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José Peseiro e Rui Vitória. De alunos brilhantes a mestres do futebol — o que os une e separa, além da rivalidade no dérbi /premium

Do Ribatejo ao comando dos grandes de Lisboa, Rui Vitória e José Peseiro cruzaram-se pelo caminho, antes de seguirem direções opostas. O Benfica-Sporting coloca-os frente a frente pela nona vez.

23 de fevereiro de 2013. O Estádio Axa compõe-se com mais de 15 mil espetadores para assistir ao quarto e último dérbi do ano, à 20.ª jornada do Campeonato, que desequilibraria as contas para uma das formações minhotas. Até então, tudo empatado: o Sp. Braga tinha vencido fora na primeira volta do Campeonato por 2-0, o V. Guimarães tinha eliminado os bracarenses nos quartos de final da Taça por 2-1 e, pelo meio, as duas equipas tinham empatado a zeros para a Taça da Liga. No Axa, naquele dia de fevereiro, seria o Sp. Braga a levar a vitória por 3-2, com o herói nacional Éder, autor do golo que colocou Portugal no topo da Europa em 2016, a bisar na partida. O mesmo equivale a dizer que José Peseiro, treinador dos arsenalistas ao momento, triunfou sobre Rui Vitória, técnico dos vimaranenses, naquele que foi o último dérbi disputado entre os dois técnicos. Pelo menos, até este sábado.

O Benfica-Sporting da terceira jornada da Primeira Liga será o nono confronto entre Peseiro e Vitória. E se no dérbi minhoto a vantagem pende para o lado do atual técnico dos leões, na contabilidade geral o triunfo é do benfiquista. Os duelos entre Sp. Braga e V. Guimarães na época 2012/13 foram os primeiros disputados entre os dois técnicos, que só se voltariam a cruzar em 2015/16, não num dérbi, mas num clássico – o FC Porto visitaria a Luz com Peseiro no banco e levaria os três pontos com golos de Herrera e Aboubakar contra o tento isolado de Mitroglou.

Seria a última vitória do técnico que colocou os leões na final da Taça UEFA sobre o primeiro treinador a conquistar o tetracampeonato nos encarnados. Daí para a frente, só deu Rui Vitória: o Benfica venceria o Sp. Braga de Peseiro na Supertaça de 2016/17 (3-0) e repetiria o triunfo na primeira ronda do Campeonato, pouco mais de um mês depois, por 3-1. Na temporada passada, com Peseiro aos comandos do V. Guimarães outrora orientado por Vitória, os encarnados voltaram a levar a melhor e venceram na Luz por 2-0. Resultado: oito duelos, quatro triunfos para Vitória, três para Peseiro e um empate.

Os sete minutos que ajudaram a traçar as realidades opostas que Benfica e Sporting estão a viver

Em comum, entre outras coisas, os técnicos partilham as origens ribatejanas, os nascimento em abril e a idade com que começaram a sentar-se no banco de suplentes como técnicos – 32 anos. Antes, ambos tentaram a sua sorte dentro dos relvados, tendo desistido da ideia exatamente aos 32. Sucesso dentro de campo, nenhum deles teve; fora das quatro linhas, a história é diferente. Seguiram os dois Educação Física e dedicaram-se a uma carreira académica nos primeiros anos de treinador.

Mas é mais aquilo que os separa, desde já, os rivais de Lisboa. Depois de nascerem no Ribatejo e medirem forças no Minho, Rui Vitória (conquistou dois Campeonatos Nacionais, duas Taças de Portugal, duas Supertaças, uma Taça da Liga e uma II Divisão B) e José Peseiro (uma Liga Egípcia, uma Taça da Liga, uma 2.ª Divisão B, uma 3.ª Divisão e uma Taça AF Madeira) voltam a partilhar cidade e preparam-se para disputar o mais icónico dérbi nacional: o da capital. José Peseiro só derrotou o Benfica por quatro vezes em 13 partidas, duas delas no banco dos leões; Rui Vitória triunfou seis vezes em 22 encontros frente ao Sporting, mas também apenas duas foram ao serviço dos encarnados. Este sábado, caso não haja igualdade no final dos 90 minutos, um dos dois irá desfazer o empate.

A infância, por entre as touradas e os estudos

A vida dos dois técnicos tem um tronco comum, o Ribatejo, com ramos diferentes: enquanto Rui Vitória nasceu e cresceu em Alverca do Ribatejo, José Peseiro é natural de Coruche. Nasceram os dois com exatos dez anos de diferença (Peseiro, o mais velho, em 1960) e no mesmo mês de abril (Peseiro a dia 4, Vitória oito dias depois, a 16). O espírito ribatejano está impregnado no técnico do Sporting desde os primeiros anos: passou a infância com a curiosidade debruçada sobre as tardes de festa na praça de touros da vila. Ele e o grupo de miúdos que liderava e a quem desafiava para assistir às corridas e para se esconder por detrás dos muros altos do matadouro – e assim assistir à matança dos animais. Algo que tinha sabor de fruto proibido – ai deles que fossem descobertos por algum adulto – e que disparava os níveis de adrenalina no sangue. Um dia, o miúdo Peseiro teve mesmo uma ideia peregrina: esconder-se dentro de uma vaca já morta, pendurada, esventrada. Era ralhete na certa e assim foi: ao chegar a casa, a pingar de sangue e tresandar ao animal morto, o pai, João, teve de tomar uma decisão. “Acabou-se, não te quero voltar a ver no meio dos animais”, disse-lhe.

A praça de touros de Coruche, para onde José Peseiro fugia, em miúdo, para assistir às touradas. (Global Imagens)

Nuno Pinto Fernandes/Global Imagens

O raspanete não terá valido de grande coisa. Já em miúdo, José Peseiro era obstinado, teimoso. E a paixão pela tauromaquia não lhe haveria de sair da pele. Orientava-lhe as traquinices mas também as brincadeiras: na rua, um dos passatempos favoritos era brincar aos touros com um dos quatro irmãos – José era o forcado, Carlos o animal. Enquanto brincava de pegar touros, sonhava em um dia fazê-lo à séria. Mas pelo meio ainda teve outro sonho invulgar que verbalizou à mãe, Silvéria, em forma de pergunta: “É preciso tirar um curso em Coimbra para ser como o Manuel do talho, o do matadouro?”. A mulher abanou a cabeça e encolheu os ombros: aquele filho, o segundo de cinco, não lhe dava descanso. Era o mais traquina, como a própria descreve numa entrevista ao Record, mas “um filho exemplar”. Que, pelo meio de o ser, ainda fraturou o braço esquerdo, a clavícula e a cabeça, duas vezes no mesmo dia.

O espírito dinâmico e irrequieto levou-o a ajudar os pais – proprietários do restaurante “Farnel”, em Coruche, ainda hoje negócio da família. Conta a mãe que o jovem Peseiro acompanhava o pai ao mercado abastecedor de Vila Franca de Xira e, enquanto esperava, tentava vender cerejas e morangos que levava de casa. O traquejo para agradar ao freguês era tanto que, sempre que o pai voltava para perto dele, depois de ter feito as compras, já José tinha vendido tudo.

O restaurante da família de Peseiro, onde o agora treinador do Sporting atendia às mesas durante a infância. (Global Imagens)

Filipe Amorim

Rui Vitória não podia ser mais diferente. É certo que, como filho do Ribatejo que é, também aprecia touradas; mas elas nunca lhe ocuparam os dias nem a cabeça. Além disso, de traquina não tinha nada: era calmo, sereno, ponderado, dedicado aos estudos (nesta última parte volta a aproximar-se de Peseiro, mas já lá vamos). Como o próprio conta numa entrevista ao Expresso, “nunca dei trabalho, ao contrário do meu irmão, mais velho, que era bem pior do que eu. Ele hoje é uma joia de pessoa, talvez bem melhor do que eu, mas quando era miúdo… era reguila… Temos seis anos de diferença, mas ouço cada história de bradar aos céus. O meu pai, de vez em quando, chegava-lhe a roupa ao pelo. A mim, não”, conta, para retificar: “Quer dizer… Uma vez, sim, aconteceu uma vez. (…) Eu e o meu irmão andávamos à zaragata na rua e à hora de jantar estávamos a jogar futebol na rua. Lembro-me perfeitamente: o meu pai estava a chegar do trabalho, perto das oito da noite, hora sagrada para o jantar, e eu e o meu irmão estávamos ali sentados à entrada. Disse a minha mãe: ‘Eles hoje só andaram a fazer asneiras’. O meu pai deu uma chapada a cada um e ficou resolvido o assunto”, recorda.

Mais ou menos traquinas, os dois têm algo (mais) em comum: fazem parte do grupo restrito (embora haja já muitas exceções) de futebolistas que fugiu ao cliché de trocar os estudos pelos relvados. O técnico do Benfica era dedicado aos livros, estudava e tinha boas notas. Pelo meio, apenas um percalço, no 12.º ano. “Estava a treinar nos juniores e a jogar nos seniores do Alverca e decidi armar-me em futebolista: ‘Se não fizer este ano, e tal, também não faz mal, porque tenho 17 anos’. O que aconteceu? Chumbei. É o que dá armar-me em jogador de futebol, armar-me em bom”, contou na mesma entrevista ao Expresso.

"Uma vez pedi à professora dele para que tentasse metê-lo na ordem, mas ela respondeu-me que não podia fazer nada porque ele era o melhor aluno de toda a escola"
Silvéria, mãe de José Peseiro

O mesmo aconteceu a José Peseiro, que conseguia calar o espírito rebelde quando o assunto eram os livros e os testes da escola. “Era muito irrequieto e brincalhão, mas nunca prejudicou os afazeres da escola por causa das traquinices”, explicou numa entrevista a mãe do treinador do Sporting. “Uma vez pedi à professora dele para que tentasse metê-lo na ordem, mas ela respondeu-me que não podia fazer nada porque ele era o melhor aluno de toda a escola”, acrescenta. Tal como Vitória, teve pelo caminho um percalço – mas este não foi por desleixe. Estava ainda no ciclo preparatório quando, um dia, os pais o notaram com menos genica do que o habitual. Levaram-no ao médico e descobriram que o filho tinha um sopro no coração – ainda a tempo de ser tratado. Esteve três meses em casa, em repouso absoluto – período durante o qual a mãe o mimava com pratadas de Farinha 33, a perdição de Peseiro. O ano letivo parecia perdido mas, na escola, ninguém ficou indiferente: os professores juntaram-se e redigiram um pedido ao Ministério da Educação para que o jovem não perdesse o ano, já que entendiam que, antes do problema de saúde, tinha feito o suficiente para passar. E assim aconteceu: o pedido foi atendido.

Dos bancos da faculdade à sala dos professores

Com tão bom desempenho nas salas de aula, não admira que ambos tenham seguido a carreira académica. Os dois tiraram o curso de Educação Física no Instituto Superior de Educação Física (ISEF). José Peseiro, mais velho, fê-lo primeiro. Deslocava-se todos os dias de Coruche, de onde apanhava o comboio e depois o elétrico para a Cruz Quebrada, onde fica a faculdade. Mas mesmo assim, ainda conseguia conciliar com o futebol (já lá vamos) e com a perninha no restaurante dos pais, onde atendia às mesas. Para ser uma espécie de homem dos sete ofícios bem sucedido, tinha de ter disciplina e não deixar acumular a matéria aprendida. Por isso, todas as noites passava os olhos pelos livros, antes de dormir.

Só por uma vez interrompeu o curso – e de maneira forçada. Durante um ano, teve de cumprir serviço militar em Sacavém. Mas, mesmo contrariado, Peseiro deixou a sua marca. O espírito de liderança que evidenciou nas tarefas militares fez com que um superior abordasse os seus pais para o convencerem a seguir a carreira. “Vieram falar connosco, mas não valeu a pena. Ele disse-me logo: ‘Mãe, a tropa não é para mim’. O que lhe interessava mesmo era tirar o curso, mas fez bons amigos enquanto esteve na tropa. Aliás, por qualquer sítio que ele passe, as pessoas ficam logo suas amigas”, lembrou a mãe ao Record.

Foi o caso de Nelo Vingada. O então professor de José Peseiro no ISEF, na cadeira de futebol (obrigatória no 1.º e 3.º anos), acabou por desenvolver com o aluno uma relação para a vida – e que culminou com férias passadas juntas, mais de 20 anos depois, em Monte Gordo, no Algarve. José Mourinho é outro exemplo. Muito antes de ser Special One, o treinador setubalense já era especial para José Peseiro. Numa entrevista à TVI, em setembro de 2014, ‘Mou’ deu disso mesmo conta: “Se me perguntares se tenho amigos treinadores, tenho. E amigos é uma palavra com algum significado. Posso dizer que sou amigo do Peseiro, por exemplo”. Mas a ligação não se ficou pela faculdade onde ambos terminaram o curso, em 1985; em seguida foram também colegas no curso de treinadores (que terminaram com nota final de Bom Grande) na ilustre colheita que juntou três ‘Zés’ (Mourinho, Peseiro e Couceiro) e dois ‘Carlos’ (Carvalhal e Brito).

"Se me perguntares se tenho amigos treinadores, tenho. E amigos é uma palavra com algum significado. Posso dizer que sou amigo do Peseiro, por exemplo"
José Mourinho, a respeito de José Peseiro

“Primeiro os estudos, depois o futebol” – assim pensou Rui Vitória quando terminou (à segunda) o 12.º ano. O técnico aprendeu com o chumbo e, tal como José Peseiro, licenciou-se na Faculdade de Motricidade Humana (antigo ISEF), já com a meta de ser treinador. Mas antes disso – e por vezes em simultâneo – acabou por ser professor na Escola Gago Coutinho, em Alverca, onde esteve entre 1998 e 2010, ao lado de Arnaldo Teixeira, ainda hoje seu adjunto. Como recordou ao Sol a diretora da escola, Vitória era “um professor de disciplina, cumpriu sempre todas as tarefas, nunca usou o facto de estar a treinar como desculpa. É uma pessoa de afetos. Nunca deu confiança a intrigas profissionais. E não me lembro de nenhum recurso, deu sempre notas justas”.

A relação com os alunos era próxima – de tal forma que era tratado por “tio” por alguns deles, tal o à vontade que transparecia. As responsabilidades foram crescendo até ao ponto em que Rui Vitória foi coordenador de Educação Física e membro permanente do Conselho Pedagógico. Já a treinar o Fátima, Vitória e Arnaldo faziam todos os dias a viagem de carro – o clube haveria de lhes ceder uma carrinha, na qual davam boleia a alguns jogadores. A rotina era apertada: de manhã as aulas em Alverca; de tarde os treinos em Fátima. 

Mais um ponto em comum com José Peseiro. É que também o treinador do Sporting deu aulas, mas no ensino superior. Já como técnico do Nacional – depois de um percurso de sete anos pelos bancos de suplentes – Peseiro era professor na Escola Superior de Desporto de Rio Maior. A logística era dura: acumulava oito horas de aulas à segunda-feira, dia de descanso no clube madeirense; se jogasse no continente, ficava, senão apanhava o avião no domingo à noite e regressava no dia seguinte.

Os pombos de um, os ritmos do outro

Por entre as aulas e os treinos – como jogadores e treinadores – tanto Vitória como Peseiro alimentam paixões paralelas. A do treinador do Sporting talvez seja mais invulgar: é apaixonado por… pombos – e desde muito jovem. “É algo fascinante na cabeça de um miúdo saber que um pombo é colocado a 400 quilómetros e vem ter a casa. Como se sabe, os pombos foram usados na I Guerra Mundial e em muitas outras guerras. Imaginar como é que um pombo se orienta lá em cima e vem ter ao seu pombal. É algo tão sublime e maravilhoso…”, explicou o técnico numa entrevista ao DN. Tal era a paixão que o primeiro ordenado como jogador foi usado para construir um pombal na casa do avô, em Coruche. “Fui columbófilo com o meu irmão e com um sócio, o José Manuel. Voámos desde 1980, depois a minha vida não permitiu e parámos em 1992. Agora fiz um pombal em casa do meu pai para desfrutar, o meu irmão também ajuda”, contou ainda.

"Eu tocava bateria, o Neno cantava, e um dos vice-presidentes tocava viola. Ensaiávamos duas ou três músicas e pronto. Os jogadores, na primeira vez que me viram, andaram para lá a dizer: 'Então, o que é isto? O homem não está bom da cabeça!'"
Rui Vitória

Mas há mais animais a preencher os interesses do treinador – para além dos pombos, para além dos touros. Peseiro é também aficionado de corridas de cavalos e não perdia uma quando viveu, já como treinador, nos Emirados Árabes Unidos e na Arábia Saudita.

Já Rui Vitória é dos que se perde pelos ritmos. Tudo começou ainda miúdo, quando se apercebeu que as portas da casa dos pais faziam um barulhinho engraçado ao bater nelas. Apesar das advertências da mãe, que lhe tentava calar o ruído caseiro, a paixão nasceu e cresceu até aos dias de hoje. Aos 10 anos, foi aprender o instrumento com o baterista dos Ferro & Fogo, o Seixas. Depois deixou-se disso – das aulas, entenda-se – mas continuou a tocar. Em entrevista ao Expresso, chegou a contar as parcerias musicais que fez enquanto treinador do V. Guimarães. “Eu tocava bateria, o Neno cantava, e um dos vice-presidentes tocava viola. Ensaiávamos duas ou três músicas e pronto. Os jogadores, na primeira vez que me viram, andaram para lá a dizer: ‘Então, o que é isto? O homem não está bom da cabeça!'”. Hoje, para não incomodar a vizinhança, mata o bichinho numa bateria elétrica, mas o vício anda sempre com ele: não é raro vê-lo a marcar o ritmo com os dedos numa mesa.

O primeiro jogo entre os dois, ainda na terceira divisão

Para os dois treinadores, o futebol está-lhes nas veias desde o berço. Foi herdado do pai: o de Peseiro tinha sido médio direito no Coruchense, o de Vitória guarda-redes no Alverca. Em Coruche, Peseiro era o grande dinamizador dos jogos de rua da pequenada – onde a bola era de trapos e as balizas eram as sarjetas das ruas. A terça-feira era o melhor dia da semana: era a folga do restaurante dos pais e, por isso, todas as horas livres que o relógio marcava eram passadas a jogar futebol. Ponto de encontro: o café do Largo da Igreja de Santo António.

José Peseiro no Coruchense, onde iniciou a carreira como avançado. (Global Imagens)

Foi ali que os dotes futebolísticos de Peseiro começaram a vir à superfície: revelou-se um avançado com faro de golo, bom nas fintas e com um pontapé certeiro. “Era um ponta-de-lança rápido, ao estilo de Liedson. Não falhava um golo”, contou Filipe, ex-colega do treinador do Sporting nas camadas jovens do Coruchense, ao Correio da Manhã. José Peseiro começou por brilhar num clube de bairro local, conhecido por Ajax de Coruche – em homenagem a Johan Cruyff, grande ídolo de Peseiro. Jogava com a mesma camisola e o mesmo número, como veio a explicar numa publicação nas redes sociais em março de 2016, quando morreu a antiga estrela da Laranja Mecânica. “Como nos deliciaste e fizeste vibrar com o Ajax, a Holanda, a ‘Laranja Mecânica’, a determinante revolução do futebol. Também eu joguei no Ajax… As mesmas camisolas, os mesmos números, referenciando os mesmos jogadores… Mas representando o Bairro Baixo, na minha vila de Coruche!”.

Como jogador, Peseiro nunca passou dos escalões secundários. Começou no clube da terra, o Coruchense, teve a sua oportunidade quando treinou à experiência nas camadas jovens do Benfica, mas não convenceu. Acabou por ser recambiado para o Cartaxo, onde passou apenas uma época, até regressar por mais duas temporadas ao Coruchense. No Oriental, onde jogou três épocas, ainda provou a subida à 2.ª Divisão – o ponto mais alto como futebolista. Depois, ainda teve passagens por Samora Correia, Torreense, Alcanenense e União de Santarém, onde terminou a carreira.

José Peseiro no União de Santarém, onde acumulou funções de jogador e treinador entre 1992 e 1994. (Global Imagens)

O treinador do Benfica não foi muito mais longe: como jogador também não passou da mediania – e da segunda divisão. Tal como Peseiro, começou jovem a sentir o apelo da bola no pé. Como contou ao Expresso: “Desde miúdo, habituei-me a acompanhar o meu pai em tudo o que era bola. Lembro-me de, ao fim de semana, ir com ele ao Alverca. Começávamos de manhãzinha, voltávamos à hora de almoço a casa, e às três da tarde regressávamos. Víamos os escalões todos. Conhecia as equipas todas, juniores, seniores; e aos 9, 10 anos, quis jogar futebol e fiquei para sempre ligado a isto”.

Começou, precisamente, nas escolas do clube da terra, o Alverca. E com um percurso invulgar dentro do relvado. Ao invés do trajeto mais comum, que é começar como avançado e ir recuando, Vitória iniciou como central e avançou até ao meio-campo defensivo. Foi por ali que ganhou uma alcunha que, à primeira, pode parecer depreciativa. É que quando se ouve falar em “pé de chumbo”, a coisa pode dar para os dois lados: ou é o jogador que parece que tem duas talas nos pés – e que tem o “dom” de fazer a bola sair disparada mesmo quando ela chega redondinha –, ou é aquele que tem o chamado “pontapé-canhão”, que leva tudo à frente até à baliza contrária. O caso de Rui Vitória era o segundo. Ao MaisFutebol, o antigo companheiro de equipa, Paulo Xavier, diz que “mesmo hoje as pessoas mais velhas de Alverca indentificam-no melhor por ‘pé de chumbo’ do que se perguntarmos pelo Rui.

É o mesmo jogador que revela as qualidades de Rui Vitória dentro das quatro linhas. “Era um pensador de jogo. Uma espécie de ’10’, embora mais recuado. Um construtor de jogo, e não um finalizador. Um pouco à imagem de Rui Costa, no devido contexto”. Na altura em que se cruzou com Xavier, Rui Vitória já vestia as cores do Vilafranquense, onde passou oito épocas em dois momentos diferentes da carreira; antes disso tinha representado o Fanhões, por duas temporadas, jogando ainda no Seixal, no Casa Pia e no Alcochetense, onde viria a terminar a carreira aos 32 anos, terminando a época a marcar um golo de cabeça – algo impensável para um jogador que se encolhia no jogo aéreo e que fugia aos duelos individuais, preferindo ter a bola no pé, com espaço para resolver.

Rui Vitória nos tempos em que era médio no Vilafranquense, clube onde atuou durante oito temporadas. (Global Imagens)

Álvaro Isidoro

Mas antes de pendurar as chuteiras, o primeiro duelo entre os dois treinadores – à época jogadores. Outubro de 1993, pelado encharcado em Vila Franca de Xira, graças à chuva copiosa que caía. “O terreno estava empapado e valeu quase tudo. As marcações do campo eram em cal viva e fiquei com as pernas queimadas. Não pude jogar duas semanas. Na segunda volta, em Santarém, parti um pé. Fiz o jogo todo e só no dia seguinte é que percebi que tinha uma fratura”, recordou ao MaisFutebol Abertino ‘Tino’ Novo, que na época alinhava na União de Santarém, equipa de José Peseiro, e que saiu vitoriosa das duas voltas com o Vilafranquense de Vitória – 2-1 no primeiro jogo, 2-0 meses mais tarde, em março de 1994.

Por essa altura, Peseiro era já veterano e acumulava funções de jogador e treinador; Rui Vitória era um jovem talentoso, que, aos 23 anos, era capitão de equipa. “Era o Rui que fazia a ponte entre o plantel e a direção, por exemplo, quando havia problemas com salários”, explicou ainda ao MaisFutebol Germinal Cardoso, à época companheiro de equipa do treinador encarnado. “Nunca se metia em problemas, nem fora nem dentro do campo. Era tranquilíssimo. Aliás, o Rui tinha um pequeno problema. Sempre que apanhava um adversário agressivo, fugia ao confronto. Desaparecia do jogo. Mas com espaço, atenção, era craque. Metia a bola onde queria”.

Foi uma tragédia que lhe mudou o destino – e que assinalou a passagem do Rui Vitória jogador ao Rui Vitória treinador. Num sábado à tarde, em 2002, Rui Vitória estava a beber café com amigos na Póvoa de Santa Iria quando recebeu um telefonema. Tinha acontecido algo grave e era preciso voltar a Alverca. Ao chegar, soube que os pais, Avelino e Esmeraldina, que estavam com os pais do melhor amigo, padrinho de uma das suas filhas, tinham morrido num acidente de viação na reta de Pegões. O choque, como já contou em várias entrevistas, fê-lo ganhar uma carapaça e relativizar todos os problemas que haviam de vir. Mas também o fizeram mudar o rumo da carreira: no dia seguinte já não treinou pelo Alcochetense, uma semana depois recebeu dois convites para ser treinador.

O início de uma carreira aos 32 anos, com uma década de diferença

2002/03. Aos 32 anos, Rui Vitória pendura as botas e troca o relvado pelo banco. Aceitou o convite do União Desportiva Vilafranquense, clube por onde tinha passado enquanto jogador. O primeiro encontro até acabou em derrota, mas a época terminaria com os ribatejanos na oitava posição, classificação positiva para a formação do Cevadeiro.

Desses tempos, Paulo Moisão, que dividiu o campo com Vitória antes de ser seu jogador, relembra a personalidade preocupada e afetuosa do estreante treinador: “O Rui, que é uma pessoa espetacular, como capitão de equipa ou como treinador, unia a equipa e tinha um sentido enorme de liderança. Foi o primeiro treinador a perguntar opinião aos jogadores.” Também Pedro Castelo, ex-diretor de comunicação do Vilafranquense e atualmente no Juventude da Castanheira, defende o caráter unificador do técnico: “O Rui Vitória é simples e afável. Nos salários em atraso esteve sempre em defesa do grupo. É alguém que une e não desune”, conta em declarações ao Maisfutebol.

Aos 32 anos, Rui Vitória estreava-se ao comando técnico de uma equipa na 3.ª Divisão Nacional, Série D; essa, que havia sido conquistada por José Peseiro, oito anos antes. O técnico leonino iniciou-se nas lides do treino exatamente uma década mais cedo do que o seu homologo, em 1992, no União de Santarém. Aí, onde chegou a medir forças com Vitória enquanto treinador/jogador, sagrou-se campeão em 1993/94, depois de bater o Vilafranquense por duas vezes durante a época, e somar 54 pontos no final. Também aí, decidiu pôr fim à aventura dentro das quatro linhas.

"Peseiro é um amante do bom futebol. Muitas vezes, nessa época, entrámos mal, a sofrer um golo, e ele dizia-nos sempre o mesmo: ‘calma, joguem a bola no pé, sem desespero"
Albertino ‘Tino’ Novo, ex-jogador de José Peseiro

“O Zé começou a época como avançado e treinador, mas mais tarde deixou de jogar. A equipa era muito boa e o outro ponta de lança, o Filipe, dava conta do recado. Era o que o Zé Peseiro queria”, conta Albertino ‘Tino’ Novo, outro avançado do plantel, acrescentando: “Ele geria muito bem a condição dele. Colocava-se muitas vezes no banco de suplentes. O Peseiro treinador não escolhia o Peseiro avançado. Sabia perfeitamente o que fazia”.

Tino recorda a preocupação com a preparação e a forma física dos atletas revelada por José Peseiro, que já nesses tempos era amante do futebol espetáculo, privilegiando a posse e a estética ao invés do chutão na frente típico das distritais tão influenciado pelo curto mas objetivo resultadismo. “Era muito evoluído e fazia um trabalho já a pensar na prevenção de lesões. Em 1993, mais nenhum técnico obrigava os atletas a esticar e abrir as pernas contra a parede, para fortalecer o abdómen e evitar pubalgias. Explicava tudo ao detalhe”, conta o antigo avançado, que conclui: “Peseiro é um amante do bom futebol. Muitas vezes, nessa época, entrámos mal, a sofrer um golo, e ele dizia-nos sempre o mesmo: ‘calma, joguem a bola no pé, sem desespero’. Obrigava-nos a jogar bom futebol”.

E a verdade é que foi campeão mantendo-se fiel ao seu ideal, que lhe valeu a mudança para o União de Montemor, antes de chegar ao Oriental. Na primeira experiência em Lisboa, deixa a imagem de um treinador temperamental, mas com uma boa relação com os seus atletas. “Quando veste a camisola de treinador gosta de conversar com os jogadores, tem um discurso metódico e cultiva a cultura do espetáculo num campo de futebol”, explica Renato Cardoso, responsável pelo departamento de futebol do Oriental, ao Correio da Manhã.

"O Rui, que é uma pessoa espetacular, como capitão de equipa ou como treinador, unia a equipa e tinha um sentido enorme de liderança. Foi o primeiro treinador a perguntar opinião aos jogadores"
Paulo Moisão, ex-jogador de Rui Vitória no Vilafranquense

A qualidade de jogo das suas equipas, mais até do que os resultados práticos, coloca Peseiro na órbita de clubes com outros objetivos. Ao contrário da generalidade dos treinadores portugueses até então, o atual técnico leonino tinha especial apreço pela qualidade de jogo acima de tudo, o que lhe valeu uma proposta do Nacional da Madeira para deixar o continente. Com um contrato de apenas uma temporada, Peseiro larga quase quatro décadas de vida entre Ribatejo e Lisboa e, em 1999, muda-se de armas e bagagens para a Madeira. Bem, algumas bagagens ficaram no continente, onde o técnico continuava a vir dar aulas na Escola Superior de Desporto de Rio Maior, devido à incerteza profissional aliada à carreira escolhida (algo que não melhorava com apenas um ano de contrato).

Mas esse ano seria apenas o primeiro de quatro bem sucedidos: logo na época de estreia, conquistou a zona Sul do Campeonato Nacional da Segunda Divisão B, ascendendo à segunda categoria do futebol português. Na Segunda Divisão, conseguiu um surpreendente sétimo lugar, em 2000/01, antes de elevar a fasquia e confirmar as expetativas em si depositadas com a promoção do Nacional à Primeira Liga, depois do terceiro posto em 2001/02. “Superliga? Deve ser pela minha estreia…”, soltava o técnico, demonstrando bom humor, no ano em que a prova mudava de nome.

O gosto pela formação e o treinador do quase

E regressamos a 2002/03, o tal primeiro ano de Rui Vitória enquanto técnico do Vilafranquense e, simultaneamente, o primeiro de José Peseiro no principal escalão do futebol português. Duas realidades distintas que só anos mais tarde se cruzariam na Primeira Liga, não sem antes os dois técnicos rumarem a outras paragens: depois de um 11.º lugar com 40 pontos na época de estreia junto aos tubarões do futebol português, Peseiro recebeu um convite praticamente irrecusável e foi com Carlos Queiroz para Madrid, onde se tornou adjunto daquele com quem pretendia aprender mais sobre futebol; Rui Vitória, por sua vez, tomou o primeiro contacto com o Benfica, rumando aos juniores da Luz, em 2003/04.

Ambas as experiências foram curtas, mas marcantes. Em Madrid, Peseiro pensou mesmo que lhe tinham mudado o nome. “O Makelelé estava em litígio com o clube. Foi no início da época, porque queria mais dinheiro. Então, o primeiro treino que fazem em Madrid é aberto ao público e, quando estamos todos a correr, começar a gritar das bancadas pesetero, pesetero e eu pensei ‘Mas estão a chamar-me peseteiro porquê? Eu sou Peseiro”, conta o técnico do Sporting ao Expresso, que só com ajuda viria a perceber o mal-entendido: “Comentei com o homem da comunicação de Madrid, que me disse que eles estavam a gritar pesetero, que é uma pessoa que gosta muito de dinheiro. ‘Mas eu não ganho assim tanto!’. Ele riu-se e disse-me que eles estavam a chamar ao Makekelé e não a mim”.

Já Vitória, pela primeira vez num escalão de formação, ganhou o gosto pelo jogador jovem. E tinha jeito para lidar com eles: depois de perder o campeonato para o Sporting de Paulo Bento na primeira temporada e de não passar à fase final na segunda, marcou um fim de semana num campo com fuzileiros

Já Vitória, pela primeira vez num escalão de formação, ganhou o gosto pelo jogador jovem. E tinha jeito para lidar com eles: depois de perder o campeonato para o Sporting de Paulo Bento na primeira temporada e de não passar à fase final na segunda, marcou um fim de semana num campo com fuzileiros. Os atletas, achando que iam para um qualquer hotel em estágio, tiveram uma surpresa quando chegaram e viram-se obrigados a desligar os aparelhos eletrónicos, assim como a montar as tendas onde dormiriam. Reza a lenda que as primeiras impressões não foram as melhores, mas que, no final da experiência, os jogadores adoraram a ideia. E a equipa até acabou por melhorar dentro de campo.

Talvez estes dois anos ajudem a explicar a veia de aposta na formação presente em Rui Vitória: uns anos mais tarde, em Guimarães, lançaria na equipa principal dos vimaranenses jogadores como Ricardo Pereira, Tiago Rodrigues, André André, Hernâni (posteriormente, adquiridos pelo FC Porto), Paulo Oliveira (que seguiu para o Sporting), Luís Rocha, Tomané, Bernard, Alex, João Afonso, Josué, Ricardo Valente, Marco Matias ou Bruno Gaspar (reforço de Peseiro na presente temporada); já no Benfica, as apostas de sucesso em Lindelöf, Nelson Semedo, Renato Sanches, Gonçalo Guedes, Rúben Dias, Diogo Gonçalves, Bruno Varela e, já na presente temporada, Gedson Fernandes e João Félix revelam a permanência de uma ideia assumida: o risco de apostar no jogador jovem, independentemente da sua idade.

"Nunca receei as críticas vindas do exterior. Só tinha de provar aos meus jogadores que tinham um líder forte. Mas não guardo ressentimento de ninguém"
José Peseiro, em relação à saída do Sporting em 2005

Neste campo, José Peseiro mostra-se menos disposto a correr riscos inerentes à pouca experiência de um atleta jovem, com as exceções a passarem, num passado recente, pelo avançado André Silva, lançado por Peseiro na sua passagem pelo FC Porto, ou, recuando mais um pouco, às estreias de João Moutinho, Nani e Silvestre Varela no Sporting. Foi em 2004 que, terminada a curta passagem pelo Real Madrid, Peseiro trocou a capital espanhola pela portuguesa e instalou-se em Alvalade.

Aí, ganhou a alcunha que, provavelmente, nunca o abandonará: treinador do quase. Na mesma temporada, quase tocou o céu para, no espaço de uma semana, conhecer a que sabe o inferno – entre 14 e 22 de maio, o Sporting perdeu o Campeonato com uma derrota na Luz por 1-0, com o célebre golo de Luisão, deixou fugir a Taça UEFA em Alvalade frente ao CSKA Moscovo por 3-1 e, para piorar, perdeu o segundo lugar do Campeonato na última jornada na Madeira com uma derrota por 4-2 frente ao Nacional que lhe custou um lugar na eliminatória da Liga dos Campeões.

“Nunca receei as críticas vindas do exterior. Só tinha de provar aos meus jogadores que tinham um líder forte. Mas não guardo ressentimento de ninguém”, confessou José Peseiro à Domingo Magazine.

A ascensão na carreira e a vantagem de Peseiro nos dérbis do Minho

No ano seguinte, ainda começou a época, mas foi despedido à quinta jornada, iniciando uma fase da sua vida onde seria uma espécie de globetrotter: passou um ano no Al-Hilal da Arábia Saudita (atualmente treinado por Jorge Jesus), seguiu outra época para o Panathinaikos da Grécia, antes de rumar ao Rapid Bucareste, clube romeno. Seguiram-se três anos como selecionador nacional da Arábia Saudita, antes do regresso a Portugal, em 2012/13, para treinar o Sp. Braga. “Disse sempre que venho para cá se for para clubes que tenham grandes objetivos; não os tendo, estou lá fora. Até porque ganho mais fora…”, contava Peseiro ao Expresso, justificando a escolha por clubes estrangeiros durante grande parte da carreira.

"Disse sempre que venho para cá se for para clubes que tenham grandes objetivos; não os tendo, estou lá fora. Até porque ganho mais fora..."
José Peseiro, em entrevista ao Expresso

Enquanto José Peseiro ganhava experiência internacional, Rui Vitória começava a construir a sua história no futebol nacional. Chegava ao Fátima em 2006 e, logo na primeira época, levava o clube da II Divisão B à Segunda Liga. Na seguinte, acabaria por regressar à divisão inferior, mas eliminaria o FC Porto da Taça da Liga nas grandes penalidades (que não viu por estar de costas para o campo devido a superstição), perdendo com o Sporting na eliminatória seguinte apenas por diferença de golos fora.

Ficou na retina dos grandes, mas teria de esperar para chegar a um. Voltou a subir para a Segunda Liga na temporada seguinte, onde venceu o Desp. Chaves de Leonardo Jardim para conquistar o troféu da 2.ª Divisão B. Depois de um oitavo lugar no segundo escalão em 2009/10, estreia-se na Primeira Liga, pela mão do Paços de Ferreira. Estreia-se com uma vitória por 1-0 sobre o rival deste sábado, o Sporting, e chega à final da Taça da Liga, que perde por 2-1 para o Benfica.

Rui Vitória treinou o V. Guimarães durante quatro temporadas, com uma Taça de Portugal conquistada a Benfica (Créditos: Global Imagens)

É na Capital do Móvel que abandona a docência de vez, devido à estabilidade e profissionalismo que a Primeira Liga lhe concedia. Aí, cruza-se com Pizzi pela primeira vez e lança Caetano, jovem avançado em destaque nos pacenses na temporada 2010/11. De Paços de Ferreira sobe nas ambições e na geografia: segue para norte, para o europeu V. Guimarães. São quatro épocas ao serviço dos vimaranenses, com um ponto alto: a conquista da Taça de Portugal em 2012/13… frente ao Benfica de Jesus.

Nessa época, defrontou por quatro vezes um Peseiro regressado ao Campeonato Nacional, tendo ganho apenas numa ocasião. Na última em que perdeu, ficou bem patente o estilo de jogo do seu opositor, que confessava no final do jogo: “Prefiro ganhar 3-2 do que 1-0”. Contrariando o pragmatismo, dentro e fora de campo, Peseiro abandona o Sp. Braga no final da época e segue para o Al-Wahda dos Emirados Árabes Unidos durante duas épocas, antes de ingressar no egípcio Al-Ahly.

O reencontro no futebol português, pela mão dos grandes

A época 2015/16 é um marco para ambos: Rui Vitória chega, pela primeira vez, a um grande do futebol português, para substituir Jorge Jesus no Benfica, que tinha trocado para o outro lado da barricada, o Sporting; José Peseiro, em janeiro, regressa a Portugal e a um grande, o FC Porto, para render Lopetegui, despedido por Pinto da Costa.

As experiências não podiam ser mais diferentes: o Benfica de Vitória foi campeão nacional e bateu o recorde de pontos no Campeonato (88), com uma reta final de 12 triunfos consecutivos a garantir o sexto tricampeonato aos encarnados, o primeiro do currículo de Rui Vitória; o FC Porto de Peseiro terminou a época em terceiro, a 15 pontos do líder. De positivo para o atual técnico dos leões fica o triunfo sobre o Benfica, a última vitória de Peseiro sobre o técnico encarnado.

Depois de meio ano no Dragão, Peseiro passou outra metade em Braga, perdendo a Supertaça para Rui Vitória, assim como o duelo da primeira ronda do Campeonato. A passagem por Portugal acabou por ser curta, já que em dezembro acabaria por ser despedido depois da eliminação na Taça de Portugal frente ao Sp. Covilhã e terminaria a época nos Emirados Árabes Unidos, ao serviço do Al Sharjah. Em jeito de curiosidade: o jogo seguinte ao despedimento de Peseiro foi a deslocação do Sp. Braga a Alvalade, com os minhotos, comandados pelo então interino (agora, atual) treinador Abel Ferreira a vencerem os leões.

José Peseiro foi despedido do Sp. Braga depois da eliminação na Taça de Portugal às mãos do Sp. Covilhã (Créditos: Getty Images)

AFP/Getty Images

Se para Peseiro essa época foi para esquecer, Rui Vitória recordá-la-á com frequência: à sexta foi de vez e o Benfica sagrou-se tetracampeão nacional, o segundo título da era Vitória, numa prova conquistada com seis pontos de avanço do segundo classificado, FC Porto.

A temporada passada marcou a interrupção de títulos encarnados e o regresso dos dragões à conquista do Campeonato Nacional. Caiu o sonho do penta, mas manteve-se Rui Vitória aos comandos de um Benfica que foi, com o passar do tempo, deixando de jogar com dois avançados (rotinas de Jesus) e passou a utilizar apenas um, como é do agrado do técnico encarnado. Quem também é adepto do 4-3-3 é Peseiro, que acabaria por ingressar no V. Guimarães em março de 2018 para cumprir a reta final de Campeonato dos vimaranenses e ser batido, pela última vez, num duelo com Rui Vitória.

É a quarta temporada de Rui Vitória na Luz, com dois Campeonatos, uma Taça de Portugal, duas Supertaças e uma Taça da Liga (Créditos: Getty Images)

Getty Images

Chegamos a 2018/19 com uma nova realidade no futebol nacional: Rui Vitória manteve a personalidade que o acompanha desde os tempos de jogador, moldou-a ao cargo de treinador e, 154 jogos depois de se estrear no banco da Luz, vai para o quarto ano ao leme do Benfica, o primeiro onde se posiciona atrás na grelha de partida e, talvez por isso, aquele onde o fator mental fortemente trabalhado pelo técnico será mais vital; José Peseiro regressou a um Sporting que conhece, mas onde não foi especialmente feliz, num contexto pouco favorável para quem ocupasse o lugar e tenta implementar uma ideia de jogo à equipa que, contrariando o seu habitual, tem sido mais resultadista do que espetacular.

“Se isto fosse patinagem ou ginástica artística, tínhamos a melhor nota”, lançava Peseiro na antevisão ao dérbi que lhe custou o Campeonato em 2005, depois de uma época a apresentar um futebol apelativo. Hoje, chega à Luz com duas vitórias suadas e exibições menos conseguidas e assumidamente sem tempo para preparar a equipa ao seu gosto.

Ao nono duelo entre Vitória e Peseiro, o técnico encarnado ganha por um, mas é Peseiro quem sai vitorioso na contabilidade de dérbis… do Minho. O primeiro de Lisboa joga-se já este sábado e, em caso de triunfo de qualquer um dos lados, a balança equilibrará. Uma coisa é certa: dos dois alunos brilhantes que se sentarão no banco das duas equipas, apenas um sairá como mestre do dérbi.

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