Santana Lopes no Carpool do Observador. “As pessoas que estão no PSD que fiquem lá” /premium

10 Fevereiro 2019154

Para Santana Lopes, o PSD é passado. E quer um corte a sério. "As pessoas que estão no PSD que fiquem lá". No Carpool do Observador, olhou para o futuro e não evitou abordar (e sentir) os sobressaltos

Falou de Marcelo Rebelo de Sousa e do, para já, não apoiou. Evitou comparações com o PSD e assumiu o corte com o seu antigo partido em toda a linha. A caminho do primeiro congresso do Aliança, Santana Lopes confessou que o nervosismo por estes dias “é especial”. Preferiu salientar o seu novo momento político e não quis falar do que pensaria Sá Carneiro desta decisão. A entrevista completa com o líder do fundador do Aliança no Carpool do Observador.

[Veja aqui os melhores momentos do Carpool do Observador]:

Sempre foi tido como um homem que levantava congressos, com o dom da palavra. Isso aconteceu durante 40 anos no PSD. E agora, antes do primeiro congresso do Aliança, o congresso fundacional, há um nervoso miudinho diferente?
Há sempre. Lembro-me de uma vez, quando discursei na Assembleia-Geral da ONU, ter ido, antes de discursar, para trás do palco. Normalmente, quando os Presidentes e Primeiros-Ministros discursam vão para trás do palco com o embaixador do país. E o nosso embaixador na altura, o Gonçalo Santa Clara Gomes, perguntou-me se estava nervoso. E eu disse-lhe que sim, um bocadinho. Ele respondeu-me: “Já li vários livros, de todos os líderes mundiais, nacionais e europeus, todos ficam nervosos antes de começar. Uns tomam o comprimidinho, outros não. Mas não há quem não fique”. Depois até me contou que o presidente Kennedy, por exemplo, punha as mãos atrás das costas e agarrava as mãos com força.

E o Pedro Santana Lopes não tem nenhum desses tiques para controlar os nervos?
Não, não tenho nenhum. Tento descontrair por mim próprio. E quando começo a falar, passa-me.

O facto de ser o primeiro congresso do Aliança é especial?
É especial. Não quero pieguices, mas é uma emoção. Isto tem sido um trabalho enorme. Dos estatutos, aos regulamentos, programa…

Até o hino.
Hinos! Mas isso não sou eu que faço! Mas pronto, também tenho de ouvir todos esses assuntos. Conhecer pessoas de novo, mobilizar pessoas, a organização, definir as opões estratégicas… Tem sido muito trabalho. Meu, e de uma equipa que já é grande.

Tendo saído do PSD, não teme uma espécie de “efeito Manuel Monteiro”?
Não, não. Não me comparo com ninguém. Não saí para criar o meu próprio partido. Saí para criar um grande partido que defenda causas que são importantes para Portugal, nomeadamente na sua relação com a Europa. Veja o que se passa entre França e Itália agora. É gravíssimo. O brexit, além da incerteza na Alemanha… A Europa está numa situação muito complicada. E Portugal também porque está a ser ultrapassado por outros países. E esse é o grande desígnio nacional: melhorar as condições de vida dos portugueses, fazê-los ganhar relativamente a outros países europeus, não sendo apenas ultrapassado por eles.

E as europeias, são um teste importante para o Aliança? No sentido em que se não eleger um eurodeputado pode concluir-se que o Aliança não convenceu o suficiente.
Eu estou convencido de que vamos eleger. Se Deus quiser até mais do que um. Acho que temos um grande candidato. E um candidato novo. Não falo de idade, mas de alguém que nunca esteve na vida política. Isso é um elemento de renovação, que foi algo a que me comprometi. Ao contrário dos outros partidos, com exceção do PS, que apresentaram candidatos que já lá estão [no Parlamento Europeu] há muitos anos. Sendo que o PS vai apresentar um candidato que também já está na política há muito tempo. Eu sou a última pessoa a dizer que vejo mal em estar na vida política há muitos anos. Mas também quando fundámos o Aliança, um dos principais contributos que queríamos trazer era esse mesmo: renovar. E este congresso também vai mostrar isso. Aliás, vou empenhar-me em que o congresso faça prova desse novos valores que a Aliança vai trazer e que vão passar a ser conhecidos, alguns até já andam aí em outdoors.

Mas, a par disso, não conseguiu, como chegou a especular-se, arrastar consigo figuras do PSD.
Mas eu não quero fazer isso. Não aconteceu porque eu também não quis. Não falei com ninguém para vir.

Não tinha esse interesse?
Não. Eu quero fazer isto de novo. Não fecho a porta a ninguém que queira vir, seria uma má educação e uma coisa sem sentido. Mas as pessoas que estão no PSD, que fiquem lá. Isto é para fazer com gente nova e com os abstencionistas. Será um contributo enorme.

Mas quer roubar eleitorado à direita.

Espero bem que sim. Eu não tenho isso como intuito principal. É a dinâmica própria das coisas.

E querendo disputá-lo, não seria uma mais valia ter mais figuras que já fossem conhecidas desse eleitorado?

As pessoas querem caras novas. E aqui caras conhecidas do eleitorado seremos muito poucos. Haverá também caras novas na direção política que vou escolher. Ainda não convidei ninguém para nenhum órgão do Aliança, mas aí verão que essa renovação vai acontecer. Quero mesmo trazer valores novos. Não queira saber o orgulho que sinto por fazer agora com outros aquilo que fizeram comigo há uns anos.

Na sua moção, fala de Marcelo Rebelo de Sousa e diz que o Aliança irá decidir se apoia uma eventual recandidatura ou se apresenta candidato próprio. É uma mudança de opinião relativamente ao que defendeu há pouco mais de um ano, quando concorreu à presidência do PSD, em que o apoiava incondicionalmente. 

Não é bem uma incerteza. A questão da candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa é um não assunto neste congresso.

Colocou isso na sua moção.

Na moção dissemos o que queríamos para os três atos eleitorais deste ano. Para as presidenciais, veremos na altura própria.

Mas qual é o balanço que faz do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa?

O que o Aliança sente é que, desde o ano passado, houve uma série de situações complexas na sua atuação. Mas o Aliança não está contra o Presidente da República, nem é a sua oposição.

Também não o apoia. Pelo menos para já.

O Aliança espera estar lá e decidir sobre o apoio também se o Presidente da República decidir recandidatar-se. No outro dia vi um programa de televisão em que ele dizia que achava que os presidentes só deviam estar lá durante um mandato. Lá está, pode ter mudado. Todos mudamos de ideias. E, por isso, mais do que dizer se vamos apoiar ou não Marcelo Rebelo de Sousa, o Aliança vai dizer que vamos ser exigentes com o Presidente da República. Acho que o eleitorado a que mais nos dirigimos compreende isso.

Esta posição não pode ser também a preparação de terreno para poder vir a ser o próprio Santana Lopes o candidato a Belém?

Não, não, não, não. Não tem nada a ver com isso. No outro dia, o primeiro-ministro dizia que se Marcelo Rebelo de Sousa se candidatasse seria praticamente imbatível. Tenho outro caminho para trilhar. Devemos exigir a Marcelo Rebelo de Sousa que ele se empenhe nas grandes causas nacionais. Fez uma primeira parte de mandato de grande proximidade e fez muito bem à auto-estima dos portugueses. Agora, entendo que é seu dever, mais do que ser um presidente próximo, ser o Chefe de Estado e que lute pelas grandes causas nacionais.

Fernando Lima, ex-assessor de Cavaco Silva, veio ao congresso como convidado. Qual foi o critério para endereçar esse convite?

Não fui eu que convidei. Julgo que foi o diretor-executivo. Mas tenho muito gosto em que ele esteja cá. Discretamente, como é seu timbre, por vezes conversa comigo e eu prezo muito a sua capacidade de análise política do país e do mundo. Ele é amigo do embaixador Martins da Cruz e acho que vieram juntos ontem. Mas quero que fique claro o propósito do Aliança: o de construir uma alternativa democrática e patriótica à frente de esquerda com as outras forças políticas que o queiram fazer. Porque nunca se justificou tanto como agora que existe a frente de esquerda e portanto é de difícil compreensão que não estejam já criadas as condições para isso.

E quem é o principal responsável por essas condições não estarem criadas? É que tanto o CDS como o Aliança já se mostraram disponíveis para essa coligação alternativa à direita.

Não quero apontar culpados porque quero juntar e não queremos ostracizar ou diminuir. Até espero que o nome Aliança ajude a criar um espírito de convergência, espero bem.

Não teme que saia deste congresso a ideia de que se tratou de um congresso de um homem só?

Se trouxesse nomes sonantes diziam que era mais do mesmo, se trago caras novas dizem que faltam nomes sonantes. Apesar de tudo, prefiro a segunda.

Certo. Mas não teme que saia daqui a ideia de que este é o partido de um homem só?

Não. Porque não é. O decorrer do trabalho vai demonstrar isso mesmo. Farei tudo para que assim não seja. Quando um partido nasce é natural que quem lidera o processo de fundação tenha algum poder de decisão. E o primeiro exemplo que dei foi o de não ser candidato às eleições europeias. Muita gente disse que devia ter sido candidato mas não quis ser e trouxe Paulo Sande. Pelo menos, já somos dois homens. E mais homens e mulheres haverá para demonstrar que somos um partido de muita gente.

Entrou para o PSD pela mão de Sá Carneiro. Acha que ele o apoiaria nesta decisão?

Não faço ideia. Não quero dizer isso por respeito à sua memória. Não quero falar disso.

[Veja a versão integral do Carpool com Santana Lopes:]

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