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Donald Trump beija um bebé durante a campanha presidencial de 2016. Nas eleições de 2020, em que imperam as regras de distanciamento social, é menos provável que cenas destas se voltem a repetir

Chip Somodevilla/Getty Images

Donald Trump beija um bebé durante a campanha presidencial de 2016. Nas eleições de 2020, em que imperam as regras de distanciamento social, é menos provável que cenas destas se voltem a repetir

Chip Somodevilla/Getty Images

Sem comícios nem bebés para beijar, Trump e Biden desesperam para reinventar a arte de fazer campanha /premium

A cinco meses das eleições, Trump está fechado na Casa Branca e Biden mal sai da cave de sua casa. A pandemia obriga os candidatos a reinventarem as suas campanhas — e até agora não tem corrido bem.

Beijar o bebé alheio é uma arte consagrada na política e os EUA não são exceção — são, isso sim, regra. Já no século XIX se encontra o primeiro registo de uma mãe que pôs o seu bebé à frente de um candidato à Casa Branca, na esperança de as bochechas do rebento serem repenicadas pelos lábios do poder.

Foi em 1833, ano em que Andrew Jackson tentava a reeleição, quando, em campanha, uma “mulher pobre de cabeça descoberta e com um bebé debaixo do braço” gritou na sua direção, perguntando se ele era o Presidente. “Sou eu mesmo e é um prazer conhecê-la. E esse belo rapaz é o seu filho? Passe-mo para cá”, disse o 7.º Presidente dos EUA à mulher, que rapidamente lhe pôs o filho nas mãos.

“Ora aqui está um bem espécimen da criança americana. Creio, minha senhora, que o seu rapaz se tornará um dia num belo homem”, disse Andrew Jackson, para a mulher e a todas as pessoas que assistiam a esta cena. Naquele momento, poderá ter passado na cabeça do então Presidente beijar a criança que tinha nas mãos. Problema: o bebé tinha a cara muito suja. E, por isso, Andrew Jackson inclinou o rapaz para o seu Secretário de Guerra, o general John Eaton, e disse-lhe: “Eaton, dás-lhe um beijo?”. E deu, conforme recordou a Mother Jones em 2012, após consultar a imprensa da época.

Republicanos ou democratas, vencedores ou vencidos, todos os candidatos às presidenciais têm seguido uma regra: beijar bebés em campanha. Agora, em plena pandemia, essa outras regras são proibidas

Getty Images

A partir daí, o debate em torno dos méritos e deméritos dos beijos aos bebés em plena campanha adensou-se nos EUA. Ainda no século XIX, mas já na reta final, houve quem escrevesse que aquela prática era pouco higiénica e que violava os direitos das crianças. Logo na viragem para o século XX, o Presidente Theodore Roosevelt foi negativamente acusado de “tomar o hábito de beijar bebés indiscriminadamente”, mas em 1920 a revista Nation já escrevia sobre o democrata do Ohio James Cox como sendo “o único candidato presidencial que demonstrou a capacidade de passar a imagem de que gosta de beijar os bebés das outras pessoas”.

Em 1968, o republicano Richard Nixon prometeu que na sua campanha não iria beijar um bebé, tudo para não “fazer figura de parvo”. Mas a verdade é que viria a fazê-lo mais à frente — isto é, a segurar num bebé e a beijá-lo em plena campanha. Fê-lo Richard Nixon, tal como muitos dos seus antecessores e todos os seus sucessores — incluindo Donald Trump, apesar da sua confessa fobia a germes. É uma manobra que pode correr mal (o mais comum é o bebé começar a chorar, mas pode ainda dar azo a enganos épicos, como foi o caso de Mário Soares, que em 1985 levantou e beijou um anão que vendia lotarias em Faro, julgando que se tratava de uma criança), mas que, quando bem executada, pode dar uma excelente fotografia para uma campanha. Simples e eficaz.

A não ser, claro, que haja uma pandemia em curso. E é aqui que a campanha para as eleições presidenciais norte-americanas, agendadas para 3 de novembro, se complicou antes de tempo e de uma forma inesperada.

Numa altura em que o distanciamento social é norma, tanto o Presidente dos EUA, Donald Trump, como o seu adversário democrata, Joe Biden, encontram-se a braços não com bebés, mas com um verdadeiro problema: não podem chegar perto dos seus apoiantes nem devem juntar multidões.

“A pandemia acabou por completo com o toque humano nesta campanha, o que torna as coisas particularmente difíceis, porque as campanhas consistem precisamente em toque humano."
Christopher Nicholas, estratega do Partido Republicano na Pensilvânia

Portanto, não são só os beijos a bebés que ficam agora fora de questão: ficam também excluídos os comícios, sejam eles num hangar no Ohio ou num estádio em Miami; os cocktails de angariação de fundos entre milionários num salão privado de Nova Iorque; ou a visita e conversa fiada na loja de donuts local.

“A pandemia acabou por completo com o toque humano nesta campanha, o que torna as coisas particularmente difíceis, porque as campanhas consistem precisamente em toque humano”, diz ao Observador Christopher Nicholas, um estratega veterano do Partido Republicano no estado da Pensilvânia, decisivo na vitória de Donald Trump em 2016 e crucial para quem quiser ganhar as eleições deste ano. “Nos últimos anos, o toque humano tem sido substituído pelos meios digitais. Agora, essa equação foi posta de pernas para o ar: a maior parte da campanha terá de ser feita digitalmente e por telefone”, continua.

Em 2016, a campanha de Donald Trump foi marcada pelos comícios. "É um ajuntamento tribal", sublinha o estratega republicano Dennis Lennox. Com a pandemia, não é certo que os venha a repetir em 2020.

Getty Images

“Durante algum tempo uma campanha digital poderá chegar, mas vai chegar a uma altura em que os eleitores vão querer aplicar aquilo que é uma máxima da política deste país: os eleitores querem dar apertos de mão”, diz Christopher Nicholas, utilizando a expressão inglesa “voters want to press the flesh”.

Tão cedo, nada disso será fácil ou sequer possível. Dificilmente Donald Trump voltará ao seu habitat político, ou seja, os comícios que realiza em hangares de aeroportos perdidos nos EUA, para onde viaja a bordo do seu avião, e onde o esperam milhares e milhares de pessoas com os característicos bonés vermelhos. Da mesma forma, não será possível a Joe Biden fazer o que faz melhor em campanha: ser menos Biden e mais Joe ao andar no meio de apoiantes e abordar quem passa pelo caminho, trocando piadas de circunstância.

Tudo isto agora é impossível — e, assim, a pouco mais de cinco meses das eleições, os candidatos são obrigados a caminhar em territórios desconhecidos sem saírem das suas próprias casas.

Biden com pouca rede na sua cave e Trump ansioso por ver a sua “tribo”

Confinado na sua casa em Wilmington, no estado do Delaware, o candidato do Partido Democrata para tentar derrotar Donald Trump a 3 de novembro tem-se desdobrado em vídeos para as redes sociais, videoconferências com apoiantes e aparições em talk-shows televisivos. Tudo isto diretamente da sua cave, onde foi montada uma câmara que é operada remotamente a partir de Sioux City, no Iowa.

Até que, a 7 de maio, a campanha de Joe Biden decidiu inaugurar um novo formato: os comícios virtuais, com a primeira edição ser dedicada à Flórida, outro estado decisivo para as eleições. E é difícil imaginar de que maneira é que o resultado daqueles 47 minutos e 20 segundos poderia ter sido mais desastroso.

Primeiro foi Terrie Rizzo, líder do Partido Democrata na Flórida. Bem que pode ter sido um prenúncio de que tudo aquilo ia correr mal no sorriso amarelo e acima tudo congelado que Terrie fez nos primeiros 12 segundos daquele vídeo. Àquela oradora inicial, seguiu-se uma sucessão de intervenientes cujas palavras, lidas com um olhar distante diante dos próprios computadores, foram cortadas por uma má ligação. Também houve quem falasse durante quase sete minutos sem qualquer imagem, perante um fundo negro. Entre alguns discursos, para emular o ambiente dos habituais comícios, um homem de 65 anos, o DJ Jack Henriquez, passava música a mascar pastilha e ar aborrecido, à frente de um set de luzes de discoteca montadas na sua própria casa.

"É extremamente difícil para Biden fazer uma conferência de imprensa diária a partir da sua sala-de-estar. Donald Trump tem a vantagem de a sua sala-de-estar ser na Casa Branca e, se há coisa que ele nos tem demonstrado ultimamente, é que não tem pudor em tornar uma conferência de imprensa num evento de campanha."
Jim Demers, estratega do Partido Democrata e de Joe Biden no New Hampshire

E, depois, chegou a vez de Joe Biden. Apresentado pela voz do mestre de cerimónias, a emissão passou para a casa do candidato ta. Só que, em vez de estar preparado para entrar no ar, JoeBiden estava encostado a uma porta, com óculos de sol, e um ar ainda mais aborrecido do que o DJ Jack Henriquez. Pouco depois, perguntou, possivelmente à mulher Jill Biden, com quem está confinado em casa: “Já me anunciaram?”. Não se ouve a resposta, mas Joe Biden entendeu que, sim, o seu nome já tinha sido anunciado. E por isso lá se aproximou da câmara, retirou os óculos de sol e começou a falar. Estava na altura de ouvir o adversário de Donald Trump — mas isso não foi propriamente possível. Entre as constantes falhas na ligação e o som de pássaros no fundo, poucos terão conseguido compreender uma frase completa entre tudo o que Joe Biden disse.

O comício virtual inaugural acabou por ser a prova de que Joe Biden e a sua campanha têm pela frente uma tarefa hercúlea para conseguir conquistar tempo de antena — e, para quando o tiverem, não o desperdiçarem às mãos de uma má ligação de internet ou de um pássaro que tenha pousado nas imediações.

“É extremamente difícil para Biden fazer uma conferência de imprensa diária a partir da sua sala de estar”, diz ao Observador Jim Demers, estratega do Partido Democrata no New Hampshire (outro estado crucial), que trabalhou em ambas as campanhas de Barack Obama e faz agora parte da equipa de Joe Biden naquele estado. E reconhece que o adversário de Joe Biden tem, neste aspeto, uma tremenda vantagem sobre o democrata: “Donald Trump tem a vantagem de a sua sala de ser na Casa Branca e, se há coisa que ele nos tem demonstrado ultimamente, é que não tem pudor em tornar uma conferência de imprensa num evento de campanha”.

É precisamente nessa direção que aponta Dennis Lennox, estratega do Partido Republicano sediado no Michigan, estado onde os democratas venciam desde 1992 até que Donald Trump o virou de azul (cor democrata) para o vermelho dos republicanos em 2016. “A presidência é o púlpito perfeito, qualquer Presidente consegue ter uma câmara em cima dele a qualquer altura”, diz, numa entrevista ao Observador.

"A tribo de Donald Trump, porque é precisamente de uma tribo que se trata, sentava-se praticamente todas as noites em frente à televisão para ouvi-lo durante todo o tempo que ele estivesse a falar, até porque não tinha mais nada para fazer em casa."
Dennis Lennox, estratega do Partido Republicano no Michigan

Ao contrário de Joe Biden, que tem de lutar por cada segundo de tempo de antena, a Donald Trump basta aparecer na sala de imprensa da Casa Branca para entrar em direto durante o tempo que quiser, onde quiser. Isso, porém, reconhece Dennis Lennox, acabou por tornar-se num problema. “Ele tem todo o tempo de antena que quiser, o que acaba por ser demais, como se viu. Fica demasiado exposto, os media passam a falar demasiado dele e ele depois começa a cometer gaffes“, diz, sem referir diretamente a conferência de imprensa em que o Presidente colocou a hipótese de injeções de álcool poderem servir para tratar infetados de Covid-19. Um dia mais tarde, viria a dizer que estava a ser sarcástico e suspendeu os briefings diários.

Ainda assim, Dennis Lennox aponta que as conferências de imprensa de Donald Trump têm servido como uma espécie daquilo que chama de “comício possível”. Para este estratega, que define os comícios de Donald Trump como “um ajuntamento tribal”, as conferências de imprensa na Casa Branca têm servido esse mesmo propósito de união entre a base pró-Trump.

“A tribo de Donald Trump, porque é precisamente de uma tribo que se trata, sentava-se praticamente todas as noites em frente à televisão para ouvi-lo durante todo o tempo que ele estivesse a falar, até porque não tinha mais nada para fazer em casa”, diz aquele estratega republicano.

Mas, dentro desse “comício possível”, existe uma margem de erro que nos comícios é muito diminuta. Se num comício Donald Trump está rodeado de apoiantes, numa conferência de imprensa tem pela frente jornalistas, alguns dos quais mantém uma relação de animosidade mútua, aos quais é obrigado a responder. E, se num comício Donald Trump tem carta branca para desviar o rumo do discurso como bem entende (o que lhe permite mudar repentinamente de um assunto ao outro, pegando em temas como o muro na fronteira com o México sempre que nota que a atenção do público a fugir a meio um assunto menos atrativo), numa conferência de imprensa é frequente vários jornalistas insistirem no mesmo tema e às vezes até na mesma pergunta.

“Os comícios são uma oportunidade que o Presidente tem para falar sem ter que responder a perguntas e por isso mesmo é notório como ele descontrai naquele ambiente. E os fãs dele gostam muito disso”, aponta Christopher Nicholas, o estratega republicano da Pensilvânia.

Ao contrário de Biden, Trump consegue facilmente ter tempo de antena. Os briefings diários da Covid-19 deram-lhe precisamente isso, mas abriram espaço para mais gaffes do Presidente

Tasos Katopodis/Getty Images

Não é, pois, por acaso que Donald Trump já tem começado a sair da Casa Branca. Para já, fez duas viagens presidenciais depois de ter passado o mês inteiro de abril confinado. Primeiro, a 5 de maio, foi a uma fábrica de máscaras no Arizona. Depois, a 14 de maio, passou por um armazém de distribuição de artigos médicos na Pensilvânia. A escolha destes dois estados não terá sido feita sem olhar para o mapa eleitoral: ambos os estados são cruciais para a reeleição (em 2016 venceu o Arizona com 3,5% de vantagem sobre Hillary Clinton e na Pensilvânia ganhou por apenas 0,72%).

Porém, o plano de Donald Trump passa por começar a fazer viagens já como candidato — e, se possível, com os comícios do costume. “Vamos começar a andar por aí e espero que num futuro não muito distante tenhamos comícios em massa em que as pessoas vão estar sentadas lado a lado”, disse Donald Trump a 29 de abril. Mais recentemente, a 15 de abril, uma das noras do Presidente, Lara Trump, que integra a equipa de campanha do sogro, colocou a hipótese de os comícios voltarem tão cedo quanto possível, mas admitiu também o formato virtual.

"Entre os dois candidatos, quem tem mais pressão para sair e começar já a campanha é Donald Trump, porque as sondagens começam a demonstrar que ele está a ficar para trás. Por isso é que Donald Trump já anda a falar de comícios. E as pessoas que querem ir ao comícios dele hão de aparecer por lá. Mas a imagem de um estádio cheio neste momento pode ser mau para a qualquer campanha."
Christopher Nicholas, estratega do Partido Republicano na Pensilvânia

“Ele [Donald Trump] adora os comícios e as pessoas também adoram estar com ele, por isso estamos muito esperançosos de que à medida que novembro se aproximar possamos voltar a ter comícios”, disse, numa chamada com a imprensa, acrescentando que “a época de campanha não saberia ao mesmo” sem os comícios. “Estamos desejosos de poder voltar à estrada, mas se tivermos de mudar alguma coisa e fazer um comício virtual, essa é uma opção que estamos a considerar”, acrescentou Lara Trump.

Para a campanha de Donald Trump, o calendário já começa a apertar. Quem o diz é Christopher Nicholas, que aponta para as sondagens no estado da Pensilvânia, onde Joe Biden (que nasceu ali, mais propriamente na cidade de Scranton) vai à frente desde março — tal como noutros estados cruciais, como é o Wisconsin, a Flórida, o Arizona ou o Michigan.

“Entre os dois candidatos, quem tem mais pressão para sair e começar já a campanha é Donald Trump, porque as sondagens começam a demonstrar que ele está a ficar para trás”, aponta aquele estratega republicano da Pensilvânia. “Por isso é que Donald Trump já anda a falar de comícios. E as pessoas que querem ir ao comícios dele hão de aparecer por lá. Mas a imagem de um estádio cheio neste momento pode ser mau para a qualquer campanha”, acrescenta, apontando que dali pode surgir um foco de contágio de Covid-19.

Uma campanha vintage como antídoto para a abstenção

Os últimos tempos não têm sido propriamente de acalmia para os estrategas políticos. É verdade que em ano de eleições, nunca o seriam — mas, desta vez, as perguntas que lhes chegam são muito mais simples: “O que é que eu faço?”. O desespero de encontrar uma maneira eficaz de fazer campanha em tempos de pandemia não é apenas de Donald Trump e Joe Biden — é também de todos os restantes cargos elegíveis que vão a votos a 3 de novembro, que podem ir desde lugares no Senado ou na Câmara de Representantes em Washington D.C. ao cargo de xerife de uma qualquer vila.

“Já perdi a conta às chamadas que tive de candidatos do país todo que querem encontrar uma maneira de levar a mensagem deles às pessoas nestes tempos”, diz Dennis Lennox, o estratega republicano do Michigan.

Muito deste trabalho, que escapa aos holofotes das campanhas para as presidenciais, está agora em risco, apontam os estrategas consultados pelo Observador. Sem valor-notícia que justifique atenção mediática com regularidade e também sem dinheiro para comprar anúncios nas televisões ou rádios locais, sobra a estes candidatos fazer campanha porta-a-porta.

“É o mais barato e até agora tem sido o mais eficaz. Arranja-se um grupo de voluntários e vá de bater às portas. Não há cá dinheiro para grandes anúncios nem para grandes eventos pelo Zoom”, diz Dennis Lennox.

Por mais desconhecidos que sejam, este candidatos e as suas equipas acabam também por ser muitas vezes os únicos a chegarem à fala com os eleitores nos estados que os candidatos presidenciais já dão por garantidos. E isso, explica aquele estratega do Michigan, pode ter consequências na votação também para as presidenciais. “Nestes sítios em que os candidatos presidenciais não passam, os candidatos do fundo do boletim de voto acabam por atrair mais gente para as urnas”, aponta.

"Nas últimas eleições havia dias em que cada pessoa recebia entre três e cinco panfletos por dia na caixa de correio. Este ano, quando chegar outubro, estou a apontar para os 12."
Jim Demers, estratega do Partido Democrata e de Joe Biden no New Hampshire

Porém, tudo isso parece estar agora em risco. “É impossível trabalhar no terreno, porque não podemos simplesmente meter voluntários a bater às portas”, diz Jim Demers, o estratega democrata do New Hampshire.

Então, nesse caso, que alternativas sobram? Talvez, as fórmulas mais arcaicas.

Dennis Lennox aponta para os yard signs — os cartazes com os nomes dos candidatos que as pessoas podem afixar nos relvados em frente às suas casas, visíveis para quem passar por elas. “Há muitos consultores que dizem que o yard signs são um desperdício de dinheiro, porque são caros e não há prova de que resultem. Mas a política não é uma ciência, é uma arte e como tal requer faro”, diz o estratega republicano do Michigan. E o que seu faro lhe sugere é que, nestas eleições, os yard signs podem vir a ser mais importantes do que nunca.

“Se não tiverem dinheiro para anúncios nem puderem fazer comícios, os yard signs passabm a ser a melhor maneira de literalmente espalharem o seu nome pelos relvados das vilas deste país”, diz. E, dentro destas, há relvados que interessam mais do que outros. “Se alguém importante numa comunidade, alguém que é respeitado e conhecido de todos, puser um yard sign de um determinado candidato, isso é impagável.”

Dennis Lennox, estratega do Partido Republicano no Michigan, prevê que os "yard signs" vão ser um importante elemento da campanha em tempos de pandemia

Mark Makela/Getty Images

Para Jim Demers, os candidatos presidenciais em particular vão ter de esquecer aquilo a que se convencionou chamar de grassroots campaign (traduzível para “campanha de bases”) — um conceito em constante evolução e que esteve na origem da onda que elegeu e reelegeu Barack Obama e que, à sua maneira, Donald Trump utilizou a seu favor em 2016.

“Agora os candidatos vão ter recuar 20 anos, ou seja, vão ter de regressar ao tempo dos anúncios de televisão”, diz. Além disso, este estratega democrata acredita que os panfletos vão voltar a estar em voga — e em caixas de correio a abarrotar com eles. “Nas últimas eleições havia dias em que cada pessoa recebia entre três e cinco panfletos por dia na caixa de correio. Este ano, quando chegar outubro, estou a apontar para os 12.”

As redes sociais, claro, serão sempre uma parte importante da campanha. “É através delas que as campanhas estão a tentar passar as suas mensagens, o que é sem dúvida um meio eficaz para chegar ao eleitorado mais jovem, que se mexe bem na internet”, diz Jim Demers. “Mas isso, por si só, não vai chegar. Nem serve para chegar ao eleitorado mais velho, que é quem vota mais.”

"Até um certo ponto, dá para substituir a interação física com uma estratégia digital. Mas isso é muito mais difícil para um candidato que não é Presidente e que ainda não criou uma relação sólida com o eleitorado. O digital pode ser bom para criar uma relação que até aí não existia, mas não é eficaz na altura de mantê-la."
Christopher Nicholas, estratega do Partido Republicano na Pensilvânia

Christopher Nicholas, o estratega do Partido Republicano na Pensilvânia, concorda que, embora sejam instrumentos importantes numa campanha, a internet e as redes sociais não podem ser os únicos elementos da equação. E, sublinha, aí quem sai a perder disto tudo é Joe Biden — homem que foi vice-presidente de Barack Obama durante oito anos mas que, no que toca a tempo de antena e reconhecimento nacional, sai a perder para o Presidente Donald Trump.

“Até um certo ponto, dá para substituir a interação física com uma estratégia digital”, admite Christopher Nicholas. “Mas isso é muito mais difícil para um candidato que não é Presidente e que ainda não criou uma relação sólida com o eleitorado. O digital pode ser bom para criar uma relação que até aí não existia, mas não é eficaz na altura de mantê-la.”

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