“Se me querem conhecer, olhem para o meu trabalho”. Alexander McQueen, o génio através da obra /premium

06 Outubro 2018

Durante 18 anos, Alexander McQueen abalou os fundamentos da moda, aproximando-a da arte e das emoções. Nove anos depois do último desfile, recordamos a vida do génio através da sua obra.

Há precisamente nove anos, no dia 6 de outubro de 2009, Lee Alexander McQueen apresentou a sua última coleção, na Semana da Moda de Paris. Quatro meses e cinco dias depois, o designer de moda britânico suicidou-se. Mas o nome McQueen imortalizou-se ainda em vida. Se, por um lado, a humildade do rapaz que cresceu nos arredores de Londres o aproximou dos comuns mortais, por outro, a complexidade do seu génio criativo acabou por isolá-lo num pedestal da moda. Para ele, a perfeição das formas e a construção da silhueta feminina foram um dado adquirido desde cedo. McQueen foi mais longe, fez da moda arte, levando-a muito além do verbo vestir.

Cada desfile era um momento impactante, encenado, coreografado ao detalhe e de tirar o fôlego. É por isso que, hoje, fazer uma retrospetiva dos momentos mais marcantes de McQueen na passerelle é contar a sua própria história. Tudo foi autobiográfico, tudo, de uma maneira mais ou menos imediata, começou à flor da sua própria pele — a violência, o medo, as memórias felizes, a loucura e a perda. Chamar-lhe génio é justo e legítimo, não por ter morrido precocemente, às mãos da sua própria inquietude, mas porque, em vida, o seu nome aproximou-se da curta lista de revolucionários da moda do século XX.

Lee, como era tratado pela família e pelos amigos mais chegados, era o mais novo dos seis filhos de um taxista e de uma professora de ciências sociais. Enquanto aluno, deu os primeiros no universo da alfaiataria, altura em que deixou a escola, com 16 anos, em parte, encorajado pela mãe a apostar numa carreira como designer de moda. Até então, foi o próprio a admitir que não era bom aluno e que passava as aulas, independentemente da disciplina, a desenhar roupa. A partir daí, aprendeu com os melhores, nas salas de corte de Savile Row. Quatro anos depois, foi contratado pelo designer japonês Koji Tatsuno. A experiência durou um ano, até o jovem McQueen se ter mudado para Itália, onde entrou de rompante no atelier do designer Romeo Gigli, valendo-se do seu perfecionismo e destreza como alfaiate.

Alexander McQueen e Naomi Campbell, no final do desfile da coleção "VOSS" © NICOLAS ASFOURI/AFP/Getty Images

No documentário McQueen, que chegou às salas de cinema na passada quinta-feira, os realizadores Ian Bonhôte e Peter Ettedgui vão a fundo naquela que foi a história do criador antes do estrelato. Andrew Groves, namorado da altura e, mais tarde, assistente, refere que, quando chegou a Itália, Lee era capaz de desenhar um casaco a olho, sem recorrer a moldes. Em Milão, no atelier de Gigli, a passagem do jovem designer foi tempestuosa. Chegou ao fim quando, depois de pedir a McQueen que refizesse o mesmo casaco três vezes (ao que aprece, fazia de propósito para irritar o patrão), o designer italiano encontrou uma mensagem escondida na bainha: “Fuck you, Romeo”. Nada garante que tenha sido um ato isolado, sobretudo quando em Londres Lee produziu algumas peças para o Príncipe Carlos. No ano passado, as mensagens escondidas na roupa chegaram ao cinema. Reynolds Woodcock, personagem de Daniel Day-Lewis no filme Linha Fantasma, mostrou como se faz.

O nome Alexander McQueen, sem o Lee por uma questão de marketing, estava prestes a difundir-se pelo mundo. Itália ficou para trás e o criador regressou a Londres. Mais do que se tornar num nome sonante da moda, queria trabalhar e ter o seu próprio sustento.

Jack the Ripper Stalks His Victims, 1992

Ao mesmo tempo que a sensibilidade para as artes e para os livros era uma fonte de alimentação para a sua criatividade, McQueen tinha um lado sombrio, um fascínio por figuras macabras e histórias de terror. De regresso a Londres, bateu à porta do gabinete de Bobby Hillson, diretora de mestrado da Central St Martins College of Art and Design. McQueen, de portefólio debaixo do braço, não queria estudar, queria um emprego. Segundo relembra no documentário, Hillson percebeu rapidamente o potencial de quem se sentava à sua frente. McQueen podia querer ganhar dinheiro, mas a professora tentou convencê-lo a matricular-se na escola de onde saíam os mais proeminentes designers de moda britânicos.

Sem meios para pagar as propinas, a solução veio através da família. Uma tia terá emprestado o dinheiro para que Lee ingressasse na Central St Martens. Em 1992, concluiu o curso e, em março desse ano, teve o seu primeiro desfile, enquanto finalista da universidade. “Jack the Ripper Stalks His Victims” partiu de uma narrativa aterrorizante, especialmente familiar para os londrinos, e marcou a estreia de McQueen numa passerelle.

“Encontro beleza no grotesco, como a maioria dos artistas. Tenho de forçar as pessoas a olhar para as coisas”, afirmou o designer a certo momento da sua carreira. Um atestado de identidade que se tornou evidente logo no primeiro desfile. Além do episódio do assassino de prostitutas (uma delas terá, alegadamente, sido inquilina de um familiar de McQueen), do final do século XIX, cujos crimes, curiosamente, ocorreram na zona de East End, onde Lee cresceu, o designer terá sofrido influências de Perfume: A História de um Assassino, o romance de Patrick Süskind.

Desfile da coleção "The Horn of Plenty", a penúltima de Alexander McQueen © Pascal Le Segretain/Getty Images

Numa das peças da coleção, o criador de 23 anos usou cabelo humano para os pespontos. O casaco veio mais tarde a assumir destaque na exposição “Alexander McQueen: Savage Beauty”, primeiro no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, e, quatro anos depois, no Victoria & Albert Museum, em Londres, onde acabou por ser a exposição mais visitada da história do museu. Mas as entrelinhas da primeira coleção de McQueen não ficaram por ali. Além da tonalidade rosa predominante, forma e aludir ao sangue sobre roupas brancas, usou mechas do seu próprio cabelo como que embaladas em acrílico em casa uma das peças. A opção foi mais uma homenagem à troca de fios de cabelo entre namorados e amantes, muito em voga na era vitoriana. Em vez de cortarem o seu próprio cabelo para oferecer à cara metade, muitos compravam cabelo a prostitutas para manter o romantismo aceso.

À escala de um desfile de finalistas, Lee deixou a sua primeira marca, sobretudo para Isabella Blow, stylist, editora de moda e personalidade carismática do mundo da moda. Após a apresentação, Blow comprou toda a coleção por 5.000 libras, valor que foi pago em prestações semanais de 100 libras. A amizade entre os dois tinha apenas começado. Isabella ficou para sempre conhecida como a mulher que descobriu Alexander McQueen.

Highland Rape, outono-inverno 1995

No início da carreira, McQueen esteve longe de ser o típico designer de moda afortunado, no comando de uma casa luxuosa e cheia de recursos à disposição. Em vez disso, as suas primeiras coleções foram feitas com o dinheiro do subsídio de desemprego. Com película aderente de cozinha fazia um vestido, com uma única peça de tecido e um fecho construía uma silhueta disruptiva. Segundo a aderecista Mira Chai Hyde, uma das vozes do documentário, a produção de cada uma destas peças rondava as 10 libras. O orçamento quase inexistente nunca comprometeu a criatividade, nem a visão do que a moda e um desfile deviam ser. “Voltava a casa dos meus pais para ir buscar feijão guisado e lapas de sopa”, contou numa entrevista, agora recuperada pelo documentário.

Foi precisamente em East End que instalou a própria marca. De lá, saíram as suas primeiras peças icónicas, as calças de cintura descaída conhecidas como bumster trousers. Escandalosas? Sim, a partir do momento viram a luz do dia no desfile da coleção “Taxi Driver”, em 1993. O corte exageradamente descaído revelava o fundo das costas e o início do rabo. O mesmo criador acabou por desenhar modelos mais comedidos, alavancando a tendência das cinturas descidas que perdurou (sobretudo nas calças de ganga) até aos primeiros anos do século XXI. “Aquela parte do corpo — não tanto as nádegas, mas o o fundo da coluna dorsal — é a mais erótica do corpo de qualquer pessoa, homem ou mulher”, afirmou numa entrevista.

Em 1995, a coleção “Highland Rape” atirou-o para um turbilhão mediático. As condições continuavam precárias. Nos bastidores do desfile, o catering foi providenciado pela mãe do designer, Joyce McQueen, que levou rolos de salsicha para toda a equipa. Do lado de fora, os coordenados, que Andrew Groves hoje classifica como auto confessionais, valeram a McQueen títulos como “misógino” e até “hooligan da moda britânica”. No desfile, as manequins surgiram propositadamente descompostas, muitas com os seios descobertos, numa passerelle repleta de flores mortas, ao som do vento e de sinos de igreja. “Ele é um alfaiate talentoso e um grande homem do espetáculo, mas porquê pôr mulheres a representar vítimas de abuso? O desfile foi um insulto às mulheres e ao seu talento”, escreveu o The Independent à data.

Exposição "Alexander McQueen: Savage Beauty", no Victoria & Albert Museum © Anthony Harvey/Getty Images

Nada nesta atmosfera agressiva e perturbadora foi por acaso, a coleção falava de um momento negro da história que o designer aprofundou, depois de ter começado a explorar as suas raízes escocesas. “Quis mostrar que a guerra entre escoceses e ingleses foi, basicamente, um genocídio”, afirmou na altura ao The Times. O simbolismo ia muito além do xadrez escocês. As manequins estavam perturbadas, os acabamentos das peças insinuavam degradação e McQueen revelava-se, mais uma vez, um criador inquietante. “Não se avança se se jogar pelo seguro. Quero que se sintam repugnados ou alegres, desde que sintam alguma emoção”, afirmou noutra entrevista.

“Sinceramente, achei que ele não gostava das mulheres, que não gostava das modelos, que não gostava de nada”, conta a modelo Jodie Kidd para a câmara dos realizadores Ian Bonhôte e Peter Ettedgui, que tinha 15 anos quando o desfile aconteceu. Decididamente, havia ódio contido nas criações de McQueen, mas não às mulheres. Numa outra camada, a mesma coleção trazia implícitos os abusos sexuais de que o criador havia sido vítima, ainda em criança. Terence Hulyer era marido de Janet McQueen, irmã (15 anos) mais velha do designer, e terá iniciado os maus tratos ao jovem cunhado quando este tinha apenas nove anos. Apesar da personalidade violenta e de ter sofrido os mesmos abusos às mãos do marido, Janet só soube do caso em 2006, quatro anos antes da morte do irmão. Foi o próprio Lee a contar à família.

“Como é que deixei escapar uma coisa destas? No dia em que soube, fiquei em choque. Consegue imaginar o que é levar uma vida durante tantos anos e depois descobrir uma coisa horrível como esta? No início, não é possível compreender. Claro que me sinto culpada. Quem não sentiria?”, afirmou Janet, na primeira entrevista sobre o tema, em 2015, ao The Times 2. A violência acabou por marcar a carreira de McQueen, ela está na base da mulher que idealizou do princípio ao fim. Na roupa que fez, o designer viu sempre uma espécie de armadura. “Quando tens oito anos… e vês a tua irmã ser estrangulada pelo marido, que agora está morto, graças a Deus, tudo o que tu queres é fazer com que as mulheres pareçam mais fortes”, afirmou mais tarde, enquanto falava das suas criações.

Search for the Golden Fleece, primavera-verão 1997

Em “Dante”, coleção outono-inverno de 1996, McQueen justapôs os conceitos de guerra e paz. Dois anos depois, “Joan” recuperou a história de Joana d’Arc, com uma forte mensagem política. Mas foi entre ambas, em outubro de 1996, que a carreira do criador sofreu a maior reviravolta: o convite para ser o diretor criativo da Givenchy. O “hooligan” foi convidado por Bernard Arnault, fundador do grupo LVMH, para dirigir uma das casas mais luxuosas de Paris e uma das perpetuadoras da tradição da alta-costura. A jogada envolvia John Galliano, que assumiria a mesma função na Christian Dior, deixando um lugar vago. McQueen disse sim, mesmo quando no passado já tinha tecido comentários menos simpáticos ao estilo da maison — entre amigos, usou a expressão “monte de lixo”.

E, como era de esperar, a chegada de Alexander e da sua equipa a Paris foi qualquer coisa de alucinante. Afinal, eram um bando de miúdos londrinos nada habituados aos preceitos e hierarquias de uma marca parisiense com quase 50 anos de história. McQueen não falava francês e quem trabalhava nos ateliers da Givenchy não falava inglês. Como se a tarefa já não estivesse dificultada o suficiente, a primeira coleção, de alta-costura para começar em grande, foi pensada em 25 dias. “Não tivemos nenhuma ideia até ao momento final”, admitiu o designer na altura.

Dentro do atelier, a chegada do designer britânico de 27 anos foi revolucionário e o documentário agora nos cinemas mostra bem essa transformação. Alexander começou por esbater as fronteiras entre os funcionários do atelier e o diretor criativo. Como? Almoçando no refeitório comum, situação impensável até então. “O Lee não queria comportar-se como um rei”, afirma o seu assistente na altura, Sebastian Pons, em frente à câmara. O passo seguinte foi chamar Catherine de Londres, chefe da equipa de alfaiataria, quebrando uma tradição de décadas, durante as quais os alfaiates não estavam autorizados a entrar no atelier de design.

Depois de redefinir as relações laborais dentro da Givenchy, chegou o dia do grande desfile. Era o mais aguardado da estação, juntamente com a Estreia de Galliano da Dior. Além de uma sala cheia e de um ambiente que evocava a Grécia Antiga, McQueen preparava-se para elevar o nível de storytelling na marca fundada por Hubert de Givenchy. Nunca a maison tinha experienciado uma encenação assim — colunas gregas, adereços colossais e uma paleta à base de branco e dourado. Os drapeados remetiam para o Olimpo, mas as asas, coroas, flores e chifres que adornavam os manequins não caíram nas boas graças da imprensa francesa. Enquanto o seu antecessor era aplaudido mesmo ao lado, McQueen, apesar do esforço em adpatar-se ao universo da alta-costura francesa (ainda que com laivos do seu estilo original), continuava a soar demasiado à frente para os críticos. Meses depois, numa entrevista à Vogue, o próprio classificou a coleção como “lixo”.

McQueen pode ter moderado o tom transgressor das suas coleções para a Givenchy, mas continuou a explorá-lo em nome próprio. Permaneceu como diretor criativo da marca até 2001, mas as relações com a LVMH degradaram-se no último ano, depois do Gucci Group NV ter comprado 50% da marca Alexander McQueen em 2000. A situação foi, no mínimo, delicada — durante um ano, Alexander trabalhou para os dois grandes grupos da moda luxo, naturalmente rivais, em simultâneo.

It’s a Jungle Out There, outono-inverno 1997

Ainda na ressaca das críticas negativas à sua estreia na Givenchy, McQueen regressou a Londres para recarregar baterias e o que se seguiu foi a sagração do seu nome como o enfant terrible do mundo da moda. Para apresentar a coleção “It’s a Jungle Out There”, Alexander voltou às origens, a um armazém, que funcionava como mercado de frutas e vegetais sob a linha de comboio e que representava na perfeição a cena underground londrina. Na passerelle, as mulheres foram animais selvagens, não apenas pelos estampados que vestiram, mas pelo trabalho feito na maquilhagem e cabelos. A ideia veio dos documentários de vida selvagem e da experiência recente do designer com as feras de uma savana chamada Paris. “Olhei para aquelas gazelas a serem devoradas por leões e hienas e disse: ‘Sou eu!’. Há sempre alguém a perseguir-me e, se sou apanhado, derrotam-me. A moda é uma selva cheia hienas nojentas e más”, afirmou na altura.

O momento de desfile foi tudo menos calmo. Naomi Campbell ligou insistentemente para dizer que estava a caminho. A poucos minutos do desfile começar, ainda não tinha aparecido, e Alexander cancelou a participação da supermodelo no desfile, dando as peças a outra modelo. Quando o desfile se preparava para arrancar, cerca de 100 pessoas, maioritariamente estudantes de moda que não tinham arranjado forma de entrar, forçaram a barreira de segurança e invadiram o armazém, tudo para poder assistir ao desfile. No meio do alvoroço, alguém derrubou uma lata em chamas que fazia parte do cenário. O fogo alastrou a um outro elemento cenográfico, um carro de ar decadente. Os minutos seguintes, até ao fim do espetáculo, foram de pânico — tal como é relatado no documentário, ninguém na equipa de produção sabia ao certo que o automóvel tinha ou não gasolina no depósito.

Ninguém saiu, as manequins mantiveram a garra e o desfile foi até ao fim. McQueen voltou a sentir o sabor do risco e do desconforto. “[McQueen] é o que a moda tem de mais parecido com uma estrela rock. Ele não faz só parte da cena londrina, ele é a cena”, escreveu na altura o The New York Times. Dentro e fora da sala de desfiles, McQueen fazia-se notar. Pela irreverência das suas cirações e encenações, porque, apesar dos sinais de reporvação, era diretor criativo da Givenchy e porque começa a estabelecer pontes entre o seu trabalho e outras áreas artísticas. Entre 1996 e 1997, desenhou os figurinos das digressões de David Bowie e ainda o casaco com a bandeira britânica, eternizado na capa do álbum “Earthling”. “Homogenic”, de Björk, é outro álbum com a assinatura de McQueen na capa.

No. 13, primavera-verão 1999

É impossível recuperar os desfiles mais marcantes de Alexander McQueen sem passar por “No. 13”, da mesma forma que a história da moda nunca mais foi a mesma depois de a modelo Shalom Harlow ter encerrado a apresentação com uma performance memorável. Comecemos precisamente por aí, pelo final do desfile, apoteótico e arrepiante. Com um vestido branco, rodado e sem alças, a modelo pisou o centro da passerelle retangular sob uma plataforma móvel. Enquanto girava, dois robôs pintaram o vestido (e salpicaram a modelo) a preto e amarelo. A peça, tela em branco, foi finalizada diante de todos, no próprio desfile. Nas palavras de Suzy Menkes, na altura editora de moda do The International Herald Tribune, num único ato, McQueen “capturou a agressividade bruta do britpop e a solenidade presunçosa da cena artística”.

Ao assistir ao momento, a partir dos bastidores, Alexander confessou ter-se emocionado pela primeira vez no próprio desfile. Houve lágrimas, embora o final tenha sido a cereja no topo de um momento, num todo, celebrável. A atleta paralímpica Aimee Mullins desfilou. Com as duas pernas amputadas, usou duas próteses em madeira trabalhada que muitos na assistência confundiram com botas de cano alto. As imagens correram mundo e foram atraindo as atenções para a figura do designer britânico. Não demoraria muito até Tom Ford, quem em 1999 desenhava as coleções da Gucci e acumulava a direção criativa da Yves Saint Laurent, começar a rondar McQueen.

Depois de agradecer à sala na companhia dos dois cães, Alexander acabou por dedicar o desfile a um deles, Minter. Quando morreu, o criador tinha três cães, reservando 80.000 dólares, em testamento, só para os seus cuidados.

VOSS, primavera-verão 2001

Com a viragem do século, o ritmo de trabalho de McQueen aproximava-o do ponto de rutura e quem trabalhava de perto com ele começou a sofrer as consequências do stress e da pressão a que estava submetido. As oscilações de humor tornavam-se cada vez mais frequentes e repentinas, ao mesmo tempo que, no seu estilo de vida fora do ambiente de trabalho, se tornava dependente de todo o tipo de excessos. “Na Givenchy, o Lee começou a mudar, a vários níveis. O stress de produzir pronto-a-vestir, alta-costura e ainda a sua própria era bastante assustador”, afirmou Simon Costin, antigo colaborador de McQueen, ao Fashion Industry Broadcast, em 2015. As primeiras suspeitas quanto à bipolaridade do designer começaram a circular. “Ele andava com muitos mais altos e baixos, era mais difícil trabalhar com ele. Eventualmente, quem lhe respondesse… acabaria por desaparecer”, continua Costin.

Desfile da coleção "VOSS" © HUGO PHILPOTT/AFP/Getty Images

A Detmar Blow, marido de Isabella Blow e também amigo próximo do designer, terá confessado a sua preferência por práticas sexuais degradantes, em parte, assentes em momentos de humilhação e abuso. “Ele era muito atraído peça ideia de ser abusado”, assinalou Blow, no mesmo artigo de 2015. No verão de 2000, casou com George Forsyth, mais novo e um ilustre desconhecido no mundo da moda. Depois de se conhecerem, foi uma questão de meses até darem o nó, mas foram meses intensos. Numa única noite, o casal terá bebido um copo em Paris, jantado em Espanha e saído para dançar em Amesterdão.

Um estilo de vida que custava centenas de milhares e que, entre viagens, festas, álcool e drogas, impedia Alexander de voltar à realidade. A montanha-russa culminou com o casamento. O cenário escolhido foi Ibiza, mais precisamente o iate do príncipe da Gâmbia, amigo de Kate Moss. À manequim e à socialite Annabelle Rothschild coube a tarefa de planear a festa, bem como o papel de damas de honor. Além do seu círculo mais boémio, nenhum amigo próximo ou familiar esteve na cerimónia. McQueen e Forsyth separaram-se menos de um ano depois.

Enquanto isso, o Gucci Group NV preparava-se para fazer a grande proposta. Isabella Blow fez parte do processo, ela que tinha comprado a primeira coleção do criador por inteiro e ainda decidido que o primeiro nome — Lee — não constaria nas etiquetas. Chegou mesmo a ser vista com Tom Ford, possivelmente enquanto definiam aquela que seria a estratégia do grupo para a marca britânica. Em dezembro de 2000, a Gucci comprou 51% da casa McQueen, com a garantia de que Alexander continuaria na direção criativa.

Na estação em que se despediu da Givenchy, por sinal com um desfile reservado a buyers e bem mais recatado do que o habitual, em nome próprio, voltou a relembrar a razão pela qual era conhecido como o mais talentoso criador da sua geração. “VOSS”, a coleção primavera-verão 2001 foi, mais uma vez, um grito de Lee Alexander McQueen, mas também um ensaio sobre a beleza.

Primavera-verão 2007 num desfile com orquestra ao vivo © PIERRE VERDY/AFP/Getty Images

Desta vez, o designer quis semear o desconforto na audiência, logo desde o primeiro minuto. No centro da sala, montou uma caixa espelhada que refletia os rostos de quem se sentara à espera do início do desfile. “Estava a olhar para o ecrã, a ver toda a gente a tentar não olhar para si própria”, comentou McQueen após o desfile. O desfile começou com uma hora de atraso, só para desespero de quem aguardava do lado de fora da caixa. As luzes acenderam-se e a lógica inverteu-se. O público passou a ver o interior da estrutura, enquanto as modelos, lá dentro, não viam mais do que o seu próprio reflexo nas paredes. Além dos vidros, havia paredes almofadadas. Cada manequim que pisava a passerelle vinha mais e mais transtornada, como se estivesse a ouvir vozes, a fugir delas e, por isso, a chocar contra as paredes. O cenário era, na realidade, uma reinterpretação de um hospício vitoriano e as modelos doentes mentais, atormentadas pela própria loucura. Kate Moss e Erin O’Connor, entre muitas outras, desfilaram e representaram. Quanto à coleção, um crescendo de exuberância que começou com ligaduras à volta da cabeça e casacos inspirados em coletes-de-forças e culminou com pesados vestidos de plumas de avestruz e com aves embalsamadas.

No final, as paredes de uma caixa até então fechada, no centro da passerelle, caíram. Do seu interior voaram dezenas de traças, enquanto outras permaneceram pousadas no corpo nu de uma mulher. De máscara cinzenta e com um tubo para respirar, a figura não estava ali por acaso. “Foi uma tentativa de simular algo que não era convencionalmente bonito para mostrar que a beleza vem de dentro”, explicou McQueen no fim do desfile. O público desfez-se em aplausos e as críticas elevaram (ainda mais) o pedestal em que Alexander já estava posicionado. O The New York Times descreveu-o como “um grande designer que não faz apenas roupa, mas que também responde, como um artista, ao horror e à loucura da cultura contemporânea”.

“VOSS” foi a penúltima coleção apresentada por Alexander McQueen na Semana da Moda de Londres. Um ano depois, com a primavera-verão de 2002, a casa estrou-se no calendário de Paris, onde continua até hoje.

Deliverance, primavera-verão 2004

Para a casa McQueen, a velocidade era de cruzeiro. Um perfume em 2003, a linha masculina em 2004 e uma secessão de desfiles impactantes que custavam, em média, 250.000 dólares. Para o próprio designer, o ritmo continuava irremediavelmente acelerado. O consumo diário de cocaína rondaria as 600 libras, mas Alexander soube compensar essa decadência física com uma alteração profunda do seu aspeto. Perdeu peso, em parte com a ajuda de uma lipoaspiração, corrigiu o desalinhamento dos dentes e ficou com o cabelo mais loiro. Assumiu uma figura esguia e trocou os visuais despreocupados por fatos de corte sofisticado.

Desfile da coleção "Deliverance" © PIERRE VERDY/AFP/Getty Images

Mas a criatividade de McQueen manteve-se intacta. Quando apresentou “Deliverance”, não quis que nenhuma modelo desfilasse. Preferiu que Lily Cole, Karen Elson e todas as outras tivessem aulas de dança com o coreógrafo Michael Clark, do tango à valsa. Em vez de uma passarelle, o verão de 2004 foi antecipado numa pista de dança, com um número de quase 20 minutos (sem interrupções), inspirado no filme They Shoot Horses, Don’t They?, de 1969. Depois dele, muitos outros designers incorporaram dança nos seus desfiles.

McQueen conquistou três vezes o British Designer of the Year Award — em 1996, em 2001 e em 2003 –, quatro se contarmos o ano (1997) em que repartiu o prémio com John Galliano. Em junho de 2003, vestiu um um kilt para ser condecorado pela Rainha com a Ordem do Império Britânico. Levou a mãe à cerimónia, prova de que Joyce McQueen foi sempre o membro da família com quem teve mais afinidade. Em 2004, numa conversa informal entre os dois para o The Guardian, a mãe perguntou-lhe: “Qual é o teu medo mais aterrador?”. “Morrer antes de ti”, respondeu-lhe.

Widows of Culloden, outono-inverno 2006

Depois dos robôs pintores, em 2000, McQueen continuou a pôr a tecnologia ao serviço da moda. Em 2006, foi a vez de Kate Moss flutuar sobre o público na forma de um holograma. Com um vestido floral, cheio de movimento, a supermodelo e amiga do criador, encerrou o desfile na Semana da Moda de Paris. O momento juntou-se ao álbum de desfiles gloriosos arquitetados por Alexander.

Enquanto isso, a ansiedade, a depressão, a melancolia e a exaustão dominavam o dia-a-dia do designer. Lee terá sofrido com medo da morte após descobrir que estava infetado com o vírus da SIDA. Segundo a biografia Alexander McQueen: Blood Beneath The Skin, escrita por Andrew Wilson e editada em 2015, o vírus terá sido transmitido por George Forsyth, companheiro do designer britânico entre 2000 e 2001. Forsyth morreu aos 34 anos, meses depois do suicídio de McQueen. Após a publicação do livro, os pais de George deram a informação como falsa, exigindo à editora Simon & Schuster que a retirasse da biografia. Esta cita uma conversa que Alexander terá tido com um amigo.

La Dame Bleue, primavera-verão 2008

Com a chegada do estrelato, a relação de cumplicidade entre McQueen e Isabella Blow começou a esfriar. Blow, stylist e editora de moda, terá ficado sentida quando o criador optou por não a integrar na sua equipa da Givenchy. À medida que ascendeu como a maior promessa do mundo da moda, Alexander começou a rejeitar a ideia de que Isabella era a sua mentora e de que tinha sido ela a descobri-lo quando ainda não passava de um finalista da St Martens.

Afastados, McQueen deixara de acompanhar a evolução galopante dos problemas de saúde da amiga. Em 2003, entrou para uma clínica de cuidados mentais. Um ano depois, separou-se de Detmar, embora este se tenha mantido por perto durante os anos que se seguiram. Mais tarde, acabaram por diagnosticar-lhe um distúrbio bipolar, pouco tempo antes de um último e derradeiro relatório médico: cancro nos ovários. Em três meses, Isabella terá tentado suicidar-se três vezes — com comprimidos, batendo com o carro e atirando-se de um viaduto, incidente que lhe danificou os tornozelos e a impossibilitou de voltar a usar saltos altos. No hospital, terá queimado a própria vagina com cigarros em jeito de autopunição por nunca ter conseguido ter filhos.

Desfile da coleção La Dame Bleue © FRANCOIS GUILLOT/AFP/Getty Images

Em maio de 2007, escapou de uma festa sob o pretexto de ir fazer compras. Acabou por ser encontrada inconsciente, no chão da casa de banho, após ter ingerido uma quantidade letal de herbicida. Blow chegou com vida ao hospital, alegadamente desesperada pelo facto de as enfermeiras não a conhecerem. “Google me!”, terá gritado. Morreu no dia seguinte, sem reatar os laços com McQueen. Meses antes de morrer, numa tentativa de se reaproximar do seu protegido de outrora, Isabella convidou um grupo de amigos para um fim de semana na sua casa de campo. O plano não foi bem sucedido. McQueen aceitou o convite, mas nunca chegou a sair do quarto.

A culpa pelo suicídio da amiga pesou sobre os últimos anos de vida de Alexander, um sentimento agravado pelas insinuações da imprensa que não tardaram em chegar. Quatro meses depois, McQueen convidou o designer de chapéus Philip Treacy, também ele um talento alavancado por Blow, a colaborar na coleção “La Dame Bleue”. Emotivo e sem o aparato habitual, o desfile foi uma ode à figura extravagante de Isabella.

Plato’s Atlantis, primavera-verão 2010

A vida de Alexander McQueen esteve sempre dividida entre a ruína pessoal e o triunfo na passerelle. A 6 de outubro de 2009, foi o primeiro designer de moda a transmitir um desfile em livestreaming. “Plato’s Atlantis” foi o seu último desfile, uma viagem a uma civilização perdida no fundo do mar que McQueen materializou com estampados digitais tão ricos que o tecido plano quase alcançou a tridimensionalidade. As manequins surgiram como seres híbridos, saídos da água para povoar um futuro em terra. No final, ouviu-se pela primeira vez “Bad Romance”, o êxito de Lady Gaga. O desfile foi um marco inegável na carreira do criador, mas também o ponto final.

Os "armadillo shoes", obras-primas da coleção "Plato's Atlantis" © FRANCOIS GUILLOT/AFP/Getty Images

Quatro meses depois, morre Joyce McQueen, vítima de cancro. Alexander isolou-se no seu apartamento, em Mayfair, com o Twitter como único meio de contacto com o exterior. “Tem sido uma semana horrível”, “De alguma maneira, tenho de me recompor” e “Anjos do inferno e muitos demónios” foram algumas das mensagens que foi partilhando na rede social. A 11 de fevereiro de 2010, véspera do funeral da mãe, Alexander McQueen enforcou-se dentro de casa. Tinha 40 anos.

“Se tivéssemos sabido a dimensão disto, teríamos arrombado as portas, mas não soubemos. Todos nós falámos com o Lee sobre as drogas, mas ele era um homem já no fim dos trintas. Não podemos falar em nomes, temos de ter cuidado, mas havia pessoas que sabiam do estado dele e a família não… Eles sabiam das outras tentativas de suicídio. Nós não”, afirmou Janet, irmã mais velha, em 2015.

Um mês depois, o primeiro desfile da casa McQueen, depois da morte do seu fundador. Oitenta por cento da coleção foi finalizada ainda por Alexander, o designer que deixou bem claro que já mais entregaria a marca nas mãos de outro criador. O futuro da McQueen dependeu disso e Sarah Burton, estagiária nos primeiros tempos do atelier londrino, assume a direção criativa até hoje. Quase nove anos depois da morte de um dos criadores mais geniais do século XX, os seus desfiles e coleções continuam a ser os melhores registos da sua passagem pelo mundo da moda, uma passagem revolucionária. Como o próprio disse, “Se me querem conhecer, olhem para o meu trabalho”.

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