornal britânico The Guardian. “Ela viveu a vida que quis viver. Não dava valor ao dinheiro [que sempre lhe faltou]. Ela era muito feliz. Tinha a sua arte e a sua religião. Viveu a vida segundo os seus próprios termos.”

O início da história: “Sou uma bruxa. Nasci uma bruxa”

Todas as histórias têm um início e a de Rosaleen Norton começou não na Austrália, mas num país vizinho, a Nova Zelândia. Foi na segunda maior cidade neozelandesa, Dunedin, que Norton nasceu, às quatro da manhã de 2 de outubro de 1917. A artista, que sempre adorou a noite e a trovoada, acreditava que a razão estava no noite do seu nascimento, de “violenta tempestade”. A família, de origem inglesa, pertencia à classe média neozelandesa. O pai, Albert Norton, fazia parte da marinha mercante e passava longas temporadas longe de casa. A mãe chamava-se Beena. A relação entre as duas foi sempre tensa e nunca melhorou. Roie tinha duas irmãs mais velhas, Cecily e Phyllis. A primeira tomaria conta dela no final da sua vida. Do tempo que passou em casa de Cecily, em Kirribilli, sobrevivem uma série de retratos captados por Robert Walker, que mostram Norton sem o penteado e sobrancelhas que lhe eram característicos e numa postura de maior tranquilidade.

Em 1924, os Norton mudaram-se para a Austrália, estabelecendo-se em Linfield, nos subúrbios de Sydney. Foi nessa altura, aos sete anos, que Roie reparou que tinha aparecido no seu joelho direito dois pequenos pontos azuis, “marcas de bruxa”. O seu corpo parecia estar a dizer-lhe que não era uma criança como as outras: tinha nascido com um “par de músculos estranhos”, que ia “desde a axila até ao osso pélvico”, orelhas pontiagudas e “visão quase felina”. Roie ouviu-o, e aceitou todas as suas “peculiaridades” como um sinal de que era diferente: “Sou uma bruxa. Nasci uma bruxa”, costumava dizer. Criança rebelde, não escutava nada nem ninguém., tendo chegado a viver durante uma temporada numa tenda que montou no jardim de casa e da qual ninguém se podia aproximar. A sua companhia eram as aranhas e outros bichos que apanhava e que colocava deliberadamente à entrada.

Rosaleen Norton e Selina Muller, que tinham feito uma exposição conjunta, apareceram no número de 21 de junho de 1943 da PIXI Magazine. Norton descreveu o seu trabalho como "experiências psíquicas"

Mitchell Library, State Library of New South Wales and Courtesy ACP Magazines Ltd.

A adolescência trouxe-lhe um despertar da consciência religiosa e sexual. “Há algum tempo que tinha noção da existência de um mundo de vastos poderes misteriosos. A minha consciência dessas forças tornou-se mais e mais forte, de tal forma que o entediante mundo da infância deixou de existir”, escreveu, mais tarde, no seu diário. Na opinião de Nevill Drury, foi nesta altura, aos 13 anos, que Norton “adotou a perspetiva pagã”. “Comprometeu-se que ia seguir estas forças pagãs durante toda a sua vida.” Assim que pôde, saiu de casa e rumou a Sydney, onde frequentou a National Art School a partir de 1934. Um dos seus professores foi o escultor britânico Rayner Hoff, que a encorajou a explorar o seu talento artístico.

Curiosamente, após terminar os estudos na Art School, Rosaleen Norton não tomou a decisão de ser pintora, mas escritora, chegando mesmo a publicar algumas histórias de terror no jornal Smith’s Weekly, em 1934. Acabou por ser dispensada devido às ilustrações controversas. Nos anos seguintes, teve vários empregos e fez alguns trabalhos como modelo, pousando para pintores como Norman Lindsay, com quem foi comparada. Norton notou sempre que Lindsay era um artista do dia e ela da noite, o período que preferia e em que se sentia mais confortável — mais ela própria. Durante esta fase da sua vida, dedicou-se também ao estudo da magia, lendo livros sobre religião comparada, esoterismo, demonologia e a Qabalah, uma das suas principais influências. Em 1935, conheceu um jovem chamado Beresford Conroy, com quem iniciou uma relação. Talvez levados pelo clima que se fazia sentir, com o início da Segunda Guerra Mundial, casaram em 1940, pouco antes de Conroy partir para a Nova Guiné, onde passou dois anos. Separaram-se assim que este voltou. O divórcio foi oficializado em 1951.

Terá sido por esta altura que Rosaleen Norton começou a colaborar com a Pertinent, uma revista mensal criada em julho de 1940 por Leon Batt. Batt era um admirador do trabalho da artista, cada vez mais influenciado pelo imaginário pagão, a quem tinha pedido para ilustrar a capa da antologia Not for Fools: A Collection of Pertinent Verse, publicada em 1941. Foi graças à Pertinent, onde publicou alguns trabalhos comparados ao que de melhor então se fazia na Europa e América, que Roie conheceu Gavin Greenlees, um outro colaborador. Treze anos mais novo do que Norton, Greenlees era um jovem poeta com algum sucesso e textos publicados em jornais como o ABC Weekly ou o Australia Monthly. Uma “criança brilhante”, tinha cedo desenvolvido interesse pela corrente surrealista e pela psiquiatria, tendo estudado o trabalho de autores como Freud e Jung, pelos quais Norton também se interessava. Mais tarde, voltou a sua atenção para o esoterismo, em especial para o trabalho do mago inglês Aleister Crowley. Greenlees e Norton tornaram-se imediatamente amigos e depois amantes e companheiros de quase toda a vida.

[Em 2012, as obras de Rosaleen Norton foram expostas em conjunto pela primeira vez em mais de uma década:]

De Sydney para Melbourne: 800 quilómetros à boleia com um gato chamado Geoffrey

Em 1949, Roie Norton, que até então tinha apenas mostrado os seus desenhos em cafés e restaurantes, decidiu que estava na altura de montar a primeira exposição a sério. Greenlees, que tinha um contacto na Universidade de Melbourne, conseguiu que a Rowden White Gallery aceitasse receber algumas das suas obras. Os dois fizeram-se à estrada em meados de 1949, percorrendo os cerca de 800 quilómetros que separam Sydney de Melbourne à boleia, com um gato chamado Geoffrey dentro de uma mala. A exposição, que os responsáveis pela galeria de arte acharam que seria inofensiva, causou escândalo após alguns visitantes terem considerado que o trabalho de Norton era obsceno. O caso acabou em tribunal e a artista foi acusada de expor obras que podiam “depravar e corromper” a moral de quem as visse. Um dos desenhos em causa era “Black Magic”, que mostra uma figura feminina de orelhas pontiagudas num intenso abraço com uma pantera negra. A artista explicou aos magistrados que a pantera simbolizava a noite, o potencial não manifestado que a noite e todos têm. Para ela, não tinha nada de sexual, mas não deixava de ser “material provocador”, como apontou Nevill Dury no documentário. “Parecia uma mulher nua a ter relações sexuais com um animal selvagem. E em segundo plano havia uma freira num crucifixo a piscar o olho.”

Rosaleen Norton acabou por vencer o caso, o primeiro em tempos modernos contra uma mulher artista na Austrália. Em tribunal, o advogado de defesa alegou que o livro The History of Sexual Magic, cuja publicação tinha sido recentemente permitida, tinha imagens muito mais obscenas do que as pinturas que tinham sido expostas na Rowden White. Como forma de compensação, o tribunal determinou que a artista recebesse quatro dólares australianos do departamento da polícia. O dinheiro não era muito — só com grande esforço é que Norton conseguiu regressar a Sydney com Greenlees, mas não antes de protagonizar um último escândalo na cidade: em entrevista aos jornais locais, revelou que tinha feito algumas das pinturas enquanto estava em transe e que os seres retratados lhe tinham aparecido durante essas práticas mágicas. As declarações geraram um interesse ainda maior em torno da sua figura, mas não necessariamente em torno da sua arte. Sobre os acontecimentos de Melbourne, Norton escreveu no seu diário: “Aqui estou eu com toneladas de dinheiro em publicidade, mas incapaz de vender um único quadro”.

Imbuídas de um profundo simbolismo, as figuras que Norton desenhou foram quase sempre mal interpretadas pelo público, que achava os seus desenhos pornográficos. A artista foi várias vezes processada

Roie experimentou pela primeira vez magia extática após mudar-se para Sydney, uma prática que se tornou fundamental para o seu processo criativo. Em resultado disso, as suas pinturas foram inundadas por criaturas estranhas e híbridas, que via quando estava em transe. Imbuídas de um profundo simbolismo, de raízes pagãs, as figuras que Norton desenhou foram quase sempre mal interpretadas pelo público, que achava os seus desenhos pornográficos “sem entender o que quer que fosse sobre a história do corpo e sobre como as zonas sexuais significaram em tempos a fertilidade e a continuação do grupo”, apontou Barbara Creed, professora na Universidade de Melbourne, no documentário sobre a Bruxa de Kings Cross. Apesar dos duros ataques, é o peculiar imaginário da artista que a coloca num lugar de destaque dentro da arte australiana. “Ela vem de um lugar único no contexto da arte australiana. Ela é mais facilmente colocada dentro do género a que se chama arte esotérica, composta por trabalhos que se preocupam com a viagem espiritual”, considerou um outro participante do filme. “Existem poucos artistas visionários na Austrália e Roie é provavelmente a figura mais proeminente”, defendeu Drury.

Mas esse lugar único só lhe seria atribuído muito tempo depois, já após a sua morte. Em 1949, quando regressou a Sydney, a única coisa que Norton tinha à sua espera era uma casa decrépita num bairro de má fama da cidade.

Um “estranho livro sobre sexo” com “bruxas” e “demónios”

Foi após o regresso a Sydney que Rosaleen Norton e Gavin Greenlees se estabeleceram em Kings Cross, um bairro de má fama conhecido pelos bares de striptease e casas de prostituição. No final dos anos 40 e inícios dos anos 50, era em Kings Cross que era possível encontrar os outsiders e renegados da sociedade australiana — homossexuais, travestis, transexuais, poetas e artistas, que tinham um estilo de vida boémio e contrário ao espírito conservador da Austrália daquele tempo. Norton e Greenleess mudaram-se para uma casa decrépita de três andares em Brougham Street, em frente da qual existiam duas grandes palmeiras. A casa era pobre e a comida escasseava, mas havia sempre uma chávena de chá quente para quem os visitasse (Roie adorava chá). O sítio tinha má reputação, não só pelas loucas festas alimentadas a álcool e droga, mas também por outras razões: o senhorio era conhecido da polícia por vender bebidas alcoólicas produzidas ilegalmente.

As festas eram recorrentes na casa de Brougham Street, mas também as autoridades, que usavam a acusação de eleição, “vagabundagem” (o crime de não ter dinheiro suficiente para sobreviver; não implicava necessariamente o ato de mendigar), para assediar quem frequentava o local. Após várias acusações, Norton e Greenlees acabaram detidos. Sem qualquer perspetiva de emprego, foram salvos por Walter Glover, que leu acerca da detenção nos jornais. Glover tinha bons contactos na indústria do livro e propôs a Norton e Greenlees que fizessem um livro juntos, que incluíram a arte de Norton e a poesia de Greenlees, que ele depois publicaria. “Pela primeira vez, tínhamos dinheiro”, escreveu Roie no seu diário. “Comprámos drogas e álcool suficientes para escaparmos para o mundo do livro.”

Nos anos 50, Kings Cross era um bairro de má fama onde viviam os renegados da sociedade, com um estilo de vida boémio e contrário ao espírito conservador da Austrália de então

Fairfax Media via Getty Images

O livro causou uma nova polémica. Considerado pornográfico, foi confiscado pelas autoridades e Walter Glover acusado de produzir uma publicação obscena. Dois anos depois da Rowden White, a Bruxa de Kings Cross voltou a ser manchete, desta vez por causa de “um livro estranho de sexo” com “bruxas e demónios”, como afirmou uma publicação. E voltou a ser levada à barra do tribunal.

O caso não decorreu de maneira muito diferente do de Melbourne. O juiz acabou por decidir a favor dos acusados, determinando que o volume podia ser lançado desde que se retirassem dois desenhos com figuras masculinas nuas com pénis exagerados. Uma delas, “Fohat”, mostra um ser híbrido com cabeça de bode, reminiscente do deus Pã, central no paganismo desenvolvido por Norton, corpo de homem e pénis em forma de uma longa serpente. Roie tentou explicar que a ilustração não tinha nada de sexual, que “o bode é um símbolo da energia e da criatividade” e “a serpente um símbolo da força elementar e da eternidade”. Foi mais uma vez ignorada.

O maestro e a bruxa

Em 1947, Eugene Goossens, famoso maestro inglês, mudou-se para a Austrália para conduzir a Orquestra Sinfónica de Sydney. Aos 54 anos, Goossens, neto do maestro belga Eugène Goossens, era um gigante do mundo da arte. Violinista de formação (tocou na estreia em solo britânico de Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, em 1921), tinha passado os últimos 25 anos nos Estados Unidos da América, onde trabalhou com várias orquestras. A par da música, Gooseens tinha um outro interesse que poucos conheciam: era fascinado pelo oculto. Em 1952, provavelmente perto do final do ano, descobriu na loja de uma galeria de arte ou numa livraria especializada (não há certezas quanto ao local) o livro de Rosaleen Norton e Gavin Greenlees que Walter Glover tinha lançado anos antes. Fascinado, decidiu entrar em contacto com Norton. Os sucessivos encontros deram origem a um caso amoroso (apesar do relacionamento de longa data com Greenlees, Norton mantinha vários parceiros sexuais, tanto homens como mulheres) e a uma intensa troca de correspondência.

Rosaleen Norton na sua casa em Kings Cross, Sydney, a 30 de janeiro de 1950

Fairfax Media via Getty Images

Gooseens e Norton tinham em comum o interesse pela prática da magia sexual como meio para atingir diferente estados de consciência, central no pensamento de Aleister Crowley, cuja vida se aproximou em vários aspetos da de Norton. Escritor, pintor, alpinista, jogador de xadrez e oculista, Crowley, que tinha morrido em 1947, tinha, tal como Roie, sofrido com a má publicidade dos media e a incompreensão do público em geral. Em Inglaterra, tinha ganho fama entre os seus conterrâneos como “o homem mais malvado do mundo” por causa do seu estilo de vida excêntrico, excessivo, com um desmedido consumo de drogas e diferentes parceiros sexuais, e, na opinião de muitos, depravado. Norton, que nunca tentou esconder quem era ou aquilo que fazia, era muitas vezes notícia nos jornais devido à realização de “missas negras”, “orgias” e festas onde havia drogas e “gente estranha”. “Tratava-se de uma mulher forte a defender uma espécie de libertação feminina. No início da década de 1950, num país conservador, podem imaginar quão horrorizadas ficaram as pessoas, sobretudo tendo em conta que cerca de 80% da população era cristã”, defendeu Jack Sargeant, escritor e curador, em “The Witch of Kings Cross”. “Então, temos uma cultura conservadora cristã versus uma mulher artista forte e sexualmente ativa que se apresenta como bruxa.”

Em outubro de 1955, um dos eventos organizados por Rosaleen Norton acabou em desgraça — ao fim de quase 24 horas, a festa de 39 anos da artista foi interrompida pela polícia. Doze dos participantes, incluindo Norton e Greenlees, foram detidos e acusados do “abominável” crime de sodomia e o caso entregue ao detetive Bert Trevenar. A acusação baseava-se numa película de filme roubada que mostrava Norton em cenários sadomasoquistas. Com Norton e os restantes na esquadra, Joe Morrison, um jornalista do The Sun, invadiu a casa de Kings Cross. Enquanto revistava o lugar e tirava algumas fotografias, descobriu as cartas de Gosseens, que Roie tinha escondido no sofá da sala. As missivas estavam cheias de referências sexuais e ocultas explícitas. Ficou imediatamente claro que os dois estavam envolvidos.

Eugene Gosseens, que estava fora da Austrália, descobriu da pior maneira o que se passava em Sydney: de regresso ao país, em março de 1956, foi apanhado no aeroporto com revistas de magia que foram imediatamente consideradas pornográficas. Perante a possibilidade de ser acusado de possuir material proibido, concordou prestar declarações. Na entrevista policial, foi confrontado com as fotografias e cartas que tinham sido roubadas e obrigado a declarar-se culpado da posse de material pornográfico, evitando uma acusação mais grave por “conduta escandalosa”. Pagou uma fiança de 100 dólares australianos, demitiu-se do cargo na Orquestra Sinfónica de Sydney e abandonou o país sob um nome falso, regressando a Inglaterra anonimamente e em desgraça. Foi o fim da carreira do maestro, que um ano antes tinha sido armado cavaleiro pela rainha por serviços prestados ao país.

Afastado dos grandes circuitos, nos anos seguintes fez alguns trabalhos para a BBC e para uma editora especializada em música clássica, mas o escândalo australiano tinha-o destruído. Morreu seis anos depois, a 13 de junho de 1962, de vários problemas de saúde, no Hospital Hillingdon, em Middlesex. Tinha 69 anos. Nunca culpou Roie Norton pelo que tinha acontecido, mas a artista não deixou de sentir as repercussões do caso. Aos amigos próximos, confidenciou que tinha ficado muito chateada com tudo.

Eugene Gooseens era um gigante das artes. A divulgação do seu envolvimento com Rosaleen Norton e do seu interesse pelo oculto colocou um ponto final na sua carreira

Corbis via Getty Images

O caso da festa em Kings Cross chegou aos tribunais cerca de um ano depois. A principal prova continuava a ser as fotografias roubadas. Trevenar terá feito franca figura na sala de audiências e todos os réus acabaram absolvidos. Se Norton e Greenlees fossem condenados, podiam enfrentar uma pena de até 14 anos de prisão. Como nas vezes anteriores, a absolvição não significou o sossego da artista. O caso de Goosseens tinha-a tornado verdadeiramente uma persona non grata no meio artístico de Sydney, uma posição para a qual contibuiu um outro caso envolvendo uma jovem com problemas psicológicos — Anna Karina Hoffman, levada a tribunal em 1955 por ter insultado um polícia, admitiu que tinha perdido o controlo da sua vida após ter participado numa missa negra conduzida por Rosaleen Norton.

O trabalho de Norton voltou novamente a ser atacado. Durante uma exposição no café Kashmir, duas das suas obras foram levadas pelas autoridades para serem destruídas. Nevill Dury, que estudou a vida e obra da Bruxa de Kings Cross, não conseguiu encontrar indícios de destruição de obras de arte na Austrália em épocas anteriores. Nenhum membro da comunidade artística teve coragem de a defender. A artista teve de enfrentar as retaliações sozinha.

O fim da história: “Vim a este mundo com bravura; hei-de sair dele com bravura”

A fama de Rosaleen Norton como Bruxa de Kings Cross estabeleceu-se definitivamente a partir da década de 1950. No bairro de Syndey, a artista tornou-se uma espécie de atração local — os turistas costumavam revistar a zona à sua procura. Em vez de fugir daqueles que a procuravam, Roie aproveitou a renovada atenção para tentar explicar as suas crenças, assumindo-se corajosamente como bruxa numa altura em que a bruxaria era ainda ilegal na Austrália (só deixou de o ser em 1971, quando foi revogada a antiga lei britânica de 1735, ainda em vigor na ex-colónia), mas também para vender a sua imagem, recorrendo para isso a todos os estereótipos — os chapéus de bruxa, os gatos pretos e os encantamentos, que vendia a par das suas pinturas para se sustentar. De tal modo que, de acordo com o documentário, há quem ponha em causa o seu interesse na magia — seria legítimo ou seria a Bruxa de Kings Cross uma personagem artística?

[Rosaleen Norton em 1963, numa rara entrevista em que assume que “sempre” foi bruxa:]

Após um período em casa da irmã Cecily, um dos poucos familiares com quem mantinha contacto, mudou-se para Elizabeth Bay, nos subúrbios de Sydney, vivendo uma vida mais recatada e evitando a atenção dos jornalistas. Em 1979, foi diagnosticada com cancro do cólon e internada no Sacred Heart Hospice for the Dying, uma instituição em Darlinghurst gerida por freiras. Pagã assumida até ao fim, terá dito pouco antes de morrer: “Vim a este mundo com bravura; hei-de sair dele com bravura”.

Rosaleen Norton, a Bruxa de Kings Cross, morreu a 5 de dezembro de 1979, aos 62 anos. Gavin Greenlees, que há vários anos sofria de esquizofrenia e epilepsia, passando longas temporadas em manicómios a partir de 1955, morreu no mesmo dia, quatro anos depois.

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