Sagrada Família: a história do templo impossível

27 Agosto 20171.465

O recente ataque terrorista em Barcelona teria como alvo maior um dos mais importantes monumentos da capital catalã. Carlos Maria Bobone recorda a história e a importância da basílica inacabada.

A História começa com um livreiro. Hoje seria improvável que o dono de uma pequena livraria religiosa amealhasse o suficiente para uma obra destas; ora, quando Josep Bocabella, dono da livraria Herdeiros da viúva Pla, começa a angariar fundos para o Templo Expiatório da Sagrada Família a empreitada, embora difícil, não é tão estranha. O Catolicismo do século XIX reagiu aos ataques da pretensa ilustração com um fortíssimo apego àquilo que lhe era mais próprio e sobrenatural. É desta altura que nasce a devoção ao famoso Cura d’Ars, um simples na verdadeira acepção da palavra, que mal lia e escorava a sua fé em princípios claros sem grandes filosofismos, que nascem as missões pelo interior, tão retratadas nos livros de Camilo ou Júlio Dinis, que exortam às devoções sacramentais, ao forte culto milagreiro e à prática jaculatória de orações quase místicas; é nesta altura que remoça o princípio Ultramontano do Amor à autoridade e que cresce uma fé quase barroca, atenta ao cerimonial e à tradição litúrgica.

A ideia é fácil de perceber: enquanto se propaga o modernismo teológico e o mundo secular avança, a forma mais clara de resistência ao avanço de uma mundividência adversa é o reafirmar daquilo que lhe é próprio. O Catolicismo do século XIX vê, assim, pulular uma infinidade de congregações e devoções laterais, nascer um sem-fim de revistas devotas e de colectas para causas clericais. A ideia do pobre que dá tudo a Deus, do padre que não tem que comer mas ainda assim consagra o vinho em metal nobre, atrai como poucas no imaginário clerical de oitocentos.

A Sagrada Família em 1905

Ora, quando Bocabella volta de uma peregrinação a Roma com uma renovada devoção a S. José, decidiu fundar uma Associação de Devotos de S. José. Vendo no discreto carpinteiro o modelo da virtude familiar, privada, centrou a sua associação e a respectiva revista (“O propagador da devoção a S. José”) na defesa dos valores familiares e na exaltação da sagrada família. Para se ter ideia do quanto este tipo de iniciativas falavam aos corações paroquianos do seu século, a associação de Bocabella chegou a ter 600.000 sócios. Uma revista singela, espécie de breviário resumido, com orações e textos pios, conseguia ter mais influência do que muitos jornais com os mais agudos cronistas e corajosos repórteres. A influência da Associação de Devotos de S. José crescia de tal maneira que, instigado por S. Josep Manyanet – fundador da Congregação de Filhos da Sagrada Família – Bocabella decidiu construir um símbolo maior e permanente desta devoção. Foi assim que, em 1881, depois de 15 anos a recolher fundos, comprou um terreno próximo de Barcelona (Sant Martí de Provençals não fazia, na altura, parte da cidade) para aí erguer um templo à Sagrada Família.

Antoni Gaudí em 1878

A ideia não era nova, nem sequer em Barcelona. Já D. Bosco recorrera ao mesmo esmolar para construir as Igrejas dos seus Salesianos (uma delas em Barcelona) e mesmo Santa Maria del Mar foi construída, tempo antes, a expensas do povo de Barcelona. A progressiva laicização da esfera pública, sempre mais radical no caso de Barcelona, era assim contornada pela chegada constante de donativos para o novo templo. Bocabella tinha a ideia de reproduzir em Sant Martí o Santuário de Loreto, em Ancona, por ser o lugar em que se depositaram as relíquias da casa em que José e Maria teriam vivido. Villar y Lozano, o primeiro arquitecto do projecto, dissuadiu o livreiro; fariam antes um pesado Templo neogótico, bem ao gosto da época, com alvéolas medievais a rememorar tempos dourados da Igreja.

Assim começou a construção, com a ideia de uma Igreja deste jaez no plano e com Gaudí na assistência da cerimónia de colocação da primeira pedra. Ora, entre a primeira pedra e o começo das obras passou mais de um ano, e um ano, a julgar pelas consequências, bem complicado. Villar y Lozano demitiu-se do seu cargo de arquitecto nesse mesmo ano de 1883, depois de muitas desavenças com Bocabella e o seu assessor, o arquitecto Joan Martorell. Foi a este Martorell que Bocabella ofereceu a herança de Villar y Lozano; a recusa deste, porém, veio a revelar-se o passo mais importante na construção da Sagrada Familia. Martorell já tinha trabalhado com um jovem prodígio, de pouco mais de trinta anos, chamado Antoni Gaudí. Impressionado com o que vira, recomendou a Bocabella a contratação deste jovem para encabeçar o projecto.

Local da construção em 1930

O maior milagre desta Sagrada Família dá-se, assim, nesse momento. O mais impressionante não é a forma, admirável, claro, como um livreiro consegue convencer milhares de pessoas a erguerem um Templo colossal que mudará a paisagem de Barcelona; o mais impressionante é a forma como Gaudí se empenha no projecto e consegue transformar uma obra com algum potencial mas em que hoje veríamos o ranço datado de uma forma de pensar muito circunstancial; transformar aquilo que seria mais uma imponente imitação de um estilo já sobreexplorado, numa catedral gloriosa, de uma alegria infantil ante-pecado, sinédoque perfeita do espírito Cristão.

Não é por acaso que, com a obra já avançada, na cúria Romana chamaram a Gaudí o Dante do século XX; há, num e noutro, a mesma monumentalidade segura, a capacidade rara de harmonizar os pólos mais distintos do pensamento. Há, na sobriedade Luterana, remissões da Cruz que quase nos fazem sentir as chagas; há no esplendor de Bernini uma força gloriosa que quase nos faz sentir ressuscitados; Gaudí, porém, combina o grotesco e a inocência, o fausto e a discrição de tal forma que nem sentimos a variação. Não há aspectos grotescos e aspectos inocentes; há uma tal síntese que no mesmo ornamento sentimos o ridículo do pecado e a sua tristeza, rimo-nos dele e tememo-lo.

Detalhe do tecto

Gaudí conseguiu, ao mesmo tempo, devolver um certo espírito natural ao Cristianismo dos seus pares que parecia esquecido. As estruturas experimentadas no Parc Guel, extraídas das folhas e pedras, das formas da Natureza, de alguma forma pacificam o Cristianismo oitocentista com o mundo. O Cristianismo atacado, que sente o mundo como o desterro, casa aqui com a alegria da Criação. Todos os pormenores e as estruturas decantadas da luxúria natural fazem da Sagrada Família um prenúncio do rumo do Cristianismo ao longo do século XX. Não nas tentativas tolas de “actualização”, mas na forma como se contesta as oposições entre ciência e fé, em como se procura mostrar que o mundo está conforme a Deus.

Gaudí tinha noção da dimensão do seu projecto; tanto que, além de dedicar os seus últimos anos exclusivamente à obra, decidiu começá-la, não em extensão, como habitualmente, mas de tal forma que todas as gerações que nascessem e morressem com o Templo ainda em construção pudessem ter uma visão dela. Isto, que tantos problemas criou por questões de loteamentos de terrenos, e que obriga a constantes reformulações do projecto, prova também a grandeza que Gaudí lhe atribuía. A correção constante, a profusão de símbolos e alegorias, pode ser quase tida por uma filosofia sólida. Não é apenas a representação do Cristianismo em todas as suas dimensões, de Cruz e Glória, de desejo e de conforto; é, também, a representação da própria ideia de família. A presença constante do modelo da árvore, comum à catedral e à simbologia da família – da Árvore da Vida à Árvore Genealógica – já mostra a simbiose entre a construção e a devoção; mas mesmo a estrutura pouco canónica, com uma intricada teia de relações entre altares e vários pontos de adoração expressa a estrutura múltipla da ideia de família, o seu modo em aberto, fecundo, inacabado.

A Sagrada Família é a construção mais famosa e procurada pelos que visitam Barcelona

Quando Gaudí morreu, depois de 43 anos agarrado à Sagrada Família, quinze deles em exclusivo, ainda pouco estava construído. A Guerra de Espanha, eufemismo habitual para as brigadas de Anarquistas que destruíram tantas Igrejas, foi responsável pela perda de grande parte dos projectos de Gaudí e pela destruição de várias estátuas já cinzeladas, o que torna, ainda hoje, muito sensível a continuação da Sagrada Família. A Gaudí sucedeu Domènec Sugrañes como arquitecto, e vários outros depois até chegar a Jordi Faulí i Oller. A dificuldade em respeitar o projecto de Gaudí, aliado à variação nos donativos, acentua a demora da construção da Sagrada Família, o Templo que nem precisa de estar acabado para ser já a última grande síntese que o Cristianismo fez do Ocidente.

Carlos Maria Bobone é licenciado em Filosofia. Colabora no site Velho Critério.

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