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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Samuel Úria. “Muitas vezes as massas formam-se num espírito de meme da internet” /premium

Depois do confinamento, Samuel Úria volta aos palcos este sábado, no festival Regresso ao Futuro. Em entrevista, fala do regresso, do disco adiado, da urgência e do futuro da cultura em Portugal.

Ao fim de quase três meses, é estranho voltar a hábitos antigos como regressar a uma sala de ensaios. Para Samuel Úria, que já leva alguns anos disto, esse regresso vem “com a pica toda”, algo que nem é muito natural no cantautor de Tondela. Não é especial apreciador de ensaios, mas, fruto de não ter passado muito bem esta quarentena enfiado em casa, aceitou logo, em poucos segundos, fazer parte do festival solidário Regresso ao Futuro, uma iniciativa que acontece um pouco por todo o país, com vários concertos em simultâneo este sábado, 20 de junho, a partir das 21h30 (o concerto de Samuel Úria acontece no Cinema São Jorge, em Lisboa). Confessa-se ansioso por voltar a estar em cima do palco, algo que, no pré-Covid-19, seria quase impensável.

Teve de adiar o lançamento do novo álbum, remarcado para outubro. Diz-nos que agora tem “algumas reservas”, por ser um disco que pedia um 2020 diferente. Um disco mais contido, contrário aos tempos pandémicos e caóticos que vivemos. Será menos rock’n’roll e mais peace and love? Temos de esperar. É que, se na quarentena, enfiado em casa, Samuel Úria aproveitou para voltar ao desenho e aprumar a técnica de cozinha, agora, além da música, tem de estar atento ao que se passa: do movimento anti-racista, tanto das manifestações como do derrubar das estátuas, que voltou a explodir nos Estados Unidos e que se propagou um pouco por todo o mundo, às manifestações do setor da cultura em Portugal, que brotam de uma insatisfação dos artistas e técnicos. “Nota-se que em tempos de necessidade, a paz é podre e a união transforma-se numa desunião que era desconhecida até aqui”, conta.

Festival Regresso ao Futuro: 21 artistas portugueses atuam em 21 teatros municipais num concerto solidário

Nesta conversa com o Observador, Samuel Úria mostrou saber de que lado quer estar, tanto como artista como cidadão, não passando cheques em branco a ninguém. Gosta de refletir neste caos, de usar e abusar da palavra para relançar o debate que não deve ser só efémero. Considera que o momento que vivemos é “bom para a criação” e que os artistas se devem chegar à frente, por exemplo, na luta contra o racismo.  Porém, não deixa de ter questões: porque é que agora é urgente falar de racismo e não o era há um, dois ou três anos? E o timing da manifestação anti-racista por cá foi por causa de casos no país ou uma espécie de reação globalizada por causa de algo permanente que acontece na internet e que “nos faz andar a reboque do que se passa lá fora”? Sem certezas de nada, o músico acredita, porém, que “a urgência é sempre”.

Tendo uma ligação forte à religião (é protestante) e à palavra que encontra na Bíblia, quando viu o Presidente norte-americano, Donald Trump, a erguer o livro sagrado na igreja Episcopal de St. Johns só teve uma reação: rir. É que apesar de Samuel Úria ser um “tipo porreiro”, e de ter passado um pouco mal no confinamento, vai arranjando motivos para se rir, gerar discórdia e não seguir o pensamento das massas. E para provocar, nem que seja para abanar o estado natural das coisas. Não fosse ele um músico de direita e de esquerda. Como? Pois bem, ainda há quem não veja o mundo só a preto e branco.

[“Fica Aquém”, o single lançado por Samuel Úria ainda no final de 2009:]

Ao fim de três meses está a ensaiar. É estranho?
Estou neste momento a ir para a sala de ensaios. Poderia até haver estranheza mas como havia muita vontade, quase um sentimento de sofreguidão, de sair de casa com instrumentos, a estranheza é secundária. Estou com a pica toda, é algo raro em mim, não sou pessoa de gostar muito de ensaios. Mas agora estávamos com vontade de voltar ao ativo. Dantes os ensaios para mim eram um preâmbulo. Agora não,  sobretudo porque estou fora de casa.

E este festival solidário “Regresso ao Futuro”, aceitou logo fazer parte?
Sim. Por mais do que um motivo: vai ser o meu primeiro concerto pós-confinamento, ou seja, não demorei muito tempo a decidir, foi uma questão de segundos. Depois, porque é um concerto solidário e tinha de apoiar uma causa, onde estou inserido, bem como as pessoas que trabalham comigo. Há uma preocupação familiar com os que me rodeiam no contexto profissional que acabam também por ser amigos.

Está nervoso por voltar ao palco? Ou vai chegar lá acima e passa tudo, num instante?
Acho que vai ser como costuma ser, mas não havendo nervosismo, apesar de haver alguma desabituação depois destes meses todos sem lá estar, acho que há ansiedade, o que é raro. Estou com muita vontade que chegue a altura, o que também em mim é raro. Costumo estar bastante tranquilo e no próprio dia fico sem vontade nenhuma, tenho mais sono do que nos outros dias. É uma espécie de molenguice, porque é um dia de trabalho. Acabo sempre por me divertir e arrependo-me da molenguice. Desta vez não. Há essa ansiedade do relógio andar para a frente e nunca mais ser sábado à noite.

Agora com as atividades culturais a voltarem, mesmo num “novo normal”, espera um público igual?
Acho que alguns hábitos vão mudar, mas não prevejo que mude para melhor. Temos de lidar com o receio das pessoas de estarem em espaços fechados e estarem perto umas das outras, o que é justificável. As normas todas vão prevalecer, claro. Fui convidado para ir ao “Deixem o Pimba em Paz”, uma espécie de uma abertura de um novo ciclo, e percebi que as coisas conseguem ser feitas com algum rigor e que as pessoas cumprem e querem estar. Mas, além disso, também há a questão económico-financeira. Percebo que, com o que se avizinha, há quem esteja a perder poder de compra e então as artes passam a ser algo ainda mais dispensável. E percebo também  que quem tenha de escolher entre ter comida da mesa ou um bilhete para um espectáculo, opte pelo primeiro. É compreensível. Vamos ter de lidar com esse emagrecimento de público, que é natural, e que não sei até que ponto irá mudar ainda mais a configuração das salas de espectáculo no futuro.

"Em tempos de necessidade, a paz é podre e a união transforma-se numa desunião que era desconhecida até aqui. De repente, somos cada vez mais concorrentes, algo que até agora não havia assim tanto. Não que houvesse oportunidade para todos tocarem, mas havia uma convivência pacífica, que cada vez será menos."

A cultura tem estado na ordem do dia, vimos manifestações na rua, muita contestação em relação ao Ministério da Cultura. O Samuel gosta de provocar quem o lê ou ouve. Como olha para esta contestação?
Normalmente digo que sou mais à direita como uma provocação, porque se formos ver questiúncula a questiúncula, não me comprometo com nada que tenha a ver com a direita, muito menos a portuguesa. Não me revejo na direita partidária, nem sequer na Iniciativa Liberal que seria, à partida, mais conivente com aquilo que digo. Por outro lado, sou defensor de apoios públicos, de um Serviço Nacional de Saúde, escola pública, etc. Muitas vezes as minhas afirmações são mais estéticas e revolucionárias porque hoje em dia toda a gente é de esquerda. É uma espécie de intervenção chocante. Como nunca dependi exclusivamente de subsídios para a minha atividade, não consigo perceber sequer que engrenagens têm de ser postas a funcionar para, de repente, haver um reconhecimento das necessidades.

Um país livre é um país que obviamente tem os seus artistas em conta e uma produção sustentada e profícua que é o seu panorama artístico e cultural. Agora, como fazer que as instâncias nacionais e até a opinião pública reconheçam isso… aí fico mesmo, sei lá, de cérebro atado. Quando há manifestações de professores, que são figuras aparentemente mais respeitáveis, há sempre alguém a dizer “eles querem é férias”. Com os artistas então, que são “os drogados e os que não gostam de fazer nenhum”, será muito mais difícil mobilizar a opinião pública. Por isso, mesmo que o Estado reconheça as necessidades que existem no seio desta comunidade — dos artistas aos técnicos — será muito difícil justificar, perante a opinião, que haja apoios generosos para nós.

Recordo-me que há umas semanas, quando tivemos o “Deixem o Pimba em Paz” ao vivo, muita gente nas redes sociais criticou o espectáculo, até dizendo que era elitista.
Vai ser mesmo muito difícil desenlaçar isto. Até nós, artistas, reconhecemos que não somos um bem de primeira necessidade, é normal não estar nas prioridades dos apoios estatais. E se, por um lado, pode ser muito demagógico apoiar a cultura, por outro, terá o efeito contrário quando uma boa maioria da população olha sempre de soslaio para quem faz vida disto e quem está a receber subsídios do que quer que seja. A revitalização muito dificilmente passará por apoios estatais. Às vezes é difícil perceber as competências do Ministério. Não sei, é uma grande incógnita.

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Mas isso deixa-o menos esperançoso em relação ao futuro da cultura, em época de pós-Covid-19?
Acho que vai piorar. Quem tinha poder antes terá os seus poderes reforçados, ou, aliás, sofrerá menos as consequências. E atenção, isto não é uma reclamação de esquerda, de todo. Mas quem tinha um público mais generalizado e alargado obviamente que sairá reforçado. Não irá perder. As franjas vão sofrer mais, a subsistência será mais difícil. Até porque os municípios, por exemplo, vão programar coisas mais seguras em termos de público.

Esta parte da solidariedade, nem aí é possível haver consenso. Há artistas que criticam alguns fundos de apoio de instituições dedicadas à área cultural e artística.
Não é só algo deste setor. Haverá sempre desconfiança por parte de quem não recebe. É uma desconfiança que às vezes nem tem fundamento. Viu-se pela iniciativa, o TV Fest, que foi muito mal engendrada no conceito, depois o Ministério voltou atrás. Criou automaticamente uma divisão no setor que deveria estar mais unido do que nunca. E até a maneira como a coisa foi despachada tornou-se perniciosa, mas nota-se que em tempos de necessidade, a paz é podre e a união transforma-se numa desunião que era desconhecida até aqui. De repente, somos cada vez mais concorrentes, algo que até agora não havia assim tanto. Não que houvesse oportunidade para todos tocarem, mas havia uma convivência pacífica, que cada vez será menos.

No início da quarentena vimos exatamente o oposto: uma grande onda de solidariedade entre todos, artistas, público, profissionais de saúde, etc. Desconfinados, o jogo inverteu-se, fruto, principalmente, das questões de racismo, que voltaram a ferver, tendo um foco forte e inicial nos Estados Unidos da América, depois da morte de George Floyd. O Samuel chegou a escrever sobre racismo nas crónicas que assina para o Sapo24. O que é que lhe anda a passar pela cabeça nestes dias? E tem tido vontade de voltar a escrever sobre estes temas?
Durante algum tempo escrevi essas crónicas semanais, mas é engraçado porque escrevi sobre quase todos esses temas. Privilégio branco, por exemplo. E agora não me sinto com vontade de repetir, apesar de estar chocado com algumas coisas que estão a acontecer. Mas também tenho noção de que as coisas estão a ser ativadas de uma forma global, não tanto em consciência, mas acho muito bem que seja discutido. Embora não saiba se este é o momento com mais clarividência para que se chegue a um consenso. A verdade é que também os consensos não interessam por aí além. Mas, agora falando para a minha classe, acho que este é um bom momento para inspiração porque quem gosta de pegar nas cantigas como uma arma vai fazê-lo. E não sei se depois isso vai gerar muita frustração, por também ser um não tão bom momento para execução,  para rentabilizar aquilo que é a inspiração. Mas, pelo menos, temos a certeza de que não vai haver adormecimento da cultura em termos de criação. É aquela ideia de quando não há males, inventa-se, porque os males inspiram. Infelizmente, existem estes males e temos de lidar com notícias absolutamente chocantes todos os dias. Se agora escrever canções dificilmente escaparei incólume ao espírito do tempo. E ainda bem e ainda mal ao mesmo tempo.

"Porque é que agora é urgente [uma manifestação contra o racismo] e não era urgente há dois anos quando houve a carga policial no Bairro da Jamaica? Ou quando a Cláudia Simões foi espancada por um polícia? Porque é que aí não houve manifestações com a mesma pujança que houve agora, com algo que aconteceu nos EUA?"

Também vivemos numa altura em que parece que toda a gente tem de ter uma opinião. Ficar em silêncio é ser complacente. Concorda? Os artistas têm de se chegar à frente?
Tenho mixed feelings, às vezes. Acho que os artistas se devem chegar à frente porque, havendo uma intervenção social, tem de ser orientada para aquilo que são as nossas crenças. Felizmente não conheço nenhum artista em Portugal que seja tendencialmente fascista e que vá fazer valer esses valores na sua obra. Mas poderia acontecer. Nesse sentido diria que fazia sentido que os outros artistas se manifestassem. Mas os artistas que conheço estão orientados para as mesmas convicções que eu em relação ao que se passa. O que às vezes me surpreende é porque é que agora é urgente e não era urgente há dois anos quando houve a carga policial no Bairro da Jamaica? Ou quando a Cláudia Simões foi espancada por um polícia? Porque é que aí não houve manifestações com a mesma pujança que houve agora, com algo que aconteceu nos EUA?

Nesse sentido, também poderíamos falar do caso Marega.
Exatamente. Muitas vezes as massas formam-se num espírito de meme de internet, porque tem de ser agora, em que há uma consciência globalizada. E as mesmas pessoas que falam contra o capitalismo andam a reboque daquilo que se passa no Grande Satã Imperialista e Capitalista. Fico sempre de pé atrás em relação a essa urgência porque essa urgência é sempre. As questões raciais deviam estar sempre na ordem do dia porque não estão resolvidas. Por exemplo, não estive na manifestação, mas não estou nada contra quem esteve. Não sei se o timing era o melhor tendo em conta a pandemia, mas o que determinou esse timing? Terão sido casos na família ou no país ou foi uma espécie de reação globalizada por causa de coisas permanentes que acontecem na internet e nos fazem andar a reboque do que se passa lá fora? Não sei, estou a divagar. Mas escrevi sobre privilégio branco porque me tocou mais do que agora. Não me sinto mais privilegiado agora só porque houve uma manifestação generalizado na comunidade portuguesa. Se calhar comigo aconteceu há mais tempo, sem querer ser moralista ou profeta. Os casos foram próximos e fizeram-me refletir e arrepiar caminho sobre algumas coisas que fazia de forma consciente. Essa chamada à consciência não aconteceu porque o Instagram dizia que tinha de acontecer agora. Mas não estou a duvidar das intenções, de forma alguma. Há um maniatamento que nem sempre tem a ver com uma extração pura da realidade. Tem a ver com condicionamento de massas, que tolda um pouco a reflexão porque torna o mundo a preto e branco. E arregimenta-se de uma forma belicosa algo que devia vir de um pensamento ponderado e não de uma explosão.

Ou seja, por vezes as pessoas não processam toda a informação, tendem a comparar casos diferentes, a comparar países, como os EUA e Portugal, não olhando para todo o contexto histórico, por exemplo.
Está a valer cá uma cartilha sobre coisas que nos dizem muito pouco respeito, não sei. O racismo é global, mas reflete-se nas culturas de uma maneira diferente. A cultura pop tornou o mundo numa espécie de sucursal dos EUA, porque somos aquilo que consumimos em termos culturais e isso reflete-se nas crenças e na maneira como interagimos. Mas, por outro lado, se queremos voltar ao passado e falar das raízes do problema, ou de como as resolvemos, as nossas são muito diferentes da forma como foram resolvidas nos Estados Unidos. Adotámos umaa cartilha do que se pode ou não fazer que nem sequer contempla a opinião das pessoas que sofreram, de facto, racismo em Portugal. Aí estão a manifestar-se pouco. E claro que estamos a inflingir uma vitimização que se mistura com um sentimento de culpa que é importado, não é endémico.

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Nesse sentido, o Samuel tem uma ligação à religião, neste caso à protestante. A estátua de Padre António Vieira foi vandalizada agora, depois de ter sido erigida em 2017. Este é o momento para discutirmos a história ou deitarmos abaixo simbolismos que glorificam essa mesma história?
Para mim é muito difícil confrontar uma figura histórica com os valores que são concebidos hoje, quase como se a história não tivesse sido conduzida de uma forma evolutiva. E há quem faça uma espécie de auto de fé a quem não teve esses mesmos dados para evoluir. Também há contemporâneos nossos que estão mais evoluídos do que nós e não temos historicamente a visão cronológica para admiti-lo ou reconhecê-lo. Acho que esse julgamento é feito de forma algo injusta. Mas, por outro lado, a urgência de vandalizar a estátua tem muito pouco a ver com o Padre António Vieira, mas sim com o que está acontecer do outro lado. Precisamos muito de ter esse meme de alguém a fazer algo a uma estátua porque estava a acontecer no resto do mundo e não queríamos ficar para trás.

Dizer “presente”.
Sim, independentemente de quem quer que fosse. O Padre António Vieira estava mais à mão. Claro que não ignoro que a estátua é recente e que não foram tidas em conta algumas opiniões em relação a essa figura. Acho que não deve ser julgado pelos padrões morais atuais, mas quem decidiu erigir essa estátua devia ter tido isso em conta e perceber que seria problemático, hoje em dia, evocar algumas coisas. Não fiquei agradado com a vandalização, mas a problemática está a ser discutida de forma extremada. Uns não tem em conta o período histórico que foi revalidado há 3 anos, outros estão a ignorar essa consciência evolutiva pela qual não devemos fazer esse auto de fé a quem não viveu nos nossos tempos.

Há também a parte de retirar, ou não, algumas obras cinematográficas, como o “E Tudo o Vento Levou”, por ser um filme com uma índole racista. Faz sentido retirar, ou é preferível colocar um aviso? Ou deixar como está…
Há uma espécie de inconsciência paternalista em relação à incapacidade das pessoas de julgar um objeto artístico. Estão a dizer-nos que somos mais influenciados do que críticos quando estamos perante uma obra de arte. E isso é um saneamento muito perigoso, porque, de repente, pode-se começar a sanear tudo aquilo que levanta algum tipo de suspeitas. O que, de alguma maneira, menospreza, dificulta e muda essa discussão. A discussão crítica deve acontecer. Quando as coisas desaparecem porque a parte moral levanta suspeitas, isso enfraquece ambas as discussões, tanto estética como moral. Estamos simplesmente a apagar e a assobiar para o lado. Estão quase a tentar vender-nos que o tipo de consciência que temos sobre vários assuntos é algo intrínseco e não é, foi conquistado. Está sobre os ombros de muita gente que sofreu e pensou sobre estas matérias. Aquilo que é pernicioso na história, se for apagado, está a invalidar aqueles que lutaram sobre essas coisas. Quase como se essas pessoas tivessem sido dotadas do óbvio e não foi assim. Foi uma conquista. Estamos a apequenar a evolução do pensamento, da moral e da consciência.

"Quando vi o Trump com a Bíblia na mão… ri-me, não consegui evitar. Está ali consagrado o pior dos folclores americanos, um apelo descarado ao voto. A Bíblia não fica conspurcada por ser uma pessoa como o Trump a mexer nela, ele é que fica porque evidencia-se que percebe pouco sobre o livro que está a segurar."

Ver o presidente dos Estados Unidos a erguer uma Bíblia, ao contrário, como símbolo de oposição às manifestações, causa-lhe desconforto? Escreveu-se que aquele gesto serviu para fortalecer o voto evangélico nos EUA.
Em Portugal existe uma grande diferença entre o que são os nossos evangélicos e os do Brasil e dos EUA. Ainda há pouco a  revista “Visão” lançou uma reportagem sobre o apoio evangélico a André Ventura, que é algo absolutamente falso. Até se falou no lobby evangélico… somos uns pés rapados sem poder nenhum. É uma preguiça jornalística tentar perceber que o fenómeno evangélico europeu e das várias confissões protestantes tem muito pouco a ver com o que acontece nos Estados Unidos, ou com o fenómeno sul americano dos evangélicos. Cá estão comungados em associações que defendem os direitos e a imagem, por outro lado, cada igreja é independente, tem a sua própria gestão. Quando vi o Trump com a Bíblia na mão… ri-me, não consegui evitar. Está ali consagrado o pior dos folclores americanos, um apelo descarado ao voto. A Bíblia não fica conspurcada por ser uma pessoa como o Trump a mexer nela, ele é que fica porque evidencia-se que percebe pouco sobre o livro que está a segurar. Usou-o quase como um amuleto. E para mim, que sou uma pessoa que ama a palavra, e também a que encontro na Bíblia, vejo aquilo como uma graçola rasteira de alguém que não compreende o que está a segurar.

Mas dá mau nome à Bíblia?
As reações que vi, até de amigos ateus, é generalizada: quando se vê alguém como o Trump a segurar a Bíblia quem fica ridicularizado é ele. O alcance dele não chega a contaminar o que está ao seu lado. Todas as pessoas perceberam que aquilo era mais um momento infeliz daquela pessoa infeliz.

Ainda sobre a religião, acredita que estes tempos de pandemia afastaram os crentes da sua fé?
É difícil responder a isso porque não estou na cabeça das pessoas. Não sei até que ponto isto aproximou as pessoas da fé ou se estão tão distraídas com os acontecimentos que se distraíram da sua fé. Não consigo responder. Acho que as coisas decorrem com naturalidade: quem tem fé, vai mantê-la, quem não tem também não estou a ver que se irá aproximar neste momento. Não acredito muito no lado de uma aproximação à fé como algo utilitário, de ajudar a compensar os tempos em que vivemos, ou de se se agarrar para ter alguma esperança. Ou a ideia de paz interior ou de sossego, essa não é a minha conceção de fé. Não consigo propriamente pronunciar-me sobre quem o faz. Mas não vejo 2020 como um ano para as pessoas se manifestarem ou retirarem-se das suas crenças.

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Mas incomoda-o a utilização da fé para fins políticos, por exemplo?
É mais relevante para entendermos o caráter da pessoa em questão do que fazer a analise da fé que está a manifestar. Acho que as pessoas que gostam de André Ventura, por exemplo, não sei até que ponto levam a sério as suas manifestações de fé. Claro que isto é pensamento desejoso da minha parte, de que as pessoas tenham uma réstia de clarividência de que aquilo é uma jogada política. Mas as pessoas têm de ser confrontadas com os seus hábitos passados e acho que a história não é apagada por vermos André Ventura ajoelhado numa capela. Acho que mais uma vez, a religião não é considerada aí, é mais um fator acessório  para percebermos as jogadas políticas. E espero que seja desmascarado.

Trocando as voltas à conversa, nesta quarentena, aproveitou para aprender alguma coisa? Vi que fez um curso de desenho online. É verdade?
Não, não. Era uma brincadeira de Instagram para contrapor desenhos.

Fake news…
[ri-se] Mas houve quem perguntasse onde é que tinha tirado o curso. Sempre desenhei,  aquilo foi só para fazer um processo evolutivo flagrante que nem era verdadeiro, foi só mesmo uma brincadeira.

Mas manteve-o ocupado?
Andei um pouco a bater mal com o confinamento, farto de estar em casa. O desenho foi algo que me fez escapar, cria-me um espaço mental mais amplo. E já não estava habituado a desenhar com alguma regularidade. Ajudou-me. E meti essa brincadeira nas redes para que não desaparecesse neste período.

Custou-lhe muito estar em casa, então.
Bastante. É engraçado, porque tirando os concertos que acontecem ao fim de semana, o grosso do meu trabalho é feito em casa, mas uma coisa é estar em casa porque posso, outra é porque tenho de. Tornou-se uma prisão domiciliária, estar acorrentado é diferente de estar no sofá por opção. Tirou-me um pedaço de mim.

Aproveitou para experimentar outras bebidas? Li algures que houve um consumo forte de vinho tinto durante a quarentena.
Houve um consumo forte de tudo [ri-se]. O meu espólio de vinho reduziu-se significativamente e não era assim tão pequeno. E cozinhei muito, fartei-me de cozinhar.

Algum prato repetido até à exaustão?
Não, não. Acordava todos os dias a pensar em cozinhar, era uma distração. Tornou-se uma obstinação. E como fazia as compras online, chegando às vezes só um mês depois, começou a haver um detalhe muito grande e específico sobre pensar em pratos que queria fazer e o que era preciso comprar. Sempre fui muito desleixado…

Mas agora é um cozinheiro organizado?
Mais ou menos. Sou demorado, gosto de fazer as coisas bem, de forma metódica. às vezes a cozinha fica desorganizada. É uma espécie de laboratório privado onde a comida é feita com tempo e não há urgência.

"Quis fazer uma espécie de negação daquilo que tinha tido sucesso no disco anterior, não por pirraça, mas quis reformular o que tinha sucesso, ou seja, é um disco mais contido e discreto. Mas tenho noção de que este ano talvez as pessoas não queiram ouvir um disco low profile."

E em relação ao seu disco, que estava para ser lançado, estando mais do que cozinhado e pronto para servir. Pode abrir o jogo?
Teve de ser estrategicamente adiado e os concertos de lançamento, que espero que aconteçam, estão marcados para Outubro. Imagino que o disco sairá mais ou menos por essa altura. É um disco para o qual agora tenho expectativas reservadas porque foi planeado para outros tempos. Para um 2020 completamente diferente. Quis fazer uma espécie de negação daquilo que tinha tido sucesso no disco anterior, não por pirraça, mas quis reformular o que tinha sucesso, ou seja, é um disco mais contido e discreto. Mas tenho noção de que este ano talvez as pessoas não queiram ouvir um disco low profile.

Acha mesmo? Na volta podem querer música mais relaxada, contrária aos tempos que vivemos, em constante aceleração.
Espero que sim, gosto desse otimismo. Espero que vigore.

É uma incógnita. Em outubro não sabemos como é que o mundo vai estar.
É verdade.

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