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"Se hoje entro em acordo com a Rússia, amanhã ataco‑a outra vez". Como a autodestruição alimentou Hitler até ao fim /premium

"No Bunker de Hitler" é o livro de Joachim Fest que chega às livrarias no dia 2. O Observador faz a pré-publicação de um excerto que revela como a vontade do líder nazi o conduziu ao seu ato final.

Em No Bunker de Hitler, Joachim Fest procura recapitular os últimos dias de Adolf Hitler. O retrato é o de um homem que cedo percebeu a inevitabilidade da derrota alemã durante a II Guerra Mundial, mas que a entendia como parte essencial de um plano de autodestruição sem retorno.

Fest foi um jornalista alemão, autor de várias obras sobre o Terceiro Reich e a Segunda Guerra Mundial, focando sobretudo figuras importantes do regime como Adolf Hitler ou Albert Speer. Morreu em 2006 aos 79 anos. O Observador faz a pré-publicação de No Bunker de Hitler, revelando um dos capítulos do livro que chega às livrarias no dia 2.

“No Bunker de Hitler: os últimos dias do Terceiro Reich”, de Joachim Fest (Guerra e Paz)

Diz‑se que é no fim de uma vida ou de um fenómeno histórico que surgem à luz as verdadeiras forças motrizes que os determinaram. Entre as perguntas feitas acerca da morte de Hitler, está a questão se ele se considerava fracassado quando, na tarde de 30 de Abril de 1945, se matou com um tiro de pistola. A resposta não é tão evidente como pode parecer à primeira vista, e os observadores mais atentos duvidam.

Porque o que sucedeu, sobretudo nos meses anteriores a Maio de 1945, não foram somente os estragos inevitáveis de uma derrota total: cidades destruídas, milhões de pessoas refugiadas e o caos em todo o lado. Até aos últimos espasmos, o Reich, derrotado já há algum tempo, parecia estar sob a influência de uma energia condutora, cujo objectivo não era somente prolongar a guerra, mas também aniquilar literalmente o país.

Já no Outono de 1944, quando os inimigos se aproximavam da fronteira alemã, Hitler tinha dado uma série de ordens que valiam extensivamente também para o Reich e que seguiam o princípio da “terra queimada”, aplicado em diversas ocasiões no Leste e no Oeste, durante as operações de retirada de tropas. Todas as instalações que sirvam para manter a vida, ordenava Hitler com cada vez mais insistência, tinham de ser destruídas: fábricas e locais de aprovisionamento, sistemas de canalização, caminhos‑de‑ferro e linhas telefónicas: todas as pontes deviam ser explodidas, todas as quintas incendiadas, e nem sequer se deviam poupar obras de arte ou monumentos históricos. Alguns meses mais tarde, no dia 19 de Março de 1945, Hitler confirmava a sua intenção de criar um “deserto de civilização” com a chamada “Ordem de Nero” e com o significativo título “Medidas de destruição no território do Reich”: “Todas as instalações militares, de transportes, da indústria e de abastecimento, assim como objectos ou materiais que o inimigo possa utilizar, imediatamente ou em tempo previsível, para prosseguir a luta, devem ser destruídos.” Vários decretos de aplicação fixavam os pormenores.

Em muitos lugares, iniciou-se, sem perda de tempo, a destruição de fábricas, empresas de transporte ou armazéns de alimentos e a preparação de explosões em caminhos-de-ferro ou a inutilização da navegação, afundando barcos carregados de cimento. Ao mesmo tempo, intensificou-se o que já se tinha feito quando as unidades norte-americanas abriram brecha na frente ocidental: evacuar cidades e regiões completas, apesar de as massas perdidas de refugiados só aumentarem a confusão existente nas zonas da frente, impedindo assim todas as operações militares. Quando um dos generais tentou convencer Hitler a promulgar o chamado “decreto de evacuação”, acrescentando que não se podia mandar centenas de milhares de pessoas caminhar pelos campos fora, sem meios de transporte, nem alimentação, nem alojamento, nem nenhuma das coisas mais necessárias, Hitler deu meia-volta sem dizer uma palavra. Uma “ordem de bandeira” ordenava que, nas casas que tivessem uma bandeira branca, fossem fuzilados no momento todos os habitantes masculinos. O combate, dizia uma directiva de fim de Março, tinha de ser “activado com o máximo fanatismo. Neste momento, não se pode ter nenhuma consideração especial pela população”.

Frequentemente fica-se com a impressão de que o plano destruidor de Hitler, com o passar do tempo, ia alcançando proporções cada vez maiores. Em numerosos discursos e conversas, falou da alternativa "potência mundial ou queda". Na realidade, essa alternativa não existia. A sua intenção apontava somente diferentes formas de destruição.

Não se podem entender estas ordens como uma última medida desesperada de defesa, devido à superioridade do inimigo que se aproximava. Antes pelo contrário, essas ordens tinham sido sempre o primeiro e preferido método de Hitler; a intenção de destruir era simplesmente a expressão da sua voz mais autêntica, que agora voltava a ouvir-se. Já se tinha ouvido num hino de combate no começo do movimento, que prometia quebrar “tudo em pedaços”, mas depois, com a conquista do poder, tinha sido calado pelos lemas de honra nacional, por protestos pela paz e, mais tarde, durante os primeiros anos da guerra, pelo barulho das fanfarras que precediam as notícias extraordinárias. Nos anos 30, os inimigos exteriores ao regime, como que adivinhando o futuro, já tinham alterado o verso do refrão do hino: “Porque hoje destruímos a Alemanha e amanhã o mundo inteiro!” Com a ordem da “terra queimada”, aquela intenção ficava novamente clara.

Essa vontade de destruição, profundamente enraizada debaixo da capa da hipocrisia táctica e que continuava a exercer influência, especialmente durante os anos de paz, não se manifestava somente nas constantes repreensões que Hitler dirigia a si próprio, na época final, por ter sido tão condescendente, ou nos lamentos de Goebbels por não ter feito “em cacos” mais coisas. No decurso das reuniões de 27 de Abril, quando as conversas giraram à volta do que se podia melhorar depois da vitória final, Wilhem Mohnke, chefe das operações da “cidadela” e Gruppenführer das SS, pediu a palavra e fez uma observação que podia parecer cínica: “O que queríamos em 1933”, dirigindo-se a Hitler, “não conseguimos totalmente, mein Führer.” Mas Mohnke não era um cínico e a situação também não era a mais indicada para se fazerem comentários sarcásticos ou mesmo amargos. O que realmente tinha dito, na sua qualidade de pretoriano radical do regime, era que, atrás de todas as máximas sobre a “salvação do mundo”, nunca passava despercebido o seguinte: a vontade ilimitada de destruição que constituía a autêntica verdade sobre Hitler e o seu séquito de conjurados. Durante a época da sua ascensão e da sua dominação, tinham necessitado de inimigos, tinham tido consciência de si próprios a partir de inimizades, podendo mesmo afirmar-se que se definiram com base nelas e que, quando elas não existiam, faziam tudo para as inventar. Nestes casos, não fracassaram em nada.

Para Hitler, nem tudo era raiva e terror. Eram sentimentos de realização pessoal bem mais complicados que, especialmente nas catástrofes, vinham à superfície e o levavam a encenar a derrota iminente como espectáculo histórico de desmoronamento. Em Março, Goebbels já tinha declarado numa conferência de imprensa: “Se nós nos afundarmos, todo o povo alemão irá afundar-se connosco e será de tal maneira glorioso que, mesmo daqui a mil anos, a queda heróica dos Alemães na história universal se encontrará em primeiro lugar.”

Um militar americano inspeciona o bunker de Hitler em Berlim, em 1945

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A intenção de ficarem gravados, na consciência do mundo, na qualidade de mito, era outro dos motivos dominantes para Hitler e para os seus seguidores mais chegados. Nos ritos funerários que celebravam em honra de si mesmos, como chefes de tribos pré-históricas, sacrificaram inúmeras vidas humanas, contando uma média diária de várias dezenas de milhares, segundo a estatística das últimas semanas de guerra. Para dar um exemplo, o 9.º Exército, que foi cercado muito cedo e cujos comandantes foram proibidos por Hitler de sair do cerco, apesar de várias vezes solicitado, sucumbiu de forma absurda nos finais de Abril. Outro exemplo, incomparavelmente maior, foi a guerra contra o Leste, uma guerra elevada à categoria de “combate ideológico de aniquilação” cujo início, significativamente, foi o sinal de entrada em acção das megalómanas medidas de extermínio das chamadas raças inferiores, os eslavos e sobretudo os judeus.

O regime procedia com tanto mais radicalismo quanto mais desesperada era a situação. Tentou prolongar, inclusivamente, a sua vontade de destruição para além do fim. Mesmo o almirante Dönitz, que gostava de se considerar um comandante muito correcto, mas também muito severo, não vacilava ao elogiar os assassinos. Numa “ordem do dia” de 19 de Abril de 1945, Dönitz confirmou e assinalou como exemplo o seu “total agradecimento” a um sargento da Marinha que, num campo de prisioneiros australiano, deu ordens para matar, “com plano adequado”, como diz literalmente, “sem que os sentinelas notassem”, alguns companheiros de prisão que se tinham dado a conhecer como inimigos de Hitler. Não era um caso isolado. Frequentemente fica-se com a impressão de que o plano destruidor de Hitler, com o passar do tempo, ia alcançando proporções cada vez maiores. Em numerosos discursos e conversas, falou da alternativa “potência mundial ou queda”. Na realidade, essa alter‑ nativa não existia. A sua intenção apontava somente diferentes formas de destruição.

Os ataques de desespero das últimas semanas só enganavam um olhar superficial. Isto também se pode aplicar ao manejo enganador de exércitos-fantasma, aos falsos sinais de vitória ou à esperança, mencionada por muitos, de prolongar a própria vida pelo menos uns dias. Este tipo de coisas também entrava no jogo. Mas ainda mais fortes eram o ódio ao mundo e o impulso de destruição que claramente se manifestavam nas ordens de Hitler, principalmente desde o início da guerra, já libertado de qualquer tipo de cuidados. Segundo uma informação de Franz Halder, que, durante algum tempo, foi comandante-chefe, Hitler, no decurso da campanha contra a Polónia, insistiu que se bombardeasse Varsóvia, apesar de esta estar disposta a entregar-se, e, agarrado aos binóculos com um olhar de cobiça, deixava-se estimular por imagens de aniquilação, considerando mais tarde a possibilidade de destruir Paris, e também Moscovo e Leninegrado, e, com uma espécie de voluptuosidade, imaginava os efeitos devastadores que podia ter um ataque com bombas ou foguetes nos desfiladeiros das ruas de Manhattan.

No dia 27 de Novembro de 1941, quando, no começo do catastrófico Inverno às portas de Moscovo, se considerou pela primeira vez a possibilidade de fracasso, Hitler declarou a dois visitantes estrangeiros que o povo alemão devia "desaparecer e… ser exterminado" e se algum dia "já não tivesse força e vontade de sacrifício suficiente".

Muitas das suas vontades destruidoras ficaram sem efeito. Agora, finalmente, quando o Reich caía em pedaços, esse profundo desejo de Hitler estava a realizar-se, e podemos estar certos de que o desmoronamento das últimas semanas lhe oferecia ainda maior satisfação do que qualquer uma das efémeras vitórias de antigamente. Já tinha saudado as destruições causadas pelos bombardeamentos, comentando que as frotas aéreas dos Aliados não tinham respeitado os planos de remodelação para as cidades alemãs, mas que pelo menos o princípio estava feito; e, o que parecia aqui ser irónico, era perfeitamente sério.

Seria natural supor que Hitler tinha preferido organizar um acto final de uma maneira mais grandiosa, menos indecisa, talvez mais operática, mas também com mais grandiosidade patética, de horror e de salvas apocalípticas. Mesmo assim, foi um declínio final memorável. De qualquer maneira, a fama que procurou durante toda a vida nunca tinha sido somente a de estadista, de governante num estado autoritário de bem‑estar ou de um grande general. Para cada um destes papéis havia nele, juntamente com outras coisas, demasiado Wagner e demasiada vontade de sucumbir. Ainda adolescente, Hitler assistiu pela primeira vez, num lugar em pé na ópera de Linz, a uma representação de Rienzi, a história de um revolucionário e tribuno do fim da Idade Média que fracassa devido a uma trágica incompreensão do mundo e que no final escolhe a morte e a auto-destruição. “Nessa hora começou tudo”, confessou mais tarde, com grande felicidade. Agora, uns anos mais tarde, tudo terminava com sentimentos não menos sublimes.

Hitler não só aceitou a viragem contra o seu próprio povo como um mal inevitável, mas fê-la também sua, tornando-a cada vez mais radical. No dia 27 de Novembro de 1941, quando, no começo do catastrófico Inverno às portas de Moscovo, se considerou pela primeira vez a possibilidade de fracasso, Hitler declarou a dois visitantes estrangeiros que o povo alemão devia “desaparecer e… ser exterminado” e se algum dia “já não tivesse força e vontade de sacrifício suficiente” para dar o seu “sangue pela sua existência, não derramaria nem uma lágrima” por ele. Em 19 de Março de 1945, já tinha dito, “com frieza absoluta”, a Albert Speer: “Se perdermos a guerra, o povo também está perdido. Não há necessidade de nos preocuparmos com as bases que o povo alemão precisa para a sua mais primitiva subsistência. Pelo contrário, é melhor inclusivamente destruir essas coisas. Porque esse povo demonstrou ser o mais fraco e é ao povo mais forte do Leste que pertence exclusivamente o futuro. De qualquer modo, só os medíocres ficarão vivos depois desse combate, porque os bons cairão na luta.”

O então primeiro ministro britânico Winston Churchill sentado numa cadeira que pertenceu a Hitler, junto ao bunker do ditador (Foto: by Fred Ramage/Keyston)

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Depois de Estalinegrado e da alteração do rumo da guerra, todas as suas decisões eram marcadas por um ódio e desapontamento contra o povo alemão. Isso determinou toda a estratégia da última fase, começando pela constante e repetida negação de formar posições para interceptar os avanços previsíveis dos exércitos inimigos e terminando com a ofensiva das Ardenas em Dezembro de 1944, para a qual ele retirou grandes unidades da frente de Leste, com a finalidade de mobilizar, recorrendo à “ameaça russa”, a vontade de resistência da população, farta de guerra já há algum tempo. Dois anos antes, tinha declarado que, se fosse necessário, chamaria às armas os jovens de catorze anos, porque “sempre seria melhor que caíssem a combater contra o Leste do que, depois de perdida a guerra, vivessem maltratados a fazer trabalho de escravos”. No Ocidente, dizia indignado, as pessoas abriam as barreiras antitanques sem mais nem menos e, apesar de todas as ameaças de castigo, penduravam bandeiras brancas para fora das janelas e um corpo de soldados tinha desaparecido sem deixar rasto: “É vergonhoso!” O que ainda ficou de estratégia bélica foi-se transformando cada vez mais em operações de castigo contra o próprio povo. Este “devia desaparecer e ser exterminado”, como tinha afirmado quase quatro anos antes e, ele mesmo, obedecendo às “normas eternas” do combate pela sobrevivência, queria contribuir para isso com toda a sua força.

Pode pensar-se, com alguma razão, que foi essa vontade activa de sucumbir que levou Hitler a manter-se até ao final. Com efeito, a decrepitude física descrita pelas testemunhas – andava curvado, arrastava os pés e falava com a voz cada vez mais fatigada – contrasta de uma maneira que parece quase absurda com a energia de Hitler, confirmada pelos mesmos observadores, para impor a sua vontade: uma “ruína que devorava bolos”, como foi descrito por um dos moradores do bunker, mas com uma autoridade que ainda tinha grande poder de sugestão e de que ninguém duvidava. Em meados de Março, surgiu no bunker o Gauleiter de Danzig, Forster, relatando, em pânico e desespero na antessala, que os Russos se tinham apresentado à frente da cidade, declarada fortaleza, mas completamente incapaz de se defender, com um imponente exército e mil e cem carros de combate e que, na própria unidade, só havia quatro tanques Tiger, acrescentando que iria expor a situação desesperada a Hitler e o forçaria a tomar uma decisão. Pouco depois, Forster saiu “completamente transfigurado” do gabinete de Hitler, dizendo que o Führer iria salvar Danzig e que sobre isso “não havia a menor dúvida”. Também o general das SS, Karl Wolff, que tinha chegado no dia 18 de Abril com intenções parecidas, deixou de suplicar e de exortar, convencido pelos grandiosos planos para os próximos tempos que Hitler tinha desenvolvido.

A convicção de que um grande período de paz, como declarou aos seus generais em 1939, "não podia ter efeitos positivos", foi seguramente a causa da total abstinência política dos anos seguintes. Todos os conselhos que recebia à sua volta ou até de políticos estrangeiros como Mussolini, Horthy ou Laval, para examinar as possibilidades diplomáticas da situação bélica, foram inúteis.

Numa visão global e apesar da força de persuasão de Hitler, o seu imobilismo político é notório. A sua incapacidade de pensar para além dos imediatos objectivos militares destaca-se com extraordinária clareza. Com manobras de surpresa, de cada vez diferentes e, também, com uma mistura de ameaças e de juramentos de bom comportamento, Hitler tinha acumulado, durante os anos 30, um êxito atrás do outro, alcançando, num período de tempo incrivelmente curto, o objectivo da sua primeira etapa, que era a destruição do sistema de forças europeu. Mas a partir do finais de 1937, o seu comportamento dá a impressão de que está farto desses triunfos fáceis e de querer voltar finalmente ao “princípio” de bater, custe o que custar, um princípio ao qual foi fiel a vida inteira, como disse, vangloriando‑se, durante um discurso.

De qualquer maneira, a partir dessa altura e já antes de estalar a guerra, nunca mais expressou nenhuma iniciativa de carácter político. Em 1938 deixou passar, cheio de soberba, o gesto tão excepcional como cobarde das potências ocidentais, na conferência de Munique, mostrando-se unicamente irritado por lhe terem estragado a guerra, que nessa altura tanto desejava. Da mesma maneira, houve, pelo menos depois das vitórias sobre a Polónia e, um ano mais tarde, sobre a França, várias oportunidades de assegurar ao Reich uma espécie de hegemonia sobre a Europa. Mas Hitler não viu essa situação passar ao seu lado e nem tentou agarrá-la. Quase parecia que os êxitos militares o desconcertavam, porque não conseguia tirar proveito de uma situação sem guerra.

A convicção de que um grande período de paz, como declarou aos seus generais em 1939, “não podia ter efeitos positivos”, foi seguramente a causa da total abstinência política dos anos seguintes. Todos os conselhos que recebia à sua volta ou até de políticos estrangeiros como Mussolini, Horthy ou Laval, para examinar as possibilidades diplomáticas da situação bélica, foram inúteis. Sobretudo desde que a guerra mudou de rumo no Inverno de 1942‑1943, Hitler explicava sempre o prolongamento da luta com o argumento de que a ruptura da “absurda coligação entre o bolchevismo e o capitalismo” estava iminente e que só depois disso chegaria o momento de entrar em negociações com êxito. Mas sempre que se apresentava uma oportunidade para fomentar a divisão entre as potências inimigas, Hitler deixava-a passar sem a aproveitar, e Goebbels escrevia, mal-humorado, no seu diário, que insistia e insistia, mas que “às vezes tem-se a impressão de que ele vive nas nuvens”. Sebastian Haffner fez a observação que faltava a Hitler a imaginação construtiva de um estadista e que, pelo menos a partir do fim da década de 30, também tinha perdido a agilidade táctica. Essa “falta de talentos básicos” acabou por ser a principal causa do fracasso.

O autor e jornalista Joachim Fest (1926 – 2006) (Foto: Ralph Orlowski/Getty Images)

Pode ainda ir-se mais longe e chegar à conclusão de que Hitler, em toda a sua vida, não foi mais do que o ambicioso cabecilha de um bando de rua, inspirado em maquiavelismos atrevidos, com quem nenhum dos políticos complicados e circunspectos do cenário europeu podia competir. Foi exactamente esta completa falta de escrúpulos nos meios e nos fins que o ajudou durante algum tempo a conseguir os seus sensacionais êxitos. Como o chefe de uma quadrilha de bandidos, não tinha mais intenções senão aquelas de matar e roubar. De qualquer modo, o crescente conflito maldoso que iniciou contra quase todo o mundo não tinha, como constataram com assombro os seus generais e mais tarde todos os seus observadores, nenhum objectivo razoavelmente definido. Em Fevereiro de 1941, ainda imaginando o final da campanha contra a União Soviética no Outono seguinte e preocupado com o iminente período de paz, pediu a Jodl para “elaborar um estudo” sobre a invasão do Afeganistão e da Índia.

Assim, qualquer um que questionasse Hitler sobre quais os objectivos que perseguia com aquela guerra só recebia como resposta as exaltadas visões de “espaços infinitos”, grandes discursos sobre imensas reservas de matérias-primas, sobre povos auxiliares e “fronteiras a sangrar eternamente”. Nem sequer os apontamentos de Fevereiro e Abril de 1945, uma espécie de post-scriptum das suas visões de poder, contêm a menor alusão a que os territórios ocupados tivessem sido outra coisa para além de locais de passagem militar para outras conquistas: tenaz, insaciável e sem perspectiva, somente submetido à “lei primitiva” do direito do mais forte, uma lei de vida desaparecida, mas que, em sua opinião, ele próprio tinha restabelecido. No Outono de 1943, quando o ministro dos Negócios Estrangeiros quis convencê-lo a aceitar uma iniciativa de paz proveniente de Moscovo, encolheu os ombros e respondeu: “Sabe, Ribbentrop, se hoje entro em acordo com a Rússia, amanhã ataco‑a outra vez: eu sou assim.”

Numa outra situação, Hitler comentou que queria entrar na história como um homem “como nunca houve um igual”. As circunstâncias do seu fim naquela “abóbada de morte”, da qual tinha falado um habitante do bunker, as ordens sem sentido e os ataques de fúria com que se opunha à iminente derrota causam a impressão de que ele vislumbrava o seu irremediável fracasso. Mas, em sua opinião, uma grande queda compensava muitas coisas e era também uma satisfação. É sintomático que a última vontade de Hitler, que, como um símbolo, põe a descoberto o impulso dominante da sua vida, tenha sido uma ordem destrutiva: a ordem dada a 30 de Abril para queimar o seu cadáver.

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