Sofia Fava. O que diz a ex-mulher de Sócrates no interrogatório

21 Novembro 2017891

Santos Silva deu emprego a Fava, foi seu fiador e prestou garantias de 760 mil euros para um empréstimo da ex-mulher de Sócrates. De quem é o dinheiro? Simples: é de Santos Silva, o "amigo rico".

Sofia Fava recorreu com regularidade a Carlos Santos Silva quando mais precisava. Foi o alegado testa-de-ferro de José Sócrates quem lhe deu um emprego depois da morte do seu então companheiro em 2009, pagando-lhe um ordenado de cinco mil euros por mês, foi também Santos Silva quem a ajudou na compra do Monte das Margaridas, no Alentejo, dando garantias para uma livrança, sendo fiador e ainda disponibilizando-se a manter 760 mil euros numa conta bancária como garantia do empréstimo do BES para a compra da propriedade. E foi ainda o engenheiro civil da Covilhã quem lhe arranjou a empresa de construção civil Gigabeira para as obras no imóvel da rua Abade Faria.

Como se tudo isto não chegasse para percebermos a proximidade entre Sofia Fava e Carlos Santos Silva, foi ainda este último quem pagou as despesas de um aparthotel em Paris, onde esteve a viver com o filho a pedido de José Sócrates, devido às obras na casa de luxo da Avenue President Wilson onde o ex-marido estava a viver.

Apesar de todos os indícios recolhidos pelo Ministério Público que indiciam que Santos Silva será um alegado testa-de-ferro de José Sócrates, Sofia Fava, contudo, não tem dúvidas de que o dinheiro de Carlos Santos Silva pertence efetivamente “ao amigo rico” da Covilhã e não ao ex-marido, José Sócrates, como defende o Ministério Público. Mais: a famosa casa de Paris também pertencerá, segundo ela, a Santos Silva.

[Veja aqui o vídeo da minissérie Sim, Sr. Procurador, com os excertos do interrogatório a Sofia Fava]

Já o Ministério Público considera que Sofia Fava, “em conjugação de esforços” com Carlos Santos Silva e articulada com José Sócrates, recebeu dinheiro das empresas Gigabeira e XLM, ambas do alegado testa-de-ferro de Sócrates. Isto terá sido feito através de “contratos de prestação de serviços, de compra e venda de imóveis e de financiamento bancário, faturas e outros documentos destinados a simular uma relação de trabalho entre a arguida Sofia Fava e a XLM ou a alienação de imóveis e a contratação de empréstimos apenas destinados a justificar o recebimento desses valores sem que a sua origem e propriedade fosse revelada”, lê-se na acusação.

Sofia Fava foi acusada de branqueamento de capitais, por ter deixado passar dinheiro com origem alegadamente ilícita pelas suas contas, e de falsificação de documento, por ter assinado um contrato de prestação de serviços falso, já que nunca terá efetivamente trabalhado para as empresas de Santos Silva.

E o que disse a ex-mulher de José Sócrates quando foi ouvida pela primeira vez em abril de 2016? Remeteu-se ao silêncio, tendo sido constituída arguida pelos crimes de fraude fiscal e branqueamento de capitais.

Mais tarde, a 15 de março de 2017, o seu advogado, Paulo Sá e Cunha, solicitou um interrogatório complementar. Nesta altura, Fava já tinha a sua situação fiscal regularizada, visto que tinha acordado com as Finanças um plano de pagamento dos impostos em falta, no valor de 191 mil euros. Seguindo a doutrina fixada pelo Ministério Público para os crimes de fraude fiscal desde a Operação Furacão — o pagamento dos impostos em atraso, leva a que o ilicito criminal desapareça –, o crime de fraude fiscal ‘caíu’ e Fava não foi acusada desse alegado crime.

Obras na Abade Faria e a sugestão de Carlos Santos Silva

O primeiro assunto a ser abordado no interrogatório foi a aquisição do imóvel na rua Abade Faria, em Lisboa, para onde José Sócrates foi depois de ser libertado do Estabelecimento Prisional de Évora.

O imóvel, na rua Abade Faria, foi comprado por Sofia Fava e pelo ex-companheiro em 2008

O prédio, que consiste em dois andares e um armazém, foi comprado por Sofia Fava e pelo antigo companheiro, Paulo Chaby Marques da Silva, em 2008, por 550 mil euros. Nessa altura, o casal pediu um empréstimo à Caixa Geral de Depósitos e tencionava pedir um “reforço” — “mas pequeno” — do empréstimo para as obras quando estivessem terminadas. De acordo com Sofia Fava, estavam a ter dificuldades em arranjar quem fizesse essas obras e perguntaram a Carlos Santos Silva se conhecia alguém. Foi assim que apareceu a empresa de construção civil Gigabeira.

Procuradora Ana Catalão: Tinha conhecimento de esta sociedade Gigabeira ter… ser participada de alguma forma pelo Eng.º Carlos Santos Silva?

Sofia Fava: Ah… Não. É assim… Não. Sa… sabia que eles provavelmente tinham projectos em conjunto, mas nada de… não tenho certezas de nada, não é? Não sei. Sei que era o Eng.º Fernando, eles fizeram-me o… fizeram-me o orçamento, nós aceitamos e a seguir eles fizeram as obras. (…)

O valor das obras foi de 300 mil euros. O casal mudou-se para a casa em julho de 2009, mas, cerca de um mês e meio depois, o antigo companheiro de Sofia Fava morreu com um ataque cardíaco. Tendo em conta esta situação inesperada, a ex-mulher do antigo primeiro-ministro decidiu vender um apartamento que tinha na Rua Francisco Stromp, por 400 mil euros, à Gigabeira. Sofia Fava referiu ainda ter ficado “com a sensação” de que o imóvel ficaria para uso da empresa de construção civil.

Procuradora Ana Catalão: (…) Quando chega a essa conclusão, pronto, que tem essa fa… essas facturas no valor de trezentos mil euros para pagar, os contactos que manteve foi com… foi com o gerente da Gigabeira ou também com o Senhor Eng.º Carlos Santos Silva?

Sofia Fava: Foi com… Foi com o Eng.º Fernando.

Procuradora Ana Catalão: Sempre?

Sofia Fava: Sempre. Sim. (…)

(…)

Procuradora Ana Catalão: Ok. E portanto, pronto, depois é criado… criado?!… expressão… É encontrada esta solução para pagar as faturas das obras, que ‘tão… que ‘tavam em dívida, não é? Portanto, pela venda do… do imóvel da Francisco Stromp?

Sofia Fava: Sim.

Procuradora Ana Catalão: E este imóvel, tem ideia em quanto é que estava avaliado? Ou se houve alguma avaliação na altura?

Sofia Fava: É assim, o Paulo como trabalhava na ERA…

Procuradora Ana Catalão: 2009, 2010?

Sofia Fava: O Paulo, como trabalhava na ERA, mesmo antes de… antes de nos mudarmos e de não sabermos se havíamos de vender o apartamento ou se o íamos alugar, entretanto, tínhamos decidido que íamos alugar e, como ele trabalhava nessa área, nós falamos sobre a hipótese que um valor justo, estamos a falar de 2008/2009, do apartamento era 450 mil euros, porque, ao contrário do que veio nas notícias, o apartamento era muito maior do que os outros apartamentos do prédio, tinha um terraço, tinha um barbecue, tinha ainda uma zona de lavandaria, ou seja, não tinha nada a ver com… com aquilo que veio nas notícias sobre… sobre os apartamentos dessa zona. Então, o valor que eu tinha em mente era 450 mil. Ele disse que era alto, que devíamos baixar e eu baixei… para os 400 [mil euros].

Desses montante, 300 mil foram para liquidar a dívida relativamente às obras. Segundo a ex-mulher de Sócrates, os restantes 100 mil euros foram-lhe transferidos, em várias parcelas.

O mesmo imóvel antes das obras (Bing Maps)

Sofia Fava garantiu ainda ao Ministério Público que não houve qualquer “intervenção” de José Sócrates ou de Carlos Santos Silva quer na compra e obras do imóvel na rua Abade Faria, quer na venda do apartamento na rua Francisco Stromp.

Sofia Fava: Uhm… Em Setembro de 2009 houve eleições. E tinha aquele… aquele período também foi muito conturbado para ele [José Sócrates], eu não queria estar a chateá-lo com os meus problemas.

Procuradora Ana Catalão: Mas pronto, em relação ao senhor eng.º José Sócrates não houve. E em relação ao senhor eng.º Carlos Santos Silva, houve alguma intervenção dele no… no arranjar desta solução p’a pagar as obras que ‘tavam em dívida no imóvel da Abade Faria?

Sofia Fava: Não.

Procuradora Ana Catalão: De ele ter su…

Sofia Fava: Sim. Sim. Sugerido, não.

Procuradora Ana Catalão: Dado uma sugestão?

Sofia Fava: Não, não, não, não.

Cinco mil euros mensais em prestação de serviços à XLM e o “crime” de Sofia

O ordenado que Sofia Fava recebia da empresa XLM também foi questionado pelo Ministério Público. Segundo a acusação, a ex-mulher de José Sócrates “não prestou serviços” à empresa controlada por Carlos Santos Silva “que justifiquem os pagamentos efetuados ao longo dos anos de 2010 a 2014”, sendo que o contrato e os aditamentos que foi recebendo nestes quatros anos serviram apenas para “justificar” os cinco mil euros mensais dados por Sócrates à ex-mulher.

Fava explicou que foi trabalhar para a XLM a convite de Santos Silva, depois de ter ficado viúva, prestando “serviços de colaboração na área de engenharia, nomeadamente, na área de consultoria ambiental”. O contrato com a empresa foi assinado a 30 de dezembro de 2009 e ficou estabelecido que receberia cinco mil euros brutos por mês.

Procuradora Ana Catalão: […] os arguidos Sofia Fava, José Sócrates, Carlos Santos Silva acordaram passar a disponibilizar… dispo… disponibilizar uma quantia mensal de cinco mil euros e, para justificar o recebimento dessa quantia, terá sido celebrado um contrato de prestação de serviços com a sociedade XLM, controlada pelo eng.° Carlos Santos Silva.

Sofia Fava: Pois, isso aí é que é…

Procuradora Ana Catalão: O que aconteceu? O que…?

Sofia Fava: (…) Por isso, às vezes sinto-me ofendida com os esquemas. (…) Psicologicamente estava muito… estava muito em baixo [com a morte do companheiro Paulo Marques da Silva]. Queria trabalhar, mas não queria estar… com muita gente à volta. O Carlos, entretanto, já me tinha sondado, [para] saber se eu não queria trabalhar com ele, porque estavam a entrar alguns projectos dentro da minha área de trabalho e eu disse-lhe que sim e a única condição que eu lhe pus foi, por favor, para não ir a reuniões e para poder trabalhar em casa. Pronto. E… e foi assim. Relativamente ao montante ele perguntou-me quanto é que eu queria receber, eu disse-lhe que eu queria receber aquilo que eu já tinha recebido antes noutros contratos de prestação de serviços, ele na altura até disse era um bocado demais e tal, mas… aceitou e pronto e foi assim. E a partir daí comecei a trabalhar com ele.

No interrogatório, a ex-mulher de Sócrates negou que o contrato de prestação de serviços com a sociedade XLM fosse para justificar dinheiro que recebia, dando exemplos de alguns projetos nos quais participou para Angola, Cabo Verde, Argélia, entre outros.

Procuradora Ana Catalão: Este contrato não… não foi feito, vamos lá ver… não foi feito, não foi construído através de contactos entre os próprios engenheiros Carlos Santos Silva e José Sócrates, no sentido de lhe atribuir uma…

Sofia Fava: Não.

Procuradora Ana Catalão: Um pagamento mensal?

Sofia Fava: Não. Nem eu permitia isso.

Procuradora Ana Catalão: Portanto, na execução deste contrato por si foram efectivamente prestados serviços?

Sofia Fava: Claro.

Procuradora Ana Catalão: E esses serviços traduziam-se em quê?

Sofia Fava: Quer dizer, eu basicamente fazia o que o Carlos me… me pedia e tanto era ao nível da… da realização de propostas, tudo o que tinha a ver com enquadramento, situação… situação actual… ehh… parte de estudo demográfico… ehh… enquadramento paisagístico e depois, se as propostas eram aceites, trabalhava nessas áreas nos projetos a seguir.

Procuradora Ana Catalão: Mas tem ideia, por exemplo, de ter feito trabalhos relacionados com projectos em concreto que teria a XLM ou…?

Sofia Fava: Sim. Houve um trabalho que… que o Carlos me pediu para participar e eu… Foi por causa desse trabalho também que o Carlos pediu a minha ajuda, que foi o Plano Diretor de Transportes de Benguela e de Kuanza Norte, porque era uma área em que eu tinha estado… a trabalhar um tempo antes, tinha tudo a ver com… com a minha área de trabalho, porque é ambiente, sistemas de informação geográfica, faço de tudo um pouco e gosto! E foi… foram… foram uns trabalhos muito interessantes, sim. E esses foram os primeiros. Depois houve muitos outros. Houve muitas propostas que foram feitas, mas que nunca chegaram depois os projectos a… a ir p’ra frente.

A XLM, empresa controlada por Carlos Santos Silva, assinou um contrato de prestação de serviços com Sofia Fava

A ex-mulher de José Sócrates adiantou ainda não ter enviado o seu trabalho, que por norma não assinava, por email: era sempre entregue pessoalmente ou em papel ou em CD a Carlos Santos Silva. Esse documentos entregues em CD, Sofia Fava disse tê-los perdido porque o seu computador se avariou.

Advogado Paulo de Sá e Cunha: Na XLM se calhar há coisas.

Sofia Fava: Sim. Sim.

Advogado Paulo de Sá e Cunha: Ainda com a sua… com o seu contributo.

Procuradora Ana Catalão: O problema é que não há.

Sofia Fava: Mas eu normalmente…

Advogado Paulo de Sá e Cunha: Não há nada?

Sofia Fava: Pois, mas é que eu normalmente, mesmo quando eu trabalhei nos CTT e trabalhei para as Águas de Portugal, sempre… com… a recibos verdes, ou seja, serviços de assessoria, não é trabalho a fingir que é do quadro pago a recibos verdes, sempre foi consultoria… eu raramente também assinava seja o que for e entreguei muita coisa em mão, às vezes eram coisas mais confidenciais, menos confidenciais…

Procuradora Ana Catalão: Certo.

Sofia Fava: … que não convinha enviar por mail. Se calhar é um defeito de… do ofício…

Procuradora Ana Catalão: Certo.

Sofia Fava: … mas enviar coisas assinadas nem nunca vi qual era o interesse, porque depois era p’a integrar outras…

Relativamente aos clientes da XLM, Sofia Fava afirmou, inicialmente, que não sabia ao certo quem eram as empresas que encomendavam os projetos à XLM, mas pouco depois, por insistência do advogado, assumiu que sabia que “havia relações” entre Carlos Santos Silva e o Grupo Lena.

Procuradora Ana Catalão: … o cliente da XLM… Não tinha esse conhecimento, do cliente da XLM ser o Grupo Lena?

Sofia Fava: Ahm… Normalmente as empresas de construção trabalham com vários projectistas e com várias empresas, por isso faz sentido que seja o Grupo Lena ou seja outra…

Procuradora Ana Catalão: Outra qualquer.

Sofia Fava: …outra empresa qualquer de… de construção. Normalmente há os projectistas… Na maior parte das empresas, das grandes empresas de construção têm ou uma pequena empresa que faz parte do grupo, que é a empresa projectista, ou contratam os serviços fora para preparar toda a parte que vem a seguir de construção.

Procuradora Ana Catalão: Certo. Portanto o…. (imperceptivel)

Sofia Fava: Por isso nem sei se… se… se seria a empresa ou… ou… Não me compete a mim perguntar…

(…)

Procuradora Ana Catalão: Portanto, não tinha… não tinha conhecimento de qual é que era a origem do… dos rendimentos do eng.º Carlos Santos Silva?

Sofia Fava: Das empresas dele.

Procuradora Ana Catalão: Sim, mas quem é que pagava às empresas dele?

Sofia Fava: Então, quem contratava os trabalhos.

Procuradora Ana Catalão: Sim. Sim, mas não sabia quem eram?

Sofia Fava: Não, porque… Não. Deve haver vários, não é?

Procuradora Ana Catalão: Então, podia ter conhecimento, sei lá. Trabalha p’ra aqui ou p’ra ali ou …

Advogado Paulo de Sá e Cunha: Mas o Grupo Lena, concretamente, se a senhora eng.ª sabia que havia relações do eng.º Santos Silva com o Grupo Lena e que grau de relacionamento era esse? Se tinha alguma noção disso ou não?

Sofia Fava: Não! Eu… eu… sabia que o Grupo Lena fazia alguns trabalhos com ele, mas não… não tenho nenhuma noção que essa era muito forte, uma relação muito forte ou se… se não, porque nesse mundo dos projetos as empresas trabalham todas umas com as outras.

Segundo Sofia Fava, apesar de ser amiga de Santos Silva desde 1992 — o mesmo ano em que conheceu o ex-marido –, não tinha confiança suficiente para fazer esse tipo de perguntas. “(…) Não vou ‘tar a perguntar: «Mas p’ra quem é que trabalhas? P’a quem é que…». Não, não… Não faz sentido”, referiu.

Já nos anos 90, acrescentou, Carlos Santos Silva era “o amigo rico do grupo de amigos da Covilhã” que, na altura da morte do ex-companheiro, se aproximou para lhe dar “apoio”.

Sofia Fava: O Carlos, para mim, sempre foi o amigo rico desde sempre. Sempre foi o amigo rico do… do grupo de amigos da Covilhã…

Ana Catalão: Desde que… Desde que… Desde sempre?

Sofia Fava: Desde sempre.

Segundo Sofia Fava, Santos Silva (à direita na foto) sempre foi “o amigo rico”.

Ainda assim, Sofia Fava assumiu não ter passado os “recibos” e a declaração dos montantes que recebeu da XLM, assegurando contudo que não foi com intenção. Este “crime” nada tem “a ver com o Processo Marquês” nem foi para “encobrir” o que quer que fosse. Tem apenas a ver com o facto de ser “desleixada”.

Procuradora Ana Catalão: Pronto, depois isto tem… ‘Tou a seguir aqui o documento. Tem a ver com… Quer os recibos emitidos e os pagamentos acho que não…

Sofia Fava: Isso aí…

Procuradora Ana Catalão: Não há dúvida, quer dizer, porque há os documentos, não é? E estão na contabilidade e ‘tão na… nas contas, a débito e a crédito….

Sofia Fava: Sim, é assim, esse… esse… isso é um crime que é meu, que não tem nada a ver com o Processo Marquês, porque eu deixo sempre tudo à… para a última da hora.

Procuradora Ana Catalão: ‘Tá a falar depois da…

Sofia Fava: Ao nível do….

Procuradora Ana Catalão: Da declaração?

Sofia Fava: Dos recibos.

Procuradora Ana Catalão: Sim.

Sofia Fava: … e da declaração.

Procuradora Ana Catalão: Da declaração dos montantes.

Sofia Fava: Ah… Esse… Esse é que é o meu crime. Eu sei que é um crime que eu tenho que… Tenho que… que pagar e… aliás, também é um bocado por causa disso que eu estou aqui…

Procuradora Ana Catalão: Sim.

Sofia Fava: … porque eu, eu tenho consciência… Eu já disse que não tem nada a ver com… com as alegações que estão aí, que é p’ra… P’a encobrir, não! Tem a ver só comigo, com o facto de eu ser uma desleixada e deixar tudo p’ra última da hora no que se refere à Autoridade Tributária.

Garantias do “amigo rico” para a compra do Monte das Margaridas

Na acusação, o Ministério Público argumenta que a compra do Monte das Margaridas, uma propriedade em Montemor-o-Novo, foi feita por Sofia Fava, por ordem de José Sócrates e através de fundos disponibilizados por Carlos Santos Silva. Para tal foi contraiu um “financiamento bancário garantido” por Santos Silva. As respetivas prestações eram pagas por Sofia Fava através de “montantes oriundos de sociedades do mesmo Carlos Santos Silva a coberto de pretensos contratos de prestação de serviços”.

Durante o interrogatório, contudo, a arguida adiantou que ela e o actual companheiro, Manuel Costa Reis, se “apaixonaram” pela propriedade e decidiram, em 2011, comprá-la por 760 mil euros. Quando tomaram essa decisão, o casal estaria a contar com um empréstimo e com heranças. Para o Ministério Público, Sofia Fava e Manuel Costa Reis “estavam conscientes de que não tinham disponibilidade financeira para a aquisição”.

Sofia Fava: Pronto. Aí fui eu que fui… Fui muito naïf, porque o que é que eu pensei… em dois mil e… em dois mil e oito, eu e o Paulo tínhamos conseguido o empréstimo para comprar o prédio, que naquela altura já não tinha o empréstimo, porque o seguro tinha pago. Achei que ia ser fácil com o meu IRS conseguir o empréstimo…

Procuradora Ana Catalão: Financiamento.

Sofia Fava: Sim. Com a hipoteca do imóvel. Foi essa a… a minha intenção. O Manel, entretanto, também iria resolvendo problemas de tornas, que não resolveu, ainda está tudo parado nos tribunais e íamos amortizando, mas pronto…

(…)

Procuradora Ana Catalão: Certo. Portanto, foi este projecto da… desta aquisição foi um projecto inicialmente seu e do senhor Manuel Costa Reis?

Sofia Fava: Sim. Sim. E ainda é, embora esteja em meu nome, ainda é um projecto dos dois.

Fava garantiu que a decisão da compra do monte foi exclusivamente do casal e que nada teve a ver com José Sócrates ou com Carlos Santos Silva. Aliás, de acordo com a arguida, o antigo primeiro-ministro só soube da aquisição depois do contrato-promessa de compra e venda.

Procuradora Ana Catalão: Não houve aqui intervenção do senhor eng.º Carlos Santos Si… na intenção de aquisição…

Sofia Fava: Nem intenção… Não! Não! Nada! Nada!

Procuradora Ana Catalão: Nem do senhor eng.º José Sócrates?

Sofia Fava: Não! Não! Não! Não!

A intervenção de Carlos Santos Silva só surge quando é pedido a Sofia Fava e Manuel Costa Reis o pagamento de aditamentos, no valor de 150 mil euros. Isto acontece já depois da assinatura do contrato-promessa de compra e venda, ainda em 2011, e depois de o casal ter pago um sinal de 100 mil euros — fundos que o Ministério Público diz, na acusação, terem sido disponibilizados por Santos Silva. Como não tinham esse dinheiro, Sofia Fava explicou que pediu um empréstimo ao BES e pediu ajuda a Carlos Santos Silva, que serviu de garantia de uma livrança. Tudo ideia de Fava, garantiu a própria no interrogatório.

Manuel Costa Reis, companheiro de Sofia Fava, à porta do Estabelecimento Prisional de Évora (2015)

O “amigo rico” da Covilhã voltou a entrar em ação quando o casal fez o empréstimo para a compra do Monte das Margaridas novamente no BES. Além de ter ficado como fiador, Santos Silva “disponibilizou-se” para oferecer uma garantia extra ao banco liderado por Ricardo Salgado: manteve 760 mil euros cativos numa conta bancária que podiam reverter para o BES em caso de incumprimento por parte de Fava. A escritura do imóvel acabou por ser feita a 3 de fevereiro de 2012.

Procuradora Ana Catalão: Ok. E o que é que lhe foi exigido pelo banco para lhe ser concedido este montante de 760 mil euros?

Sofia Fava: Foi exigido tudo e mais alguma coisa. Primeiro tinha que ter fiador. Tudo bem, eu disse… perguntei ao Carlos se ele podia ser o meu fiador, ele disse que sim. (…)

(…)

Sofia Fava: (…) Mesmo assim eu estava lá em negociações. O… o eng.° Garcia estava a apertar e foi o próprio Banco que disse “nós só fazemos este empréstimo com… com uma garantia de cem por cento” e o Carlos disponibilizou-se para fazer essa garantia. Eu estou-lhe grata por isso.

Procuradora Ana Catalão: Sabe em que é que consistiu essa garantia prestada pelo senhor Eng.º Carlos Santos Silva, não sabe?

Sofia Fava: Sei que há um depósito a prazo naquele valor.

Procuradora Ana Catalão: Pronto, fica… esse montante ficava ali cativo para garantir…

Sofia Fava: Sim. Sim. Mas eu sempre achei que…

Procuradora Ana Catalão: … O financiamento.

Sofia Fava: … que ele tinha esse dinheiro lá na conta… Ele disponibilizou-se. Ainda me disse que se eu não pagasse, ele teria que pagar, porque era o finan…

Procuradora Ana Catalão: Certo.

Sofia Fava: Porque era o fiador e ainda me disse: «Bem, se não pagares, eu fico com o Monte e pronto»…

Procuradora Ana Catalão: Portanto, para si não foi estranho o eng.º Carlos Santos Silva disponibilizar uma quantia… quer dizer, não é…

Sofia Fava: Eu pensava que ele tinha isso e muito mais no BES… Lá na… No Private, não é?

Procuradora Ana Catalão: Mas tinha… Tinha essa ideia porquê? Que ele tinha isto e muito mais?

Sofia Fava: Porque ele sempre foi o amigo rico!

A procuradora Ana Catalão ainda questionou Sofia Fava sobre a origem desse dinheiro, mas a arguida defendeu que era de Santos Silva e não do ex-marido.

Ana Catalão: Para si este dinheiro era do senhor eng.º Carlos Santos Silva?

Sofia Fava: Claro!

Ana Catalão: Não era dinheiro do senhor eng.º José Sócrates?

Sofia Fava: Não! Não! Não! Eu tinha uma responsabilidade ainda maior, claro.

Ana Catalão: Não era dinheiro do senhor eng.° José Sócrates?

Sofia Fava: Não! Nunca! Nunca! Nunca!

Sofia Fava disse ainda que “rapidamente” percebeu que tinha cometido um “erro” na compra do imóvel no Alentejo: a prestação do empréstimo acabou por ser mais elevada do estava à espera — cerca de 4 mil euros — e o casal não conseguia suportar as despesas. Houve até uma ocasião, disse a arguida, em que Carlos Santos Silva lhe pagou a prestação da casa. O mesmo aconteceu com José Sócrates, que por várias vezes lhe transferiu dinheiro para a conta “onde caía a prestação”.

Sofia Fava garantiu que José Sócrates não esteve envolvido na compra do Monte das Margaridas

Sofia Fava: (…) Foi um erro meu, não é? Mas… Não… Não… Não houve aqui nenhum motivo intencional, foi um erro meu de cálculo (…)

(…)

Sofia Fava: (…) Tem sido uma bola de neve e… mas é uma bola de neve que é minha, tem a ver com as minhas responsabilidades e não tem a ver nada com teorias de conspiração ou de esquemas ou seja… seja do que for… Foram decisões que eu tomei, algumas sozinha, outras com o Manel e que o pai dos meus filhos me ajuda quando pode. (…)

(…)

Procuradora Ana Catalão: Chegou a falar com o eng.° José Sócrates que lhe ia cair a prestação e que não tinha na altura fundos para…

Sofia Fava: Sim.

Procuradora Ana Catalão: … para pagar, não é?

Sofia Fava: Sim, mas… é assim, é uma ajuda, não é…

Procuradora Ana Catalão: Sim. Sim.

Sofia Fava: Paga-me a prestação… não é nenhuma obrigação dele. Se ele me tivesse dito: «Ó Sofia, desenrasca-te», eu tinha que me desenrascar, não é? Foi uma ajuda, por isso também para ele estar aqui por causa dum… dum… da aquisição de um imóvel que é de inteiramente responsabilidade minha, acho que é um bocado injusto, porque ele sempre me quis foi… ajudar, mais nada.

O Monte das Margaridas foi posto à venda, em 2014, por 1 milhão e 100 mil euros.

Estadia em Paris e a casa do “Monsieur Silva”

A ex-mulher de José Sócrates também chegou a viver na capital francesa. No interrogatório, Sofia Fava referiu que foi para Paris a pedido do ex-marido para “acompanhar” o filho mais novo, que na altura lá estava a estudar. Isso aconteceu quando o antigo primeiro-ministro começou a fazer o programa de comentário semanal, à sexta-feira, na RTP e pediu à ex-mulher “para ir lá revezá-lo de vez em quando aos fins-de-semana na casa onde ele estava”. O Ministério Público alega que esse apartamento na Avenue Président Wilson, no centro de Paris, que está registado em nome de Carlos Santos Silva e onde José Sócrates viveu enquanto lá esteve a tirar um mestrado, pertencia na realidade ao ex-primeiro-ministro. Ideia contrariada pela sua ex-mulher.

Procuradora Ana Catalão: Para si esta casa é do Car… do eng.° Carlos Santos Silva?

Sofia Fava: Sim.

Procuradora Ana Catalão: Não tem a menor dúvida acerca disso?

Sofia Fava: Não.

Procuradora Ana Catalão: Não é do… do eng.º José Sócrates?

Sofia Fava: Não! É o Monsieur Silva!

Na altura em que foram feitas obras nesse apartamento, Sofia Fava e o filho mudaram-se para o aparthotel Citadine Les Halles. As despesas dessa estadia foram pagas pela XLM e por Carlos Santos Silva.

Sofia Fava: (….) Mas eu… relativamente a Paris… eu estava lá praticamente a fazer babysitting, não é?

Procuradora Ana Catalão: Certo.

Sofia Fava: ‘Tava lá a acompanhar o meu filho. Não, não fui tida nem achada em… em qualquer decisão.

Procuradora Ana Catalão: Pronto, mas sabe quem é que pagou as despesas deste apartamento?

Sofia Fava: Sim, na altura, sim. Sim. O Carlos pagou, ele até me enviou um mail com o total das despesas, acho que ele devia ter enviado para o… para o Zé Sócrates e enviou para mim e eu tinha essa dívida p’a lhe pagar.

Procuradora Ana Catalão: Mas não sabe porque é que foi o Carlos Santos Silva a pagar? As despesas?

Sofia Fava: Ahm … Não!

Essa “dívida”, explicou Sofia Fava, foi paga pela própria depois de José Sócrates ter vendido o apartamento no edifício Heron Castilho, na rua Braamcamp, em Lisboa. Nessa altura, o antigo primeiro-ministro já estava detido e o dinheiro da venda foi transferido para a conta de Sofia Fava, que passou um cheque à mulher de Carlos Santos Silva, Inês do Rosário.

Devido ao atraso das obras no apartamento de Santos Silva — que o Ministério Público acredita terem sido controladas por Sofia Fava e José Sócrates — e falta de “condições” do aparthotel, a arguida e o filho mudam-se para um outro imóvel alugado.

Ana Catalão: Como é… esse outro apartamento como… como é que era feito esse pagamento, vá?

Sofia Fava: (…) Eu sei que quando se fala de Paris, as pessoas pensam numa vida glamourosa, nós não tivemos… não tínhamos uma vida glamourosa. Eu tinha uma vida perfeitamente normal de ir ao supermercado, fazer jantar em casa e… e… não… não… Nunca tive essa vida glamourosa que… que as pessoas imaginam. O aparthotel não tinha condições para uma permanência a longo prazo. Tinha uma kitchenette mínima, não dava p’a cozinhar como deve ser e eu em… em Dezembro eu disse… Disse ao Zé Sócrates “Olha, isto não tem condições, precisamos de arranjar um apartamento”. (…)

O aluguer deste apartamento era feito por débito direto numa conta da Caixa Geral de Depósitos de Paris de José Sócrates, da qual se tornou “segunda titular” por iniciativa do antigo líder do PS. Para o Ministério Público, Sofia Fava estava como titular da conta para “dissimular tal facto e a propriedade dos fundos movimentados pela mesma”.

Procuradora Ana Catalão: Mas a minha pergunta é porque é que não pensaram? Porque é que não se colocou a hipótese de vol… de irem para o apartamento da… da Avenida Président Wilson? P’ro apartamento do eng.º Carlos Santos Silva?

Sofia Fava: Porque não.

Procuradora Ana Catalão: Já lá tinham… já lá tinham estado, não é?

Sofia Fava: Sim.

Procuradora Ana Catalão: Pronto. Sei lá! Não sei!

Durante o interrogatório, Sofia Fava negou ter recebido dinheiro do advogado Gonçalo Trindade Ferreira, mas assumiu que recebeu cinco mil euros em dinheiro do motorista do ex-marido, João Perna.

Sofia Fava: Ahmmmm… Provavelmente… provavelmente, porque eu estava… tinha perguntado ao Zé Sócrates se me podia ajudar a pagar a prestação…

Procuradora Ana Catalão: Do… Do Monte?

Sofia Fava: Sim. E ele não me fez a transferência.

Procuradora Ana Catalão: Pronto, e, portanto, a maneira, vá lá…

Sofia Fava: Que era p’a ser mais rápido…

Procuradora Ana Catalão: … de chegar o dinheiro…

Sofia Fava: Sim.

O pagamento das viagens de Sofia Fava para Paris foi outro dos temas abordados durante o interrogatório. Para a ex-mulher de Sócrates, as deslocações de Paris para Lisboa e vice-versa eram pagas pelo ex-marido.

Sofia Fava: Porque é a tal coisa… Eu… Eu… Eu não… Era aquilo… Era aquilo que eu ‘tava a dizer inicialmente: eu não fui p’ra lá, por…

Procuradora Ana Catalão: Certo. Foi um… Foi-lhe pedido.

Sofia Fava: Por querer, não é?

Procuradora Ana Catalão: Não é ?

Sofia Fava: Foi-me pedido, por isso…

Procuradora Ana Catalão: Também achou que não teria que estar a suportar as despesas do…

Sofia Fava: Sim, já me bastava as minhas despesas…

Procuradora Ana Catalão: Sim, eu percebo isso…

Sofia Fava: … que eu não conseguia suportar! Agora ter que suportar viagens para Paris que não… Não faziam parte das minhas intenções.

Procuradora Ana Catalão: Pronto. Do que tem conhecimento essa despesa, a sua despesa de ir para Paris e vir de Paris eram suportadas pelo senhor eng.º José Sócrates?

Sofia Fava: Sim. Sim.

Já no final do interrogatório, a procuradora Ana Catalão perguntou a Sofia Fava se sabia se José Sócrates tinha recebido “rendimentos” de empresas, nomeadamente o Grupo Lena, por ter facilitado a adjudicação de obras em Portugal e no estrangeiro.

José Sócrates, cumprimenta Joaquim Paulo Conceição (à esquerda) e Joaquim Barroca do Grupo Lena (2010)

Sofia Fava: Havia muitas empresas portuguesas a obterem projectos e obras lá fora à conta dele, do apoio dele para o desenvolvimento do país! Não para, para lucro próprio, não é? Sempre pensando no desenvolvimento do país. Eu até fazia aqui um aparte, essas… essas obras que foram feitas, são obras de grande valor e que nós nos devíamos orgulhar, em vez de… Em vez de usar para… Sei lá, para o mal! São obras grandes, como outras empresas também foram lá pr’a fora e fizeram outras obras grandes e cá dentro ninguém sabe… ninguém sabe disso.

Procuradora Ana Catalão: Pronto, mas não tem conhecimento que tenham sido pagos ou que fossem ou que se tivesse acordado pagar alguns montantes ao senhor eng.º José Sócrates?

Sofia Fava: Não! Nem… Nem acho minimamente…

Procuradora Ana Catalão: Por alguma… Facilitação…

Sofia Fava: … provável. Não!

E voltou a reforçar a ideia de que o dinheiro de Carlos Santos Silva não era de José Sócrates.

Procuradora Ana Catalão: Pronto. Nem tem ideia… Já lhe perguntei várias vezes, vou repetir, que este património do senhor eng.º Carlos Santos Silva não fosse afinal do senhor eng.° Carlos Santos Silva, mas sim do senhor eng.º José Sócrates?

Sofia Fava: Não, é como eu lhe disse há pouco… para mim, desde há mais de vinte anos que eu conheço o Carlos e ele sempre foi o amigo da Covilhã, o empresário e o amigo rico. Do… Do grupo da Covilhã.

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