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Rui Veloso: "Há canções em que me vejo à rasca, não sei se chore se cante" /premium

O concerto de Natal que está a preparar no Campo Pequeno, o dia em que Amália ("não há cá dona para ninguém") lhe pediu uma canção e a necessidade de haver "um Uber dos concertos". Rui Veloso no sofá.

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Chegamos ao estúdio que Rui Veloso construiu na Tapada de Vale de Lobos, no concelho de Sintra — um “Rolls Royce”, como lhe chamou, comparando-o a um outro estúdio canadiano que visitou recentemente que era um “Fiat 500” — convencidos que a conversa decorreria ali. Pequena mudança de planos: “Vamos ali para minha casa que está mais quentinho”, sugere o músico e cantor português, em fase de ensaios para um concerto que dará no próximo sábado, dia 8, no Campo Pequeno, em Lisboa.

Do estúdio, Rui Veloso guia-nos para o interior de sua casa (fica mesmo ao lado), começando pela cozinha, onde há-de preparar um chá de gengibre. “Isto é um anti-inflamatório”, diz-nos, “há tempos estive doente na Patagónia e acho que foi isto que me levantou, bebi uns dois litros”.

Já com o chá preparado e com uma colher de mel alentejano adicionada para adocicar, Rui Veloso leva-nos à sala de estar. “Bem-vindos à guitarland”, brinca, fazendo referência às várias guitarras espalhadas pela sala. É ali, no sofá onde se senta diariamente, que Rui Veloso falará do concerto que aí vem, das canções que o público gosta de ouvir, das canções que às vezes lhe custa cantar, da época em que Amália lhe pediu um tema avisando-o que não era “dona Amália nenhuma”, do burburinho que se ouviu depois dos comentários que fez sobre o hip-hop numa entrevista recente ao apresentador Rui Unas, de não ter exatamente “um estilo próprio” por ter feito discos muito diferentes uns dos outros e da indústria musical, que “colheu o que semeou”.

No final, ainda houve tempo para pedir a Rui Veloso que comentasse algumas canções lançadas este ano. Melómano, dono de uma coleção com “milhares de discos”, pouco interessado na pop de hoje em dia, acabou a falar-nos de Ryley Walker, músico indie que acabarámos de ouvir no Spotify. “Sabes que assino a Mojo há muitos anos, pá. Mantenho-me informado. Esse tipo não esteve cá agora?” Esteve, pois esteve, numa sala (Galeria Zé dos Bois) bem mais pequena do que aquela em que Rui Veloso atuará a 8 de dezembro, o Campo Pequeno onde já não dá um concerto em nome próprio desde os anos 1990. “Há muita coisa naquilo que se chama ‘alternativo0 muito bom, mas não percebo o termo. É alternativo a quê? É bom ou não é bom”. É isso.

“Para que é que uma pessoa vai fazer dez canções novas?”

Este dia de entrevistas está a ser longo?
Não. Tive um ensaio das 14h30 às 15h30 e depois começaram. Ainda só fiz uma. Está tudo bem, gosto de estar aqui no meu elemento, em vez de ter de ir para sítios impessoais fazer entrevistas.

Ainda tem paciência para estas conversas?
Sim, gosto. Não é sempre, normalmente até nem tenho muita coisa para dizer, tento não me repetir muito. Mas também não há problema.

Não tivesse estas entrevistas hoje, como seria o dia? Tem rotinas mais ou menos definidas?
Tenho muitas coisas periféricas, há muita periferia à volta da música. Muitas vezes são coisas que não têm nada a ver com música, de organização e tal. Há montes de coisas. Mas não sou uma pessoa que tenha um horário das 9h às 17h. Pode-me dar para começar a tocar às onze da noite e entusiasmo-me, estou ali, de repente são duas da manhã e ainda estou a tocar. Mas hoje em dia uma pessoa não está sossegada por causa do telemóvel: é o Whatsapp, é o Messenger, são as notificações de notícias do Observador [ri-se]. Estamos sempre ocupados. E nem sequer tenho Facebook pessoal.

Mas já pensou ter? Ou já teve?
Tive mas deitei-o fora. Não tem interesse nenhum, tira mais do que dá. Há dois anos que não tenho Facebook pessoal e sobrevivi. Estou vivo, não tive uma depressão enorme, não me atirei para debaixo da ponte nem para debaixo do comboio.

"Tinha para aí duas mil e tal pessoas, quase três mil, no meu Facebook. Tudo pessoas que conheço. Mas estar em contacto com duas mil e tal pessoas todos os dias? Um homem não aguenta, ninguém aguenta."

Também não perdeu amizades?
Não… tinha para aí duas mil e tal pessoas, quase três mil, no meu Facebook. Tudo pessoas que conheço. Mas estar em contacto com duas mil e tal pessoas todos os dias? Um homem não aguenta, ninguém aguenta. Voltei ao antigo, quase ao telefone fixo.

Se alguém quiser, sabe como o encontrar?
Mais ou menos, pouco, porque falo pouco ao telefone, é tudo por mensagens.

Tem tocado mais ultimamente, para preparar este concerto de Natal no Campo Pequeno? Ou as canções já estão tão rodadas que não precisam de grandes ensaios?
Temos um lote de canções ensaiadas, é verdade, mas vamos fazer mais algumas que não estão assim tão bem ensaiadas. Temos de as ensaiar, mas três ensaios fica feito, impecável. O António Serrano, que vai tocar harmónica, chega no próprio dia. Já lhe mandei umas coisas, mas também ele quando começa a tocar parece que adivinha a música, é um músico fora de série. Depois vamos ter um coro com quem é preciso ensaiar, não sei se será agora no fim-de-semana [dias 1 e 2 de dezembro] se na segunda, terça e quarta-feira. Como é tudo “pros”, a coisa vai sair bem. Já tenho muitos anos e também tenho muita confiança nas pessoas que trabalham comigo. A malta entende-se muito bem, tocamos e estamos sempre contentes, não há atritos, não há nada.

E quais são essas canções que estão menos ensaiadas?
Até vou cantar uma canção que nunca toquei e nunca gravei. É uma canção que pode ser considerada nova embora não a tenha feito agora, já a fiz há uns anos. Provavelmente vou gravá-la. É uma canção que tem para aí dez anos, mas é uma canção de que gosto muito, que só tocava aqui em casa, de vez em quando. Vou tocar também a “Presépio de Lata”, que é uma música que é muito raro tocar e de que gosto muito, com o coro também vai ficar diferente. Também a “Praia das Lágrimas”, que é do [disco] Auto da Pimenta. O coro vai dar uma cor diferente a tudo. Vou cantar também a “Fado Pessoano”, que é uma música que adoro e nunca toco. Tenho montes de músicas que quero voltar a tocar: houve umas que toquei muito pouco, outras que gravei e nem sequer toquei, porque ia para os espetáculos e tinha de tocar aquelas de que o pessoal gosta. Estou com vontade de tocar umas músicas que as pessoas vão pensar: epá, esta é nova. Mas não, já está gravada há 20 ou 25 anos…

"Hoje em dia deixou um bocado de fazer sentido fazer discos. É uma pena, porque para além do objeto físico, havia uma lógica temporal de se fazer um disco. Agora, as pessoas consomem muito canção a canção. Muito por culpa da indústria. Mas realmente para que é que uma pessoa vai fazer dez canções novas? Vão-se fazendo e tocam-se as antigas, de que as pessoas gostam, identificam-se e que gosto de tocar."

Essa canção que nunca gravou, vai lançar como single, como canção solta, num futuro disco?
A minha ideia é só pô-la na internet. Hoje em dia deixou um bocado de fazer sentido fazer discos. É uma pena, porque para além do objeto físico, o CD ou LP, havia uma lógica temporal de se fazer um disco. Agora, as pessoas consomem muito canção a canção e tal. Muito por culpa da indústria, a indústria fez bastante por isso e agora está a colher aquilo que semeou. E é pena. Mas realmente para que é que uma pessoa vai fazer dez canções novas? Faz-se uma, depois outra, a seguir outra… E tocam-se as canções antigas, de que as pessoas gostam, identificam-se e que eu também gosto de tocar. São canções boas. Acontece comigo como acontece com os outros todos: os Rolling Stones andam quase há 50 anos a tocar sempre as mesmas [ri-se] e o Paul McCartney se não toca o “Let It Be”, a malta fica chateada, porque pagou bilhete, quer ouvir aquelas. Eu próprio sou exigente com isso.

Gosta da sala em que vai tocar, o Campo Pequeno?
A última vez que lá toquei se não me engano foi num concerto do João Gil e gostei de lá estar. Pessoalmente, não me lembro de lá tocar a não ser com aquilo aberto. Em 1990 ou coisa assim, fiz ali um grande concerto. O som é completamente diferente com a cúpula fechada, não se pode tocar alto, não se pode fazer muito barulho, porque aquilo tem muitas reflexões estranhas e complica muito a audição. A sala é muito bonita, só que como a maior parte das salas deste país não foi feita para fazer concertos. O Altice Arena, por exemplo, foi pensado para fazer eventos desportivos, nada daquilo estava preparado para concertos. Gastou-se aquele dinheiro todo para se fazer um pavilhão para várias atividades, mas acabou por ser uma coisa em que o que acontece de mais visível são os concertos. Pouco mais acontece ali, a não ser a Web Summit, que também é uma espécie de concerto, também tem público a bater palmas [ri-se].

“A fórmula que tenho é ouvir discos, tocar com outras pessoas, ir aprendendo e descobrindo coisas”

Dizia há pouco que as pessoas que pagam bilhete querem ouvir determinadas canções. Mas para si, que as está a tocar em cima do palco, não houve nenhuma altura em que se tivesse fartado de tocar alguma?
Tudo isso tem a ver com a maneira como se está em cima do palco. Estar psicologicamente bem conta, se estiver mal é natural que haja uma ou outra coisa que não soe bem. Depois o som e os músicos influenciam. Há uma conjugação de coisas que fazem com que corra bem ou mal.

Quando as coisas estão a correr bem é um prazer, nunca é igual. Nunca canto as coisas da mesma maneira e nunca as toco da mesma maneira. Há sempre uma componente de improviso. Não sei bem o que é que estou a fazer, hoje estou a fazer assim, toco com os dedos, amanhã já toco com a palheta. Umas vezes toco guitarra elétrica numa canção, outras vezes toco guitarra acústica. Varia — e o som vai ficando diferente. Uma pessoa tem de tirar prazer daquilo, se está tudo encaixado, se a malta está ensaiada, se o groove está certo, se está tudo relaxado — laid back, como gosto — não me canso. Em quase 30 anos, só houve um espetáculo em que não toquei “A Paixão (Segundo Nicolau da Viola)”, que agora toda a gente chama “Anel de Rubi”. Só não a toquei num concerto.

Qual foi, lembra-se?
Sei lá! A mim é que me dizem que só houve um que não toquei, nem me lembro. No outro dia estava a tocar ali na Pasteleira [Porto], acabámos de tocar e ficámos assim: queres ver que não vão pedir e vai ser a segunda vez que não a toco? Mas não, pediram e tivemos de cantar.

"Se uma pessoa tiver, sei lá, um filho doente, a mãe que morreu, qualquer coisa assim, é muito difícil. Aí, mais depressa há uma canção em que canto e sou gajo para me virem as lágrimas aos olhos. Mesmo sem isso há canções que tive sempre dificuldade em cantar, porque mexem comigo e chega uma altura em que já me vejo à rasca para as cantar, não sei se chore se cante."

“Sou gajo para me virem as lágrimas aos olhos”

Às vezes há a ideia de que para um músico qualquer concerto é um momento de celebração, de euforia…
E é.

Mas não há dias em que apetece tudo menos ir para cima de um palco?
Pois, o estado psicológico conta muito. Se uma pessoa tiver, sei lá, um filho doente, a mãe que morreu, qualquer coisa assim, é muito difícil. Aí, mais depressa há uma canção em que canto e sou gajo para me virem as lágrimas aos olhos. Mesmo sem isso há canções que tive sempre dificuldade em cantar, porque mexem comigo e chega uma altura em que já me vejo à rasca para as cantar, não sei se chore se cante.

Por exemplo?
“O Fado Pessoano” é uma delas. Foi-me sempre muito difícil cantá-la. Outra canção que não vou tocar [agora no concerto de Natal] é a “Benvinda Sejas Maria”, de que gosto muito. Gravei-a na altura em que nasceu o meu filho Manuel, tenho uma filha chamada Maria… Esta nova canção que vou tocar também é das tais músicas que vamos ver se a consigo cantar inteira sem me atrapalhar. Tudo isto tem a ver com a pessoa que está ali a dar de si.

[“Fado Pessoano”:]

https://www.youtube.com/watch?v=sgNf80GvHz4

É sobre o quê, essa canção nova?
[pausa] É sobre a vida, é um miúdo que vai num elétrico. A canção está gravada pela Cristina Branco, mas gosto da minha versão. Aquela foi a versão que ela ouviu quando lhe mandei a música, mas gosto da minha, tive sempre vontade de gravar um dia destes. Aquilo com o António Serrano vai ficar top, mas vou chorar de certeza, é uma chatice.

Há muitos músicos atuais que são, em certa medida, filhos do Rui Veloso.
Há alguns para aí. É normal. E do [Carlos] Tê, também.

"Não tenho um estilo próprio, a não ser ser eu. Como ouço muita coisa, tanto posso fazer uma música mais ajazzada, outra mais abossada, outra mais abluesada, outra mais funkizada... Tenho uma obra um bocado incaracterística, no aspeto de não fazer os discos todos mais ou menos do mesmo género."

São filhos do pop-rock português, da canção em português. Há alguns em que se reveja, em que quando ouve sinta que vêm daí, com os quais se identifica?
Há alguns músicos que surpreendentemente vêm-me dizer que ouviram, que conhecem e sabem tocar as músicas. Por exemplo, dois músicos diferentes: o Diogo Clemente [guitarrista e produtor, da área do fado] e o Miguel Araújo. O Miguel claramente ouviu o Mingos & Os Samurais, sabe aquilo melhor do que eu, de cor, e sabe tocar. O Diogo também, é engraçado, vem ter comigo e diz-me: “aquela música”… E toca, todo contente. É outra geração, deixa-me contente.

O que fiz não é uma coisa de um estilo, não tenho um estilo próprio, a não ser ser eu. Como ouço muita coisa, tanto posso fazer uma música mais ajazzada, outra mais abossada, outra mais abluesada, outra mais funkizada… vem da panóplia de coisas que ouço, porque tenho milhares de discos. Tenho uma obra um bocado incaracterística, no aspeto de não fazer os discos todos mais ou menos do mesmo género, com o mesmo som, o mesmo tipo de instrumentação, arranjos, melodias. Acho que é capaz de ser mais fácil ter um estilo, como os U2, por exemplo, que há anos fazem quase sempre discos semelhantes, não muda muito. Aí, com mais luz ou menos luz, a coisa nunca muda grande coisa, não evoluiu especialmente. Dei o exemplo dos U2 como podia dar muitos outros.

Isso aconteceu porquê? Não se queria fartar de tocar e gravar o mesmo?
Foi natural, foi natural. Quando pegava na guitarra, ia para vários sítios. Tem muito a ver com a letra que recebia, depois é que via se ia para a guitarra acústica, para o piano… já fiz músicas em bandolim, em baixo, em piano, em órgão, em Fender Rhodes, sei lá. Houve músicas em que me sentei ao piano e fiz em cinco minutos. O “Primeiro Beijo” foi assim: vinha a pensar num tema do Tom Waits — um dos meus favoritos de sempre, do primeiro disco dele, de 1973 –, sentei-me ao piano, fiz uns acordes mais ou menos parecidos, porque vinha a pensar na música, tinha a letra do “Primeiro Beijo” à frente e fiz a música. Ficou como canção dos Cabeças no Ar [supergrupo composto por Rui Veloso, Tim, Jorge Palma e João Gil].

[“Primeiro Beijo”:]

Onde é que estava quando isso aconteceu?
Vinha de carro não sei de onde, de um concerto ou coisa assim. Sei que entrei pelo estúdio e sentei-me ao piano. O Tim já tinha feito uma música para essa letra do “Primeiro Beijo”, o João Gil também. Eu fiz uma terceira. Depois eles ouviram e disseram: não vale a pena tentarmos mais, já está. Disseram logo que era esta música que ficava. Aquilo foi giro. Não é daquelas canções com arranjos, ritmos diferentes, teclados e tal. Zero, nada disso, é só uma voz e um piano que depois ao vivo trocamos por duas guitarrinhas acústicas.

Pela descrição não foi uma música em que tenha perdido muito tempo a pensar em como escrever um êxito. Ou foi?
Como é que um gajo sabe que escreve êxitos? Não sabe.

Não há fórmulas?
Claro que não. As pessoas depois gostam ou não, é assim. Só o Emanuel é que tem fórmulas [ri-se], tem uma fórmula que andou a estudar para fazer canções. A fórmula que tenho é ouvir discos, tocar com outras pessoas, ir aprendendo e descobrindo coisas: sequências harmónicas e tal, na guitarra, no piano ou no baixo que adoro tocar. A maior parte das pessoas nem sabe, mas nos meus discos quantas vezes não sou eu a tocar o baixo que se ouve. Até no último, dos amigos [Rui Veloso e Amigos], toco muito baixo. Adoro tocar baixo. E eu acho que sou baixista, não toco com uma abordagem de guitarrista, de querer fazer muitas notas. Quero é fazer poucas notas, usar as três cordas de cima e quase mais nada. Economia [ri-se].

"Há um problema que vai ter de ser resolvido, vai ter de haver um Uber dos concertos. Estamos sempre sujeitos aos promotores. Mesmo que haja um núcleo de pessoas que queira ver um artista, dependemos deles. Um dia, o público vai escolher: este tipo vai ter que vir cá tocar. E pronto."

“A Amália disse-me: gostava tanto de ter uma música sua”

Numa entrevista que deu há dois anos ao Observador, queixava-se de que “hoje em dia não há concertos, há festivais”. Discutiu-se agora a descida do IVA na cultura, se seria só para concertos em salas fixas ou também em festivais e palcos improvisados. O que é que acha disso?
Há um problema que vai ter de ser resolvido, vai ter de haver um Uber dos concertos. Estamos sempre sujeitos aos promotores. Mesmo que haja um núcleo de pessoas que queira ver um artista, dependemos deles. O Bezegol, por exemplo, toca muito no norte mas não toca muito no sul, não o contratam não sei porquê. Há muita gente no sul que gosta do Bezegol — como de outros artistas. Um dia, o público vai escolher: este tipo vai ter que vir cá tocar. E pronto.

Por mim falo, porque há tanta coisa que vem a essa Europa cultural que chega à nossa fronteira e volta para trás… Basta dizer que duas cidades maravilhosas carregadas de turistas como Lisboa e Porto não têm um único festival de jazz decente, um festival do jazz mainstream de que tanta gente gosta. Não o Jazz em Agosto, só para a malta da mesa do canto, estou a falar do jazz mainstream: o John Scofield, o Wynton Marsalis, o Joshua Redman, o Pat Metheny, essa malta toda. Também não há um único concerto de blues em Lisboa, mas há muita gente que adora blues. Os bons tipos do blues estão todos a morrer e nunca passam por Portugal, mas andam pela Europa. O Taj Mahal, o Keb’ Mo’, o Joe Bonamassa, andam pela Europa e não vêm a Portugal. É uma pena. Cantores fantásticos, grupos do caraças, bons. O David Gilmour também nunca vem, nunca se lembram de o trazer. Mas com outros há uma repetição, há quem venha cá muitas vezes.

Há mais aposta na música pop, mais radiofónica?
É. E o ambiente na pop está estranho, está tóxico, cheio de wannabes — cantores que não sabem cantar, músicos que não sabem tocar, está cheio disso. Tudo justifica o epíteto “alternativo”, tudo o que é “alternativo” vale. Há muita coisa naquilo que se chama “alternativo” muito bom, claro, mas não percebo o termo. É alternativo a quê? É bom ou não é bom! Gostava muito de fazer um festival aqui em Sintra.

Já propôs?
Oh… para aí há cinco anos que ando a tratar disso. Vamos ver se acontece. Gostava de fazer um festival de jazz e blues aqui em Sintra. E também um festival de folk music, de música popular de vários países, porque Sintra também tem condições boas para isso. Um festival com os Gaiteiros de Lisboa, o cante alentejano, essas coisas todas. Porque há coisas lindas, maravilhosas, no nosso país e também por esses países fora. A cultura celta que é maravilhosa, a música da Galiza, Astúrias, Inglaterra, Irlanda, Escócia, dos balcãs… Como Sintra tem gnomos, fadas e tal, tem tudo a ver com as flautas, as gaitas de foles, as guitarras acústicas. Seria muito giro.

"O público ficou habituado a não pagar, porque as autarquias oferecem os concertos. Porque é que a música é de borla mas no supermercado temos de pagar? E no cinema, no comboio, no metro, não temos de pagar bilhete?"

Os últimos números a que acedi diziam que cada português compra em média um bilhete para um espetáculo ao vivo de dois em dois anos — e os dados sugerem que no que toca a pagar um bilhete para um concerto estamos na cauda da Europa. Isso revela algum falhanço das políticas culturais?
Revela uma coisa que é uma luta antiga nossa, dos músicos: o problema dos concertos de borla. Fiz boa parte da minha carreira a fazer concertos de borla. Não tocava de borla, nem eu nem os meus músicos, detesto isso, mas o público ficou habituado a não pagar, porque as autarquias oferecem os concertos. Porque é que a música é de borla mas no supermercado temos de pagar? E no cinema, no comboio, no metro, não temos de pagar bilhete? Porque é que não se paga? O que vale é que temos os concertos, porque se as pessoas não comprando discos também não pagassem bilhetes, vivíamos de quê? Em Portugal sempre cobrámos mal os direitos de autor, em vez de incentivarmos os autores a produzir, pagando-lhes e cobrando como deve ser. Não são bem pagos. Ninguém diz, mas os autores também contam. Eu vou tocar, mas as letras também foram feitas pelo Carlos Tê, pelo João Monge. Essas pessoas também vivem disto.

Mudando um pouco de assunto: a sua família era politizada. O seu pai estava ligada ao Teatro Experimental do Porto…
Sim e a cooperativas. O meu pai era um cooperativista.

Havia também uma ligação à oposição ao regime, tinham livros e fotografias proibidas em casa. Tentou passar esse ambiente de consciência e discussão política em que cresceu depois para os seus filhos, quando foi pai?
Eles sabem muito bem que a coisa com que mais sofro e que mais me revolta é a injustiça. Eles viveram sempre com isso. Sou um eterno revoltado, todos os dias revolto-me contra uma injustiça qualquer, porque vivemos de injustiças. Começa no parquímetro que temos de pagar à porta de casa: não é justo, as pessoas não deviam ser tratadas assim, depois de pagarem os impostos todos ainda têm de levar com os parquímetros, gastar não sei quanto por dia. Vivemos essas pequenas injustiças todos os dias.

"O hip-hop de que falava [na entrevista ao humorista e apresentador Rui Unas] é o hip-hop dos gangsters, dos milionários, dos tipos que só querem ganhar dinheiro, que vão para cima de um palco em que têm milhares de pessoas a vê-los e não têm um único músico, porque os músicos são capazes de estar por baixo do palco."

Aqui há tempos deu uma entrevista ao Rui Unas que foi muito falada [em que Rui Veloso fez algumas críticas ao movimento hip-hop]. Aquilo chateou-o? Acha que foi mal compreendido, pensou se devia ter dito o que disse como o disse?
Não liguei muito àquilo, disse e está dito. O que disse é que aí passa-se o que se passa com o resto da música: há a boa e há a que não presta. A maioria não presta, não gosto, e o rap está incluído nisso, para mim é igual à pop. Gosto de algumas coisas mas da maioria não gosto. Uma coisa reconheço: enquanto a pop normalmente veicula ideias pueris, infantis — as letras em geral são de envergonhar qualquer mortal –, o hip-hop algumas vezes diz coisas que fazem sentido, que são importantes e que devem ser ditas. Essa é a grande diferença. Mesmo não tendo grande música por trás, o que dizem muitas vezes é muito mais importante do que a música em si. Mas o hip-hop de que falava naquela entrevista é o hip-hop dos gangsters, dos milionários, dos tipos que só querem ganhar dinheiro, que vão para cima de um palco em que têm milhares de pessoas a vê-los e não têm um único músico, porque os músicos são capazes de estar por baixo do palco. Era desses tipos que falava.

O que é que lhe deu para cantar o “Azevedo, o Último dos Duros” ao Caetano Veloso?
Onde é que viste isso? Epá, foi uma vergonha do caraças [ri-se]. Foi uma música que fiz com o Carlos Tê, é um fado que goza um bocado com o fado. Eu agora tenho mais consideração pelo fado, mas quando era miúdo não ligava nada, para mim o fado fazia parte do universo do cançonetismo. Depois comecei a perceber que no fado havia canções fantásticas, cantoras e cantores fantásticos, mas na altura era um bocado preconceituoso em relação ao fado. Porque é que lhe cantei aquilo? Porque estava lá o Paquito e o Fontes Rocha [guitarristas de fado], salvo erro, e eles tentaram acompanhar. Foi uma graçola, porque aquilo é uma música tipo as do Rouxinol Faduncho do Marco Horácio. “Com aquela voz de bagaço / cantarolando Roberto Leal”, é assim que acaba a música. [Começa a cantar em modo fadista] “Há quem diga que ele é duro / castiga as raparigas”.

Também contou uma vez que a Amália lhe pediu uma canção. Como é que isso aconteceu?
Ela gostava imenso de mim, dizia-mo declaradamente. Uma vez tentei chamar-lhe dona Amália e ela disse “ei… não há donas aqui, não há aqui dona nenhuma”. OK, então ficava Amália, pronto [ri-se]. Disse-me: “Gostava tanto de ter uma música sua”. Eu disse-lhe: pois, também gostava. Sou muito fã da Amália, era uma cantora maravilhosa. Mas ela naquela altura já estava muito fraquinha, não conseguia cantar direito… ficou a vontade.

“Quem é esta [Rosalía]? É bom, é”

Já disse que não gosta muito da música pop nova, disse aliás que “há muito pouco música nova, são as tais fórmulas Coldplay, U2”. Noutra entrevista dizia que não ouvia praticamente “a pop de hoje em dia”. Queria fazer-lhe um desafio: estamos naquela altura de fazer as listas com os discos do ano. Como ouve muita música, como já disse, gostava de o ouvir comentar alguns excertos de temas deste ano.

[Rui Veloso aceita, mas faz uma pequena paragem para ir buscar uma coluna, para não ouvir os temas “nessa merda”. Essa “merda” é a coluna de um iPhone]

Isto é o quê? É Bill Frisell ou coisa assim, não?

Quase, quase.
O gajo andou a ouvir o Bill Frisell, o guitarrista. Como é que se chama?

Julian Lage.
Ah… é fantástico! Tenho umas palhetas aqui no bolso por causa dele. E tenho dois discos do gajo.

[Ouve-se mais uns segundos do tema]

Isto é fantástico. Este tipo é um dos grandes de agora. Toca com uma Telecaster! Claramente este gajo ouviu o Bill Frisell. Desse tenho tudo, adoro-o e já o conheci.

Isto é africano, não é?

É, é. Tuaregue.
Tinariwen?

Quase, é Bombino.
É Bombino? Gosto, gosto muito. Não tenho muita coisa dele, tenho mais dos Tinariwen. Isto é blues do deserto, é conhecido como blues.

[Começa a ouvir-se “a blooming bloodfruit in a hoodie”, do trompetista Ambrose Akinmusire, com participação do rapper Kool A. D.]

Isto é bom. O tipo [o rapper] fala muito, cansa, mas isto é muito bom. Quem é?

O trompetista chama-se Ambrose Akinmusire.
Esse nome não me é nada estranho.

Edita pela Blue Note. O outro é um rapper, menos conhecido. Chama-se Kool A. D, participa no tema.
Eles têm todos Kool no nome [ri-se]. Pois, aqui os rappers portugueses é que ficaram um bocado chateados com o que disse. Não perceberam. Estava a falar muito da música americana e daquilo que eles exportam: os McDonald’s, Burguer King’s, os cafés do Starbucks, que são uma coisa horrível, fazem mal às pessoas, é só açúcar. E aquela onda de gangues veio daí, não apareceu na Grécia ou na Turquia de origem, foi importado. Deve-se aproveitar mais a música do que a atitude. A atitude é que às vezes me irrita.

Isto tem flauta, não tem?

Tem, tem.
É giro, é giro. Daquela onda tipo John Martyn, que adoro. É dos meus músicos preferidos de sempre. Tem um disco que é fantástico, chama-se Solid Air. É maravilhoso. Sabes que assino a Mojo há muitos anos, pá! Mantenho-me informado por esse lado, é porreiro.

Vamos agora ouvir um tema português.

Não sei… lembra-me um bocadinho o Abrunhosa.

É o Júlio Resende.
Ah, sim. É giro. Eu gosto do Abrunhosa, atenção! O Pedro é bom.

Esta agora é um fenómeno recente…
Olha que não vou muito em fenómenos.

Tem quantos anos? 12, para aí não? [ri-se]

Tem 20 e qualquer coisa.
Isto é giro. Não gosto muito de vozes que parecem de criança, mas é gira a música. É bom, é.

Obrigado, Rui.
De nada. Foi porreiro.

Fotografias de Arlindo Camacho

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