Rui Paixão, um palhaço português no Cirque du Soleil: "Sou um selvagem neste jardim zoológico" /premium

Aos 23 anos, Rui Paixão é a estrela da nova produção do Cirque du Soleil, na China. É palhaço, profissão que Portugal insiste em desvalorizar. Ainda assim, sonha com o regresso a casa.

Aos 23 anos, Rui Paixão cumpre uma agenda que lhe ocupa 12 horas por dia, seis dias por semana. Em 2017, soube que ia integrar o elenco da mais recente produção do Cirque du Soleil — “X: The Land of Fantasy”, um espetáculo concebido para uma residência em Hangzhou, na China, e que exigiu a construção de um auditório próprio. A estreia aconteceu no início do mês e Khino, personagem que coube ao único português do elenco, é uma figura central, elo de ligação entre Oriente e Ocidente depois do choque cultural. Rui nunca deixa o palco, opção que tornou os últimos sete meses de trabalho e criação no período mais exigente que já viveu.

Em Santa Maria da Feira, onde cresceu, encontrou uma espécie de santuário das artes de rua. O clown, palavra importada do inglês para designer a arte de se representar enquanto palhaço, foi um achado a meio do caminho. Frustrado pelo teatro convencional, Rui Paixão interessou-se mais e mais por aprofundar esta arte adormecida. Godot foi a personagem que o levou a festivais,um pouco por toda a Europa. De cara branca, cabelo verde e sorriso perturbador, aproximá-lo da comédia nunca foi um objetivo. Preferiu inquietar, não divertir. Talvez por isso tenha tido tantas dificuldades em vingar em Portugal. Diz que foi duas vezes a Lisboa, no Porto, nunca atuou.

Ainda assim, espera que o selo do Cirque du Soleil lhe abra outras portas. A residência ainda agora começou e Rui já fala no regresso. Afinal, fazer parte do grande gigante do circo contemporâneo nunca foi o que almejou. Quer regressar para voltar a criar fora do circuito mainstream. A paixão pelo clown não lhe tira, a redefinição do que é um palhaço é só uma questão de tempo.

Khino, a personagem de Rui Paixão no novo espetáculo do Cirque du Soleil © Imagem cedida por Rui Paixão

Começaste a construir uma carreira no clown ainda em Portugal. Descobriste-o a meio do caminho?
Foi mais ou menos isso. Sou de Santa Maria da Feira, onde há uma tradição muito longa de artes de rua. Talvez seja a única cidade em Portugal que consegue manter uma tradição nesta, com um festival, o Imaginarius, e com o Centro de Criação. Desde miúdo que a minha relação com os palhaços de rua, ou com os artistas de rua no geral, é muito íntima. Não nasci num contexto em que olhar para um artista de rua era negativo. Os meus pais educaram-me a ir ver os artistas de rua, a respeitá-los e a gostar daquilo que eles fazem. Ir ao Imaginarius ou à Viagem Medieval era um dia especial. Entretanto, isso começou alimentar o bichinho do teatro e aí decidi que queria ser ator. Fui estudar teatro para o Porto, para a Academia Contemporânea do Espetáculo, fiz três anos de curso e no meu terceiro ano comecei a deparar-me com aquelas dúvidas que toda a gente tem quando está a terminar um curso — que é que ia acontecer a seguir?

Quando comecei a reparar que as oportunidades que me estavam a oferecer ou que o percurso que ia começar a criar ia ser muito frustrante — porque o panorama artístico atual do teatro não é muito convidativo a novos atores e a novas experiências e porque os apoios vão todos para os mesmos –, percebi que não estava para aí virado. Então decidi fazer um ano off, queria viajar. O problema é que não tinha dinheiro para viajar. Então, lembrei-me dos artistas de rua de Santa Maria da Feira, eles viajavam pela Europa e pelo mundo todo. Decidi criar um espetáculo. Nessa altura, inspirei-me no clown e utilizei-o para desenvolver a minha própria linguagem. Trouxe toda a bagagem que tinha colecionado durante três anos de escola de teatro, construí um espetáculo e comecei a viajar com ele. Foi uma bola de neve. Do Imaginarius, fui para um festival em Sevilha. Ganhei um prémio de artista contemporâneo de circo, fui o primeiro palhaço a ganhá-lo. Percebemos que o clown encaixava muito bem em mim e que podia fazer dele uma fonte de investigação, algo que ainda ninguém tivesse feito. A questão era: de que forma é que o clown pode evoluir? Ele deixou de ser o que era no início, no circo, com os narizes vermelhos e todo o exagero, para ser uma arte morta. Hoje, o clown é só o símbolo. O Joker é o clown perfeito, mas é o símbolo da inocência que se perdeu e que se tornou num tipo que mata, que destrói. Foi assim que me entusiasmei ainda mais pelo que o clown é. Depois, comecei a circular e a criar novos espetáculos.

Basicamente, entraste nisto para poderes viajar.
Foi muito sem querer, como forma de arranjar dinheiro e de me abstrair um bocado do teatro. Consumiu-me durante três anos. Queria ser ator, ia ali a uma audição, a audição falhava. Havia aquela companhia e sempre com as mesmas pessoas.

"Não era propriamente um grande fã. Aliás, quando estive na sede em janeiro do ano passado, perguntaram-me se já tinha visto algum espetáculo e respondi-lhes que não. Conhecia, mas não era uma referência para mim"

O teatro deixou-te frustrado. O que é que te fez pensar que o clown seria diferente?
Essencialmente, a falta de história. Quando falo do clown, associo-o muito ao circo contemporâneo, ao que poderão ser as linguagens futuras que, especificamente em Portugal, têm estado um bocado adormecidas. Vi uma oportunidade de me sentir concretizado a estudar algo sabendo que estava mesmo a estudar algo, que não fosse pegar novamente num texto que já é replicado há séculos e levá-lo a um teatro. Esse entusiasmo começou a alimentar-me, tal como ter começado a viajar, a ir a festivais, a apresentar o meu trabalho, a discuti-lo e a perceber que, afinal, não é uma arte morta. Foi quase um achado. Encontrei um contexto adormecido, onde podia dar o meu contributo.

Falas numa arte adormecida. É uma impressão tua ou um argumento consensual?
A discussão é muito ampla. Há quem diga que está adormecida e que tem de ser apropriada por outras linguagens para sobreviver. Outros dizem que não, mas utilizam as mesmas técnicas e o mesmo visual usados há décadas. O Fellini tem um filme chamado “I Clowns” onde assume completamente que o clown está morto. Vai a Paris e a Itália, procura todas as grandes referências e entrevista esses palhaços. Todos eles assumem que já não podem fazer clown nos dias de hoje, que é impossível, que está morto. Dizem que as pessoas já não são ingénuas, que o público se desenvolveu e que o clown já não tem lugar nos dias de hoje, pelo menos não desta forma.

No meio desse desalento, que brecha encontraste para criar a tua primeira personagem?
Bem, envolveu muita pesquisa. Quando fiz a minha primeira criação, atirei-me mesmo ao estudo, não em torno do clown, mas em torno do boneco. Queria montar um espetáculo, mas percebi logo que não correspondia àqueles clichés. Não dominava nenhuma técnica, nunca tinha feito formação específica. Então, trouxe a minha formação de teatro e, de repente, comecei a pensar em dramaturgia para o clown. A própria caracterização — não é branco só porque vi numa imagem de há 60 anos, não posso usar um nariz vermelho só porque é assim. Tudo tem de estar justificado. Tudo isto acabou por surgir na forma do Godot. Andava um bocadinho perdido, sem perceber o sentido das coisas. Há um texto do Samuel Beckett — “À espera de Godot” — em que dois desgraçados estão na rua à espera de um Godot que nunca mais chega. Há teorias que dizem que o Godot pode ser um deus, a mulher de um deles, a morte, a justificação de alguma coisa. A minha proposta foi um palhaço. Alguém que não vem justificar absolutamente nada e que vem dizer: isto não tem sentido nenhum e vamos viver bem com isso.

Godot, a personagem criada por Rui Paixão, em 2015 © Imagem cedida por Rui Paixão

Quando é que o apresentaste pela primeira vez?
Foi no Imaginarius, em 2015. Foi também a estreia daquele espetáculo, o “Lullaby”.

Como é que foram as reações a essa personagem?
O exercício do espetáculo foi tirar as pessoas da sua zona de conforto. O meu objetivo era ir para a rua e conseguir repescar pessoas comuns, numa vida rotineira, e tentar colocá-las a fazer coisas que não eram expectáveis. O clown ia para além de mim, podíamos ser todos. As pessoas tinham medo da personagem e, ao mesmo tempo, riam-se. E o riso nunca vinha só pelo fator cómico, vinha por cumplicidade. De certa forma, apesar de sentirem medo daquele animal que estavam a ver, sentiam também cumplicidade.

Nunca quiseste construir uma personagem engraçada, preferiste uma que fosse inquietante.
Sim, nunca procurei a comédia. Não sou cómico, nem acho que o clown seja. Ele não tem a função de fazer rir, de ser um animador, muito pelo contrário. Para mim, é um estado em que olhas para o ser humano nas suas bases. Costumo dizer: ‘I’m looking for the face I had before the world was made‘ [Estou à procura do rosto que tinha antes de o mundo existir]. Ou seja, se a política não nos tivesse ensinado a ser desta forma, se a religião não nos tivesse ensinado a ser desta forma, se os nossos pais não nos tivessem ensinado a ser desta forma, se não existissem estes contextos, o que é que restava de nós? Para mim, o clown é isso. E o riso tem de nascer, não de um artifício cómico, mas de uma ressonância. É quando as pessoas percebem que também sentem aquilo.

Manténs o Godot vivo, mesmo depois da tua ida para a China?
Estava sediado em Santa Maria da Feira, onde, ao longo destes três, desenvolvi o meu próprio projeto, o Godot. Ele teve de morrer porque me vim embora. Durante esse período, desenvolvi seis espetáculos, todos eles com uma função muito específica ligada ao clown. O primeiro foi uma espécie de teste para perceber o que podia fazer. Depois, comecei a criar outras personagens e contextos para estudar a dramaturgia e novas técnicas. Além disso, colaborei com outras companhias, como a Radar 360º, uma companhia de circo e teatro de rua do Porto. Em 2017, colaborei com um festival de artes de rua, circo contemporâneo e teatro, perto de Barcelona — foram três artistas da Catalunha e três artistas portugueses a criarem um espetáculo juntos.

Tornaste-te um nome conhecido dos programadores, mesmo quando ainda tinhas uma carreira tão curta?
Dentro de um determinado nicho, sim. Cresci muito com os festivais, sobretudo na Europa. Aí as pessoas reconhecem-me e os programadores sentem que podem arriscar em novas criações. Mas há lugares que ainda não conquistei, mais fechados, com outras exigências artísticas. Há uns anos, estava muito determinado a apresentar o meu trabalho no Porto e em Lisboa. A Lisboa, só fui duas vezes. Ao Porto, nunca fui. Comecei a perceber que todas as candidaturas que fazia, assim como as tentativas de falar com programadores e responsáveis artísticos destas cidades, eram sempre recusadas. Não estava a perceber bem porquê, mas fui tentar saber. Falei com algumas pessoas e uma delas disse-me: ‘Rui, não podes usar a palavra clown, usa teatro físico ou dança contemporânea’. As grandes elites da arte em Portugal, que defendem tudo e mais alguma coisa, não aceitam algo tão simples como um tipo a fazer clown, que está a começar e que, se calhar, até pode ser um bocadinho interessante. É estranho.

"Tive de aprender a voar a uma altura de, mais ou menos, 12 metros [...] a correr e saltar em cima de pequenas plataformas posicionadas a cinco metros do chão, a ganhar resistência física para 70 minutos em cena sem parar. Até tive de aprender o célebre 'lean effect' do Michael Jackson"

Dirias, portanto, que existe um preconceito, quer em relação ao clown, quer em relação às artes de rua?
Há uma conotação à volta destas áreas que consigo perceber de onde vem. Só não consigo perceber as reticências e as barreiras que ela continua a gerar. Uma coisa era dizerem-me que não há artistas de circo e de rua em Portugal com vontade de fazer coisa interessantes, de estudar a rua e de estudar o circo. Agora, existem tantos que estão a tentar e que estão a ser barrados. O preconceito vem assim que ouves a palavra clown e a associas a um tipo de nariz vermelho a fazer coisas estúpidas que não interessam a ninguém, com o objetivo de animar e fazer rir. E não é isso, de todo. É um preconceito fechado — acham que sabem o que é o clown e não o querem, mas também não querem ouvir o que é que ele pode ser.

Foi por causa desse preconceito que acabaste por brilhar, sobretudo, fora do país?
Em 2017, não fiz um único espetáculo em Portugal. Sem ser o Imaginarius e um festival em Gouveia, só estive em festivais no estrangeiro.

E entretanto, o Cirque du Soleil. Como é que isso aconteceu?
Também veio desta minha vontade de viajar. Logo a seguir a ter construído o Godot e o espetáculo, o Cirque du Soleil abriu audições, estavam à procura de atores físicos e de palhaços, em Las Vegas. Não era propriamente um grande fã. Aliás, quando estive na sede em janeiro do ano passado, perguntaram-me se já tinha visto algum espetáculo e respondi-lhes que não. Conhecia, mas não era uma referência para mim. No entanto, vi naquela audição uma oportunidade muito grande de estudar o clown, eles têm o melhor coaching, independentemente de o produto ser mais ou menos comercial. Todos os palhaços que passaram pelo Cirque du Soleil estão em grandes companhias ou a desenvolver trabalhos super interessantes. Depois, o facto de poder ir para um sítio e começar do zero.

Em 2015, fiz a primeira audição. Enviei um vídeo e convidaram-me a ir a Las Vegas. Foi um dia inteiro e fiquei entre os cinco selecionados. Fui o único destinado a novas criações — eles têm artistas que colocam para substituições, que é o mais frequente, outros para eventos específicos e artistas para novas criações, que são chamados para criarem personagens ou números novos. O processo foi mais longo. Até 2017, acompanharam o meu percurso através de vídeos. Depois, surgiu a possibilidade de integrar este projeto com estreia marcada para 2019, em Hangzhou, na China. É uma nova criação do Cirque du Soleil, a mais tecnológica de sempre. Os diretores artísticos do espetáculo interessaram-se pelo meu trabalho, viram a personagem e convidaram-me a fazer uma primeira apresentação do que poderia ser o Khino. Enviaram-se todas as referências, eu gravei, enviei e fui aceite. Até fim de 2018, tivemos num processo de diálogo, a tentar perceber o que é que poderá ser esta personagem e a construi-la.

Interessaram-se pela tua audição. E tu, interessaste-te pelas direções que recebeste?
É super interessante. Nunca esperei que fosse tão bom trabalhar neste tipo de contexto mais mainstream. As pessoas são muito concretas e inteligentes na forma como criam os espetáculos e como estudam. Aceitaram todas as propostas que lhes fiz chegar, eles não recusaram uma única. Isto é mesmo especial, por isso é que eles crescem tanto.

"Mas estou desejoso por voltar a Portugal e perceber que consequências terá esta passagem pelo Cirque du Soleil, como o primeiro português numa criação original [...] Quero que valorizem o meu trabalho e que o ouçam, acima de tudo"

E tiveste de te mudar para a China no final do ano passado.
Sim. Definitivamente, fui em dezembro. Foi quando começámos a criação. Antes disso, em novembro, tinha ido à sede, no Canadá, para experimentar figurinos, maquilhagem e fazer já um esboço da personagem ao vivo. Depois, já na China, estive em ensaios e em processo criativo, o que foi intenso. Além da personagem, tive de conseguir algumas skills que não tinha — acrobacias de solo, trampolim e voo.

No fundo, foste para o outro lado do mundo para construir uma personagem. Fala-nos sobre o Khino.
Foi um processo duro. No total, sete meses de criação e treinos. Para além da composição da personagem, tive de aprender e treinar determinadas disciplinas específicas para usar no espetáculo. Tive de aprender a voar a uma altura de, mais ou menos, 12 metros, suspenso apenas por um braço, a executar uma queda em grande altura para um colchão, a correr e saltar em cima de pequenas plataformas posicionadas a cinco metros do chão, a ganhar resistência física para 70 minutos em cena sem parar. Até tive de aprender o célebre lean effect do Michael Jackson. Juntamente com o coaching e com o diretor do espetáculo, tive de perceber qual o sentido cómico do público chinês para poder construir o ato de clown do espetáculo. Esse foi, sem dúvida, o desafio mais complexo, só ficamos satisfeitos com a versão final a três semanas da estreia. A construção do Khino continua a ser um desafio enorme, é uma personagem bastante física e com características muito próprias. Entretanto, não consegui voltar a Portugal. Tive pouquíssimos dias de folga e, nesses poucos, decidi conhecer outros sítios da China — já estive em Hong Kong, Pequim, Xangai e Macau.

“X: The Land of Fantasy” estreou esta semana. Como tem sido a rotina até aqui o que é que vai mudar com o arranque do espetáculo?
Tenho trabalhado 12 horas por dia, seis dias por semana. As manhãs são para treinar, divididas entre preparação física e treinos específicos dos números do espetáculo ou aspetos mais técnicos da personagem. À tarde e à noite, dedicamo-nos à encenação e à criação. Nas últimas três semanas antes da estreia, fizemos um espetáculo teste por semana, aberto ao público. Tem sido a experiência mais intensa que já tive até hoje. O nível de exigência é absolutamente fora do vulgar, física e mentalmente.

Um ano e meio depois da primeira ida a Las Vegas — depois de toda a preparação, construção criativa, ensaios e da estreia do próprio espetáculo –, o Cirque du Soleil continua a não ser uma grande referência para ti?
Continua. Parece-me inevitável que, quando uma instituição cresce e ganha uma dimensão ultra gigantesca, determinados valores se percam. A primeira história que nos contam quando entramos na companhia é de como o seu fundador começou a fazer circo na rua, com a ambição de inovar e de partilhar este lugar de imaginação e, o que me parece ainda mais belo, um lugar de anestesia que faz o ser humano superar-se e sentir-se vivo. Hoje, parece-me que a história é diferente — trata-se de criar novas ideias para gerar mais dinheiro. Não tenho nada contra, afinal é como tudo o que está a ser construído à nossa volta. Nesta companhia, um palhaço e os restantes artistas são a única esperança de passar alguma humanidade ao espectador.

10 fotos

Quanto tempo vais ficar?
No total, são dois anos. Vou regressar no final de 2020. O espetáculo vai continuar, mas só quero ficar esse período, mais pela experiência da criação. Quando voltar, quero criar um novo espetáculo que me faça evoluir, tenho coisas para experimentar. Continuo a achar que o clown é uma arte adormecida, mas sei que também o digo da minha perspetiva, chega a ser um significado muito pessoal. Estou a trabalhar numa companhia mundialmente conhecida por, em tempos, ter revolucionado e desenvolvido a linguagem daquilo que viria a ser o circo contemporâneo, mas volto a deparar-me e a perceber que determinadas fórmulas estão já tão enraizadas neste universo que é muito difícil contrariar. Acho que a minha demanda por tentar, de alguma forma, mostrar alternativas para o clown vai ser uma tarefa bem árdua e que vai levar tempo. Por agora, vou mostrando em palco novas possibilidades, nas quais os diretores deste projeto não tinham pensado. Sou um selvagem neste jardim zoológico.

Achas que te vão dar mais valor quando voltares?
Isso acontece sempre, é inevitável. O Cirque du Soleil acaba por ser uma espécie de carimbo na vida de um palhaço e acho que vai fazer parte daquela provocação externa de que preciso para desenvolver o meu trabalho aí. É uma forma de valorizar um trabalho ou de chamar a atenção, pelo menos. Até acredito que seja mais isso. Mas estou desejoso por voltar a Portugal e perceber que consequências terá esta passagem pelo Cirque du Soleil, como o primeiro português numa criação original e como defensor de uma disciplina tão especifica no circo. Quero chamar a atenção para aquilo que estou a fazer. Quero que valorizem o meu trabalho e que o ouçam, acima de tudo. Não têm de gostar, mas têm de ouvi-lo, por favor.

Achas viável persistir nessa carreira em Portugal?
Acho que sim, já provei isso. Durante três anos em Portugal, vivi só do clown e não tive razão de queixa. Até porque, neste momento, o circo contemporâneo está a crescer em Portugal. O governo finalmente decidiu valorizar as candidaturas que se destinam ao circo contemporâneo, às artes de rua e ao aparecimento de escolas como o INAC [Instituto Nacional de Artes do Circo] e a ACE [Academia Contemporânea do Espetáculo], que agora também tem um curso profissional de artes do circo. Tudo isso está a fazer crescer a nova linguagem, que daqui a um ano deve estar aí a estourar. Será mais um espaço onde o clown se pode juntar.

Imaginas-te a trabalhar sozinho, a formar uma companhia?
Queria muito formar uma companhia. Até aqui, tenho trabalhado a solo e acho que vou precisar destes dois anos para definir as técnicas. É muito difícil criares uma companhia e não conseguires passar aos outros aquilo que vai dentro de ti, o que queres encontrar. Se estou a trabalhar uma linguagem que é nova, se estou à procura de inovação no clown, então tenho de percebê-la primeiro comigo para depois construir uma companhia e, aí sim, começar a espalhar, porque quantos mais melhor.

O Godot morreu para dar lugar ao Khino. Poderá ressuscitar um dia?
Odeio ressuscitar coisas. Acho que não, ele não volta. Fez sentido durante três anos e morreu muito bem. Não faz sentido voltar e, se voltar, nunca será o Godot como nasceu. Pode voltar com a mesma essência e com o mesmo objetivo, mas nunca da mesma forma. Ele teve a sua história, já ficou e ficou bem.

Recomendamos

Populares

Últimas

A página está a demorar muito tempo.