Os frente a frente com Marcelo Rebelo de Sousa eram os mais esperados de todos os debates das presidenciais. Em particular, os inquiridos da sondagem Observador/TVI/Pitagórica assumem as expectativas bastante elevadas que tinham em relação aos confrontos entre o Presidente recandidato e dois dos seus adversários: Ana Gomes e André Ventura. Se o primeiro lugar não tem dado o mais ligeiro sinal de escapar a Marcelo, a luta pelo segundo lugar tem sido motivo para uma aguerrida disputa entre a ex-eurodeputada do PS e o líder do Chega. E agora que as espadas foram desembainhadas e os golpes desferidos, como é que os eleitores avaliam os vários duelos? Quem venceu? Quem foi uma surpresa pela positiva? Que candidato se mostrou mais preparado? E quem foi a desilusão?

Foi o que esta sondagem tentou perceber. Mas há mais. Numa disputa presidencial com (alguns) estreantes e (bastantes) repetentes, as entrevistas e os debates em que os vários candidatos foram protagonistas serviram, no fundo, para quê? Foram importantes para definir a escolha de cada um dos eleitores? E algum deles mudou de opinião depois de o seu candidato preferencial entrar na arena?

Antes dessa análise, os números. Lembremo-nos de que os dados desta sondagem foram recolhidos entre os dias 29 de dezembro e 10 de janeiro. Atravessam, por isso, a semana quente (2 a 10 de janeiro) de debates, um a um, entre os sete candidatos à Presidência da República. Neste ponto particular, as respostas dividem-se entre quem assistiu a que debates, quem não assistiu mas pretende recuperar essas emissões televisivas e quem não faz questão nenhuma de ver as prestações dos pretendentes a Belém.

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Analisando o interesse dos eleitores em relação a esses confrontos a partir de uma perspetiva individual — isto é, candidato a candidato —, percebe-se que os duelos com Vitorino Silva e Tiago Mayan Gonçalves seriam aqueles que menos eleitores conseguiriam mobilizar: 60% dos inquiridos dizem que não assistiram nem pensavam assistir a esses debates televisivos (contra os 16%/15% que assistiram e os 22%/23% que admitiam ainda vir a assistir). No extremo oposto, apenas 25% das respostas demonstram um claro desinteresse nos debates que envolveram Marcelo Rebelo de Sousa (45% não perderam os frente-a-frente em que o Presidente participou e outros 29% ainda pensavam assistir — para um total de 85% de eleitores interessados).

Essa escala de interesse/desinteresse gerado por cada candidato arruma-se nesta ordem decrescente: Marcelo (como o candidato mais esperado para os debates), Ana Gomes (com 37% de desinteressados), André Ventura (39%), Marisa Matias (40%), João Ferreira (54%) e, em empate quase à décima, Vitorino Silva e Tiago Mayan Gonçalves.

Numa breve comparação entre os mais claros candidatos ao segundo lugar nestas presidenciais — André Ventura e Ana Gomes —, constatamos que, na divisão por género, homens e mulheres revelam maior interesse pelas intervenções da socialista (66% dos homens assistiram ou ainda iam assistir a debates desta candidata contra 63% de Ventura; e 60% das mulheres com Ana Gomes contra 57% do líder do Chega).

Numa análise por identificação ideológica, o PS estava mais interessado em Ana Gomes (66% contra 55% de André Ventura), o PSD também pende para o lado da socialista (ainda que por uma ligeira diferença de um ponto percentual — 67% contra 66%), tal como acontece com o eleitorado do CDS (72% para Ana Gomes — 63% para Ventura) e do Bloco de Esquerda (74% — 60%). A lógica inverte-se se estivermos a olhar para os eleitores comunistas (54% interessados em Ana Gomes e 73% interessados em André Ventura) e em inquiridos que votaram em partidos sem assento parlamentar, branco ou nulo (um dos nichos eleitorais mais fortes do líder do Chega e que, aqui, se traduz em 74% de manifestações de interesse, contra os 61% de Ana Gomes).

O honesto, o preparado, a desilusão

Mas voltemos ao início: depois das entrevistas e dos debates, como ficam os candidatos? Para permitir fazer essa análise, os eleitores foram confrontados com oito questões: qual dos candidatos…

  • … se está a sair melhor?
  • … se está a sair pior?
  • … está a surpreender pela positiva?
  • … está a desiludir?
  • … parece mais honesto?
  • … parece mais genuíno?
  • … parece mais bem preparado?
  • … parece pior preparado?

Nestas oito categorias, Marcelo é a escolha mais votada em cinco: ele foi o candidato que se saiu melhor, foi quem surpreendeu pela positiva, pareceu mais honesto, mais genuíno e mais bem preparado. Há aqui um ponto para o qual o politólogo Jorge Fernandes chamou a atenção no podcast “Se as eleições fossem hoje”, da rádio Observador: é que, sendo o Presidente recandidato a opção mais votada para vencer as presidenciais, seria pouco expectável que os mesmos inquiridos que lhe dão esse voto de confiança considerassem, ao mesmo tempo, que outro candidato estava mais bem preparado, que se tinha saído melhor nos debates ou que parecia mais honesto que o próprio Marcelo Rebelo de Sousa. Deste prisma, a resposta a estas questões serve, no fundo, como uma validação do voto preferencial nas eleições de 24 de janeiro.

Mais interessante poderá ser a análise pela perspetiva contrária, isto é, quando se observam as escolhas para as piores prestações, para os menos honestos e menos genuínos, ou quando se nomeiam os candidatos que demonstraram estar pouco preparados para a missão de debater, olhos nos olhos, com os adversários. Quando olhamos para os dados desse ponto de vista — e lembrando-nos de que André Ventura acaba de alcançar, pela primeira vez, o segundo lugar nas intenções de voto da sondagem da Pitagórica para o Observador/TVI — encontramos alguns resultados menos esperados.

Sondagem Observador/TVI/Pitagórica. André Ventura passa para segundo lugar

Por exemplo, os 21% de eleitores que colocam o líder do Chega na categoria de “pior prestação” nos debates (o segundo lugar pertence a Vitorino Silva, com 11% das escolhas, e depois surge Ana Gomes, com 7%); também nos deparamos com os 17% de eleitores que consideram que a prestação de Ventura foi a que mais “desiludiu” (não sabemos, em detalhe, porquê); e ainda encontramos aqueles 12% que vêem André Ventura como um dos menos bem preparados (o pior é mesmo Vitorino Silva, com 32% das escolhas).

Debates são importantes mas (quase) não mudam votos

No início, centrávamos a questão na relevância dos debates entre os candidatos às presidenciais e nas entrevistas que foram dando aos vários jornais, televisões e rádios. Ora, que importância é que os eleitores dão a esses momentos de esclarecimento? São mais relevantes uns do que outros? Ou, quaisquer que sejam os conteúdos, não merecem grande interesse?

Questionados sobre a importância dos debates, 41% dos inquiridos asseguram que, sim, esses confrontos são “muito” (27%) ou “absolutamente importantes” (14%). Dados que contrastam com os 21% que lhes atribuem “pouca” (11%) ou “nenhuma” (10%) relevância. Com 37% surge a hipótese “alguma importância”.

São os homens, entre os 18 e os 34 anos e das classes sociais mais altas (A/B e C1), aqueles que mais valorizam a realização de debates na corrida eleitoral. Em termos partidários, são os eleitores do PSD e do Bloco de Esquerda aqueles que reconhecem maior importância aos confrontos entre candidatos.

Mas se, de uma forma geral, os debates são considerados como um momento relevante do processo eleitoral, até que ponto eles podem servir para uma mudança de posição? Essa foi outra das questões colocadas aos eleitores: “Qual é a influência que um debate ou uma entrevista podem ter na sua decisão sobre em quem vai votar?” Resposta: pouca ou nenhuma, na maioria dos casos.

Apenas 13% dos inquiridos admite que o confronto de ideias possa influenciar “muito” (10%) ou até totalmente (3%) a sua decisão sobre o candidato a quem vai entregar o voto no dia das eleições. Há 41% dos eleitores que admitem “alguma influência” na sua decisão. E há 45% de respostas que vão no sentido de reconhecer “pouca” (18%) ou mesmo “nenhuma” (27%) influência dos debates na escolha do seu candidato.

Neste campeonato, são os eleitores do Bloco de Esquerda quem, ainda que de forma minoritária, reconhece a influência dos debates sobre o seu sentido de voto: 15%, contra 14% de eleitores do PSD e 13% de eleitores do PS. Os mais independentes em relação ao debate são os eleitores comunistas: 65% dizem que nenhuma ou pouca influência no seu voto decorre do facto de assistirem a um ou a vários debates entre os candidatos às presidenciais.

Ficha técnica

Durante 6 semanas (10 Dezembro 2020 a 21 de Janeiro 2020 ) vão ser publicadas pela TVI e pelo Observador uma sondagem em cada semana com uma amostra mínima de 626 entrevistas. Em cada semana a amostra corresponderá a 2 sub-amostras de 313 entrevistas. Uma das sub-amostras será recolhida na semana da publicação e a outra na semana anterior à da publicação. Cada sub-amostra será representativa do universo eleitoral português (não probabilístico) tendo por base os critérios de género, idade e região.

Semana 5 Publicação: O trabalho de campo decorreu entre os dias 29,30 de Dezembro de 2020 , 2,3 e 7 a 10 de Janeiro 2021. Foi recolhida uma amostra total de 629 entrevistas que para um grau de confiança de 95,5% corresponde a uma margem de erro máxima de ±4,0%. A seleção dos entrevistados foi realizada através de geração aleatória de números de “telemóvel” mantendo a proporção dos 3 principais operadores identificados pelo relatório da ANACOM, sempre que necessário são selecionados aleatoriamente números fixos para apoiar o cumprimento do plano amostral. As entrevistas são recolhidas através de entrevista telefónica (CATI – Computer Assisted Telephone Interviewing).

A distribuição geográfica foi: Norte 23%; Grande Porto 11%; Centro 26%; Lisboa 24%; Sul 11% e Ilhas 5%

O estudo tem como objetivo avaliar a opinião dos eleitores Portugueses, sobre temas relacionados com as eleições, nomeadamente os principais protagonistas, os momentos da campanha bem como a intenção de voto nos vários partidos.

A taxa de resposta foi de 53,13% . A direção técnica do estudo é da responsabilidade de Rita Marques da Silva.

A taxa de abstenção na sondagem é de 57,2% a que correspondem os entrevistados que aquando do momento inicial se recusaram a responder à entrevista por não pretenderem votar nesta eleição.

A ficha técnica completa bem como todos os resultados foram disponibilizados junto da Entidade Reguladora da Comunicação Social que os disponibilizara oportunamente para consulta online.