i

Fernando Villalba, estudante de 18 anos, tentou romper o piquete de greve que montaram alguns estudantes independentistas

Fernando Villalba, estudante de 18 anos, tentou romper o piquete de greve que montaram alguns estudantes independentistas

Sem trabalho, sem aulas, sem paz: como o independentismo fez da vida de Mariajo e Fernando um pesadelo /premium

Fernando não pôde ir às aulas porque um grupo independentista se barricou na faculdade. Mariajo perdeu grande parte do seu negócio como guia turística — e está farta de que lhe chamem "facha".

Reportagem em Barcelona, Espanha

Como é costume no seu dia-a-dia de guia em Barcelona, Mariajo Martínez Salaverría levou um grupo de turistas ao miradouro de Montjuïc. Faz parte: a vista que dali se tem sobre a capital da Catalunha é das melhores. Porém, nesse dia, muito mais do que toda a beleza desta cidade, o que se destacava na linha do horizonte eram cinco colunas de fumo.

“María! O que é aquilo?!”, perguntou-lhe um dos turistas, em inglês, assustado. A resposta saiu-lhe pronta: “Pois é isto que acontece quando a cidade é tomada por uns quantos independentistas que se dizem pacíficos”.

Nascida no País Basco, Mariajo vive na Catalunha desde o início da década de 90. É contra a independência da Catalunha — e, conta ao Observador, sente todos os dias na pele as consequências do chamado processo independentista e também por se opor a este.

“Esta semana perdi quase 90% do meu trabalho! Tinha 13 grupos de turistas e acabei por só ter dois. Eu sou trabalhadora por conta própria, isto é horrível, estamos desesperados!”
Mariajo Martínez Salaverría, guia turística, 55 anos

“Esta semana perdi quase 90% do meu trabalho!”, indigna-se, referindo-se aos grupos de turistas que já tinham marcado excursões com ela mas que, no final de contas, não chegaram a vir para Barcelona com receio do que pudessem encontrar. “Tinha 13 grupos de turistas e acabei por só ter dois. Eu sou trabalhadora por conta própria, isto é horrível, estamos desesperados!”

Também no trabalho, conta, tem arranjado problemas por defender a ideia de que a Catalunha faz parte de Espanha. Num grupo de WhatsApp em que estão vários guias turísticos de Barcelona, todos pertencentes à mesma organização profissional, Mariajo acabou por ganhar a antipatia de colegas e superiores ao sugerir que aquela região era de facto parte do território espanhol.Naquele grupo, é comum partilharem pequenos factos e curiosidades, para que possam utilizá-los nas excursões. Mariajo partilhou um: “Sabiam que as primeiras sementes de cacau na Europa foram trazidas por Cristóvão Colombo, que desembarcou aqui em Espanha no inverno de 1493?”.

Ninguém lhe respondeu. “Ficou um silêncio total Pensei logo: ‘Pronto, já me lixei’”, recorda. Pouco depois, recebeu uma mensagem de uma das pessoas da direção da associação de guias turísticos, que lhe dizia: “Não sei se te enganaste no chat, mas não quero que se criem controvérsias”.

“Fiquei logo marcada como facha”, diz.

Mariajo Martínez Salaverría é guia turística em Barcelona, mas nasceu no País Basco. Aqui, usa uma "barretina", típica da Catalunha (João de Almeida Dias / Observador)

Os “15 a 20 encapuçados” que não deixaram o resto ir às aulas

Foi também como “facha” que Fernando Villalba, estudante de 18 anos na Faculdade de Direito da Universidade de Barcelona, foi chamado quando tentou juntamente com outros colegas romper o piquete de greve que montaram alguns estudantes independentistas, levando a que as aulas fossem canceladas.

Passou-se tudo a 23 de outubro, pouco mais de uma semana depois de ter sido conhecida a sentença que levou à condenação a penas de prisão entre os nove e 13 anos de políticos e líderes cívicos que trabalharam para executar o referendo independentista de 1 de outubro de 2017.

“Nesse dia, acordei com um comunicado da universidade que dizia que as aulas estavam suspensas”, recorda Fernando, que é membro da associação de jovens unionistas S’Ha Acabat (Acabou, em catalão). “Mas que raio? Então nós não pagamos propinas?”

Os estudantes foram os manifestantes pró-independência mais ativos, chegando a cortar estradas e linhas de comboio, ou acampando ao longo de vários dias nas ruas (SOPA Images/LightRocket via Getty)

SOPA Images/LightRocket via Gett

Quando chegou à porta da faculdade, viu “um grupo de 15 ou 20 encapuçados” dentro da porta de entrada. Tinham passado ali a noite e ergueram barricadas junto às portas com secretárias, cadeiras e outros móveis da universidade. Do lado de fora, também tinham colocado contentores para impedirem que os tirassem dali.

“Chegámos ali, éramos uns 50 estudantes e também um professor, e fizemos uma manifestação para nos deixarem entrar”, recorda Fernando. “As aulas são de todos!”, gritaram, em catalão.

No final de contas, os Mossos d’Esquadra, a polícia catalã, conseguiu que os manifestantes independentistas saíssem de dentro da faculdade, sendo que não chegaram a identificar nenhum. Ainda assim, as aulas naquele dia acabaram mesmo por não acontecer, com a Universidade de Barcelona a pedir “à comunidade universitária que mantenha a calma, que respeite a convivência pacífica e defenda a cultura da paz”.

Fernando, porém, queixa-se também da direção da Universidade de Barcelona, que acusa de ter sido parcial nos últimos tempos: “Não puseram nenhum travão aos radicais, ninguém lhes disse que não podiam dormir aqui dentro e que não podiam estragar os materiais da universidade”.

Fernando Villalba tem 18 anos e é estudante do primeiro ano na Faculdade de Direito da Universidade de Barcelona. Integra o grupo de jovens unionistas S'Ha Acabat (João de Almeida Dias / Observador)

Além disso, reclama contra a iniciativa que a Associação Catalã de Universidades Públicas (ACUP), onde se insere a Universidade de Barcelona, teve de no próprio dia da sentença ter condenado aquele desfecho.

“Hoje, dia 14 de outubro de 2019, ficámos a conhecer a sentença judicial”, lê-se. “Queremos reiterar a nossa indignação pela situação que se vive na Catalunha, tal como a nossa preocupação pelas circunstâncias pessoais que vivem as pessoas afetadas pela sentença”, continua esse comunicado conjunto das universidades públicas de Barcelona, Girona, Lleida e Tarragona.

“Como é possível a universidade pública tomar o lado de uns contra outros? Todos os espanhóis pagam esta universidade com os seus impostos, além de nós, que pagamos todos as nossas propinas, quer estejamos a favor da independência ou contra ela”, atira o ativista do S’Ha Acabat. “A universidade tem de ter neutralidade política.”

“A direção passava um papel a todas as turmas e ali tinhas de meter o teu nome, o número do cartão de cidadão e, depois, tinhas de assinarse em relação à greve estavas a favor, contra ou se te abstinhas.”
Fernando Villalba, estudante de Direito, 18 anos

Já na escola secundária, no subúrbio barcelonês de L’Hospitalet de Llobregat, passou por episódios semelhantes. Embora não houvesse piquetes de alunos a impedir que os restantes fossem às aulas, nos dias de greves convocadas por sindicatos independentistas, recorda-se de ter de assinar num papel que a direção da escola punha a circular qual era a sua posição quanto à greve.

“A direção passava um papel a todas as turmas e ali tinhas de meter o teu nome, o número do cartão de cidadão e, depois, tinhas de assinalar se em relação à greve estavas a favor, contra ou se te abstinhas”, recorda. “O que acontecia é que só dois ou três, dos quais eu fazia parte, assinavam a dizer que eram contra. Mas se calhar entre 40 alunos havia uns 15 contra, sei lá. Mas nem toda a gente tem coragem para arranjar chatices com isto.”

“Mas eu alguma vez mereço ouvir que sou uma ‘besta’?”

Mariajo está cansada, até porque, garante, já viu isto tudo a acontecer antes.

“A pressão que eu sinto aqui é a mesma que sentia no País Basco nos anos 80”, garante. “Passo a vida a ouvir comentários sobre como Espanha é casposa e como a Catalunha é diferente, de como a Catalunha sempre quis ser independente e que ‘Espanha sempre nos tratou mal’, que a um catalão nunca lhe passaria pela cabeça roubar nada e que um espanhol é do pior que pode haver”, diz.

Sobre este último exemplo, Mariajo, que em tempos foi jornalista, lembra-se de ter lido num jornal do País Basco uma notícia que dava conta de uma violação cometida por um basco. “E as pessoas estavam incrédulas, porque não acreditavam que um basco poderia fazer tal coisa”, diz. “De certeza que é espanhol, de certeza que é de fora!”, ouviu alguns a comentarem.

Mariajo ainda hoje se revolta com um texto que Quim Torra escreveu em 2008, em que comparava espanhóis não-catalanistas e que vivem na Catalunha a "bestas" com uma "falha no ADN" (QUIQUE GARCIA/EPA)

QUIQUE GARCIA/EPA

E lembra-se ainda de um artigo de opinião publicado por Quim Torra, atualmente presidente do governo regional da Catalunha, publicado em 2008 e entretanto apagado do site do jornal catalão El Món, mas disponível em muitos outros jornais que o recuperaram.

Nele, Quim Torra, à altura um advogado e escritor que dava os primeiros passos na política, contava como num voo de Zurique para Barcelona um passageiro que voava consigo se revoltou por a mensagem de chegada estar escrita em catalão e não em castelhano. Naquele texto, Quim Torra comparou a “abutres, víboras, hienas” os espanhóis não-catalães que vivem na Catalunha e aos quais, nas suas palavras, “repugna qualquer expressão de catalanidade”.

“É uma fobia doentia. Há algo de freudiano nestas bestas. Ou uma pequena falha no seu ADN. Pobres indivíduos. Vivem num país do qual não conhece nada: a sua cultura, as suas tradições, a sua história”, escreveu então Quim Torra.

Quando soube deste texto, Mariajo não quis acreditar. “Mas eu alguma vez mereço ouvir que sou uma ‘besta’ e que tenho uma ‘falha no ADN’ só porque me sinto catalã e também espanhola?”, lança. “Isto nem de Hitler se ouvia!”

“Tenho de utilizar sempre o meu apelido basco porque se disser que sou só Martínez então aqui há logo um montão de gente que simplesmente desconsidera o que eu tenho a dizer se eu disser que sou contra a independência. Com o apelido basco ainda me vão dando alguma atenção, vá lá.”
Mariajo Martínez Salaverría, guia turística, 55 anos

Para falar sobre o independentismo, ou sobre a Catalunha em geral, Mariajo faz muitas vezes questão de referir que além de ter um apelido que é dos mais comuns em Espanha (Martínez), tem também outro, Salaverría, de origem basca.

“Tenho de utilizar sempre o meu apelido basco porque se disser que sou só Martínez então aqui há logo um montão de gente que simplesmente desconsidera o que eu tenho a dizer se eu disser que sou contra a independência”, diz, sentada numa esplanada ao pé da estátua de Cristóvão Colombo em Barcelona no fundo da avenida La Rambla. “Com o apelido basco ainda me vão dando alguma atenção, vá lá.”

Nos tempos em que vivia no País Basco, Mariajo calava-se. Tinha medo — afinal, a ETA matou mais de 800 pessoas ao longo dos seus quase 60 anos de história. Mas desde esses tempos aprendeu que é melhor falar do que ficar calada.

“No País Basco havia mortos, por isso o que eu posso dizer é que aqui se exagera no medo. Porque é que eu hei-de baixar o meu tom de voz quando falo destes temas? Não posso falar em liberdade? Vou ter medo do senhor que estiver na mesa do lado, é?”, pergunta enquanto um “senhor”, não na “mesa do lado” mas sim na de trás, ri para dentro com aquilo que Mariajo diz.

Tanto Mariajo como Fernando foram à maior manifestação unionista dos últimos anos, a 8 de outubro de 2017, depois do referendo (Nicolas Carvalho Ochoa/picture alliance via Getty Images)

picture alliance via Getty Image

Com eleições este domingo, e com a tensão ao máximo na Catalunha, Mariajo diz que é olhada de lado quando diz que, em princípio, vai votar no Ciudadanos. “Para mim, basta que os verdadeiros fascistas, que são os que andam a queimar contentores, digam que os do Ciudadanos são fascistas. É da maneira que eu voto logo neles, quase que fazem a escolha por mim”, diz.

“Este tema é um pouco como o sexo. Ou seja, entre amigos e família, não se fala disso. E eu acho isto incrível, porque até parece que este tema não existe. Nestas últimas semanas em que Barcelona ardia, ouvi independentistas e equidistantes a dizerem coisas como ‘pois, mas também há problemas assim noutros sítio’.”
Mariajo Martínez Salaverría, guia turística, 55 anos

Porém, mesmo que as notícias e a campanha se tenham centrado praticamente em exclusivo na Catalunha, quando vai a jantares com amigos ou familiares que são independentistas, Mariajo fica assoberbada pelo silêncio. Ninguém quer falar do tema — ou então chateiam-se.

“Este tema é um pouco como o sexo”, diz. “Ou seja, entre amigos e família, não se fala disso. E eu acho isto incrível, porque até parece que este tema não existe. Nestas últimas semanas em que Barcelona ardia, ouvi independentistas e equidistantes a dizerem coisas como ‘pois, mas também há problemas assim noutros sítios’.”

Aos poucos, conta Mariajo, tornou-se inevitável perder um ou outro amigo que defende a independência da Catalunha. “São eles que se afastam, nunca sou eu”, assegura. Por esta altura, tem apenas uma amiga independentista. “Continuamos amigas porque ela condena sem reticências a violência. Caso contrário já não nos dávamos. Com o que eu vi e vivi no País Basco, sei bem quais são os limites que se devem impor.”

Recomendamos

Populares

Últimas

A página está a demorar muito tempo.