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John Minihan/Evening Standard/Getty Images

John Minihan/Evening Standard/Getty Images

Shane O'Doherty, ex-terrorista do IRA: "A consciência pesada nunca desaparece"

Shane O'Doherty tornou-se terrorista do IRA aos 15 anos. Especializou-se em bombas: feriu 30 pessoas e quase provocou uma explosão em Downing Street. Nesta entrevista conta como se arrependeu.

Ainda adolescente, aos 15 anos, Shane O’Doherty viu uma porta aberta para o IRA — e, instintivamente, entrou nela. Entrou por achar que era a maneira mais fácil de defender causas em que, enquanto jovem nascido e criado em Derry, acreditava: a unificação da Irlanda com a Irlanda do Norte, unidos pelo catolicismo e contra o Reino Unido protestante. Desde jovem, aprendeu a fazer bombas — as mesmas que, conta agora, os militantes mais velhos recusavam fazer por ser demasiado perigoso. Chegou a enviar uma para o número 10 de Downing Street, a residência oficial do primeiro-ministro britânico, só que o engenho falhou. Mas foram várias as vezes em que a explosão aconteceu mesmo, deixando dezenas de pessoas feridas — e, à medida que o tempo passou, uma “consciência pesada” para o ex-terrorista.

Shane O’Doherty foi preso aos 20 anos — e foi na prisão, entre o tempo que passou em solitária e a ler os evangelhos, que assumiu o arrependimento por tudo o que fez em nome do IRA. Contra a vontade daquele grupo terrorista, e apesar da antipatia dos militantes que estavam presos na mesma ala que ele, Shane O’Doherty pegou num papel e numa caneta e pediu desculpa a cada uma das suas vítimas. Foi o primeiro e único terrorista do IRA a fazê-lo. Numa entrevista por telefone ao Observador, conta como chegou ao arrependimento que lhe mudou a vida e deixa várias críticas: à justiça britânica, ao partido nacionalista Sinn Féin e ao Acordo de Sexta-Feira Santa, que fez 20 anos anos no passado 10 de abril.

Quando é que aprendeu a fazer uma bomba?
Quando tinha 15 anos. Estudava numa escola católica de topo, a mesma onde o Nobel da Literatura Seamus Heaney estudou. Um dos meus melhores amigos, que vinha de uma família com bastantes posses, chegou-se ao pé de mim e disse-me: “Amanhã à noite vou entrar no IRA.” E perguntou-me: “Queres vir comigo?” Eu disse que sim, sem pensar, como se fosse um reflexo. Então no dia seguinte uns tipos mais velhos do IRA pegaram nestes dois rapazes de 15 anos — a meu ver, éramos apenas crianças, fomos crianças soldados. E poucos dias depois já nos estavam a ensinar como fazer engenhos incendiários, a usar temporizadores, quais eram os químicos que devíamos usar… tudo. Isto porque nenhum dos tipos mais velhos do IRA queria trabalhar com explosivos, porque já tinham morrido muitos a fazer bombas. Eram engenhos instáveis, muito perigosos e pouco sofisticados. Então empurraram miúdos como eu, novos e sem qualquer tipo de treino, para fazer bombas e para enfrentarem o exército britânico, que era altamente treinado e tinha todo o tipo de equipamento. Espingardas, helicópteros, tudo. E eles mandavam-nos para a rua com pistolas pequenas para disparar contra soldados.

Shane O’Doherty tinha 15 anos quando entrou para o IRA. Aos 20 foi preso, depois de ter ferido 30 pessoas com bombas enviadas pelo correio

E nessa altura já percebia que podia estar a ser usado como carne para canhão numa luta desigual, ou deixou-se levar pelo romantismo que estes grupos terroristas sempre tentam incutir nos mais novos?
Era demasiado novo para perceber bem o que se passava. Tinha 15 anos, nunca tinha visto uma arma sem ser na televisão e, de repente, estas pessoas deram-me para as mãos umas armas que até brilhavam. Fiquei logo a achar que ia ser um herói na televisão e que ia andar a lutar contra soldados na rua. Mas na verdade o que nós fazíamos era disparar cinco ou seis balas de baixo calibre a partir de uma esquina contra uma patrulha do exército, que estava armada com armas automáticas e era treinada para usá-las. Isto era uma loucura! Mais à frente o IRA arranjou armas melhores. Umas Thompson do tempo da Segunda Guerra Mundial e umas AK-47. Mas continuava a ser um abuso tremendo. Mesmo assim conseguiram que centenas e centenas de miúdos combatessem por eles — muito em parte por causa da opressão do exército na Irlanda do Norte. E à medida que ganhávamos o mínimo de esperança, eles perguntavam-nos se queríamos fazer bombas. E eu disse logo que sim. Tive amigos que não quiseram avançar, mas eu aceitei. Tinha uma mente curiosa e, além disso, percebi que se me voluntariasse para fazer bombas seria mais importante para eles. Então começaram a mostrar-me como é que se fazia uma bomba, como é que se fazia um detonador com um fósforo, como é que se usavam temporizadores, bombas armadilha… Tudo. E bastava ter um espírito curioso para aprender aquilo tudo num par de semanas.

Há pouco disse-me que, quando o seu amigo lhe perguntou se também queria ir para o IRA, lhe respondeu afirmativamente “sem pensar”, como se fosse um “reflexo”. Mas não há reflexo que não parta de um instinto. Certamente que já tinha pensado nisto, não? Já devia ter alguma simpatia pelo IRA. Por exemplo, falava disto com a sua família, à mesa de jantar?
Nunca, nunca. Nunca falei. A mesa de jantar não era um território de recrutamento de jovens para o IRA, isso era nas escolas, era no ensino da História. Os anos 1960 foram um período crucial. 1966 foi o 50º aniversário da revolução irlandesa em 1916, por isso de repente o governo irlandês, a televisão, as rádios, os jornais e as revistas dedicaram um ano inteiro à celebração do IRA, que conseguiu a liberdade da maior parte da Irlanda. Depois, em 1967 e 1968, houve a crise dos direitos civis nos EUA, que inspirou muitas ações na Irlanda. E a maneira como o movimento pelos direitos civis estava a ser esmagado na Irlanda em primeiro lugar pela polícia e depois pelo exército britânico levou a um colapso da ordem e da lei. De repente a minoria católica apercebeu-se de que não tinha governo, que não tinha representação nenhuma na Irlanda do Norte. É aí que o IRA volta a aparecer, numa altura que parece oferecer uma salvação ao mesmo tempo que toda a gente — a Igreja, o Estado, toda a gente — celebrava o 50º aniversário da revolução. O esmagamento do movimento dos direitos civis, a chegada de 30 mil soldados às ruas da Irlanda do Norte, tudo isto levou a cabeça de muitos a querer mudança. Isto acabou por dar no Domingo Sangrento. Talvez os jovens pudessem ter pensado melhor o assunto, mas o IRA oferecia uma solução fácil. Em 1916 resultou, portanto podia resultar outra vez. Só que um dos problemas com os jovens era que, assim que entravam na organização, era-lhes dito para nunca fazerem perguntas, nunca falarem sobre o IRA, nem sequer com os pais. Jurava-se segredo. E muitos jovens deram por si presos dentro da organização e sem maneira de sair dela.

"Um dos meus melhores amigos, que vinha de uma família com bastantes posses, chegou-se ao pé de mim e disse-me: 'Amanhã à noite vou entrar no IRA'. E perguntou-me: 'Queres vir comigo?'. Eu disse que sim, sem pensar, como se fosse um reflexo."

Isso também aconteceu consigo? Sentiu-se preso dentro do IRA?
Claro. Claro. Quando tinha 18 anos e tinha feito os primeiros bombardeamentos em Londres, completamente sozinho, e depois no Natal de 1973 mandaram-me para lá outra vez para fazer mais bombardeamentos. Sempre sozinho. Em 1974, tinha 19 anos e sentia-me completamente encurralado. Era uma das pessoas mais procuradas em Londres e não tinha nenhum sítio para onde podia ir. Na altura, havia norte-americanos que recusavam combater no Vietname e que iam para a Suécia. E eu cheguei a pensar nisso também. Mas não me parecia que alguma vez conseguisse sobreviver, até porque os britânicos certamente viriam atrás de mim. Quando fui preso, ao fim de cinco anos no IRA, logo que me passou o choque inicial, fiquei radiante. Porque estava vivo, fora do IRA e na prisão, onde podia começar a mudar a minha vida.

Que idade tinha quando foi preso?
Tinha 20 anos. Fui preso ao fim de cinco anos de bombardeamentos. A maioria das pessoas só aguentava um ano, até menos. Normalmente eram apanhados ou entravam em parafuso, tinha esgotamentos nervosos. Mas eu escapei porque era muito jovem e a polícia nunca pensou que um dos principais bombistas do IRA pudesse ser tão novo. Eles até achavam que o meu nome era uma alcunha, porque havia um filme de cowboys que era o “Shane”. Passou muito tempo até a polícia sequer olhar para mim. Mas olharam. Ao final de cinco anos, a minha guerra chegou a um fim.

Descreve um modus operandi muito solitário. Por isso queria perguntar-lhe se tinha noção da enormidade do IRA e do seu alcance. Entre 1970 e 2005 o IRA explodiu 19 mil bombas artesanais no Reino Unido. Isto dá uma média de uma bomba a cada 17 horas ao longo de 35 anos. Apesar da solidão que descreve, tinha noção da dimensão daquilo em que estava metido?
Eu acordava de manhã e tomava o pequeno-almoço sem saber se ia sobreviver a mais um dia ou não. Cada dia podia ser o meu último. E por isso concentrava-me naquilo que ia ser o meu dia e não prestava atenção às notícias, a não ser que fossem importantíssimas. O meu trabalho era tão específico e era feito com pessoas que me eram tão próximas que simplesmente trabalhávamos como uma pequena unidade. Não prestávamos atenção a mais nada. Nem sabíamos o que se passava na política. A nossa função era minúscula e a nossa preocupação era sobreviver. Era uma vida muito tensa. Víamos amigos a serem presos ou mortos, as casas abrigo eram alvos de rusgas e apanhavam as pessoas enquanto dormiam. Cada dia tinha objetivos tão específicos que não dava para olhar para o panorama geral, só olhávamos para o que fazíamos.

Shane O’Doherty vive em Valência, onde escreve e prepara palestras para falar sobre o seu passado com terrorista do IRA. Esteve este mês na conferência da Fundação O que de verdade importa, no Porto

Disse-me que o seu trabalho era minúsculo…
… sim, porque a minha preocupação principal eram os circuitos elétricos das bombas e garantir que as bombas não me explodiam nas mãos — o que chegou a acontecer uma vez. Digo que o meu trabalho era minúsculo, porque tinha de me concentrar no que acontecia numa sala, um dia de cada vez. Só isso. Mesmo que o objetivo fosse bombardear o número 10 de Downing Street.

Era aí que eu queria chegar. Os conceitos “minúsculo” e “bombardear o número 10 de Downing Street”, como uma vez tentou mas sem sucesso, não são compatíveis. Sejamos frontais: se a bomba que enviou para Downing Street tivesse explodido, isso teria sido trágico para si e para muitas pessoas.
Ninguém no IRA teria achado isso trágico, para eles seria espectacular. Quando vês pessoas a serem abatidas a tiro mesmo à tua frente numa manifestação pelos direitos civis por razão nenhuma, não te importas de ser morto a fazer alguma coisa em resposta a isso. Depois de quase ter morrido no Domingo Sangrento, percebi que o melhor que podia fazer era lutar. Queria lá saber se era morto a lutar… Eu já acreditava que, de certa forma, já tinha perdido a minha vida no Domingo Sangrento. O meu melhor amigo foi detido no Domingo Sangrento, há fotografias dele com soldados britânicos a apanharem-no e a encostarem-no a uma parede. Nós estávamos juntos na manifestação e eu só consegui fugir porque fazia corrida na escola e então quando eles começaram a disparar fugi. Só que o meu amigo não conseguia correr tão depressa como eu. Enquanto eu corria e fugia, apercebi-me de que podia ter morrido naquele dia. Por isso passei a encarar todos os dias seguintes como um bónus. Só que o cancro que estava a destruir a luta armada não eram os britânicos. Eram duas coisas: o horror da guerra e o horror de todas as ações que correram mal. Tudo isso consumia-nos muito. E depois surgia uma coisa da qual não sabíamos nada, nem sequer tínhamos ouvido falar dela: a consciência humana. Ela começa a trabalhar sozinha. E depois as pessoas gritam contra o que nós fazemos, os padres, os professores, os políticos democráticos dizem-nos todos para pararmos a guerra. No final de contas, temos uma guerra dentro da nossa cabeça.

"Depois de quase ter morrido no Domingo Sangrento, percebi que o melhor que podia fazer era lutar. Queria lá saber se era morto a lutar... Eu já acreditava que, de certa forma, já tinha perdido a minha vida no Domingo Sangrento."

Ir para a prisão foi uma maneira de fazer uma pausa em tudo isto.
Foi ótimo. Foi ótimo. Eu fui preso durante um cessar-fogo, não foi durante uma ação. Houve um cessar-fogo entre o IRA e os britânicos, só que a polícia achou que não tinha sido envolvida no cessar-fogo e então decidiram quebrá-lo para me prenderem. Isso acabou por custar a vida a um jovem polícia, porque o IRA quis retaliar contra a minha detenção e abateu um polícia de 19 anos chamado Paul Gray. Em parte, antes de ser detido, já tinha percebido que o IRA queria encontrar uma saída. Nós queríamos todos o cessar-fogo, votámos a favor do cessar-fogo. Só que depois eu fui preso. Quando cheguei à prisão havia lá gente do IRA que me dizia “Deus abençoe a luta armada” e eu respondia: “Não! Eu não abençoo a luta armada, eu só quero um cessar-fogo”. Mas depois foi o julgamento, tive de parecer forte para fazer boa figura e não reconheci o tribunal. Fiz um discurso inflamado enquanto fingia que estava tudo bem. Mas houve muitos civis inocentes que eu feri que vieram ao meu julgamento — e isso levou-me a encarar o problema.

Foi isso que lhe abriu os olhos ao ponto de, mais tarde, ser o primeiro e único membro do IRA a enviar cartas a pedir desculpa às suas vítimas?
Não. Honestamente, apesar de estar envergonhado por todos os civis que apareceram no julgamento, não estava. As cartas-bomba que enviávamos nem sempre eram abertas pelas pessoas cujo nome aparecia no destinatário. Eram dirigidas pessoas importantes, então muitas vezes havia assistentes e trabalhadores dos correios que ficam feridos. Nós pensávamos: “Que se lixe”. Eu habituei-me a isso. Não é que gostasse, mas o IRA dizia que, da mesma maneira que não se pode fazer uma omelete sem partir uns quantos ovos, também não é possível conseguir liberdade para uma nação sem que algumas pessoas sofram. Mas, quando estive 15 meses em protesto na prisão solitária, completamente nu, li os evangelhos depois de uma discussão com um padre jesuíta. Queria saber porque é que o próprio filho de Deus dizia que a violência era uma coisa errada. O padre dizia-me: “Shane, a tua causa pela liberdade da Irlanda tem muitas falhas. Não podem usar violência, não podem matar britânicos. A vossa causa é feita de violência. Porque é que não lês sobre o filho de Deus que tinha uma causa divina e sagrada e que não recorria à violência?”. Eu pensei: “Isto é tanga”. Mas depois li os quatro evangelhos e vi que estava ali uma história incrível de um tipo revolucionário que nunca usou a violência. E se ele achava mesmo que falava por Deus, o pai dele que criou todo o universo, então eu estava claramente fodido. Passei cerca de quatro anos e meio em prisão solitária dos meus primeiros 10 anos de prisão em Inglaterra. É um estado mental de grande atividade, em que nos concentramos em nós próprios. Estamos sozinhos, só connosco.

Contra a sua vontade, as cartas em que Shane O’Doherty pedia desculpa às suas vítimas foram publicadas no jornal News Of The World. Ainda na prisão, participou num documentário sobre o IRA (na imagem)

No meio de tantas perguntas que tinha, só conseguia ter respostas se as procurasse dentro de si, é isso?
Além de mim próprio, só nos livros. Não havia telemóveis, não havia Internet, não havia Google, não havia nada disso. Só livros. E depois, enquanto terrorista, preocupava-me com os direitos do prisioneiros. Mas depois apercebi-me de que os direitos dos prisioneiros surgem de um conceito maior, o dos Direitos Humanos. E depois olhei para o que são os Direitos Humanos e vi que a minha organização e eu, na busca do nosso ideal, nos tornámos em terríveis violadores dos Direitos Humanos. Percebi que tinha um historial terrível de atrocidades contra os Direitos Humanos. Eu mesmo! Por isso, a prisão solitária fez-me muito bem e olhando para trás percebo que adorei cada momento dos meus 4 anos e meio de prisão solitária. As pessoas costumavam perguntar-me em cartas: “O que é que fazes na prisão solitária, como passas o tempo?”. E eu respondia: “Passo o tempo a pensar”. Eu nunca parei de pensar. O que é a verdade, o que é a justiça, o que é futuro, qual é a maneira certa de combater por um objetivo… Porque é que nunca tentámos a política? Ninguém, entre os jovens e os católicos da Irlanda do Norte, pensou em tentar a política antes de passar para a violência. Partimos logo para a luta armada. Por que raio não tentámos primeiro a política democrática? Então comecei a pensar que devia falar sobre isto. Por isso, quando li os evangelhos, decidi que ia escrever às minhas vítimas. Pensei que, por uma questão de Direitos Humanos, estava em dívida para com eles. Devia-lhes isto porque a nossa luta armada não tinha uma aprovação divina. Tinha de lhes pedir desculpa.

E foi logo durante a prisão solitária que escreveu essas cartas a pedir desculpa às suas vítimas?
Não. Só foi quando passei para uma ala onde estavam 300 prisioneiros condenados a pena perpétua. Foi ali que comecei a minha campanha para escrever às minhas vítimas, porque o governo britânico não mo permitiu! Não queriam que um terrorista ganhasse um grão de credibilidade. Impediram-me de escrever cartas durante um ano! Tive de escrever a deputados, personalidades da igreja, a tanta gente, só para saber porque é que não me deixavam pedir desculpa. Eu não estava a tentar ganhar um cartão para sair da prisão, queria paz na minha consciência e saldar uma dívida que tinha com estas pessoas. Devia-lhes um pedido de desculpa.

Nunca chegou a matar ninguém, certo? Todas as suas vítimas são feridos.
Há muita gente que me pergunta: “Quantas pessoas é que matou?” Se disser que não matei ninguém, a resposta é parte verdade e parte falsa. Quem jura lealdade a uma organização que mata pessoas é moral e eticamente responsável por todos os homicídios que venham a acontecer. E se alguém treina pessoas para o uso de explosivos e eles matam pessoas, então é culpado. Eu não fui condenado por homicídio, fui condenado a prisão perpétua pelo uso de explosivos com o objetivo de atingir pessoas e bens. Não posso garantir se os soldados que feri não morreram mais tarde, se cometeram suicídio ou se tiveram vidas terríveis. Mas essa é a pergunta errada e eu respondo sempre com uma coisa que não é muito popular na Irlanda do Norte: quem apoia uma organização que anda a matar pessoas, seja porque lhes dá dinheiro, esconde as suas armas, lhes empresta o carro ou lhes dá informação sobre alvos, então é culpado de homicídio. Eu podia andar a dizer que não matei ninguém, mas isso é juridiquês sem base moral. Eu não olho para o legalismo da questão. Hoje em dia, muitos dos combatentes que fizeram parte desta luta armada manda-me e-mails a dizer que não conseguem dormir e a contar que as mulheres acordam com eles a gritarem durante a noite. Também há muitos que são alcoólicos e outros que vivem na rua. Sentem hoje a culpa que na adolescência não conseguiam ter. Muitos viveram vidas terríveis. E isto deve-se em grande parte à dificuldade de lidar com a culpa.

"Muitos dos combatentes que fizeram parte desta luta armada mandam-me e-mails a dizer que não conseguem dormir e a contar que as mulheres acordam com eles a gritarem durante a noite. Também há muitos que são alcoólicos e outros que vivem na rua. Sentem hoje a culpa que na adolescência não conseguiam ter. Muitos viveram vidas terríveis. E isto deve-se em grande parte à dificuldade de lidar com a culpa."

Para si escrever aquelas cartas a pedir desculpa às vítimas foi um passo essencial para poder fechar um ciclo?
Acima de tudo libertação.

E o que é que lhes escrevia? Eram cartas curtas e diretas ao assunto ou sentia-se na necessidade de dar contexto?
Eram curtas e diretas. Eu sabia que muitas dessas vítimas tinham sido, dois ou três anos antes, testemunhas num julgamento de uma personalidade de topo do IRA. Por isso, era bastante plausível que eles pensassem que o IRA podia vingar-se deles e matá-los. Nada disso seria impossível. Por isso, a minha ideia era dizer-lhes: eu era jovem, fui estúpido, deixei-me levar por uma organização e quando as coisas pioraram não pensei nos riscos para civis inocentes. E disse-lhes também que naquela altura não queria saber de nada disto — e que isso era errado. Expliquei-lhes que podiam achar que eu era inimigo deles, já que testemunharam contra mim em tribunal, mas que não era assim que eu pensava. Não guardava rancores nem tinha más intenções. Disse-lhes que lhes pedia desculpa por uma questão de direitos civis e por uma questão de Direitos Humanos — tudo coisas que eu não compreendia quando era jovem.

Mandou estas cartas a quantas pessoas?
Escrevi a cerca de 30 pessoas. Foi a primeira e única vez que um prisioneiro do IRA mandou cartas a pedir desculpa às vítimas. O problema é que elas foram enviadas em privado, mas algumas dessas pessoas acabaram por vendê-las ao pior jornal de domingo do Reino Unido, o News Of The World. Isso foi um problema para mim dentro da prisão. Há duas palavras que ninguém quer ouvir na prisão: uma é “culpado” e a outra é “perdão”. Eles não gostam de ouvir “culpado” ou “perdão”. Então numa manhã de domingo, quando saí para o pequeno-almoço, percebi logo que havia uma atmosfera diferente na minha ala da prisão, onde havia vários tipos do IRA. Um deles disse-me: “Estás nas notícias, põe-te a pau.” E o capelão da prisão disse-me que o jornal tinha o seguinte título: “Raiva por bombista do IRA pedir perdão.” E depois puseram fotografias de quatro ou cinco das vítimas que receberam as minhas cartas e que não concordaram com elas — mas não puseram as fotografias de todas as pessoas que receberam as cartas e concordaram com elas! Aquele jornal deu-me uma sova. A ideia que ali estava era a de que não é possível um filho-da-mãe de um bombista sentir arrependimento e que eu só queria era sair mais cedo da prisão para voltar a fazer bombas. Ao mesmo tempo, os outros prisioneiros do IRA ficaram escandalizados por o IRA ter sido envergonhado em público. Um deles contou-me que à noite conspiravam para me matar, porque receavam que eu desse em bufo. Felizmente nada disso aconteceu.

Como é que conseguiu dar a volta a isto?
A maior parte dos prisioneiros do IRA deixaram de me falar. Passei a ser invisível aos olhos deles. Não falavam comigo, nem olhavam para mim, sequer. Dar a volta a isto foi provavelmente a parte mais difícil da minha vida. Foi mais duro que as bombas. Nos evangelhos há uma parte em que o profeta Isaías diz: “Enrijeci a minha cara como pedra.” E eu lia essa passagem todos os dias na prisão, porque era isso que fazia todos os dias. Ninguém do IRA falava comigo, não olhavam para mim, também os prisioneiros britânicos tinham vergonha de falar comigo. Entrei noutro tipo de prisão solitária, desta vez rodeado de 300 pessoas. Mas acabei por gostar disto. Muitos deles eram muito burros, recusavam ir às aulas que havia na prisão porque achavam que era uma conspiração britânica contra a ideologia deles. E eu segui com a minha vida: continuei a ler. Sobre religião, Direitos Humanos, direitos dos prisioneiros, política, História… Quis conhecer outros métodos para atingir objetivos políticos para lá da violência. E além de escrever às minhas vítimas, também escrevi uma carta para um jornal de Derry com o título “Acabem com a guerra”, onde desafiava o IRA a reconhecer que a luta armada estava errada e que eram mais as vítimas e as injustiças que criava do que aquelas que prevenia.

E como é que esse texto foi recebido, sobretudo pelo IRA?
De um dia para o outro, o texto foi para os jornais nacionais do dia seguinte. O IRA acusou o golpe e os prisioneiros do IRA ficaram furiosos. Nessa altura é que deixou mesmo de haver qualquer tipo de contacto comigo. Na prisão deixaram de me falar de vez e até de fora da prisão recebi cartas a dizer: “Já chega, já não te aturamos mais”. Tornei-me num escritor e pensador solitário.

Tudo isto ocorreu enquanto estava condenado a prisão perpétua. Mas depois acabou por sair, ao fim de 14 anos e meio. Como é que isto aconteceu?
Há que perceber que no Reino Unido uma pena perpétua não é necessariamente perpétua. Uma pena perpétua é uma pena por tempo indeterminado. No meu caso, a pena perpétua era a pena máxima, mas ela podia ser renovada a cada ano que passava. Portanto não era perpétua, porque a pena podia ser revista por um comité designado para esse fim. A maior parte dos homicidas em Londres cumpriam uma pena de 8, 10 ou 12 anos. Mas os soldados britânicos que foram condenados por homicídio na Irlanda do Norte só eram condenados a 2 anos. Só houve dois soldados condenados por matarem católicos na Irlanda do Norte. O primeiro soldado chama-se Ian Thain. Ele matou um roadie dos Bananarama, uma banda irlandesa que era muito conhecida no Reino Unido e na Irlanda também. Foi o primeiro soldado condenado [a prisão perpétua] na Irlanda do Norte. Mas acaboupor estar lá dois anos. Depois voltou para o exército britânico e recebeu salário pelo tempo que esteve preso. Por isso, quando pensamos nas pessoas irlandesas que foram libertadas, é preciso ver que os irlandeses estão perante um sistema de justiça britânico onde os soldados que mataram pessoas no Domingo Sangrento nunca foram sequer acusados. Temos 13 pessoas mortas à frente de toda a gente, passou na televisão, no Domingo Sangrento. Conhecemos o nome dos soldados e dos seus comandantes, mas nem um se sentou num tribunal. A maior parte dos jovens irlandeses fizeram 14, 15, 16, 17, 18, 19 ou 20 anos de prisão. E os  poucos soldados britânicos que cometeram homicídio lá estiveram dois anos.

No Domingo Sangrento, a 10 de janeiro de 1972, soldados britânicos mataram 13 civis desarmados numa manifestação em Derry. Em 2010, David Cameron pediu desculpa (M. Stroud/Express/Getty Images)

M. Stroud/Express/Getty Images

É curioso perceber que, apesar de ter renegado ao IRA, isso não implica ter passado a adotar as ideias daqueles que em tempos combateu. As diferenças de tratamento aos católicos da Irlanda do Norte ainda o exaltam.
Não é que me exaltem. Não me importo com os meus 14 anos de prisão, eles salvaram-me a vida e permitiram-me que crescer e mudar. Mas quando estas pessoas querem saber porque é que eu não passei mais tempo na prisão, é preciso dizer: alto lá, o contexto aqui é que, ao passo que uns homicidas cumprem 14 anos de prisão, há outros homicidas nem sequer são chamados a tribunal. Eu não estou chateado com os meus 14 anos, até estou grato por eles e pela nova vida que tive depois desse tempo. Mas esta discrepância é um elemento muito importante na Irlanda do Norte, ainda hoje em dia. Ainda há gente a pedir em tribunal que aquelas pessoas sejam julgadas por homicídios que aconteceram a 30 de janeiro de 1972! E ninguém foi a tribunal, apesar de toda a gente saber os nomes deles, apesar de ter havido investigações e apesar de um primeiro-ministro britânico [David Cameron, em 2010] ter pedido desculpa pelo Domingo Sangrento. Todas as pessoas que mataram têm de responder perante a justiça. Mas depois tivemos um acordo, o Acordo de Sexta-Feira Santa [assinado a 10 de abril de 1998], que estabeleceu que qualquer pessoa condenada depois desse acordo, fosse de que lado fosse, só teria de cumprir uma pena de dois anos. Pessoalmente, não concordo nada com isto. Continuo a achar que as vítimas deviam ser uma prioridade deste dito acordo de paz — mas não, foram colocados completamente de lado. Não ficaram com nada. E, por outro lado, o Sinn Féin e o IRA nunca demonstraram arrependimento pelos seus bombardeamentos, na verdade até os celebram. Toda esta arrogância choca a população protestante e os católicos moderados.

No passado dia 10 de abril comemoraram-se os 20 anos do Acordo de Sexta-Feira Santa. Acha então que este não chega para apaziguar a Irlanda do Norte?
Claro que não. O Martin McGuinness [ex-líder do Sinn Féin, vice-primeiro-ministro da Irlanda do Norte que saiu em protesto em janeiro de 2017, dois meses antes de morrer] saiu do governo há mais de um ano e desde essa altura não temos governo. Os dois partidos [do lado oposto ao Sinn Féin, está o Partido Democrático Unionista] não conseguem chegar a um acordo, as duas comunidades não conseguem entender-se. A confiança colapsou. E um dos grandes problemas são as “questões do legado”, que deviam ter servido para recompensar as vítimas da guerra. Mas os acordos que o IRA e o Sinn Féin fizeram com os britânicos são uma anedota, foram feitos para impedir quaisquer tréguas. Tanto que ainda andam a homenagear bombistas ao mesmo tempo que passaram a poder ser eleitos para o governo da Irlanda do Norte e ganhar milhões e milhões de libras com isso. E as vítimas não tiveram nada! Um caso que ilustra bem esta realidade é o dos bombardeamentos a pubs de Birmingham, em 1974. Foi um dos piores da IRA, morreram 21 pessoas e 200 ficaram feridas. Até hoje estão a lutar para que seja feito um inquérito que divulgue o nome dos bombistas. Mas o juiz responsável pelo caso recusa que os nomes sejam conhecidos. Então estas famílias estão há dois anos nos tribunais para garantir que o governo britânico a divulgar o nome dos bombistas. Só que para fazerem isto tiveram de fazer um crowdfunding. Temos uma situação em que vítimas de uma das piores atrocidades do terrorismo têm de pedir dinheiro na Internet para pagarem as custas judiciais enquanto os terroristas têm direito a advogados e despesas pagas. Foi por causa de casos como este que eu comecei o meu blogue, onde tenho desconstruído as mentiras do Sinn Féin e do IRA. Agora passam por ativistas dos Direitos Humanos, comparam-se com o Martin Luther King Jr. e até chamam americanos negros que não fazem ideia do que se passa na Irlanda do Norte e posam com eles… Estão a reescrever a História.

"O Sinn Féin e o IRA nunca demonstraram arrependimento pelos seus bombardeamentos, na verdade até os celebram. Toda esta arrogância choca a população protestante e os católicos moderados."

Além disso, também nota que há uma retórica de vitimização por parte do IRA?
É fascinante que me pergunte isso porque, há uns dias, escrevi um artigo no meu blogue sobre uma organização ligada ao Sinn Féin que é o Relatives For Justice [Familiares Pela Justiça] e que organizou uma grande manifestação [a 25 de fevereiro, em Belfast] na Irlanda do Norte para exigir ao governo britânico centenas de milhões de libras para pagar todo o tipo de inquéritos sobre atos cometidos pela polícia e pelo exército no passado. Esta manifestação, a que chamaram de Time For Truth [É Tempo de Verdade] não incluía qualquer tipo de vítimas do IRA. E houve membros de topo do IRA que já foram condenados por bombardeamentos e homicídios a participar nessa manifestação! Veja-se bem: homicidas e bombistas do IRA andaram pelas ruas, sem que ninguém os parasse, sob a bandeira da defesa dos Direitos Humanos. O Sinn Féin é tão poderoso na Irlanda que simplesmente podem reescrever a História.

Permita-me que volte a perguntar sobre o seu caso em particular. Hoje em dia vive em Espanha. Porquê? Para se afastar de tudo isto?
Não, não, de todo. Passei muitos anos a trabalhar para uma das maiores organizações de apoio aos sem-abrigo em Dublin. Mas há um ano, depois de trabalhar 11 anos com sem-abrigo, a fazer turnos de 12 horas à noite com jovens toxicodependentes à beira da morte, decidi tirar um ano para escrever e publicar mais coisas. Precisava de uma pausa. Enterrei muitos jovens, está a perceber? Foi muito duro. E é mais barato fazer isto tudo a partir de Espanha — a comida custa menos, não é preciso aquecimento, há sol todos os dias. Portanto é mais barato ficar aqui. Mas volto à Irlanda e a Inglaterra com regularidade.

Então na verdade está a fazer o oposto daquilo que eu sugeri com a minha pergunta. Depois de ter trabalhado tanto tempo com sem-abrigo durante esses anos todos, voltou a concentrar-se no tema que marcou a sua juventude — mas a partir de uma perspetiva diferente.
Sim, o trabalho com os sem-abrigo era um ambiente muito pesado. Entreguei-me demasiado àquilo e apercebi-me que ainda devia muito ao tema das tréguas na Irlanda do Norte.

Já fez muitas coisas em torno deste tema. Combateu, foi preso, arrependeu-se e pediu desculpa, escreveu livros, deu palestras… O que é que pode fechar este ciclo?
O meu último suspiro.

Vai até ao fim, portanto.
Sim. É que a consciência pesada nunca desaparece.

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