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Ao Observador, Rui Cardoso Martins falou de livros, jornalismo e racismo. E de latas de comida na despensa.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Ao Observador, Rui Cardoso Martins falou de livros, jornalismo e racismo. E de latas de comida na despensa.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Rui Cardoso Martins: “As palavras servem para sobrevivermos. As pessoas salvam-se contando histórias umas às outras” /premium

Enquanto termina o novo romance, vê reeditado o premiado “Deixem Passar o Homem Invisível". Ao Observador, Rui Cardoso Martins falou de livros, jornalismo e racismo. E de latas de comida na despensa.

Foi na tarde de um dia de semana que combinou encontrar-se com o Observador. Vinha de uma viagem a Portalegre, onde nasceu e tem família, e achou por bem que a própria casa fosse o cenário da conversa, no Parque das Nações, em Lisboa, sob o olhar de um gato ruivo que a certa altura lhe saltou para o colo.

Aos 53 anos, Rui Cardoso Martins é um dos mais versáteis e produtivos autores portugueses – mas prefere considerar-se acima de tudo romancista. Prepara um novo livro (não há pormenores por enquanto), terminou há dias a peça de teatro Última Hora, que Gonçalo Amorim encena em outubro no Teatro Nacional D. Maria II, e tem prontos dois argumentos para cinema: um para Fernando Vendrell sobre os últimos dias do escritor Cardoso Pires e outro para Manuel Mozos em torno da censura durante o Estado Novo.

Calmo e irónico, com leve sotaque alentejano, considera-se menos hábil a falar do que a escrever. Estreou-se como romancista em 2006, com E Se Eu Gostasse Muito de Morrer. Seguiu-se em 2009 Deixem Passar o Homem Invisível, distinguido no ano seguinte com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. O livro está de volta às lojas, agora com a chancela da Tinta da China.

Rui Cardoso Martins foi um dos estagiários da fundação do jornal Público, em 1990, e depressa se tornou conhecido como cronista de barra de tribunal, antes de se lançar como argumentista de cinema e integrar a equipa das Produções Fictícias em guiões para programas da RTP como “Contra Informação” e “Herman Enciclopédia“. Em televisão e nos palcos, escreveu para a “Conversa da Treta”, de António Feio e José Pedro Gomes, e para Zé Manel Taxista, de Maria Rueff. No cinema, por exemplo, é coautor do argumento do filme “A Herdade”, que Tiago Guedes e Paulo Branco levaram ao Festival de Veneza do ano passado.

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Deixou o jornalismo porque a profissão desgasta muito. Dirigiu-se para o humor porque vê tragédia e comédia em cada esquina. Tornou-se escritor porque, afinal, já o era desde sempre. Mas porquê: que função têm as palavras e a escrita? A resposta vem já a seguir.

“Deixem Passar o Homem Invisível” saiu pela Dom Quixote no verão de 2009 e agora a Tinta da China reedita este segundo romance de Rui Cardoso Martins

Sempre se viu como escritor?
Descobri tarde. Aliás, fizeram-me descobrir tarde. Sempre fiz várias coisas, numa sucessão de pequenas tarefas, primeiro como jornalista, depois como argumentista de TV, depois no cinema e também como cronista. Só mais tarde escrevi um romance, que comecei em 2004 e saiu em 2006. Comecei empurrado. Algumas pessoas diziam-me: “Você é escritor, tem de escrever um livro”. Tinha muito medo dessa definição e muito respeito por ela, porque é tomada de forma ligeira por demasiadas pessoas em todo o mundo, não só em Portugal. Esperei que fossem outros a dizer que eu o era. Tenho aqui em casa uma biblioteca muito grande e respeito muito todas estas pessoas que penaram imenso para escrever. Na altura, não sabia o quanto seria difícil. Mas depois saiu o primeiro romance, foi lido por tantas pessoas com tanto gosto, e às vezes com alguma irritação, e percebi que era talvez a coisa que pudesse fazer melhor. Cada trabalho tem o seu tempo de produção e um romance demora muito tempo, obriga-me a escrever mais cedo de manhã.

É quando a cabeça está mais fresca?
Acho que sim. A primeira energia da manhã, às vezes ainda em jejum, obriga-me a estar mais atento. É um trabalho muitas vezes oposto ao do texto cómico ou da crónica mais ligeira. Escrever um romance são tecidos e costuras diferentes. Num dia em que comece a escrever outras coisas, não consigo avançar à tarde para o romance. O contrário é verdade. É uma questão prática, não tem nada de fetichismo com a ideia do escritor de madrugada.

A escrita de um romance exige entrega absoluta?
Sem dúvida, mas não tenho especial devoção pela ideia do livro enquanto entidade superior, nunca tive, nem percebo as pessoas que não emprestam livros. É uma alegria emprestar. Muitas vezes, por causa disso, perdemo-los, é certo, mas não percebo a devoção pelo livro. Só talvez por dois ou três que me foram dados por amigos ou que mudaram a minha vida. Os livros são para ler e partilhar, não são entidades divinais, fazem parte da humanidade. Agora voltando à primeira questão: sinto que quando escrevo um romance isso me traz mais trabalhos de televisão e cinema, porque a ideia do escritor-romancista, quando a coisa corre bem, serve como boa caução para outros trabalhos. Falo de crónica de rádio ou de jornal e de argumento de cinema. Ter conseguido escrever romances trouxe-me esses convites, que são bem-vindos, porque é assim que se consegue ganhar a vida.

Viver só dos livros não é viável?
É uma atividade muito dada ao fracasso, desde os antigos. A questão do dinheiro está muito presente na vida de todas as pessoas e mais ainda na vida de quem vive da escrita. Tento combater isso o melhor que posso, fazendo muitas coisas diferentes. Aqui em casa somos seis corações humanos, dois corações de gato e duas tartarugas. Todos os seres vivos precisam de se alimentar.

Já fez coisas por mera obrigação?
Nunca fiz nada de que me envergonhasse, mas algumas são decorrentes, como acontece com qualquer autor, da necessidade de ganhar a vida.

"A aparente simplicidade pode vir de um trabalho terrível de limpeza e de encadeamento de sons, porque a literatura é como a música. Se a coisa nos soar mal ao ouvido, está mal escrita, em princípio."

O livro que agora reeditou, Deixem Passar o Homem Invisível, foi Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, que é um prémio em dinheiro.
É isso, mas é também um prémio que considero o mais importante, por ser dado por pares. A editora – a primeira edição e a segunda são da Dom Quixote – não me tinha dito que o livro estava a concurso e quando me telefonaram a dizer foi uma belíssima surpresa.

Fica mais satisfeito se receber um prémio que escritores credíveis tenham recebido antes?
É evidente. Já ter sido entregue a Cardoso Pires ou a António Lobo Antunes deixa-me muito satisfeito. Os prémios não melhoram os livros, melhoram a visibilidade. E depois dão dinheiro, que é o que importa para quem vive só disto. Tudo o que ganho é tudo o que escrevo, sílaba a sílaba, palavra a palavra.

Porquê a reedição?
A ideia tinha sido conversada com a minha editora, Bárbara Bulhosa, da Tinta da China, e já tínhamos feito o mesmo com o primeiro romance. Enquanto não acabo o novo, pensámos que seria uma boa altura para reeditar. Ela disse-me uma coisa, e quem o releu entretanto também: mantém-se um livro muito fresco, muito atual, com situações que não envelheceram. Passou-se a falar mais de alterações climáticas, que aparecem no romance sob a forma de catástrofes em Lisboa. Nasci em 1967, ano das grandes cheias, um cataclismo que de certa forma precipitou a queda do regime. A juventude portuguesa teve noção de como viviam as pessoas às portas de Lisboa e mesmo dentro de Lisboa. Durante semanas, foram desenterrados corpos da lama, isto enquanto o regime, de forma abjeta, mandava silenciar a imprensa, porque não queria que se soubesse da catástrofe. Foi nesse ano que nasci e o livro tenta de alguma forma reproduzir a hipótese de mais uma grande calamidade, sejam cheias, terramotos, grandes fogos ou um vírus. Sou um caso patológico, mas ao mesmo tempo muito prático: a minha dispensa está cheia de latas de comida e de água para vários dias.

Receia uma catástrofe?
Estamos sempre à beira disso. Sou um otimista, mas não percebo porquê – foi uma frase que disse uma vez e mantenho. Sim, tudo está à beira da catástrofe, sempre. Esta noção talvez seja uma das forças que me movem a escrever, mesmo que não seja sobre isso.

Já pensa nisso há muito tempo?
Houve um acontecimento importante para mim e tem que ver com jornalismo e com a história da Europa. Foi muito simples. Não fui repórter de guerra, nem pouco mais ou menos, mas passei por uma situação que me fez refletir. Quando tinha 15, 16 anos, fiz um inter-rail pela Europa, era assim que se conhecia o mundo, e fui até Sarajevo com um amigo. Conheci Sarajevo em paz. Uns anos depois, no inverno de 1992 para 93, ofereci-me para ir novamente a Sarajevo, mas como jornalista. A cidade estava cercada, havia bombas a toda a hora e muita fome. Tinha conhecido a cidade enquanto jovem turista, com aquele ar militar soviético, e depois como repórter do jornal Público vi-me aflito para sair de lá, não tínhamos dinheiro nem material, os nossos coletes antibala tinham sido emprestados pela GNR, mas só davam para balas de 6,35. Cheguei lá e falava-se da morte de duas pessoas: o vice-primeiro-ministro bósnio e um repórter freelancer de 23 anos, Jordi [Pujol Puente], que agora até tem um prémio de homenagem em Barcelona. Ficámos num arranha-céus todo furado e aquilo tinha sido assim de repente. Tudo isto me despertou para a hipótese de as coisas descambarem muito depressa na vida.

Deixem Passar o Homem Invisível é sobre isso.
Sim, mas com a hipótese da salvação e redenção, nisso também acredito. Há um homem cego que cai num buraco. Esse buraco ficcional tem uma base real, nasceu de quando um autocarro caiu num caneiro de Alcântara, que ficou conhecido como o buraco do Santana Lopes, porque era ele o presidente da Câmara de Lisboa [2003]. Fiz o exercício do “e se”. Se lá cai um autocarro, pode cair um carro; se cai um carro, pode cair uma mota; se cai uma mota, pode cair uma pessoa. É possível em Lisboa uma pessoa ser engolida por um caneiro. A minha ideia era a história do cego que cai no buraco com uma criança e de como eles se salvam debaixo de terra. As pessoas salvam-se contando histórias umas às outras. Sempre foi assim desde a Sherazade.

A literatura é uma forma de redenção?
Sem dúvida. É possível prolongar a vida através da palavra.

O escritor criou uma peça de teatro sobre a crise do jornalismo, com estreia em outubro no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa

Já disse que os livros não são objetos sagrados. Será que o ato de escrever tem alguma dimensão mística?
Há momentos que nos escapam. Costumo dizer que trabalho de cabeça quente. Só a partir de um certo número de horas de trabalho, a partir de um aquecimento forte, é que isto funciona. Se não tiver umas quatro horas pela frente, prefiro fazer outra coisa. Só a partir ali da segunda hora é que a coisa começa. Pode sair um grande borrão, outras vezes já sai um bocadinho aquilo que queremos ou que não sabíamos que tínhamos cá dentro. É o motor interno que está a aquecer as cremalheiras, as ideias também têm cremalheiras, acho eu. Comparo o trabalho de um romance ao trabalho dos piratas. Lança-se uma fateixa e depois outra e outra, até que se consegue abalroar e conquistar o outro navio. As fateixas no romance não se lançam todas ao mesmo tempo.

Quanto tempo demora a escrever um romance?
Normalmente, demorava um ano, quando tinha mais tempo, e agora tenho estado a escrever muito cinema e televisão. Se tiver tempo, consigo num ano.

Uma média diária de quantas horas?
Seis, sete horas, se me levantar às cinco da manhã e não tiver que ir levar crianças à escola. Atenção, a escrita sempre foi assim. A gente escreve e depois tem de começar a cortar, porque as coisas estão mal feitas. Consigo dominar mais ou menos a forma de uma crónica em poucas horas, mas não uma página de um romance. Nem acredito em quem diz que faz a página de forma limpa, acho isso mentira, a não ser que me provem o contrário. Não conheço um exemplo de quem não esteja sempre a escrever, ler e reescrever. Às vezes, a reescrita e o corte e a reanálise demoram muito mais tempo do que a escrita em si.

Quanto menos tempo um texto demora a ser lido, mais tempo o autor investiu na criação do texto. Concorda?
Às vezes, sim. A aparente simplicidade pode vir de um trabalho terrível de limpeza e de encadeamento de sons, porque a literatura é como a música. Se a coisa nos soar mal ao ouvido, está mal escrita, em princípio. Acredito nisso. As coisas têm que ser belas, mesmo que estejamos a contar coisas horrorosas. Têm que ser belas quando nos atingem a cabeça e o coração. Não acredito num livro que não seja capaz de comover, acho que esse é o objetivo mais forte. Às vezes, são frases que até parecem desconexas, mas têm um sentido que chega às pessoas. Não vou dizer que atingi isso, mas esse é o meu maior objetivo: duas ou três frases, um pouco como a poesia. Escrevo muito por ideias ou frases que contêm em si uma longa história. Por exemplo: “O coveiro matou-se.” Isto já tem história da minha vida, história do Alentejo, já tem perguntas e a descrição do que se disse e não se disse, já tem um caso criminal. Que raio de sítio é este em que o coveiro se mata? É um exemplo de como trabalho.

Qual é o seu estilo literário?
Não sei responder. Talvez seja um falso ligeiro ou talvez… Talvez um realismo invertido ou ao contrário. Há qualquer coisa que tento apanhar e que se vê em alguns autores. Acho que os russos faziam isso muito bem, aquilo parece que está à frente dos olhos, mas é mais complexo e pode seguir, como no caso do Gogol, para coisas mais surrealistas: um nariz que ganha vida.

Escreveu assim nas primeiras páginas de Deixem Passar o Homem Invisível: “Numa cave de Alcântara, cem carros afogaram-se ao mesmo tempo, num pacto de morte mecânica. Desconhecidos deram as mãos em corrente e salvaram uma senhora que não sabia nadar mas não largava a carteira.”
Cada frase dessas conta a sua história e está no meio de uma situação descritiva de catástrofe. Porque é que aquela senhora não largava a carteira?

Faz lembrar a crónica jornalística.
Talvez. Aprendi muito com isso, a minha primeira escola de escrita, não de leitor, foi a escrever crónicas. A simplicidade jornalística talvez me tenha dado algumas formas.

"Acho graça quando hoje se fala de racismo como se não tivesse havido nenhum trabalho prévio sobre isso. O filme 'Zona J', em que me envolvi no argumento, é a história de um rapaz que se quer casar com uma miúda branca e aquilo corre tudo mal. Escrevi crónicas que eram puras descrições de racismo quotidiano."

Reconhece que o jornalismo ainda está nos seus romances?
Vamos ver: aprendi como jornalista, todos os escritores que começaram por aí mantiveram sempre a capacidade de escrever uma notícia. Todos. García Márquez, Hemingway, por aí fora. É uma técnica útil de vez em quando, porque também nos deixa ir ao que interessa, ao que é mais importante. Agora, como digo, as frases que citou poderiam entrar numa crónica, mas não numa notícia ou numa reportagem. Já contêm uma inversão de tom, um ataque deliberado ao realismo. Esse ataque é consciente e inconsciente. Não me interessa que o romance que escrevo se leia de perna cruzada, como quem lê um jornal. Há quem ache que tenho uma escrita obscura, há quem fique baralhado sobre quem está a falar. Acredito na amálgama cronológica: tudo o que pensamos e dizemos e tudo o que pensámos antes pode estar a acontecer na mesma folha ao mesmo tempo. Nesse sentido, as regras do quem, quando, onde, porquê, isso tudo não se aplica numa página de literatura.

Porque é que largou o jornalismo para se tornar guionista do programa de humor “Contra Informação”?
Isso e o “Herman Enciclopédia”, de que também fui coautor. Ficaram frases como “não te desgraces” e “este homem não é do norte”. Antes disso, estava ainda no Público quando fui convidado a escrever uma história sobre os subúrbios de Lisboa. Já na altura havia problemas. Acho graça quando hoje se fala de racismo como se não tivesse havido nenhum trabalho prévio sobre isso. O “Zona J” [filme de Leonel Vieira com argumento de Rui Cardoso Martins e Luís Pedro Nunes] é a história de um rapaz que se quer casar com uma miúda branca e aquilo corre tudo mal. Saiu em 1997, 98, já depois de ter feito várias reportagens sobre esta questão nos bairros da Bela Vista e em Chelas. Escrevi crónicas que eram puras descrições de racismo quotidiano. Havia uma chamada “Consegui correr com a preta”, que é simplesmente o julgamento de alguém que começou a semear sujidade e beatas de cigarro para conseguir despedir uma empregada negra de que ele não gostava. A frase dele era “consegui correr com a preta”.

Como acompanha hoje o tema do racismo?
Ainda estou a tentar digerir, a perceber até onde se quer chegar. Não acredito que a via do confronto seja boa para lutar contra a racismo, não acredito e acho uma estupidez. Não vale a pena andarem a dizer que não há racismo. Ao mesmo tempo, as pessoas tentarem reagir, assumindo-se não como seres humanos e sim como sujeitos racializados, expressão de que não gosto nada, toda essa questão identitária, tem problemas graves. E vamos pagar por isso. Se me disserem que sem esse confronto as coisas não mudam… Não sei, tenho dúvidas.

Vamos pagar com um confronto aberto em Portugal?
Acho que sim. O fogo ateia o fogo. Bem, o fogo às vezes combate o fogo. Mas estamos a ver a deterioração da linguagem e a violência a ganhar caminho e aqui já estou a falar das televisões, das redes sociais, das redes humanas, amigos que se zangam com amigos por causa de discussões sobre este assunto.

Como é que explica o extremar de posições?
Há pessoas demasiado ricas, ficaram muito, muito ricas, e outras que foram perdendo oportunidades. Isso é mais do que óbvio. Esse, aliás, é um tema para o qual gostava de olhar com olhos de escritor, ainda estou meio embrulhado nisso.

Acha então que é o fosso entre ricos e pobres que explica a polarização ideológica que temos?
Isto começou tudo porque houve pessoas que, à vista de todos, começaram a roubar recursos que eram de todos. Isto não tem nada a ver com uma exigência sequer política, mas de mínima decência. Faz-me confusão haver pessoas desonestas e há demasiadas pessoas desonestas que pioraram e destruíram a vida de outros. A partir do momento em que aparecem populistas e demagogos que conseguem pegar no discurso antisistema, muitas vezes aldrabando e serpenteando por entre o mal-estar, a coisa vai crescendo. Foi assim na Alemanha, em França…

O que é que acha do Chega, de André Ventura?
Isso é apenas um vago clarão e espero que não passe disso. Esse senhor soube muito bem apropriar-se do discurso de um clube de futebol, o Benfica, e de assuntos que têm a ver com racismo. É uma pessoa que não me merece crédito nenhum. Vamos ver.

[Programa Contra Informação na RTP, em 1997:]

Porque é que enveredou pelo registo humorístico? O que é que o atraiu?
Bem, sou alentejano. O humor é uma coisa séria, atingia-nos muito quando éramos miúdos. Lembro-me de ouvir anedotas de alentejanos sempre que vinha a Lisboa. Entretanto, a coisa ficou mais chique e ser alentejano já é uma característica curiosa, o que me dá vontade de rir. Não consigo dissociar tragédia de comédia, não consigo mesmo, basta pensar que os escritores que mais admiro, Tolstói, Dostoiévski e Shakespeare, todos os grandes escritores, na verdade, revelam em certa altura um sentido de humor, mesmo que diluído na ironia. Como dizia Aristóteles, tragédia e comédia escrevem-se com as mesmas letras do alfabeto. O meu trabalho, que foi muito moldado a ver pessoas nos tribunais, como jornalista, tenta apanhar esse lado tragicómico da nossa natureza. Um homem é apanhado e diz em tribunal: “Recuso-me a ser o bode respiratório”. Não é uma anedota, disse isto à minha frente. O bêbado foi novamente apanhado a conduzir: “Peço perdão e vou viver a minha pessoa de outra maneira.” A rapariga, com dois filhos de um homem que lhe batia, como tinha voltado para ele, já só conseguia dizer: “Eu ficava só um bocadinho vermelhinha, mas também sou muito branquinha.” Se isto não é trágico, é o quê? Se não é cómico, é o quê? A vida diária, o discurso das pessoas, está sempre nisto. Tenho a sorte de ter tido o convite do Público para fazer uma reportagem num tribunal e depois o Vicente Jorge Silva e o Rogério Rodrigues, grande amigo recentemente falecido, disse-me que antigamente havia na imprensa portuguesa um espaço de crónicas sobre tribunais. Comecei a ir. Tanto podia ser um homem que roubava cuecas, como uma filha que era violada pelo pai. Tudo trágico e cómico, tão português e universal. Foi nessa escola que aprendi. As pessoas são assim, são volúveis. Estamos todos sempre a tentar sobreviver no meio das palavras, que servem para isso mesmo, para sobrevivermos.

Mas porquê deixar o jornalismo?
Convidaram-me para fazer um programa com bonecos, que tinha corrido mal noutro canal, e fui. Havia quem me dissesse: “Tu és maluco, estás no Público, andas pelo mundo todo a fazer reportagens, e vais largar?”. Já tinha estado no Lusitânia Expresso, nos eleições da África do Sul com o Mandela, tinha ido à Festa dos Mortos no México, tinha feito a reportagem dos 20 anos da independência de Cabo Verde. De repente, fui fazer uns bonecos. Sem um bom texto, não se faz nada, e eu acreditei que era possível aquilo ter graça.

Deve ter havido um motivo forte.
Houve um motivo forte, houve. É tão forte que é bastante minúsculo. No jornal eu tinha de escrever coisas muito diferentes todos os dias e não tinha tempo para mais nada. Imagino que hoje seja igual ou pior. Não sei quantas breves sobre um assunto, contactar o sindicato para pedir declarações, escrever uma notícia internacional sobre um surto de gripe, tudo no mesmo dia. Chegava à noite completamente esgotado, sem ter tempo de ler um livro sequer. Um dia mandaram-me para uma conferência de imprensa do Governo, estavam vários jornalistas e ficámos a fazer conversa uns com os outros durante três horas. Ao fim de três horas, uma personagem chamada Marques Mendes declarou que a reunião do Conselho de Ministros já tinha terminado, mas não haveria declarações à imprensa. Eu chego ao jornal e digo assim: “Não aguento isto. Estive três horas numa conversa de chacha com outros jornalistas à espera que aquela pessoa importante, que ainda hoje acham que é importante, viesse dizer com ar pomposo que não havia declarações.” Foi uma epifania muito pífia. Foi ali naquele sítio que larguei o jornalismo.

E como está o jornalismo?
Olhe, acabo de escrever uma peça para o Teatro Nacional D. Maria II, uma encomenda do Tiago Rodrigues [diretor artístico]. Deve estrear em outubro e vai ser encenada pelo Gonçalo Amorim. É com o elenco do D. Maria II, o Miguel Guilherme, a Maria Rueff e mais um corpo de estagiários de teatro que vão fazer de estagiários numa redação. É uma comédia. Já mostrei o texto a algumas pessoas e dizem que não é comédia, porque os deixa perturbados. Chama-se Última Hora, é a história de um jornal que se chama Última Hora e que está a fechar. Todos os dias, desde sempre, nascem e morrem jornais. Nasci para o jornalismo em tempos heroicos, quando havia dinheiro. De repente, lá ia eu para a Austrália, e não era com os meus próprios meios. Há uma personagem na peça que é daqueles jornalistas que vão fazer uma reportagem a um sítio perigoso, que arriscam a pele e as finanças. Sabemos que isto acontece em Portugal. Hoje, um jornalista para conseguir escrever sobre um assunto muitas vezes tem de gastar o seu próprio dinheiro, que devia ser para a sua família ou para a sua casa. Os profissionais do jornalismo muitas vezes estão a trabalhar à borla ou quase. Esta peça tem a ver com isso, com o roubo descarado que as redes sociais fizeram do dinheiro que devia ser canalizado para os jornais e para os jornalistas, o completo desnorte em que se entrou quando se percebeu que tinha que se disponibilizar o nosso trabalho de graça na internet.

Como é que se resolve esse problema? Diz-se que a crise está no modelo de negócio das empresas jornalísticas.
Não sei. É preciso começar a cobrar dinheiro às redes sociais e aos gigantes da internet. Esta pouca-vergonha de o Facebook e o Google não pagarem os conteúdos tem de acabar. Para isso é que serve o Estado também. Tem de haver regulação.

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