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"Rumble in the Jungle". A noite em que a abelha picou o urso numa fábula no Zaire /premium

A 30 de outubro de 1974, Muhammad Ali destrona o imbatível George Foreman num duelo épico em Kinshasa, reconquista o título que nunca perdeu no ringue, e revalida a sua página de glória.

Nem sempre é preciso arrumar o adversário a um canto, mas o feito ajuda a conquistar um outro, valioso na primeira página de um jornal. No dia a seguir a essa madrugada de 30 de outubro de 1974, em que “uma abelha golpeou um leão”, a imprensa faz literalmente o seu papel. O campeão que se impôs no ringue para reencontrar o que nunca perdeu, está na capa do The New York Times, depois dessa prometida sova na selva, ou Rumble in the Jungle, o maior evento desportivo realizado até então em África, que há 45 anos conta com 60 mil espectadores ao vivo e sintoniza um bilião de fãs em mais de 100 países.

De um lado, o campeão de pesos-pesados George Foreman, de 25 anos, imune ao sabor da derrota há 40 embates. Do outro, Muhammad Ali, de 32 anos, à procura do título que lhe fora retirado sete anos antes.”É a idade contra a juventude”, anuncia o speaker a poucos minutos de se encetarem as hostilidades no estádio 20 de Maio, em Kinshasa, a capital do Zaire, que assistiu de camarote aos dias que antecederam o épico encontro.

Muitos anos depois, em junho de 2016, o derrotado mostra o seu escritório ao LA Times. A um jornalista atento não passa despercebido o acessório mais inesperado naquela sala em pleno Texas. Emoldurada na parede, eis a imagem que cristaliza o momento em que um esgotado Foreman vai ao tapete. A inesperada foto, defende um pugilista na reforma que sacode masoquismos, é um testamento do excesso de confiança e do perigo de perder a humildade do raio de visão. E é também uma prova da amizade, tardia, porém mais forte que qualquer soco, que manteve com o seu adversário. “Foi o combate de uma vida…Quem me dera ter podido dizer-lhe isso logo naquela altura”.

1º round: Don King e um patrocínio peso pesado

A história começa muito antes dessas quatro da manhã de uma quarta-feira, convenientes para uma audiência norte-americana, o ponto de partida para um combate de boxe hoje à distância do providencial YouTube. Don King, mítico promotor de boxe, gente de boa lábia e má fama, agiliza o encontro que promete cinco milhões para cada par de punhos, retorno astronómico que visa impedir a quebra de compromisso até à grande data. Em Kinshasa, um ditador esfrega as mãos sem precisar de as ligar, agradecendo o postal turístico único servido por um “combate entre dois negros numa nação de negros”, uma vez derrubado esse inoportuno estribilho inicialmente proposto por King: “From the Slave Ship to the Championship”, que é como quem diz, rimando apenas com o gosto duvidoso, “do navio de escravos para o campeonato” — e cujos posters o presidente zairense haveria de mandar queimar. Os preparativos e a expectativa na atual República Democrática do Congo estendem-se ao longo de meses, que antecipam o grande dia. Mobutu Sese Seko, o controverso anfitrião do cartão de visita de luxo não pode pedir mais deste serviço de limpeza de imagem ao domicílio.

Ali e o promotor Don King, num dos eventos de divulgação do duelo

The Ring Magazine via Getty Imag

Tudo bons rapazes de volta de King, o nativo de Cleveland que sonhou ser advogado, outrora marcado por uma acusação de homicídio (é ilibado em 1954), e uma condenação por espancar um homem até à morte (cumpre pena entre 1967 e 1971). Fora da lei, nos negócios e na cabeleira vistosa, entra no mundo do boxe nesse começo dos anos 70, quando persuade Ali a lutar num combate de beneficiência a favor de um hospital. Mas as audiências televisivas, que à época esbanjam saúde, convocam-no para espetáculos mais pujantes. O reinado de King segue de vento em popa graças à aliança com o empresário de música Jerry Masucci. É que o promotor cuja vida e os crimes competiam para manchar o desporto tem artistas no bolso mas na verdade não tem dinheiro, nem sequer um palco em solo americano para receber o grande combate que se desenha no horizonte. Em breve chega feedback de fora, com o ditador líbio Muammar Kadafi a surgir como um dos primeiros interessados no evento, assumindo o valor dos prémios e outras despesas. Mas Seko deixa-se seduzir pelos conselhos do americano Fred Wyman e os zairenses levam a melhor. O restante elenco de investidores inclui a Risnelia, sedeada no Panamá, que na verdade não é mais que uma fachada para as manobras offshore de Mobuto; a Hemdale Film Corporation, uma empresa britânica fundada pelo produtor John Daly e pelo ator David Hemmins; pela Video Techniques Incorporated de Nova Iorque e, claro, pela Don King Productions. Contas feitas, o encontro há-de de ser exibido no circuito de cinemas norte-americanos e nas TVs globo fora.

2º round: O que eles lutaram para aqui chegar

“Reconquistar? Defender a minha coroa”. Ali sabe ao que vai. Em abril de 1967 recusa-se a integrar as Forças Armadas norte-americanas, invocando razões religiosas, decisão que resulta na perda da licença para combater e na retirada do título de campeão mundial de pesos pesados.”A minha consciência não me deixa disparar contra o meu irmão ou pessoas mais escuras, ou pessoas pobres e famintas na lama, em nome da grande e poderosa América”. Chegado a 1974 e depois de fracassadas tentativas para reclamar o título de volta, que inclui a derrota frente a Joe Frazier em 1971, naquele que ficou conhecido como o “Combate do Século”, para muitos o seu tempo áureo está há muito esgotado.

Para a história passa uma das capas mais míticas da Esquire, que em abril de 1969 estampa na primeira página a “paixão de Muhammad Ali”, o mártir da década. Em 2016, por ocasião da morte da lenda, recupera o seu “romance com a imortalidade” e lembra como só aos grandes homens está reservado o azar e o privilégio de morrer duas vezes.

No clube dos pesos pesados profissionais, “Big George” Foreman conquistara a medalha de ouro nos Olímpicos do México, em 1968, e o cinto de campeão em 22 de janeiro de 1973. O selo de imbatível agarra-se à pele com cola extra forte e de forma natural. Dois rounds chegam para despachar o antigo campeão Joe Frazier, em Kingston, na Jamaica. Quando tomba às mãos de Ali em Kinshasa, naquele oitavo round, acumula 40 vitórias em combates profissionais, incluindo uma série de 24 KO’s consecutivos. “Do que mais me lembro sobre a luta é de ter acertado em Muhammad com o golpe mais violento que alguma vez desferi a um adversário. Eu podia ver que lhe doía. Então olhou para mim. Ele tinha aquele olhar de quem dizia ‘não vou permitir que me magoes'”, descreveria Foreman ao biógrafo Thomas Hauser, citado em “More than a Champion – The Style of Muhammad Ali.

3º round: dos treinos na Pensilvânia ao fiel pastor alemão

O verão de 1974 é marcado pelo treinos, primeiro ainda à distância de África, por fim em plena fase de habituação ao clima local, já em Kinshasa, onde os atletas passaram quase dois meses. Pelo menos dois desses dias intensos são captados pelo fotógrafo Peter Angelo Simon, que segue de perto a preparação de Ali no famoso Paraíso do Boxer, o centro na Pensilvânia onde o velho Cassius Clay tanto executa provas de esforço como anima as hostes entre sessões: conta anedotas, beberica chá, lê poesia e diverte-se com truques de magia. Uma “imaginativa fórmula para o sucesso”, confia Simon, que assiste a esta sintonia entre corpo e mente.

Fãs assistem a um treino de Ali no seu refúgio de montanha na Pensilvânia, em agosto de 1974

Getty Images

Em abril de 2916, o Daily Mail revela algumas dessas imagens até então inéditas, onde Ali surge no exterior, rodeado de pedregulhos com nomes de lendas do boxe; de visita a um lar de terceira idade, a correr os seus oito quilómetros diários, pela madrugada fora, ou a contagiar as hostes com o seu carisma, boa disposição e confiança — reafirmada nos recortes da imagem do pugilista em tamanho natural que forravam as paredes. Contas feitas, 33 rolos para mais tarde recordar a partir deste centro em Deer Lake, a pequena localidade com pouco mais de 700 residentes, onde Ali se mantinha refugiado do assédio da imprensa antes do grande duelo.

De um lado, uma matilha sequiosa de pormenores sobre o esperado regresso do renegado. Do outro, um homem e o seu inseparável companheiro. “Para ser franco, houve uma altura na minha vida, especialmente no começo da minha carreira, em que os únicos que podemos treinar comigo eram os meus cães”, admitia George Foreman ao LA Times. “À medida que vais melhorando a tua preparação física, ninguém te consegue acompanhar na corrida. Se não tens um bom cão, vai acabar por ser o treino mais solitário que já tiveste”.

George Foreman, com o seu cão, Dago, numa conferência de imprensa em Paris, antes do combate

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Em março de 1974, a escassa distância do frente a frente do ano, o The New York Times enquadra o herói folk para uma maioria silenciosa de americanos que se reveem no sonho — e na capacidade do jovem boxer de se desfazer do pesadelo. “Há alturas em que George Foreman parece um homem com outra idade. Mas é fácil de perceber isso. Aos 25 anos, o homem já viveu muito. Tempos houve em que era um jovem deprimido a vaguear pelas ruas, um aluno expulso do liceu que se passeava pelos guetos do sul à procura de comprimidos e de bebedeiras com vinho barato, apenas a um passo de uma injeção de heroína. E então tornou-se a imagem perfeita do produto final da Máquina do Grande Sonho Americano”.

Foreman, nascido há 70 anos em Marshall, no Texas, aterra em Kinshasa com uma bagagem cheia de problemas fiscais, um divórcio recente, e a coroa de louros conquistada frente a Frazier um ano antes. E, claro, com um pastor alemão para muitos incómodo mas que o dono se recusaria a deixar para trás. “Não iria a lado nenhum sem ele. Foi a minha companhia na corrida. Depois de perder o combate, fiquei sem amigos, tirando o meu cão. Os africanos adoraram-no. As pessoas diziam-me que não o devia ter levado para o país por causa da ocupação belga, mas eu disse-lhes: estes tipos têm hienas e leões. Não me parece que vão ter medo de um cão”.

4º round: uma aventura no Zaire com faro para a intriga

A má fama mordia os calcanhares de um e outro, a diferentes tempos e por motivos distintos. Em terreno americano, a associação de Ali à nação islâmica promove-o a figura controversa. Em África, pelo contrário, é o rosto da adoração instantânea, para mais num país recém emancipado da colonização belga, que se revê mais do que nunca na oposição do boxer à indústria militar norte-americana. Independentes desde 1960, os zairenses não morrem de amores por belgas, desagrado que Muhammad trata de explorar mal põe o pé em Kinshasa. “Saiu do avião, levantou as mãos e gritou: ‘declaro George um belga”, recorda anos mais tarde o jornalista de desporto Jerry Izenberg. “Ficaram loucos. Foi aí que começou aquele cântico, Ali Bomaye (Ali, mata-o) que o acompanhou pela cidade o resto do tempo que ali passou”.

Cassius Clay, já em Kinshasa, a ser escoltado até ao centro de treinos

AFP/Getty Images

Ao contrário de Foreman, Ali opta por se instalar entre o povo, numa villa nas margens do rio Zaire, e por se enturmar com a multidão que o persegue ruas fora, não abdicando das suas corridas diárias nem de regulares trocas de palavras, contra as reservas de Foreman. Dave Anderson, do New York Times, compara-o a um cruzamento entre Demóstenes, o evangélico Billy Graham, o poeta Edgar Guest e o comediante Flip Wilson, retirando de cada qual o mais ruidoso que cada um tem.

Em 2014, quatro décadas volvidas, a capital que serviu de palco ao duelo é um “cenário caótico”, que não chegou a ver cumprido o que a independência prometia. Nem sempre foi assim, claro, com os níveis de empolgamento a atingirem valores tão elevados como o mercúrio e a humidade nesse verão de 1974, onde Ali e Foreman passam o seu tempo a preparar o físico enquanto uma multidão em euforia ensaia a proximidade máxima com as vedetas.

Uma imagem gigante de Mobutu, o líder que ocupou a cadeira do poder em 1965, e que rebatizara o país para Zaire, destaca-se numa das torres de iluminação de estádio. E não faltam outras ideias luminosas para garantir o índice de prodigalidade e reforçar a reputação local — os preparativos de higienização e boas vindas passam pela caça e detenção de cerca de mil dos mais famosos criminosos da cidade (um centena dos quais foi mesmo sujeita à execução).

Em julho desse ano, Olela Shungu, então com 26 anos, assume as funções de liderar a comissão Foreman-Ali, responsável nos meses que se seguiram por todos os passos dos pugilistas, fosse conduzi-los ao centro de treinos ou acompanhar as entrevistas. O efeito sísmico pode não ter atingido o topo da escala em contexto estritamente desportivo, mas a história que começa com a hospitalidade cirúrgica de um clepto e egomaníaco entra sem desvios para a prateleira dos enredos mais mirabolantes de sempre.

5º round: o duelo que quase foi levado ao tapete e uma parada de estrelas para aquecer as hostes

O combate do ano resiste a um knock out antecipado por pouco. 25 de setembro é a data inicialmente prevista para o duelo, mas cerca de uma semana antes Foreman sofre um corte profundo sobre o olho direito durante uma sessão de sparring. A overdose de milhões investidos, treino e cobertura mediática parece agora condenada ao fracasso, mas o cancelamento está fora de questão. Adiamento é o compromisso menos letal para Don King, para um governo do Zaire que rejeita deitar por terra a organização, e para Dick Sadler, o agente do lesionado Foreman. E se o compasso de espera de seis semanas acaba por ser aceite, o impasse volta a estar em cima da mesa quando Foreman acusa King de ainda não ter recebido o seu prometido quinhão para garantir a realização da luta.

A partir da capital do Zaire, Thomas A. Johnson do The New York Times dá conta dos ânimos e apreensão na sequência desse golpe, já apelidado de “o corte dos 50 milhões”, por tudo o que põe em causa. Apesar dos 600 jornalistas escalados para acompanhar todas as manobras em solo africano, apenas alguns repórteres se encontravam na altura no campo a 40 quilómetros de Kinshasa onde George media forças com o californiano McMurray, que ao terceiro round rubrica a comprometedora ferida. Nada que belisque a festa dos locais, que continuam a passear-se pelas ruas com t’shirts alusivas a cada um dos atletas, indiferentes a atrasos.

Se o espetáculo tem que continuar, neste caso mais do que nunca, que seja com a devida pompa. Em bom rigor, se tudo o resto falhasse, teríamos sempre um elenco de fazer corar o melhor alinhamento festivaleiro, anunciado com um nome tão sintético quanto eficaz: Zaire 74. Nomes como James Brown, Miriam Makeba, Bill Withers ou BB King, livres de qualquer convalescença, mantêm-se a postos para atuar como agendado nesse mês de setembro.

Na plateia, a nata do showbizz prova, se dúvidas restassem, que o evento transbordapor completo as fronteiras desportivas. Até Barbra Streisand e o namorado, o produtor Jon Peters, rumaram a Kinshasa para o combate do ano. Em 2009, o documentário “Soul Power” revisita o monumental elenco.

6º round: Dá-lhe corda e vence-o pelo cansaço

Antes daquelas primeiras horas da manhã, a improbabilidade jamais teria lugar naquele estádio, ou ousaria aparecer sequer à porta. O declínio de Ali é indisfarçável e o prenúncio de massacre seria escutado até por um surdo. “Os teus filhos vão ficar órfãos”, repete Foreman nos instantes no vestuário enquanto as mãos são protegidas. Sete meses antes, a partir de Caracas, George dá uma lição sem ajuda de cábulas na Poliedro Arena e deixa Ken Norton em franco mau estado. A escala venezuelana é o derradeiro grande ensaio do pugilista, que soma já uma série de oito duelos que não duram mais do que dois rounds, prova cabal da sua eficácia. Uma marca capaz de fazer tremer as pernas do mais seguro correlegionário de Muhammad Ali, ciente do potencial daquela massa de músculo. Mas Ali não é um mortal comum, e neste dia em particular, o seu tronco é como “uma sequoia que se dobra”, sem nunca partir.

O miúdo de Louisville convertido ao Islão, é o primeiro a pisar o ringue. A ovação estrondosa consagra-o muito antes dessa rodada decisiva. Não precisa de coroa para se manter soberano aos olhos do público, que vê como Foreman o faz esperar para lá da conta, adiando a entrada em cena. “Há algum protocolo para isto? Quanto tempo pode um campeão fazer esperar um challenger? Será para ver se ele se cansa?”, interroga-se o locutor. Ali não deve gostar disto. Angelo Dundee, o técnico, também não deve gostar disto.

Da lenda espera-se que após o toque do sino cumpra o registo a que habitou os súbditos, que dê às asas como uma borboleta até ao momento oportuno para a produtiva ferroada de abelha. Mas para espanto geral, Ali, o homem por quem as vozes gritam de novo “bomaye”, e que passara os meses anteriores a picar o adversário, aparenta a pujança da mosca que sobrevoa um prato antes de ser esmagada. Encostado às cordas, limita-se a bloquear o mais possível as investidas de Foreman, alheio à estratégia e ao desgaste que se vai desenhando –há mais de três anos que o furacão Foreman não sabe o que é penar mais do que quatro rounds para despachar um oponente, encaminhando-se para terreno desconhecido à medida que o combate avança. Pelo quinto round, a vitalidade do murro não vai além da gentileza de uma carícia, “como se uma abelha assediasse um urso”, descreveria o repórter do Times. É aí que o urso sai da toca para uma sequência de golpes a um opositor exausto que mordera o isco e se atirara com demasiado apetite ao pote de mel.

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George adia a sentença final por mais três rounds. Chegados ao oitavo, a fadiga ganha a uma esquerda. E a uma direita. Foreman é oficialmente um homem perdido — e a derrota já mora na foto que 45 anos depois mantém no escritório. O KO choca o mundo e incendeia a cidade, que ao longo dos dos dias seguintes celebra a vitória de Ali com festa rija. No rescaldo do encontro, a capa da Sports Illustrated, lançada a 11 de novembro de 1974, não deixa margem para confusões: “Como Ali os enganou a todos”.

A ilusão tem outros dois artífices. Gene Kilroy pode ficar em último na lista quando pensamos em protagonistas deste serão, mas é o primeiro a entrar no ringue quando Foreman falha a contagem do árbitro Zach Clayton. Eis o empresário de Ali, no seu look safari e no seu rótulo de “O Facilitador”, e ainda na amizade com o pugilista e no acesso ao seu círculo restrito ao longo das décadas. “Quando cheguei ao pé de Ali vi que estava exausto, só queria sentar-se. ‘Deixa este malucos celebrarem, estou cansado’, disse-me ele”.

É Kilroy quem no avião informa Ali que a população do Zaire não gosta de belgas. E que aconselha o presidente Seko a confiscar o passaporte de George Foreman, para o caso deste querer sair do país e forçar o cancelamento do duelo. É também Kilroy quem, a partir de Nova Iorque, e antes de partirem para o Zaire, põe Ali ao telefone com o homem que orientou Floyd Patterson (o outro nome que tal como Ali recuperou a faixa de campeão, em 1961) e que Mike Tyson haveria de resgatar da obscuridade. Do outro lado da linha, o manager Cus D’Amato, fornece a tática para vencer Foreman: “O medo é como o fogo — pode incendiar a tua casa toda ou cozinhar para ti. O Foreman é um bully — tens que dar o primeiro murro com tenacidade devastadora. O bully nunca sabe quem ofende, mas quem é ofendido nunca se esquece disso”. A 30 de outubro de 1974, é Ali, o novo bully, quem estreia o queixo do adversário com o soco inaugural da noite.

7º round: De A de Ali a M de Mailer

Comentado por Joe Frazier, o homem que em 1971, na Luta do Século, ditou o primeiro desaire de Ali, o espetáculo conta ainda com o apresentador David Frost, com o jogador de futebol americano Jim Brown, e o comentador de boxe Bob Sheridan, e dá pano para uma vasta cobertura para a posteridade. Norman Mailer assina uma das reportagens da sua vida, experiência resumida num título tão sintético quanto absoluto. “O Combate” ganhou em julho deste ano uma edição Dom Quixote para fãs de prosas que cedo viram que entre cordas se media muito mais do que a força de punhos ou a eficácia de uma esquiva.

Quanto a Mailer, acaba por dar à mão à palmatória, destronada essa crença inicial de que Foreman se sagraria vencedor com relativa facilidade. São dele detalhes que recordam como o atleta converte o Hotel Intercontinental na sua fortaleza durante a estadia africana, como chega à arena no seu Citroen, ou como prefere manter as suas mãos nos bolsos em vez de gastá-las a saudar os jornalistas. É também sua a comparação entre George e um “overgalloped horse” — um cavalo demasiado estourado para cortar a meta em primeiro, ainda que nos bastidores, a pouco tempo de subir ao ringue, um descontraído Ali contraste com uma entourage sorumbática. “Já estive em cima e em baixo. Tenho andado por aí. Deve ser mau quando sofres um KO. Mas eu nunca sofri um KO. Já fui ao tapete, mas nunca fiquei KO”.

Mailer não estava sozinho na descrença, muito pelo contrário. “Para ser sincero, estava a rezar para George não matar Ali”, recorda o antigo campeão peso leve Archie Moore em “O Combate”. “Sentia mesmo que era uma possibilidade”. Semanas antes do encontro o pivô de desporto da ABC Howard Cosell sugere que esta seria “A última ceia” de Ali. “É tempo de nos despedirmos dele porque, sinceramente, não me parece que consiga ultrapassar George Foreman”. Sentado perto de Cosell durante essa transmissão televisiva, Ali é rápido no diagnóstico: “Estás maluco”.

Quando pisa o ringue dez minutos antes de Foreman, no seu robe branco acetinado e entre passos de dança, os seus 98 quilos já comandam o espetáculo. Assim será até ao final do guião.

8º round : Uma lição de humildade e lucrativos grelhadores elétricos

Em 2008, o homem que treinou Cassius Clay desde 1960 revela algumas das suas estratégias na autobiografia “My View from the Corner”. Nessa obra confessa, por exemplo, como interferiu com a pressão das cordas do ringue antes do mítico “Rumble in the Jungle”, fator decisivo para as movimentações de Ali e para a sua vitória. Em 1992, Dundee, o mentor do célebre esquema rope-a-dope, garante um lugar no International Boxing Hall of Fame in 1992.

Quanto a Foreman, retira-se da pregação nos ringues em 1977, depois de uma derrota frente a Jimmy Young e de ver afastada a hipótese de novo título. Num inesperado desvio da marcha desportiva, é ordenado ministro cristão. Uma década mais tarde, nova epifania devolve-o ao boxe. Em 1994, com 45 anos, volta a ter uma palavra a dizer no palco dos pesos pesados depois de impor um KO ao jovem Michael Moorer, preservando o título de mais velho campeão de pesos pesados na história da modalidade. Arruma as luvas em definitivo em 1997, com 48 anos, com uma marca final de 76 vitórias (68 KO’s) e cinco derrotas. E se George já é uma figura garrida quando baste no universo do boxe, não se faz de rogado no da televisão, domínio que na década de 90 lhe terá valido mais dinheiro do que o próprio desporto — o pai de cinco filhos e cinco filhas (todos com George no nome) empresta a sua voz a diferentes produtos, incluindo a um famoso grelhador com o seu nome.

Para mais uma data redonda, faz 55 anos que Cassius Clay dá origem a Muhammad Ali, só mais um bom pretexto para a chegada à plataforma HBO de “What’s My Name”, o documentário estreado no festival de Cinema de Tribeca sobre a este ícone cultural e o seu legado para lá das cordas do desporto.

“Foi um conto de fadas”, recordaria o jornalista Jerry Izenberg sobre este pedaço de moral entre cordas e o legado daquele feito no Zaire. Quanto ao sucesso de Don King, o retorno financeiro prolongar-se-ia pelos anos 80 e 90, até colidir com as fortes críticas pela estratégia montada, que previa polémicas cláusulas contratuais para os atletas. Em 1975, organiza mais um espetáculo lendário, “Thrilla in Manila”, o terceiro e último duelo entre Ali e Joe Frazier, que vale seis milhões de dólares ao primeiro, vencedor por KO técnico no coliseu filipino.

Seis anos mais tarde, nas Bahamas, o herói que ressuscitou em África leva um corretivo implacável de Trevor Berbick em dez rounds. É o último voo de Ali, que depois de Rumble in the Jungle segue com a comitiva rumo a Paris e daí para Chicago. O inseparável Kilroy, que conseguira obter um vídeo do combate, exibe a fita a bordo do avião. No final, os passageiros celebram com o vigor que a história acrescenta a cada dia que passa sobre uma façanha, como se a fábula se estivesse sempre a escrever pela primeira vez.

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