377kWh poupados com o Logótipo da MEO Energia Logótipo da MEO Energia
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica. Saiba mais

Logótipo da MEO Energia

Poupe na sua eletricidade com o MEO Energia. Simule aqui.

"Estiveram cerca de 20 a 30 tradutores de países de Leste em Portugal, os funcionários portugueses não sabiam aquelas línguas. Portanto, essas pessoas podiam ser infiltradas", refere o investigador Vítor Madaíl
i

"Estiveram cerca de 20 a 30 tradutores de países de Leste em Portugal, os funcionários portugueses não sabiam aquelas línguas. Portanto, essas pessoas podiam ser infiltradas", refere o investigador Vítor Madaíl

"Estiveram cerca de 20 a 30 tradutores de países de Leste em Portugal, os funcionários portugueses não sabiam aquelas línguas. Portanto, essas pessoas podiam ser infiltradas", refere o investigador Vítor Madaíl

Salazar, Espírito Santo e uma conspiração no Ribatejo: "Pode ter havido um espião português na RARET"

Vítor Madail está a investigar o impacto da RARET em Portugal, o centro de retransmissão de propaganda anti-comunista. Espiões como se vê na série portuguesa da Netflix? Pode ter acontecido.

Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Quando, em 2017, Vítor Madail procurava um tema para a tese de mestrado do curso de História Moderna Contemporânea do ISCTE, deparou-se com um problema. Precisava de uma história da segunda metade do século XX que ilustrasse as relações entre os Estados Unidos da América e Portugal. O Plano Marshall? Já estava estudado. A introdução portuguesa na NATO? A mesma coisa. Foi nessa altura que se virou para a radiodifusão em plena Guerra Fria, arma vital na luta do soft power entre a União Soviética e os EUA. Foi aí que foi parar à RARET, um mega centro de retransmissão criado a 4 de julho de 1951, com 196 hectares e 1,5 quilómetros de campo de antena, plantado na Herdade de Nossa Senhora da Glória do Ribatejo, ligado à Radio Free Europe e financiada pela CIA. Pouca ou nenhuma informação existia. Do lado da literatura norte-americana, a RARET era tratada como um mero automatismo. Do lado português, um artigo aqui, uma reportagem acolá, pouco mais. Ficava a dúvida: como é que ainda ninguém tinha pegado numa história com mais de 40 anos em que Portugal surgia como um dos pontos de combate em plena Guerra Fria?

Demorou dois anos a concluir a investigação. Fez entrevistas a antigos funcionários (portugueses e norte-americanos, alguns deles que já morreram), consultou vários arquivos, como o Hoover Institute (onde estão registos históricos como mapas ou gravações de reuniões dos dois países ou até as retransmissões da RARET) ou o Arquivo de Defesa Nacional (onde descobriu as plantas daquele enorme complexo de radiodifusão americano-português). Mas quer mais. Está a realizar um doutoramento sobre o mesmo tema, para seguir todo o período após o Estado Novo. Quer entender como é que a RARET se manteve já com Portugal na democracia.

Agora, com o aproximar da estreia da primeira produção portuguesa da Netflix, a série “Glória” (a 5 de novembro), baseada precisamente na RARET, o Observador conversou com Vítor Madaíl para perceber como é que foi possível implantar uma operação daquele nível no meio de uma região rural, longe do bloco de Leste e dos EUA. E como é que o regime de António de Oliveira Salazar, que restringia as liberdades, aceitou entrar nesta cruzada. E claro, procurámos também saber se uma das premissas da série criada pelo argumentista Pedro Lopes e pelo realizador Tiago Guedes terá mesmo sido possível: a existência de um espião do KGB na RARET. “Era perfeitamente possível que o que foi ficcionado pudesse ter acontecido. Estiveram cá cerca de 30 tradutores de países de Leste que podiam ser infiltrados. Isso aconteceu em Munique, na sede da Radio Free Europe de onde vinha toda a propaganda norte-americana. Cá, pelo que sei não aconteceu, mas era possível”, diz.

Vítor Madaíl lembra que a RARET seguiu "a ideia que a BBC desenvolveu durante a Segunda Guerra Mundial: os franceses livres a falarem para os franceses do interior"

Associação para a Defesa do Património Etnográfico e Cultural da Glória do Ribatejo

Pelo que me contou anteriormente, a história da série “Glória” podia nem sequer ter acontecido, porque os 40 anos de um centro de retransmissão no Ribatejo não estavam nos planos.
Exato. A Rádio Europa Livre [REL] era para vir por dez anos. Os homens do National Comitte for Free Europe, que tutelava a REL, tinham uma ideia inocente, porque achavam que conseguiam sublevar os países da Europa de Leste a partir de emissões radiofónicas para substituir os governos locais daquelas regiões. Dez anos de intensa propaganda através da radio difusão seriam suficientes para alterar a ordem interna. Isto antes sequer da existência da RARET. Os americanos, tendo a Voz da América, que é a rádio equivalente à BBC ou à Emissora Nacional, não a podiam usar para o mesmo fim. Ou seja, para propaganda anti-comunista. Então, fundou-se o tal Comittee, que foi uma parceria conjunta entre a CIA e o Departamento de Estado. Todos os homens iniciais vêm da antiga OSS, que é a antecessora da CIA. Quando em 1949 se funde esse comité, não é fundado com a Rádio Europa Livre, é feito com outras organizações, muito vocacionado para o apoio aos refugiados da Europa de Leste. Quando, entretanto, se percebe que esse apoio seria útil se colocassem os refugiados a falar para o próprio país, eles instituem o conceito de “rádio substituta”. É a ideia que a BBC desenvolveu durante a Segunda Guerra Mundial: os franceses livres a falarem para os franceses do interior. Surge então a ideia de fazer uma rádio, estávamos na época dourada dessa tecnologia. Mas onde é que a poderiam colocar? Na parte ocupada da Alemanha pelos norte-americanos, tendo em conta os Acordos de Potsdam e de Ialta. Primeiro em Munique e depois emissores noutras regiões. As emissões começaram a 4 de junho de 1950 para a Checoslováquia. Mas rapidamente perceberam que, emitindo ali em onda média, não tinham a eficácia que queriam ter.

Porque os soviéticos poderiam interferir mais facilmente.
Precisamente. É preciso deslocalizar. É aí que entra um estudo inicial de uma empresa norte-americana, com mapas, onde vão ver as áreas para atingir os alvos preferenciais. Aqui é identificado Portugal, bem como o sudoeste de Espanha e o norte de Marrocos. Só que, além das questões técnicas de onde colocar o emissor para ter a melhor cobertura, havia uma série de questões políticas. Espanha era um pária a nível internacional, Marrocos não, portanto, qual era o regime que dava garantias? O português.

Porque era neutro?
Não. Não se esqueça que já tínhamos cá a Base das Lajes. Quando os ingleses saíram, entraram os americanos. Entrámos para o Plano Marshal, com o qual, numa segunda fase, conseguimos fundos. E depois, a entrada de Portugal para a NATO, como membro fundador em 1949. A relação era, portanto, privilegiada. Por outro lado, o regime era anti-comunista, por isso Salazar encarou isto quase como uma cruzada. Não só perseguia localmente os comunistas, como tinha a hipótese de o fazer através desta rádio.

"Gregory Thomas Instala-se no Hotel Avis, onde estava Calouste Gulbenkian, e diz-lhe que tem de falar com Salazar para depois ir a São Bento. É Ricardo Espírito Santo que faz esses contactos. Em segundo plano, são feitas todas as plantas, projetos de antenas, qual o terreno a comprar... E é Salazar que contacta diretamente a Emissora Nacional."

No obelisco à entrada da RARET está a frase de Salazar, sobre a libertação dos povos do regime soviético, o que é de uma enorme contradição.
Sim, sim. E isso remete-nos para outra questão: porque é que a RARET nunca foi muito conhecida? Era muito difícil para Salazar colocar-se de braço dado, publicamente, com os americanos. Eles percebem então que só com um acordo com Portugal. Mas a génese da Rádio Europa Livre também tinha sido encapotada nos EUA. Era uma entidade criada por particulares. Queria-se, portanto, ocultar qualquer ligação ao governo norte-americano. Se houvesse algum problema, o governo podia dizer que nada tinha a ver com o assunto. Por isso é que originalmente não houve nenhum acordo público entre os dois países. O que há é uma concessão a pedido de uma entidade ao governo português, tal como já tinha feito com a Rádio Marconi.

Os conteúdos anti-comunistas viajavam primeiro dos EUA para Munique e só depois é que chegavam a Portugal?
Sim. Inicialmente partiam de Nova Iorque e eram transmitidos para Munique. Depois ainda seguiam para Biblis e Horzelrichen, que retransmitiram para os países-alvo no bloco de leste. Essa operação foi de curta duração e com bases precárias. Foi nesta fase que utilizaram o transmissor móvel “Bárbara”, que pertencia à OSS, antecessora da CIA. Esse veículo viria para a Glória. Com a inauguração das instalações de Munique, a Rádio Free Europe passa a dispor de instalações onde foram colocados jornalistas, editores, redatores e todo o pessoal necessário para produzir os conteúdos da emissão. Seguiam para Maxoqueira, centro recetor, em várias frequências de diferentes canais de forma a poder reproduzir-se na retransmissão que tivessem melhor qualidade. O circuito era: Maxoqueira, Edifício da Auto-Monumental em Lisboa (sede da RARET), Glória, países alvo.

Quanto às negociações entre os EUA e Portugal, demoraram muito?
Um pouco. O negociador, Gregory Thomas, chega em janeiro de 1950. E só teve resposta positiva em abril desse ano. Entretanto, quando se constitui a Sociedade Anónima de Rádio Retransmissão, sai em Diário da República. E olha-se para aquilo e vê-se uma empresa banal. Parece uma empresa de reparadores de rádio, por exemplo. Ninguém ligava ao que era realmente. Em Portugal, estando-se no início da Guerra Fria, com a Guerra da Coreia ao rubro, e quando os soviéticos diziam que já tinham mísseis, pensava-se que esta operação poderia tornar o país num alvo. Existe então a discussão se vale a pena ter uma rádio com aquelas características aqui. Acabou por ser uma vontade pessoal de Salazar. Teve uma conversa com o embaixador Scott Nash, à qual tive acesso, onde é pedida uma audiência para expor todo o interesse norte-americano. Aconteceu em dezembro desse ano. Mas sempre com a ideia de que o governo norte-americano nada tinha a ver com isto. Salazar percebe rapidamente do que se trata, mas não é claro que sabia que a CIA estava metida. Mas sabia que era liderada por alguém ligado ao governo dos EUA. Voltando ao Gregory Thomas, que tinha sido adido comercial durante a Segunda Guerra Mundial, sendo que era agente da OSS, estava sediado em Lisboa. Estabelece contactos com a elite portuguesa, um deles é Ricardo Espírito Santo, avô de Ricardo Salgado.

O exterior e o interior do edifício principal da RARET, em Glória do Ribatejo, quando o centro de retransmissão estava ainda em funcionamento

Associação para a Defesa do Património Etnográfico e Cultural da Glória do Ribatejo

Ou seja, o país como uma bolha.
Sim, mais conspiração nesta história. Essa é a pessoa a quem Gregory Thomas recorre para falar com Salazar. Eu ouvi a gravação [um dos registos de reuniões que analisou no Hoover Institute]. Instala-se no Hotel Avis, onde estava Calouste Gulbenkian, e diz-lhe que tem de ir falar com Salazar para depois ir a São Bento. É Ricardo Espírito Santo que faz esses contactos. A partir daí, a negociação acontece com o presidente do Conselho. Em segundo plano, são feitas todas as plantas, projetos de antenas, qual o terreno a comprar… E é Salazar que contacta diretamente a Emissora Nacional para informar sobre esta operação, pedindo-lhes ajuda. O diretor da Emissora, Mário Novais, que nunca esteve com ele, fica com esta “missão”. E é aí que, por intermédio de Tomás Pinto Basto [da família de um grupo de referência na logística de navegação da Península Ibérica], é descoberto o terreno da RARET. Descobre-se que o Conde Monte Real estava a vender a Herdade de Nossa Senhora da Glória.

Foi a primeira aposta?
Não, havia outras. Toda aquela zona era apetecível. Era preciso um local plano, sem interferências de relevo para que as ondas saíssem livremente, um sítio remoto, perto de Lisboa, com pouca população. A Glória obedecia a quase todas as condições. A 70 quilómetros de Lisboa, o material ia através do barco. Não havia estradas. São os norte-americanos que pagam a luz, as estradas, porque a região não tinha nada. Mas tinha as condições técnicas ideais.

Retomando a história da concessão dos dez anos, quando é que se percebe que a operação vai demorar mais tempo?
Os soviéticos deram luta. Na Polónia, em Berlim Leste e na Hungria, por exemplo. Começa-se a perceber que a RARET vai ter de se prolongar. Existe um debate interno em 1955, a meio da concessão, entre o ministro das Comunicações, o ministro da Marinha, o ministro da Força Aérea, entre outros, para perceber o que fazer àquela infraestrutura depois da concessão acabar. O que estava previsto era que voltasse para o Estado. Só que pelos acontecimentos internacionais, os homens da Rádio Europa Livre percebem que aquilo é para continuar. Em 61, durante a renovação do contrato, as relações diplomáticas entre os EUA e Portugal começam a ter problemas por causa da Guerra Colonial. Os americanos não tinham ajudado muito em certos momentos, Portugal entra na ONU em 1955 e fica exposto à crítica internacional, a pressão da União Indiana era bastante grande. As relações, que tinham começado nos anos 50, vão ficar mais tensas. Isto culmina no ano de todos os perigos, que é 1961, com diferentes episódios como a invasão de Angola ou a tomada de Goa. Quando se chega à fase de negociação, os americanos, que acham que a RARET não é uma base das Lajes, estão convencidos de que a concessão se vai prolongar. E eis que Salazar lança a bomba: não há possibilidade de se dar nova concessão, no máximo dá-se seis meses.

"Em 74 dá-se o 25 de Abril e são os próprios funcionários que fazem força para que a RARET não se vá embora. A revolução parou nos portões da RARET. Há um pequeno artigo no Avante de 1973 em que se percebe que há uma célula comunista lá, onde se fala de uma rádio imperialista, mas a verdade é que a ideologia comunista parou às portas de onde estava a outra ideologia."

E essa é uma decisão pessoal de Salazar?
Sim. Os americanos ficam para morrer. Em agosto de 61 começa a ser construído o Muro de Berlim, a crise de Cuba começa a escalar, e está a haver uma transição da administração Eisenhower para a de Kennedy. Ou seja, os americanos precisam mais do que nunca deste meio de soft power. Era um veículo importantíssimo para revelar a realidade aos soviéticos, segundo os americanos. E é nessa altura que Salazar tira o tapete. Mas à semelhança da base das Lajes, nunca tira o tapete completamente. É que, segundo os relatórios internos que consultei, os americanos achavam que esta decisão significava ficar calado durante um ano. Era preciso mudar de sítio, representando mais custos, sendo que, provavelmente, nem era possível fazer uma RARET no resto da Europa Ocidental.

E a União Soviética sabia disto. Sentia-se em vantagem.
Claro. Da parte deles foi gasto muito dinheiro a tentar impedir as comunicações. Um orçamento maior até que o dos norte-americanos. Foi astronómico.

Então como se resolve o imbróglio?
Foi-se protelando de seis em seis meses. Em abril de 1963 tudo isto acalma, sendo feito um novo contrato por mais dez anos. Em 1973, a Rádio Europa Livre estava a ser alvo de uma campanha no congresso onde se dizia que era uma “relíquia da Guerra Fria”. Era este o termo. Isso até começou antes, com a publicação de uma revista, a Ramparts, onde se expõe a ligação entre a RFE e a CIA. Até aí, essa ligação tinha sido negada. Até foi criada uma campanha de angariação de fundos, a “Crusade for Freedom”. Mas quando se consulta o dinheiro angariado, percebe-se que não têm nada a ver. A RFE era mantida pela CIA, não há dúvidas. E isto acontece num período em que existia a intenção de acabar com as rádios, onde era feita a propaganda. Porque havia uma tentativa de aproximação com os países soviéticos. Fazia parte de um tempo que já tinha passado. Esta era a campanha. Há até um estudo secreto, que é feito por parte da CIA, de 1969, onde se analisam as consequências do encerramento da rádio na Alemanha Ocidental, em Portugal e em Espanha. Entretanto, a concessão por cá acaba. Há um período de acalmia nos EUA, mas em 1974 acontece o golpe militar em Portugal, o 25 de Abril. A RARET está sem contrato naquele momento. Os americanos voltam a ficar preocupados.

[um anúncio americano para a Crusada pela Liberdade, protagonizado por Ronald Reagan:]

Esse ambiente de fricção estava presente na RARET?
Não. Os funcionários continuavam a trabalhar tranquilamente. Em 74 dá-se o 25 de Abril e são os próprios funcionários que fazem força para que a RARET não se vá embora. A revolução parou nos portões da RARET. Há um pequeno artigo no Avante de 1973 em que se percebe que há uma célula comunista lá, onde se fala de uma rádio imperialista, mas a verdade é que a ideologia comunista parou às portas de onde estava a outra ideologia. Essa falou mais alto. Porque tinha a ver com a sobrevivência das pessoas. Há até uma história onde se conta que um senhor se rebelou contra todo este contexto americano e quem mandava na RARET respondeu que podia ir-se embora, mas o salário continuaria a ser pago. Não queriam ondas.

Era outro tipo de ondas…
Sim, ondas positivas. É uma guerra hertziana que acontece, que não se vê. Tal como diz Vaclav Havel [o último presidente da Chescoslováquia e o primeiro da República Checa], o importante para desmoronar o Muro de Berlim não foram os tiros ou as bombas, mas sim o peso e a importância que a Rádio Europa Livre teve na consciência das pessoas.

Vítor Madaíl está a realizar um doutoramento sobre o mesmo tema, para seguir todo o período após o Estado Novo. Quer entender como é que a RARET se manteve já com Portugal na democracia

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Após o 25 de Abril, e até ao desmantelamento da RARET, houve mais algum episódio fundamental na sua investigação?
Um atentado à bomba em 1975.

Nunca se soube o autor. Falou-se nas FP25…
Não há provas disso.

Não conseguiu perceber?
Não. O documento estava no tribunal de Benavente, mas já foi para o lixo.

Mas não foi um atentado de grandes dimensões?
Não. Rebentaram dois petardos nas antenas. Não caíram. Foi reivindicado por um grupo anti comunista e anti imperialista. O Ronald Reagan vinha cá nessa altura, era para chamar a atenção.

"Na altura estávamos numa fase em que, na ótica norte-americana, podia chegar-se ao nível do conflito na Alemanha. E a rádio seria um dos lugares que os soviéticos quereriam ocupar. Ter esse backup no extremo da Península Ibérica dava garantias."

Contou-me numa das primeiras conversas que tivemos que o que poderá ser visto na série “Glória”, sobre um espião português, pode até ter acontecido…
Pode ter havido. É perfeitamente possível que o que foi ficcionado pelo Pedro Lopes possa ter acontecido. Estiveram cerca de 20 a 30 tradutores de países de Leste em Portugal, os funcionários portugueses não sabiam aquelas línguas. Tinha de haver alguém que editasse, que escolhesse as emissões, que traduzisse na Maxuqueira [centro recetor] o que vinha de Munique. Podia haver o risco de retransmitir as emissões da Rádio Moscovo e isso seria um tiro no pé. Portanto, essas pessoas podiam ser infiltradas. E isso aconteceu em Munique, onde inclusivamente houve uma atentado nas instalações da Rádio Europa Livre, que ficaram destruídas. Há até histórias de infiltrados que se ficaram a conhecer graças à cobertura jornalística. Eram dos serviços secretos romenos e búlgaros, por exemplo. Cá não.

Mas é uma possibilidade?
Sim. A PIDE, por exemplo, tinha um controlo importante nas pessoas que entravam na RARET.

Isso é visível na série.
Há um relatório da PIDE em que se faz a descrição da segurança da garagem Monumental. Quando Portugal adere à NATO, o exército foi reestruturado. E uma das estruturas que ficaram sinalizadas como críticas é a RARET. Sendo uma concessão, uma coisa privada, é logo incluída nesse plano de defesa do interior como ponto crítico, tal como os hospitais ou as refinarias. Para a zona militar de Santarém, uma vez que não havia forças em número suficiente, é alocada a responsabilidade, em caso de sublevação, à Legião Nacional. A RARET, logo desde o início, tem um posto da GNR. Não era na Glória, era ali. Quando chegamos ao 25 de Abril, na semana a seguir, vai para lá um pelotão de tropa, que só sai em agosto de 74. Era, portanto, de grande importância. Se não houvesse risco, não iam.

Ninguém do Movimento das Forças Armadas quis tomar conta da RARET?
Não, não. Queriam defendê-la.

Havendo poucos documentos e registos por parte de Portugal, o que é que descobriu do lado norte-americano na sua pesquisa?
No início, Salazar só autorizou a retransmissão. Pode parecer algo menor, mas não. Ele tinha a hipótese de dizer, a nível internacional, que dali não se transmitia nada. No contrato de 1961 já se podia transmitir. Na sede, em Lisboa, existia um conjunto de estúdios, em que estava tudo montado para alterar, à última hora, certos acontecimentos. Os tradutores estavam lá inclusivamente para dar voz a novas gravações. Mas não havia uma redação. O conteúdo era produzido nos EUA. Aqui existia apenas um backup.

Depois, outras das razões para a RARET estar baseada cá é que na altura estávamos numa fase em que, na ótica norte-americana, podia chegar-se ao nível do conflito na Alemanha. E a rádio seria um dos lugares que os soviéticos quereriam ocupar. Ter esse backup no extremo da Península Ibérica dava garantias. Quanto às figuras que constituíram a RARET, há muitas portuguesas ligadas ao regime. O filho do António Ferro, Tomás Pinto Basto, António de Cértima, que se vão manter até 1974. Aliás, Pinto Basto vai ficar até aos anos 80.

"A criação da maternidade ou a escola (nas imagens) é também para cair nas boas graças daquela população. Para que não se levantassem muitas ondas"

Associação para a Defesa do Património Etnográfico e Cultural da Glória do Ribatejo

Estavam todos confortáveis com essa ligação aos EUA?
Era mais relevante estar a trabalhar para o anti comunismo. As pessoas estavam imbuídas por um espírito. Nas reuniões da RARET, eles estão convencidos de que estão a fazer uma obra pela liberdade, que em Portugal não havia. Estavam a fazer algo pelo ocidente. Da mesma forma que estão convencidos de que estão a fazer uma grande obra em África. O Gregory Thomas vai a África nos anos 60 e o jornal O Século dá essa notícia. E aqui há um uso duplo, os dois países usam-se. “Se os portugueses estão a ajudar os norte-americanos contra o totalitarismo soviético, vocês ajudam-nos no continente africano contra a mesma ideologia, perpetuada pelos movimentos de libertação”, algo assim. É uma troca por troca. Do lado americano, também se entende, a certo nível, que estão todos a combater um inimigo comum. E em África também. São quase lutas equiparadas. Uma coisa é a posição final dos Estados a nível dos presidentes, mas nos escalões intermédios havia um entendimento.

A operação da RARET chegava ao nível do presidente dos EUA?
Não, mas ao do presidente da RFE sim. Na presidência de Kennedy há um grande almoço para expor o trabalho da RFE que subscreve o papel da rádio. Sabia que havia emissões em Portugal, mas a conversa não chegava aí.

Qual foi, de facto, o poder da RARET?
Foi uma plataforma equiparável à base das Lajes, mas no âmbito do soft power. Sem a RARET, os norte-americanos não conseguiam falar como falaram para o bloco de Leste. Sempre que alguma tensão acontecia cá, os americanos ficavam profundamente abalados com a hipótese dos emissores serem encerrados. Nos anos 80 tentou replicar-se a operação em Israel, mas não chegou a ir para a frente. Em 1991, quando já não há muro de Berlim e o processo de democratização começa a acontecer no bloco de Leste, já com a URSS caída, há um novo acordo para uma concessão de 15 anos, sob a presidência de Bill Clinton. E aqui os acordos já estão públicos, claro. A concessão subiu, entretanto, de escalão. Antes da RARET acabar, havia, por isso, a vontade de se continuar, mesmo com o fim da Guerra Fria.

Qual é a razão fundamental para o seu fim?
Os custos. Na presidência de Bill Clinton ocorre uma deslocalização da estratégia norte-americana, onde o foco são as repúblicas ex-soviéticas. E isso já tinha começado a acontecer nos anos 80. A partir de 1977 começam a emitir para mais leste ainda. A RARET começa também a emitir para as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, durante um determinado horário. Em 91 há um grande investimento em equipamentos. Entretanto, Vaclav Havel faz uma proposta de um dólar para estabelecer a sede da RFE no antigo parlamento comunista de Praga, saíndo de Munique, onde ainda estão hoje. Ou seja, ter a operação em Portugal deixa de fazer sentido. Esta história acaba com os emissores de 500 watts, que tinham sido colocados recentemente na RARET, onde a emissão começa a ser feita por satélite. Nos anos 90, esse equipamento é desmontado por antigos funcionários para ser instalado nas Ilhas Marianas. E é onde se cria a Rádio Free Asia. Ficam lá a trabalhar durante um ano. A operação passa para a China, Vietname, Camboja, etc. Já a RFE vai para a países como a Geórgia ou o Azerbaijão. E pronto, fica a memória à espera de alguém que a conte.

"Quem defendeu a RARET? É preciso pensar que a extrema esquerda foi crítica, por exemplo. Como é que o governo aguentou a pressão? Qual a intervenção da embaixada norte-americana? Porque é que a RARET continuou após a queda do muro de Berlim? É tudo isto que quero abordar e investigar na tese de doutoramento."

Quanto é que o Estado português arrecadou neste período de mais de 40 anos?
Não lhe sei dizer em concreto. Gregory Thomas disse a Salazar que, em 1963, sem os empregos, a contribuição líquida era de cerca de 12 milhões de dólares para o Estado português. Já para não falar dos postos de trabalho, claro. Os fundos eram importantes. Bem como para a população da Glória. Foram eles que pediram que a RARET não saísse de lá.

Porque é que os americanos também quiseram investir naquela região?
A RARET era uma empresa portuguesa. A nível da administração, 60% era portuguesa. O resto era norte-americana. Da parte deles, houve uma tentativa de relações públicas. Perceberam que essa responsabilidade social era importante porque criava vínculos. Até aos anos 60 havia a medicina para o trabalho, mas, além do benefício de se trabalhar lá, pouco mais havia. A criação da maternidade ou a escola é também para cair nas boas graças daquela população. Para que não se levantassem muitas ondas. Ou seja, já que estamos aqui, damos algo em troca. Amanhã pode falar a nosso favor.

Era o sonho americano ali.
Sim. E surtiu efeito.

Porque é que se meteu nesta história? Tem alguma ligação à RARET ou à região?
Nenhuma. Tinha de apresentar um trabalho inovador, que ninguém tivesse feito. Queria um trabalho na segunda metade do séc XX e que envolvesse as relações entre Portugal e os EUA, durante a Guerra Fria. Quando comecei a ler a bibliografia, percebi que a NATO estava tratada, bem como a Base das Lajes ou o Plano Marshall. Estavam cobertas várias áreas. Tive de descobrir a RARET, depois de olhar para a radiodifusão. Comecei a ler os autores norte-americanos, e percebi que, pelo meio, ninguém falou dessa realidade. Só muito de passagem. Tratam a RARET como se fosse um automatismo. Temos de pensar que a relação começa no Estado Novo, mas que, em termos internos, há muitas alterações. Então isso não afeta nada? Foram os americanos que vieram para cá ou o contrário? Comecei a perceber que havia uma história bastante grande para contar.  Havia um artigo da revista Exame, a SIC também fez lá uma reportagem. Mas tudo muito ao de leve. Quem defendeu a RARET? É preciso pensar que a extrema esquerda foi crítica, por exemplo. Como é que o governo aguentou a pressão? Qual a intervenção da embaixada norte-americana? Porque é que a RARET continuou após a queda do muro de Berlim? É tudo isto que quero abordar e investigar na tese de doutoramento.

A página está a demorar muito tempo.